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A casa, as aulas, os tribunais

sexta-feira, abril 9th, 2021

Desde a morte de meu irmão Jorge Cláudio tenho posto meu tempo à leitura dos artigos de meus alunos, tarefa de avaliação das disciplinas colocadas sob minha responsabilidade neste semestre, às tarefas caseiras, essas improdutividades que não entram nas planilhas macroeconômicas. A leitura consome e enriquece. As escolhas que os estudantes fazem para suas pesquisas, transformadas em textos, apontam alguns interesses que, pelo uso da repetição temática da disciplina obrigatória, me surpreendem. O mundo é mais amplo que aquele experimentado por uma pessoa, expressão vulgar repetida, como eram as canções da juventude, a curiosidade dos jovens indicam que tenho passeado em poucas ruas. Surpreende a escolha de pesquisar sobre a Liga das Nações e mostrar que, diferente do que dizem os professores, a aluna indica os frutos positivos que ela gerou, promovendo o primeiro grande esforço para uma ação coletiva das nações, traçando rotas impensáveis em período anterior à Bela Época que se seguiu ao tempo da Rainha Vitória. E vem a reflexão de como vivem os venezuelanos que foram acolhidos para viver e recomeçar nova vida em Igarassu, onde começou Pernambuco. E tem aquele outro, preocupado em entender a vida do pescador artesanal, carregador de uma tradição, de muitas tradições, entre elas os preconceitos de etnia. As mulheres aparecem em muitas formas, como a busca de saber quais foram as que estiveram presentes da Revolução de 1817, a revolução de um Pernambuco extenso. E aquele interesse pela ação das mulheres comuns e que se afirmam diariamente sob uma infinidade de pressões próprias de uma sociedade patriarcal, não apenas no Brasil, pois que esta parte do globo é integrante da sociedade Ocidental de fundo europeu e dificuldades em conviver com as outras culturas que nos formam. Em seguida vem a preocupação teórica sobre como se pensa a mulher, e como as teóricas pensam sobre o que os homens pensaram a respeito das mulheres.  A leitura dos textos e a oitiva das apresentações na sala virtual trazem um universo de novas visões. Ouvi, não a repetição de temas típicos dos historiadores e estudantes de História, mas outra ciência social, e então me deparo com a preocupação sobre aparelhos que diminuem a surdez e aumentam a possibilidade de integração social; ou ainda o simples viver dos moradores de rua, que não são apenas objetos descartados pelo sistema após usados. E em todas as reflexões uma busca de entender como nós chegamos aqui, neste fluído mundo, no qual tudo parece desfazer-se, mas não a curiosidade juvenil que, mesmo na academia, se mantém.

Nesses dias após a morte de meu irmão, morreram muitos outros irmãos, muitos pais, tios, avós, amigos. Alguns que conheci na leitura, como Bossi. E vamos ficando órfãos e com a família diminuída. Este mês de abril, tudo indica que no Brasil haverá mais mortes que nascimentos. Talvez seja a primeira vez que este fenômeno ocorre e, ele terá consequências sérias no futuro. E enquanto as realidades continuam o processo de mudanças, alguns senhores julgam que a principal questão a ser resolvida é manter contato direto do crente com o líder religioso que o fanatiza. Lutero não esperava que seus atos em busca da liberdade de consciência e responsabilidade pessoal diante de Deus, fossem utilizados por alguns pastores, no século XXI, para afirmar que o crente tem que ir ao templo, conversar com o pastor e levar o dízimo para que ele possa comunicar-se com Deus. Mesmo antes de Lutero, em plena Idade Média, papas fecharam as igrejas, proibiram procissões, quando a peste os alcançava e enquanto durasse a endemia. E os papas medievais não tiveram acesso ao conhecimento científico que pastores, alçados ao comando das instituições brasileiras, possuem. E, pastores fantasiados de juristas e ministros de uma República laica, agem com a piedade dos fariseus a quem Jesus perguntou: é lícito fazer o bem, curar um homem, em um Sábado?  Os fariseus, dizem as escrituras, ficaram calados, não tinham resposta diante do óbvio. Mas, esses que colocam longas togas pretas, continuam a arengar seus impropérios, na ânsia de agradar ao Caifaz ou o Herodes do momento. A qualquer momento, fossem eles, momentaneamente sinceros como aqueles que testavam a Jesus, já estariam clamando: “que seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”.

Curar no sábado, orar onde estiver, mesmo porque Jesus, a quem dizem seguir, não ia ao templo com a frequência que os fariseus esperavam, ele preferia fazer suas orações fora das paredes do templo. E tinha o costume de se afastar para orar, se afastar, ficar só, em silêncio. Apenas em duas ocasiões convidou os amigos a orar com ele. O Pastor Mendonça, em sua fala demonstra que não refletiu sobre os livros sagrados, nem cuidou da  Constituição Brasileira que, aliás, não citou em sua arenga.

Após essa pequena digressão, voltarei para o cotidiano: preparar o café, fazer do cuscuz, talvez tapioca; cuidar dos animais, apoiar Isaac em sua aula, ler meus alunos. Manter a vida, sendo-a como ela me faz e eu a fiz.