Posts Tagged ‘Sinpro’

Professor James Beltrão, sempre presente.

segunda-feira, março 11th, 2019

Acordo, e uma das primeiras notícias do início da manhã é que o Professor James Beltrão faleceu. Pouco antes da leitura dessa notícia estava a pensar sobre as minhas ações do passado e o que eu iria faze neste dia, que aulas eu daria e como conversar sobre o tempo como participante de nossa criação cultural. Então a notícia da morte de James Beltrão, do professor James Beltrão, empurra-me para o início da década de setenta, tempo em que estávamos completando o nosso primeiro quinquênio de magistério e nos conhecemos, ele ensinando Geografia, eu aprendendo a ensinar história. É que James era muito bom em nos encantar em seus comentários sociais a partir da ciência que ensinava e que, com imensa razão ensinou-me a não dissocia-la da história. Não é possível a vida humana sem o espaço físico e, como se pode compreender o espaço físico sem a história dos Homens?
Nossa aproximação cresceu quando fizemos a primeira greve em pleno ano de 1979, no mês de abril. Juntamente com a dos motoristas dos coletivos do Recife, foi a primeira greve em plena ditadura. Depois vieram os canavieiros de Pernambuco e os metalúrgicos de Santo André. Mas o que sai nos livros – (didáticos para os primeiros anos de vida, ou universitários, escrito pelos e para os mais velhos, que influenciam os mais jovens) nem sempre corresponde à cronologia que, vez por outra cede espaço para o ideológico. A Greve do SIMPRO deveria encontrar um escritor, alguém que nos lembre de alguns momentos. Enquanto isso não acontece, atrevo-me a lembrar que fizemos das slas do Colégio Marista, na Conde da Boa Vista, o Comando da Greve. Foi então que assisti o professor James Beltrão mostrar a cidade, onde estavam os colégios, como chegar a eles, quais os professores que deveriam ir. Cuidando da logística da greve James Beltrão mostrou-se um grande organizador. Vi isso porque fui escalado para ouvir as notícias e escrever relatórios diários a serem apresentados na assemnléia do final do dia. Pena que esses papéis não foram guardados. Nem poderia ser, naqueles momentos em que começávamos a cavar a sepultura dos pelegos que não desejavam a greve e foram surpreendidos por uma nova geração de professores que estava chegando ao magistério e, também ao sindicalismo. Sério, alegre, mas sempre tendo em mente o grande objetivo, James Beltrão nos comandava e era por todos comandado. As conquistas daquele greve levaram anos para serem descaracterizadas, mas foram intensos e profundos os momentos de temor e de alegria que vivámos. Éramos Costa Natemática), Janildo Chaves Geografia), João Alberto (Geografia), Mário Medeiros (História), Fernandão (Educação Física), Edmilson (Física), Zélia (História), Biu Oliveira (História), Natanel (OSPB) Da Mata (História), Jorge Alves (português), Gabriel (Física), Vera Gomes (Matemática), e muitos outros, alguns já mortos, outros vivos, mantendo a lembrança e a memória dos amigos entusiasmados com a vida e sedentos de liberdade.
Outra lembrança que veio de rápido está relacionada com a morte de Chico Science. Razões de difícil entendimento levaram-me para fora de Pernambuco e, no Rio de Janeiro fui procurar emprego qe aqui estava senod negado em 1994. Fiquei dois anos ensinando em escola de Ensino Básico e em universidades: Universidade Veiga de Almeida, Universidade do Rio de Janeiro. Embora aprovado em concurso público na UNIRIO, vim fazer concurso na UFPE, onde estou, agora como Professor Associado. Seis meses após o meu retorno, descobri Chico Science por quem meus filhos choravam de tristeza por sua morte. Então fui buscar a razão do sentimento de orfandade, pesquisei, li e escrevi um texto que o amigo Mário Hélio publicou em seu espaço no Jornal do Commércio. Algum tempo depois, James Beltrão entrou em minha sala no CFCH, dizendo-me que leu o que escrevi sobre o artista símbolo de uma geração, uma nova geração, novas maneiras de expor os sonhos, ele gostava de Chico, tinha muito material guardado e falamos, quase duas horas, sobre o que nos acontecia, o que estava acontecendo. Rimos. Falamos. Deixamos nossos espíritos viverem, de novo, de maneira nova, os sonhos e realizações.
Gostei muito de conhecer o Professor James Beltrão. Gostei muito do tempo que construímos o tempo e sonhamos com uma cidade mais bonita. Gosto muito dessas lembranças.

