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Matuto e matutos

sexta-feira, julho 2nd, 2021

MATUTO E MATUTOS

Severino Vicente da Silva

Nos anos finais do século passado frequentei algumas regiões do “interior” de Pernambuco, o Sertão, aquela parte geográfica do país mais distante do litoral, pude compreender certos mitos, verdades aparentes que me foram ensinadas nas salas de aulas e nas ruas, e que foram absorvidas, com algum preconceito, a respeito do Sertão e o seu modo de viver. Frequentando a região e conhecendo algumas franjas do viver das pessoas, aprendi coisas novas, de modo que o Sertão ficou sendo também a minha terra, fui me tornando sertanejo. Como cresci quase cheirando o mar, tudo que não era do litoral era-me estranho. Convidado para ir dividir com jovens sequiosos de saber o que havia aprendido ao longo de minha vida, nos bancos escolares e em outros lugares, a ida ao Sertão deu-me oportunidade de lenta e quase inconscientemente, compreender que havia aprendido pouco. O que não quer dizer que o Sertão sabe tudo, mas a experiência de ter vivido lá alguns finais de semana, foi valiosa para entender novos caminhos. Eu já estivera em outros lugares além das ruas do Recife, a cidade que me desafiou a viver do magistério. Cresci vendo enchentes do rio que desce desde o Agreste para criar uma ilha em cooperação com o Oceano Atlântico, e ainda outra com um rio matuto; cresci no Recife sentindo o vento solto de agosto, fazendo levantar as saias da moças nas esquinas dos prédios levantados à beira do rio, zombando das palafitas formadoras das favelas fluviais; acompanhei as chuvas que serrilham o barro dos morros ocupados corajosamente por uma gente que, como minha família, chegou da Mata; tudo isso era o meu mundo, e me fez.

E quando voei para longe, fui por cima, tão alto e tão rápido que pouco aprendi no trajeto, mas a surpresa da vida com objetos e pessoas tão distintas que lá encontrei encantou-me. Encantados não aprendem, embora o encantamento inicial pode vir a ser um dos caminhos do aprendizado. Viver com o encantador nos põe em contato com seus segredos e, podemos alcançar suas fragilidades.

Hoje observo que houve um tempo que eu não, queria ser matuto, desgostava-me que assim me vissem. Viver no Recife é aprender a não ser matuto. Matuto, diz o dicionário, “é aquele que demonstra timidez, retraimento, desconfiança”; do matuto também se diz que é “indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social; caipira, roceiro, jeca”[i].  Ser matuto é ser descriminado negativamente.

Engraçado é que houve um momento em que uma Junta de Matutos, afastou do governo Gervásio Pires Ferreira, revolucionário de 1817, escolhido na Convenção de Beberibe (1821) para governar Pernambuco, primeira região livre do domínio dos portugueses.[ii] Quem e o que eram esses “matutos”, será que a sua ação aprofundou, ou criou, esse sentimento nos recifenses?

Aqueles Matutos eram senhores de engenho, membros das tradicionais famílias Albuquerque e Cavalcanti, a quem se atribui os maiores feitos da história pernambucana. Após terem participado de conspirações e revoltas contra o poder colonial em 1801, e mesmo em 1817, eles foram seduzidos pelos projetos de José Bonifácio de Andrade e Silva, cuja carreira política se fez sob a proteção dos Bragança. Ao Regente uniram-se após o Sete de setembro de 1822, o regente de Dom João, aqui deixado para evitar que aventureiros se apossassem das terras conquistadas pelos lusitanos. Então, os Matutos, os donos de terra e escravos, abandonaram os ideais de Frei Miguelinho, padre João Ribeiro, Padre Tenório. Mais tarde derrotaram a Confederação do Equador, que levou Frei Caneca ao arcabuzamento anônimo, pois os recifenses, livres ou escravos a quem prometiam liberdade, recusaram colocar as cordas no pescoço do patriota recifense. Não quiseram ficar como os “Matutos”.  Mas não se manda se não se tem a quem mandar.

Por crescer no Recife, sendo matuto de Carpina, retirante para o litoral, aprendi a não gostar de matutos, tornei-me recifense. Os do Recife, sem saberem, refazem a historiografia silenciosamente, enquanto o historiador oficial conta a vitória dos Matutos e, procura entender porque sua história é tão rica, mas fica perdida na bagaceira.

