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São João, do Carneirinho à decapitação

quinta-feira, junho 24th, 2021

A festa dedicada a São João está passando. A tradição conta que os fogos e traques diversos são uma maneira de acordar o santo para que ele não perca a festa. Assim é que foram criados o Acorda Povo, para que todos cheguem a tempo para a festa, inclusive o santo que era atento aos “sinais do tempo” e anunciava que um tempo novo estava chegando, um tempo que ele não sabia como seria, pois que o futuro não é para os profetas dizerem, os profetas explicam os acontecimentos, notam quando um modelo já foi vencido pelo tempo e, a humanidade carece de viver novos tempos. Conta a tradição que, quando estava na prisão, ele procura saber, do profeta que anunciou, se agora começava o tempo que ele anunciava, se ainda deviam esperar outro. A resposta veio como um enigma, de acordo com os relatos de Mateus e Lucas (7:22-23): Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. 23 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

Este foi mais um ano em que a festa da fecundidade da terra não foi celebrada, especialmente no Nordeste do Brasil, onde a louvação a São João do Carneirinho (papai gostava dessa especialmente) coincide com a Festa do Milho, a sua colheita, acompanhada com muitas iguarias que eram feitas coletivamente nas famílias, um ritual que começava desde a manhã, desde a descasca do milho, sua limpeza, ralamento, preparo e cozinhamento de pamonhas e canjicas. Estavam envolvidas crianças, que tomavam para si as ‘bonecas de milhos’ e as colocavam em pequenas camas feitas com as palhas rejeitadas para as pamonhas. Enquanto isso o milho era raspado para depois ser lavado e dele tirar o leite necessário para a pamonha e a canjica. Enquanto preparavam o fogo, outros cuidavam de armar a fogueira que chamaria todos à noite, para conversas, compromissos, advinhas. Tudo em louvor da vida, em busca de saber sobre o amor e o futuro. A festa de São João é um louvor à criação e continuidade da vida. Mas, agora já são dois anos sem a festa, sem os folguedos, as brincadeiras. Neste tempo temos que encontrar outras maneiras de celebrar a vida, pois que se anuncia um novo tempo, um tempo, talvez, mais isolado, com menor vida comunitária. Parece que estamos sendo empurrados para viver em nossas cavernas com temor de alguns aspectos da natureza que nos são adversos. Foi assim antes da invenção do modo de fazer fogo. Com o fogo por ele criado, o homem venceu o medo, embora não o tenha destruído. O medo parece ser um motivador para a superação de etapas no movimento de humanização.

Vivemos, agora, muitos medos: medo de que não possamos deter os que pretendem esvaziar e destruir nosso esforço para viver democraticamente; medo de descobrir que nosso desejo de “tortura nunca mais” não foi o suficiente, nem em nosso país nem nos outros, de para impedir que os apologetas dessa prática hedionda da humanidade reaparecesse tão vigorosamente; medo de que a ciência que inventamos não tenha sido uma aliada mais decisiva nesse processo de humanização, pois que, por ser neutra, permite todos os tipos humanos dela se aproximarem, a seduzam e a utilizem para manter e fortalecer o medo para tomar os nossos destinos.

A mais longa epidemia vivida pela humanidade, expõe nossa fraqueza, nossa imprudência. Somos uma sociedade imprudente, pois demoramos a pôr fim à escravidão como maneira de produção econômica e a tornamos como forma de relacionamento social, daí a vitória dos torturadores entre nós. São João do Carneirinho, se tornou o São João pregador no deserto e anunciador de novo tempo, sofreu a tortura da prisão (um dos autoenganos de nossa sociedade é pensar que a tortura é só a física e que torturador é apenas aquele que está na sessão de pancadaria) e finalmente a decapitação. Mas nunca se deixou dominar pelo medo, embora a pergunta que mandou fazer nos mostra que por um instante temeu ter-se equivocado. Deve ter compreendido        que para superar o medo é necessário continuar a fazer com que  os cegos vejam, os coxos andem, os leprosos sejam purificados, os surdos ouçam, os mortos ressuscitem e aos pobres anuncie-se o evangelho.

