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Paredes que contam história

domingo, julho 11th, 2021

PAREDES QUE CONTAM HISTÓRIA

Severino Vicente da Silva – Biu Vicente –

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Esperei o dia 10 de julho com o objetivo de participar de um evento que deveria ter ocorrido em dezembro de 2020, impedido pela pandemia que marca esta terceira década do século. Assim, após as vacinações necessárias, o Instituto Histórico Arqueológico Geográfico de Goiana, cidade cujas origens estão fundadas na Capitania de Itamaracá e que compõe a então Província de Pernambuco apenas no final do século XVIII, realizou mais uma etapa do projeto Paredes que contam história. A ideia básica da referida ação é, de maneia simples e visual, socializar acontecimentos, pessoas, instituições que fizeram a cidade, ao tempo que atualizam a memória da população local para a importância do passado no seu presente e, para o visitante, turista ou simplesmente um passante, expor informações que levarão consigo para seus lugares de origem. Com esse projeto, o IHAGGO demonstra o empenho de superar a distância que sempre marcou os espaços entre as instituições do saber organizado à moda dominante e as pessoas comuns que, premidas pela luta diária da produção dos bens materiais necessários à sobrevivência, não percebem que suas ações são as portadoras da história, e dela são alienadas. Assim, nas paredes ficam expostas, não apenas os nomes das ruas, logradouros, edifícios, mas o que eles significam por terem sido parte da construção social.

Neste dia 10 de julho, o IHAGGO celebrou, no espaço de um antigo porto fluvial, um braço do Capibaribe Mirim, o Canal de Goiana, uma parede em homenagem às Pretinhas do Congo de Goiana. O local é mais conhecido como o Baldo do Rio, habitado por gente pobre, quase todos afrodescendentes, como está exposto em suas peles negras. No início do século XX ali eram os fundos do Fabrica de Tecidos e Linhas de Goyana, marco de uma tentativa de industrialização de Pernambuco, uma das primeiras a criar as Vilas Operárias, casas para os trabalhadores, o mesmo modelo para todos, porém diferenciando das residências dos funcionários administrativos e da direção da companhia. Era um esforço dos industriais, alguns de antigas famílias proprietárias de terra na região, bem como de comerciantes bem sucedidos em caminho de ascensão política. A fábrica apontava um novo caminho para Goiana e para o Estado, juntando-se às usinas de produção de açúcar de cana que substituíram os engenhos. Com operariado crescente, Goiana chegou a ser local de encontro operário nacional, sendo que um dos seus párocos, Padre Távora, ser posteriormente cognominado de Bispo dos Operários.

Um dos orgulhos goianenses é que sua Câmara foi a primeira, em Pernambuco, a abolir a escravidão, mas o Baldo do rio é uma mostra de que, como no restante do Estado e do país, pouco se cuidou da integração dos trabalhadores libertados pela Câmara em fevereiro, e pela Princesa Isabel em maio de 1888. Aliás, um dos cantos da Pretinha é de louvação à filha do Imperador Pedro II. Como frisou um historiador, era o curso de uma “modernização conservadora”, que mantinha o padrão de atender o interesse de uma pequena parcela da população, e a riqueza gerada não foi razoavelmente distribuída pela população local, de modo a não provocar crescimento real do mercado interno; além disso, não foram incorporadas as modificações técnicas geradas no campo externo, levando à consolidação das estruturas tradicionais, por isso, apenas uma parte superficial da sociedade pode acumular a riqueza promovida pela indústria, aumentar a acumulação das riquezas e, quando assim não o faziam, apenas assistiam a troca de mando nas riquezas, com a venda dos engenhos de fogo morto, as usinas e o maquinário incapaz de concorrer com as modernas e constantes mudanças na produção. Coube aos mais pobres, aos homens e mulheres livres da escravidão em 1888, estabelecer moradia nos espaços do maquinário que ficava mais próximo do Canal de Goiana, aquele lugar esquecido, um Baldo.