Neste período de celebração de dois séculos da independência de Pernambuco, há que se lembrar que houve uma disputa interna na elite, sendo uma parte mais enamorada dos ideais republicanos e de autonomia em relação ao Rio de Janeiro e à Lisboa, e outra parte mais próxima do projeto dos Bragança, sob a liderança de José Bonifácio, apoiada nos setores mais conservadores e monárquicos, pois a monarquia lhes servia mais. Entre 1821 e 1825 houve muita troca de lugares na política, para finalmente os Matutos, senhores dos engenhos da Zona da Mata, continuarem a cavalgar a Província. O professor Marcus Carvalho nos lembra que se pode dizer

 com razoável segurança que 1824 não foi uma aventura republicana pura e simples, mas uma radicalização desesperada, o desdobramento trágico das tentativas de tomar o poder feitas pelas facções das elites que não queriam se aliar ao projeto centralista e autoritário vindo do Rio e que, por alguns meses, chegaram a preferir a manutenção do status de reino unido, desde que dentro do modelo federalista e constitucional adotado, por algum tempo, pelas cortes a partir de 1820.[iii]

Hoje sei que não devo colocar, juntar, no mesmo espaço social, os que formaram a Junta dos Matutos e os matutos que vieram a formar as residências que ocupam os morros da Macaxeira, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Córrego do Euclides, Beberibe e os becos do Arruda. Afinal são Dois Séculos no qual assistimos os dois matutos: um que é Cavalcanti e sua parentela, o outro que é o cavalgado. Por outro lado, compreendo que são duzentos anos de reclamações dos cavalgadores em relação às esporas e freios que lhes são postos desde que, para garantir a limpeza de suas botas, aceitaram por medo de uma haiatização, o café sempre servido sem açúcar.


[i] https://www.google.com.br/search?q=matuto+significado&sxsrf=ALeKk02kQR31dIE56D4vCyn89MmqF9mJXw%3A1625139690208&source=hp&ei=6qndYOCwCtS85OUPw4KiwAo&iflsig=AINFCbYAAAAAYN23-poUJFBYITiB1RkOIcN-BbCJdZLu&oq=matuto&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAEYATIFCAAQsQMyAggAMgIIADICCC4yAgguMggILhDHARCvATIICC4QxwEQrwEyAggAMgIIADICCC46BAgjECc6CAguELEDEIMBOgUILhCxA1CgR1i_S2C_dmgAcAB4AIABkwSIAdYMkgEJMi0xLjEuMC4ymAEAoAEBqgEHZ3dzLXdpeg&sclient=gws-wiz. Visto em 1º/07/21.

[ii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014

[iii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014

Fertilidade, chuvas e modernidade rarefeita

terça-feira, maio 10th, 2016

O mês de maio tem recebido muitos significados ao longo do tempo, representando muitos sonhos primaveris. Assim tem sido lembrado pelos que vivem no hemisfério norte da terra, costume que foi seguido pelos grupos humanos que foram afetados pela expansão da civilização europeia. Assim é que, para lembrar a fertilidade da terra festivais eram realizados e deram origem às grandes religiões, coisa séria que, apesar do ar festivo, o Maio era o momento de celebrar núpcias e dar início ao processo de renovação da vida.