 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

São Pedro: o que assumiu a inovação na tradição

domingo, junho 26th, 2016

As festas em homenagem aos santos da tradição católica continuam ainda por mais uma semana. É que vem a menos famosa das semanas, a Semana de São Pedro. Primeiro dos escolhidos por Jesus para discípulo, este santo carrega o sofrimento dos que não foram corajosos na primeira hora, seja por duvidar, seja porque negou conhecer a quem seguia; mas eis que veio a ser o símbolo de uma unidade na Igreja que veio em seguida. Por ser o líder dos pescadores de peixes foi convidado para ser pescadores de homens, liderar um grupo que viria a ultrapassar e perpassar todas as culturas. Pedro, definitivamente é o casado no grupo dos escolhidos, mas bem que poderia não ter sido o único, porém dele se lhe aponta que tem sogra, embora não se saiba quem foi sua esposa ou se teve filhos. E foi um genro dedicado, preocupado com a saúde da sogra, para quem pede a gentileza de um milagre, a sua cura, no que é assistido. Além da mãe de Jesus, Maria, ele é único do grupo que ousa pedir um favor pessoal e para gente de sua parentela. E é atendido, o que denota uma relação muito próxima com Jesus. É esta intimidade e confiança mútua que o faz receber a indicação da liderança, superando até mesmo o ótimo relacionamento que havia entre Jesus e João, de quem se diz que Jesus o amava, e outro primo, Tiago.

A liderança de Pedro foi testada muitas vezes. Parece que a Igreja de Jerusalém esperou a morte de Tiago para reconhecer, de verdade, a primazia de Pedro, após ter ele sido tirado milagrosamente da prisão. Depois veio o debate acirrado com Paulo que, sem jamais ter visto Jesus, inclusive perseguira os seguidores de Jesus. Deve ter sido tenso o encontro desses dois homens de caracteres fortes, cônscio da missão que havia recebido: Pedro recebera diretamente e via-se como guardião da tradição da comunidade de Jerusalém, uma comunidade que se fechava em sua tradição e que estava em dificuldade para garantir a sua manutenção. Como estavam esperando a imediata realização da chegada do Reino, não cuidaram de produzir o que consumiam. Apenas consumiam. E, contudo,havia outras comunidades, outras tradições.

Paulo, veio de longe com auxílio das comunidades que organizara. Comunidades diferentes da de Jerusalém, formadas por não Judeus, que parecia não serem filhos de Abraão. E esse foi um grande dilema de Pedro e de sua comunidade: Seria possível aceitar esses estrangeiros não circuncisos, comedores de carne de porco? É bastante fácil liderar para a manutenção do status quo, bater o pé e defender a tradição recebida até o último instante, desde que não haja crise. Pedro enfrentava uma situação muito difícil, pois sua comunidade queria manter a sua integridade mantendo fortes laços como a tradição judaica, aquela na qual nascera e pretendia manter. Contudo, esse Paulo chega e aponta outras direções, outras possibilidades, ultrapassando as tradições meramente físicas, como a ingestão ou não de certos alimentos, a retirada de uma película e outros senões semelhantes. Pedro, diz livro escrito por um desses convertidos após ouvir a pregação de Paulo, depois de muito ouvir e sonhar decidiu abrir a Igreja que lhe foi confiada a todos que a desejassem seriamente comprometer-se com o seu ideário, sem discriminação de raça, cor, cultura. Por abrir caminhos, um dos simbolismos que marcam a ação de Pedro são as chaves. Elas não foram usadas por ele para fechar-se na tradição cultivada por sua comunidade local, mas as utilizou abrir-se para que o mundo pudesse escolher entrar, navegar com ele na barca para navegar o tempo. E Paulo, seu companheiro, confirmou a aceitação de sua liderança, mantendo a autonomia e a comunhão nos mesmo sentimentos e certezas.

Uma vez Fernando Sabino disse que escrevia para saber o que seus personagens iriam fazer, o que as palavras o levariam a dizer. Quando comecei a escrever o que está acima escrito não era o que eu esperava escrever. Escrever, viver é ser como esse Pedro, aberto às possibilidades sem perder o essencial.

Ps. Todos perceberam que esses comentários surgiram da leitura do Atos do Apóstolos, do Evangelho de São João e de outros livros, além de minhas angústias.