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Um capitão, o outono triste

quinta-feira, maio 6th, 2021

Que outono difícil estamos vivendo, este segundo outono da pandemia, do convívio com o vírus descoberto em 2019, ano que lhe deu o sobrenome. Sim, este vírus apoderou-se do ano e tem se apoderado da vida de muitos em todos os países, em todas as camadas e classes sociais, em todos os gêneros e sexos, em todas as etnias e gente de todas as cores. Como uma divindade ele está presente em todos os lugares. Alguns o temem, outros apenas sorriem e o chamam de “gripezinha”, algo que não afeta os atletas. Há mesmo quem acredite nessas “verdades”. Em nosso país já morreram mais de 411 mil pessoas, enquanto os dirigentes discutem se vai haver golpe de estado, pois o capitão, que se julga rei, mandou dizer que o voto tem que ser impresso enquanto as comunicações do governo são realizadas por meios mais modernos. Meios que escapam do controle do senhor rei, que tem muitos amigos nas milícias e tem promovido a venda de armas no país, uma venda sem o controle do exército que parece ser controlado por ele, não pela Constituição.

O outono, essa estação marcada pela queda das folhas que servirão de alimento para as árvores e os animais que a circundam, agora aparece como presságio de golpes, como as serras que destroem as florestas de norte a sul, sob os auspícios do ministério do meio ambiente, um ambiente de muito agrado aos madeireiros ilegais. Hoje mais um funcionário público (este ser abominado pelo capitão e seus generais amestrados) foi assediado em sua repartição por ter cumprindo o seu dever de funcionário público, defender o patrimônio público. Essa gente no poder só deseja defensores do seu patrimônio.

Mas, como cortam árvores, ceifam-se vidas. Hoje tivemos mais uma ação escandalosa da guerra civil, não oficial, com a morte de 24 pessoas na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. A favela é filha da desordem criada desde o tempo que os portugueses dominaram este pedaço do continente, mas que tem sido fortalecida pelos herdeiros dos colonizadores, o que já está bem explicado por historiadores de diversas correntes teóricas, e, contudo, nunca levado a sério pela sociedade que paga os estudos realizados. Esta situação geradora de miséria tem sido fortalecida recentemente, e é uma miséria física e moral que cresce à medida que são diminuídos os esforços de expansão educacional. Desde os anos setenta do século passado que já era sentido um declínio da qualidade educacional e, podemos inferir, a partir de muitas pesquisas, que nisso há uma relação com a universalização da educação escolar. Ampliou-se o número de escolas, promoveu-se a desqualificação do magistério, restringiu-se os espaços escolares, e as escolas construídas nas regiões mais pobres são desprovidas dos benefícios e das facilidades ofertadas pelo mundo moderno. Então amplia-se o fosso, aumenta-se a altura dos muros que separam as classes sociais, as populações. Muros que separam ricos de pobres não são um invenção do ex-presidente norte americano, basta olhar fotografias de Jacarezinho, encurralada entre dois muros.

Quem assistiu o relato televisivo dos acontecimentos em Jacarezinho, pode verificar, sem dificuldade, a divisão social exposta na diferença de fenótipo dos apresentadores, repórteres, autoridades oficiais, coordenadores de ONGs e os moradores de Jacarezinho. E aqui não há nenhuma personalização, mas uma constatação do resultado do modelo civilizacional que os brasileiros herdaram e cuidaram de aperfeiçoar, apresentando-se como um povo alegre, carnavalesco, cordial.

Talvez devamos voltar a ler, refletir criticamente a tese do brasileiro como um homem triste, que convive e sofre a violência diária, violentando-se ao negar o sofrimento. Como dizem alguns versos de canção popular “cantando eu mando a tristeza embora”. Mas ela não irá enquanto continuarmos a manter e criar favelas.

Prof. Biu Vicente