Biu Oliveira, professor

quinta-feira, janeiro 12th, 2012

Recebo notícias de um antigo amigo, uma carta que fala de um guerreiro que está de partida. Cristina conta que o professor Biu Oliveira, colega de trabalho nos tempos áureos dos cursinhos, essa máquina que a modernidade inventou para substituir a educação dos colégios tradicionais resistentes às mudanças e a aceitação dos novos tempos. Lástima que os cursinhos adequaram-se por demais aos modelos autoritários introduzidos na segunda metade dos anos sessenta e auxiliaram a cristalizar o modo skineriano em detrimento dos caminhos rogerianos. Hoje, continuamos sem o domínio da técnica e perdemos a beleza criativa e afetiva de que tanto se repete, sem entender, o significado da educação como prática da liberdade. Tão dominados que fomos pelo jeito skineriano que, de Paulo Freire são dizem de um método, método que ele nem mesmo dava crédito. A liberdade não é alcançada por método.

Biu Oliveira foi meu colega no Colégio e Curso 2001 e dividíamos as aulas de História. Seu humor era tão grande quanto o seu corpo que balançava ao andar, marcado por uma labirintite que crescia, soubemos alguns anos depois, à medida que a sua coluna pressionava o cerebelo. Mas esse inconveniente jamais impediu que nos ríssimos de nossas bobagens quando nos dedicávamos a esvaziar garrafas de cervejas, que nos tornou barrigudos.

Negro orgulhoso de sua origem, de sua cor, Biu Oliveira sempre se ofendia quando alguém, pensando em não ofendê-lo, chamava-o de moreno. Mas jamais o vi com certas posturas politicamente corretas que alguns segmentos da luta pela igualdade vivem a prescrever. Professor de História, sempre foi atento ao seu tempo e desejava a liberdade. Isso nos levou à luta sindical, ao reavivamento do sindicato dos professores, e caminhamos juntos na primeira greve ao tempo da ditadura, em abril, junto com a dos motoristas de ônnibus. Claro que a história oficial prefere dizer que a primeira greve foi a de São Bernardo, a que revelou Luiz Inácio da Silva, conhecido como Lula. O tempo e a política levaram Biu Oliveira à presidência do Sindicato e, naquela diretoria eu fiquei como segundo secretário. Com a conquista do sindicato vieram outras vitórias com o partido dos trabalhadores crescendo. Em uma das muitas greves que preparamos e fizemos, em uma pichação na Academia Santa Gertrudes, Biu Oliveira foi atingido por um tiro de um vigilante. Sua saúde sofreu desde então. Depois, Biu Oliveira formou uma cooperativa de professores, montou um colégio. Seguiu certa tendência da época em que os primeiros cursinhos foram sendo substituídos por novos colégios e, alguns de nossos alunos e colegas tornavam-se proprietários. A política e o tempo nos afastou.

Biu Oliveira foi para o Agreste, onde o encontrei, após a minha aventura no Rio de Janeiro, quando fui procurar lá as salas de aulas que me negavam aqui na metade da década de noventa. A cooperativa frutificou em Caruaru, mas Biu Oliveira não usufruiu de tudo. Tivesse ele conhecido Seu Rosendo, um dos muitos operários do Cotonifício Bezerra de Mello, a famigerada Fábrica da Macaxeira, teria ouvido o que ouvi: “não é possível ser socialista se a sociedade é capitalista.” São muitos os que discursam sobre o socialismo e, quando sentem o sabor do capitalismo, esquecem de viver o que diziam, embora continuem dizendo o que já não mais vivem.

Biu Oliveira “está em coma irreversível” diz a carta de Cristina. Avisa-me que ele está morrendo, agora mais que todos nós que vivemos enquanto caminhamos para cumprir o destino dos que estão vivos, como dizia o João Grilo de Ariano Suassuna. A categoria, e não classe dos professores como dizem os analfabetos sociológicos de hoje, deve homenagem à Severino Oliveira – professor Biu Oliveira – pela sua luta, pela coragem e pela coragem demonstrada na tarefa de, coletivamente, procurar organizar os professores. Um guerreiro que lutou contra o sindicalismo amarelo está morrendo, diz Cristina. Tomara que o SIMPRO não esqueça que não deve amarelar diante dos governos, mesmo daqueles que parecem ser dos trabalhadores.

Viva Biu Oliveira!

Prof. Biu Vicente