No Recife e no litoral pernambucano, o mês de maio parece ser um momento especial para as grandes chuvas, ao menos a cada trinta anos. No passado, quando os pântanos ocupavam as várzeas do Rio Capibaribe, era coisa sem maior importância, pois as águas do rio também traziam o enriquecimento do solo para a agricultura. Mas ao final do século XX, após o processo que transformou áreas de agricultura em áreas residenciais, as chuvas de maio trazem graves problemas. Em 1975, a enchente do Capibaribe e as chuvas tornaram explícito que o processo de urbanização não considerou o espaço para o rio, da mesma forma que lembrou a necessidade de cuidar melhor da parte da população que foi levada a morar nos morros. Daquela chuva de três dias surgiram novos bairros na cidade que foi se aproximando de Jaboatão. Situação semelhante, dez anos antes, fez nascer a Operação Esperança, liderada por Dom Hélder Câmara para animar a solidariedade dos mais pobres e com os mais pobres. Era uma tradução prática do sonho do Irmão Roger, de Taizé. Além disso, para cuidar dos homens, os governantes da época tomaram a decisão de domar o rio e cuidaram de construir uma barragem. Mas o cuidado com os homens foi menor, e neste ano de 2015, sem a enchente, as chuvas mostraram que a cidade não se organizou culturalmente para a nova sociedade, e os hábitos rurais da população que foi escorraçada para a expansão da agricultura, permanecem na cidade. Educados para viver de forma quase natural, a população – pobre ou rica – do Recife e suas vizinhas, não se habituou, ou não aprendeu, as novas exigências da guarda dos resíduos que produz, pois, nesta nova sociedade, eles não são absorvidos naturalmente.

E maio vai sendo marcado pelas invasões das águas sobre as ruas e as casas, pois foi próximo aos rios e a antigos riachos que novos conjuntos habitacionais foram construídos sem considerar a natureza. Esse fenômeno pode ser encontrado em quase todas as capitais brasileiras que, desejando muito serem reconhecidas como modernas, fazem rápido curso de Atualização Histórica, como ensinou Darcy Ribeiro, e vivem uma modernidade superficial, uma modernidade de consumo, mas sem entender o que e porque consome tanto. Maio, que era o mês da fertilidade, agora vai se tornando o mês do temor das chuvas. Mas essa situação vale apenas para os que cultivam a memória, como os festivais antigamente faziam.

No mais, é como canta o poeta quase moderno: “deixa a vida me levar, vida leva …”
E esse desleixo vale também para outra parte da vida política, como comprova o comportamento de um deputado, crescido nas férteis áreas da corrupção da Ilha do Maranhão. Mas isso é outra história.

Senhora Conceição, cultura da Mata Norte é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

domingo, dezembro 7th, 2014

 

Dezembro avança com poucas chuvas e muitas festas, como as que os católicos realizam em honra da mãe de Jesus. A tradição que admite a concepção sem pecado é muito antiga, bem mais antiga do que essa Igreja em seu louvor, construída, em 1887, quase no centro histórico de Goiana. Interessante é que, construída em plena chegada da indústria em Goiana, o templo foi construído seguindo o modelo barroco.

Embora presente na tradição desde o século  II, apenas no século XIX, 1854, é que veio a ser definido como dogma, o nascimento imaculado da Mãe de Jesus. Era o tempo de contrapor o mistério da fé ao secularismo prático dos tempos incertos da Revolução Industrial, da Unificação italiana.  A fé está sempre em diálogo com o mundo, pois diálogo não significa redução do outro ao mesmo, mas, o reconhecimento das diferenças sem desejar destrói-las.  Devoção romanizadora, a Conceição substituiu, substitui ou fez diminuir a devoção à Senhora do Rosário – a dos Homens Pretos e a dos Homens Brancos. Muitos foram os “filhos do Ventre Livre” amadrinhados por Nossa Senhora da Conceição. A mãe de meu pai era Florinda da Conceição e ele era seu afilhado de batismo.

Muitas são as Marias da Conceição, ou Conceptas, de acordo com a classe social. Em samba canção famoso, de autoria de Jair Amorim e Dunga, Cauby Peixoto lamenta  que Conceição desceu do morro pensando em subir na vida e, depois de muitas andanças no asfalto da cidade, sonha em voltar a ser Conceição.

