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Tempos no tempo das pestes

segunda-feira, abril 19th, 2021

Tempos no tempo das pestes

Prof. Severino Vicente da silva

Entramos na vida quando ela já se desenrolava nos espaços e no tempo através dos tempos. Somos membros dessa incessante corrente que se renova a cada instante, somos como um instante, mas alguns de nós escapam de ser apenas um instante. O instante é tão passageiro, como os quase cem anos que agora podemos viver. Houve um tempo que este instante era menor para todos, mesmo os mais aquinhoados pela fortuna, poucos ultrapassavam a marca dos cinquenta anos vividos. Era um tempo de vida pequeno, vinte, trinta, quarenta anos. Tudo era tão rápido que era uma bênção divina ver os filhos dos filhos, ser avô, ser avô. Morria-se com mais facilidade, seja pelo teor violento da vida, como ensinava Huizinga, seja por não ter tido tempo de afeiçoar-se aos filhos, pois que eles morriam muito cedo, como ocorreu a Montaigne.

As guerras foram, ainda são, companheiras permanentes dos homens. Eram muitos os que morriam de espada em punho enquanto outra espada transpassava seu corpo. A vida era acompanhada diariamente pela morte, quase uma simbiose. Matava-se em todos os lugares, ainda hoje é assim; mas na bela Florença renascentista, os Medici foram atacados dentro de uma igreja, durante uma cerimônia, mas o que não foi morto perseguiu aos que tentaram mata-lo e os enforcou, deixando seus corpos apodrecerem, pendurados nos janelões da casa da Senhoria. O jovem Leonardo da Vinci aproveitou a oportunidade para registrar as expressões dos mortos, quase como os fotógrafos dos jornais do século XX faziam, o que atraia muitos leitores para olhar “a vida como ela é”, e como se acaba para todos. As fotografias permitiram que se guardasse a última visão do defunto antes de seguir para o cemitério. Guardava-se o último retrato como relíquia familiar. Era um bom costume da época vitoriana que se praticava ainda na sexta década do século XX em algumas cidades do Interior do país. Matou-se muito no século XX, em intermináveis guerras para acabar com as guerras, para acabar com a exploração, criar um mundo novo, e foram tantas as razões criadas para matar; matava-se para defender a vida, estabelecer um código, um projeto que garantisse o direito de nascer, viver, morar, trabalhar, ter uma família, receber proteção, ter um país, receber educação, receber cuidados com a saúde.

O final do século XX foi o tempo da criação dos direitos, agia-se como se fosse um esforço para chegar ao convencimento de que os seres humanos podem ser bons, felizes e que podiam comprometer-se em jamais voltar a produzir tantos sofrimentos, como os inventados nos diversos campos de concentração de gente posta a trabalhar até à morte, ou mesmo simplesmente postos lá para morrerem.

Talvez um dia se aprenda que os que fazem a história não caminham sempre na mesma direção, na mesma velocidade, com mesmo entusiasmo. E há sempre, ao lados dos construtores de possibilidades para se viver de uma maneira menos violenta, aqueles que preferem que tudo continue como estava, pois as mudanças previstas implicam em perdas para si: além disso, criar um mundo novo acarreta muito trabalho, muito esforço, melhor deixar como estava, um mundo em que alguns poucos poderiam viver um pouco mais que o restante da humanidade, pois deviam dedicar seu tempo para beneficiá-los, por isso melhor deixar como estava: muitos sofrendo para a alegria de alguns. E se morressem nessa tarefa?

Provavelmente esse modo de pensar pode explicar porque não foi fácil descolonizar os povos e nações asiáticas e africanas. Após a guerra contra os nazistas, os europeus não perceberam que continuaram a tratar os não europeus de modo similar ao tratamento que os seguidores de Hitler, e assemelhados, dispensaram aos ciganos, aos homossexuais, aos judeus, aos comunistas, aos católicos e a todos que não eram eles mesmos. O pós-guerra, ao mesmo tempo em que parte da humanidade pretendia criar um mundo novo, os “costumes comuns” foram e continuam sendo um impedimento para este novo mundo. O Zé Ninguém não escutou William Reich e permaneceu forte na defesa de seu mundo de inveja, desejos irrealizados, e amor à morte.