Mas muito antes dos acontecimentos dos anos cinquenta, quando o parque industrial do Sudeste crescia e engolfava as tentativas industriais das demais regiões, nos anos trinta, preocupado com as crianças que viviam sem escolas, sem lazer e com futuro ameaçado, um homem que trabalhava na fábrica deu início à tarefa de oferecer algum sentido à vida das meninas afrodescendentes que viviam perambulando à beira do braço do rio Capibaribe Mirim, e criou a Pretinhas do Congo. Alguns anos depois, talvez premido por pressões políticas, entregou a tarefa a seu Pirrixiu que a transferiu para a filha e a ‘Heleno’. Atualmente a Pretinhas do Congo estão sob a responsabilidade de seu Val e de Rosa. Cuidar das crianças antes que a sociedade dominante pensasse no Estatuto da Criança e dos Adolescentes, é o que nos ensina o criador da Pretinhas do Congo. Se é comum encontrar a consciência de que a República foi proclamada sem considerar necessária a participação do povo, costumo dizer que o povo fez sua república, continua fazendo a república que a todos deseja incluir. Assim é que a Pretinhas do Congo, agora reconhecida como Patrimônio Cultural de Pernambuco por iniciativa de Willemberg Francelino, recebeu alegremente o IHAGGO para a inauguração da placa que conta um resumo da história da Pretinhas do Congo. É um momento de contato, para além das apresentações carnavalescas, entre duas instituições culturais da cidade, o reconhecimento mútuo de que carecemos muito fazer para que nossas repúblicas se tornem uma república de homens e mulheres livres e amantes da liberdade, a todos acolhendo.      

Como a Grécia, temos que confrontar o destino

quinta-feira, julho 2nd, 2015

E então metade do ano de 2015 já foi engolida pelo tempo. Nesse curto espaço o mundo aconteceu de diversos modos. Muitas lições foram oferecidas, como assistir alguns jovens ocidentais aceitarem a sedução de tornar-se soldado do Estado Islâmico, que tem como um dos objetivos a superação ou destruição do Ocidente, local onde vivem os ‘infiéis seguidores da maldade’. A propaganda bem sucedida do EI, em mostrar-se em toda sua fúria e majestade, decapitando, afogando ou queimando infiéis, foi antecedida por uma desconstrução dos valores que criaram o Ocidente desde o século XII, momento de inflexão da grande cultura civilizacional islâmica. O desconforto de Omar Kahyyán já apontava que a dominação dos fundamentalistas religiosos traria o declínio de uma das mais expressivas experiências humana. Jovens cansados de um Ocidente que se cansou de se mesmo buscam afirmar-se em outros lugares e, lamentavelmente afirmam-se destruindo a vida. Atentados ocorridos em cidade francesa e em duas cidades do mundo árabe/islâmico testemunharam a o culto da morte como celebração da vida.

Este meio ano foi tempo de angústia para muitos que viram seus projetos ruírem, suas esperanças mitigarem diante do inexorável das disputas por espaços e coisas. A Grécia que desde muito tempo vem vivendo da construção de navios e dos turistas em busca de divertimento enquanto fingem estar consolidando cultura, vê-se, de novo, diante da Esfinge, obrigando-se a decifrar seu destino, o que ocorre cotidianamente com todas as pessoas, mas que é trágico quando a República está em jogo.

A tragédia, como sabemos, é a impossibilidade de vencer o destino contra o qual se luta bravamente, embora se saiba da inevitabilidade da vitória. Mas se na antiguidade o destino era definido pelos deuses, sabemos hoje que cada um constrói seu próprio caminho, consciente ou não, criando as inevitabilidades. Somos, hoje sabemos, construtores de nossos destinos. Assim, já não nos cabe lamentar o que nos ocorre por encontrarmos a esfinge depois de, por orgulho estúpido, por desrespeito aos mais jovens e aos mais velhos, produzimos a morte de quem nos gerou, como ocorreu a Édipo, assassino de seu pai, a quem não conhecia. O segredo de seu destino é decifrado enquanto vive, e vive condenado por sua própria arrogância.

Os contemporâneos de Édipo foram obrigados, pelas leis criadas pelo rei Édipo, a não dirigir nenhum gesto ou palavra àquele que provocou tanta miséria ao povo por conta do crime de ter destruído, ainda que sem consciência disso, os valores fundamentais de sua cidade.

Simular não saber o que sabia, ou intuía, foi o crime que levou à cegueira e a sua cidade ao declínio. E, como ouvimos, em nossa cidade, os poderosos afirmarem não saber o que sabem. É seu destino, será o da cidade?