No Recife, a Nossa Senhora da Conceição do Morro, também conhecida como Nossa Senhora do Morro da Conceição, passou a ser reconhecida como Padroeira da Cidade, a despeito  de Santo Antonio, Sargento protetor da cidade desde os tempo da colonização portuguesa e, também a despeito de Nossa Senhora do Carmo, também protetora da cidade, a pedido do comércio modernizado na segunda metade do século XIX e início do século XX. A Virgem da Conceição virou a Santa dos pobres dos morros do Recife, morros que foram habitados pelos “bestializados” no processo da República comandada, em Pernambuco pelos senhores das terras, dos engenhos, das usinas. E ao longo do século XX, A Conceição foi sendo, também, Iemanjá. Tangidos pelas estiagens e pelas modernizações conservadores, os trabalhadores da cana desceram da Zona da Mata Norte e foram fazer companhia aos retirados dos mangues e dos mocambos, pela política de higienização e pela exploração. Ali, ao longo do século XX, encontram-se as criações dos trabalhadores rurais e urbanos. Os senhores que viviam nos sobrados e nas casas senhoriais, governavam Pernambuco e definiam o que era ou não cultura. Com certo cuidado, eles conviviam com o Maracatu Nação, herdeiro das procissões da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e, com auxílio de antropóloga americana, não foi muito difícil acatar o Maracatu de Baque Virado como expressão cultural. A mesma antropóloga, contudo, não conseguiu vislumbrar o que está no movimento do maracatu rural, a ponto de lamentar a sua presença no carnaval do Recife. Ainda nos anos de 1990, editores do Jornal do Commercio denunciavam o “cheiro de urina” deixado pelos caboclos de lança e “o brilho falso das lantejoulas”. Mas os “bestializados” da Zona da Mata Norte organizaram-se na Associação dos Maracatus de Baque Solto, sob a liderança de Mestre Batista, do Mestre Salustiano e do Mestre Biu Hermenegildo, e continuaram a conquista das ruas e das cidades. No final dos anos 90  o Diário de Pernambuco já diz “uma das mais belas representações de nossa cultura é feita de homens simples e resistentes  e mulheres fortes e com coragem invejável, espalhados pelos 87 maracatus de baque solto de Pernambuco”. A primeira década do século XXI foi marcada por publicações sobre o as tradições culturais da Mata Norte:  “Maracatu Rural, o espetáculo como espaço social” (Ana Valéria Vicente); “João Manoel e Maciel Salustiano, três gerações de artistas populares recriando os brinquedos de Pernambuco (Mariana Cunha Mesquita do Nascimento) “Festa de Caboclo”, “Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição” (Severino Vicente da Silva) foram postos a público em 2005, e também “a mulher no maracatu rural” (Tamar Alessandra Thalez Vasconcelos), em 2012. Outros estudos acadêmicos foram e continuam sendo realizados sobre a criatividade da população cortadora de cana da Mata Norte.

Ao final da Olimpíadas de Londres, o Caboclo de lança foi apresentado ao mundo como símbolo do Brasil e neste 3 de dezembro foi estabelecido que o Maracatu de Baque Virado, o Maracatu de Baque Solto e o Cavalo Marinho, todos filhos da criatividade dos povos da Mata, passa a ser, oficialmente, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Só temos que agradecer a nossa Madrinha, Senhora da Conceição, também louvada como Iemanjá.

ps. Todos os livros citados foram publicados pela Editora Associação Reviva. Olinda, PE

A celebração da humanidade

sábado, novembro 2nd, 2013

 

A COMUNHÃO DA HUMANIDADE

 

A passagem para novembro é momento interessante, pois que nos põe em contato muitas tradições que tocam e fortalecem nossa humanidade,  esses aspectos e costumes comuns que nos tornam bem mais semelhantes que nossas individualidades e características identitárias supõem e nosso autocentrismo deseja. Tradições celtas comemoram a passagem como uma celebração Druída, com as bruxas a celebrarem a vida, uma das muitas celebrações da fertilidade da terra, doadora da vida. Com muita inteligência a igreja cristã fez celebrar um dos seus dogmas mais belos, o da Comunhão dos Santos, no primeiro dia de novembro. Celebração que pretende auxiliar a reflexão sobre a unidade humana, os Santos que já viveram seu momento na terra, os Santos que ainda estão na peleja do tempo presente e aqueles que já estão vivos nos desejos dos viventes e que virão e todos estão presentes no festejo da eternidade.

Entretanto se a semente não morrer não dará frutos e a vida é essa celebração constante da recriação que passa pelo sofrimento da separação momentânea. No período medieval europeu as dúvidas pareciam dominar o mundo por conta de tanta peste e, apesar do otimismo da Ressurreição, o medo transformou a momento da morte em Dia de Ira e de Calamidade, quase esquecendo que ela é o momento do encontro com o Ser. Um monge, em clausura beneditina, após a morte de um irmão passou a celebrar esse aniversário, como se costumava fazer na data dos martírios dos primeiros cristãos. Nessa celebração é a vida que é o centro, a lembrança dos momentos vividos antes e os que serão eternos quando o reencontro ocorrer. Assim foi nascendo o Dia dos Finados, no dia seguinte ao dos Santos. Essas tradições transplantadas para as terras americanas mesclaram-se com alguns ritos daqueles humanos que já estavam a viver nessa natureza e que em tudo experimentava a presença da divindade. Os espíritos das Matas, protetores dos animais: sacis, boitatás, iaras, anhanguera, caiporas juntaram-se aos orixás carregados no coração de africanos que aqui encontraram novos rios, cachoeiras, matas e celebram desde então, às vezes de maneira sincrética, às vezes na pureza que se pensa ter, a vida. E tudo parece confluir no início deste novembro.

A festa da Comunhão de Todos os Santos está sendo, no Recife, emulada por uma Marcha para Cristo, promovida por várias igrejas evangélicas no dia dos Finados e antecede em vinte quatro horas a celebração dos Orixás que pretende juntar o “povo do santo” em uma afirmação de sua existência e identidade, marcando o início do dito Mês da Consciência Negra, para nos lembrar que somos todos os continentes, todos os povos: somos a vida.

Escrito em 2 de novembro de 2013

Francisco de Assis e o edifício Caiçara

sexta-feira, outubro 4th, 2013

 

Começando o mês de outubro. Depois dos santos Cosme e Damião, médicos que foram feitos protetores das crianças, vem o mês de São Francisco de Assis, também muito popular: o primeiro burguês que decidiu reformar o mundo, primeiro repondo pedras, depois apontando para os corações humanos. Sua vida é uma parábola: parece nos dizer que animais selvagens – lobos, pássaros, peixes – estavam mais dispostos a escutá-lo que os homens. No século XIII o papa Inocêncio III fez o possível para não se encontrar com Francisco. Agora tem um Francisco na cadeira que Inocêncio III sentou. Colisão de nomes e trajetórias. Bem, este é um franciscano/jesuíta, com a mística dos dois. Neste quatro de outubro lembremos esses dois renovadores da Igreja e inovadores sociais.

As inovações sociais aparecem simbolizadas em algumas ações. No início do século XX a Praia de Boa Viagem, no Recife, começou a ser ocupada pela população que pode comprar terrenos na época que se descobriu como o banho de água salgada faz bem à saúde. As margens do Rio Capibaribe foram deixando de ser endereço supimpa e os pescadores foram sendo expulsos das praias do Pina e de Boa Viagem. Cada época e cada momento social cria suas referências e, o Edifício Caiçara tornou-se referência para os que ocuparam Boa Viagem na década de quarenta, bem como para aqueles que, não morando naquela praia, iam  banhar-se ali até os anos oitenta ou noventa. Mas como lembra um livro bíblico, um adolescente muito  famoso em sua época pouco será lembrado duas gerações mais tarde. Assim foi com o edifício Caiçara, com a Casa Navio e outros edifícios que marcaram a arquitetura do período e serviam de referência para banhistas de final de semana. A queda desses edifícios para atender o boom imobiliário para apartamentos de luxo segue o mesmo princípio que afastou os pescadores ao longo do século XX. A queda do Edifício Caiçara lembra que para ele e outros edifícios serem construídos muitas caiçaras fossem derrubadas. Poucos são os adolescentes que ficam na memória das gerações que lhe sucedem, esses poucos são referências mais importantes do que parada de ônibus. É assim que a “igrejinha” de Boa Viagem ainda se mantém. É uma referência mais profunda na história, não apenas na memória.

A questão é que a história é feita do lixo deixado pelas gerações e, em nossa sociedade o lixo escrito é muito importante, além do lixo monumental significativo para o conjunto social, não apenas para um grupo. Escreve-se muito sobre os monumentos de pedra e cal, assegurando-lhes, assim, a sua permanência na época dos novos adolescentes. Talvez seja essa a razão de monumentos referentes a grupos menos importantes econômica e financeiramente sejam mais facilmente descartáveis. Acontece que os documentos escritos, ou escritos que discutem os documentos carecem de leitores e, as mais recentes tabelas do IBGE mostram que o número de analfabetos no Brasil voltou a crescer, embora a propaganda dos programas de alfabetização tenha aumentado.

O adolescente (na Idade Média essa categoria não existia) Francisco da cidade Assis não tem sido esquecido pelos adolescentes das gerações que lhe sucederam. Reconstruir, manter inovando, inovar mantendo, rompendo e fortalecendo, afirmar valores positivos e ter a coragem de dizer não ao que prejudica ao conjunto da humanidade, essas são as causas da permanência de Francisco e Ignácio.

 

Recife: chuvas, rios, gente e ocupação irresponsável

sábado, junho 15th, 2013

Passados quinze dias de junho deste ano de 2013  notamos que as muitas águas desejadas caem, em muitos lugares, de maneira indesejada. Sabemos que as chuvas são comuns nesta época do ano em nossa região, mas sempre nos surpreendemos quando elas chegam, não por elas, mas porque elas escancaram a maneira irresponsável de como ocupamos o espaço físico. Nas décadas de setenta a noventa do século passado, as chuvas deixaram à mostra que a permissão que os governos populistas deram para a ocupação incontrolada dos morros do Recife levou à morte de muitos. Aquela permissão foi tacitamente dada, para sanar a questão dos mucambos que foram construídos pelos mais pobres nos mangues dos rios Beberibe e Capibaribe enquanto a “cidade” estabelecia-se nos espaços mais firmes. Quando os mucambos já haviam aterrados os mangues, então eles se tornaram desnecessários e seus habitantes foram postos a correr em direção aos morros, onde certas famílias amealharam fortunas cobrando foros, enquanto a administração municipal não chegava para cobrar o imposto territorial. Aquela era a época ainda marcada peço jeito português de fazer cidades nas desembocaduras fluviais. Vez por outra as águas pluviais causavam problemas, mas este eram sentido pelos mais pobres que ainda estavam estabelecidos nas “regiões ribeirinhas”, como dizia famoso alcaide dos anos sessenta do passado século. Foi então percebido ser necessário domar o rio que teimava em retomar os espaços perdidos. Por decisão do ditador de plantão, após uma grande cheia na década de setenta, o rio foi domado e os habitantes ribeirinhos foram tangidos para terras de antigos engenhos, com seus proprietários devidamente indenizados. Cresceu o Recife para o sudoeste e Paulista, cidade ao norte do Recife recebeu incentivo para crescer, o mesmo ocorrendo a Camaragibe, este com mais sorte recolheu uma pequena elite de professores universitários no platô balneário, antes conhecido apenas por alguns e espaço para treinamento militar. Domado o rio suas antigas margens voltam a ser habitadas, agora por torres habitacionais, agora seguindo modelo estabelecido na nova metrópole dos novos tempos pós-industrial: imensas torres, cada vez mais altas como novas Babel. As ruas desaparecem gradativamente cedendo espaços para imensos corredores de ônibus e pedestres que, em dias de chuva coincidentes com marés altas, assiste e sofre o retorno do rio contido e dos afluentes que foram mortos e devidamente tapados. Agora lembro que, ao final do antigo Rio Bultrins, hoje Canal do Bultrins, há um edifício nomeado Rio Tapado. Tapados ao longo dos anos, esses riachos periódicos já nem mais estão na memória dos habitantes das cidades de Olinda e Recife. A nova civilização precisa de cada vez mais espaço para os automóveis passarem e serem vistos, pois em nossas cidades, mais que meio de transporte eles são bens ostentatórios, quase expressão de nobreza ou divindade. Mas as chuvas chegam e surpreende os novos aristocratas e fazem parar as modernas carruagens e, da mesma maneira que as águas invadem os antigos leitos dos riachos, os jornais impressos e os noticiosos dos rádios e televisões são inundados com reclamações sobre a impropriedade ou incúria dos administradores do espaço público. A chuva represada e misturada com esgotos que molha e enlameia os pés dos que saem dos ônibus também suja os modernos símbolos de poder e faz parar avenidas criadas para atender os que vivem nos pombais modernos. Nas chuvas deste ano não ocorreu mortes nos morros. A morte registrada ocorreu em uma avenida causada por um fio elétrico em rua que tornara a rio.