Uma das guerras do século XX foi a guerra de libertação do povo do Vietnan, primeiro para afastar a França e, depois, os Estados Unidos da América do Norte. Esta guerra marcou o fim do encanto do americam way of life, ideologia que conquistou corações e mentes, vendendo um paraíso com os desenhos de Disney, o riso de Doris Day enquanto escondia as Vinhas da ira. O general Westmoreland, comandante das tropas americanas no Vietnan, a princípio dizia que “aquelas pessoas não tinham sentimento em relação aos seus mortos”, mas logo compreendeu que se não conquistasse os corações e as mentes daquele povo, a guerra estaria perdida. E a perdeu enquanto uma juventude celebrava uma era nova que seria de paz, a Era de Aquarius. Mas aqueles jovens de 1968 são sessentões hoje, e olham o mundo que herdaram e o que estão deixando em herança. O que faz a diferença entre 1968 e 2021, o que diferencia a vida neste terceiro milênio do modo de vida no século que passou e nos séculos todos que foram passados?

Todos concordam que materialmente estamos melhor situados que os avoengos, pois mais pessoas podem dormir mais tranquilas sabendo que a comida do dia seguinte está garantida, embora haja muita gente, mais da metade da população da terra, morrendo de fome nas esquinas de nossas cidades, da cidade de nossa moradia. Mas agora temos informações sobre o que acontece em todas as partes do globo, sabemos do que os movimentos da natureza, cada vez mais em choque com as criações culturais, reduzem casas, carros, estradas – de barro, ferro ou cimento e asfalto – à lama, forçando-nos a refletir não apenas sobre as condições dos homens, mas a condição desses homens e mulheres nos locais em que vivem, e que por eles foram construídos. Como as fortalezas, os castelos e os palácios protegiam os que diziam proteger os povos que mandavam à guerra, eram protegidos com guardas a impedir o acesso dos camponeses e artesões aos espaços das festas das cortes onde se praticava regras de convivência e o aperfeiçoamento das relações, também hoje há muros invisíveis que aperfeiçoam tal separação, fazendo que cada um saiba qual o seu lugar e seu papel na sociedade. Essa ordem segue padrões tão aperfeiçoados de separação que nem notamos, pois que somos ensinados a não perceber as diferenças, uma vez que os cortesões que fazem a crítica, quase sempre condenatória da espúria situação da maior parte da população, a fazem ao lado dos organizadores do invisível muro que separam os homens. Não notamos, os muros que, além de invisíveis são fluidos, como nos explicou o sociólogo polonês.  Tornam próximo o que está distante, um desvio ótico, como uma vara dentro de um lago ou rio. Uma ilusão de ótica, a ótica social e política.

Neste terceiro milênio pode ser que venhamos a viver um mundo falso que não precisa de muros a separar, exceto quando se quer proteger objetos, essas criações culturais que denotam poder, riqueza, avidez, ganância, beleza conceitual e tudo que auxilia a explicitar a separação.

Como em épocas anteriores estamos vivendo uma pandemia, uma reação da natureza à forma de nossa organização sobre o planeta e de nossa relação com os demais seres vivos, e mesmo os inanimados, e, como nos séculos anteriores, muitas são as mortes. Assusta a quantidade de mortes que vem ocorrendo diariamente; em algumas regiões do país, morre-se mais que nascem pessoas. Em nossa país será que, em algum momento, morreram tantos de uma só vez? Terá sido assim em Palmares, o Quilombo? E na Cabanagem? E no Arraial do Bom Jesus em Canudos? Na seca de 1877? Na seca de 1915? Na seca de 1970? Mas essas foram mortes distantes, no meio do mato, nos sertões, nas beiradas dos rios, mortes que soubemos depois, que estão nos livros de história ou literatura. Agora temos a morte que soma com a ocorrida na vizinhança, na própria família. E, como outras mortes, essas poderiam ser evitadas caso fosse outra a conformação da sociedade.

O vírus, Corona 1919, está a matar por razões semelhantes ao Cólera em 1864, ao Aedes aegipti que tem a Febre Amarela, o Dengue, a Chincungunha: a razão da concentração de riqueza de um lado e a dispersão/concentração de pobreza de outro. Em todos os casos, como na praga dos primogênitos do Egito, para que o filho do faraó morresse foi necessário a ocorrência da morte de muitos filhos dos que não eram faraós. Quantos filhos dos pobres devem morrem para que se morra o filho faraó?

O que diferencia a atual situação das ocorrências nos séculos anteriores, é que agora acompanhamos imediatamente o fato e as mortes, não é necessário esperar que alguém escreva um livro de história que, como sempre, contará apenas uma parte dos acontecimentos com a visão que se deseje fixar. Mas as informações chegam tão rapidamente e em tal quantidade que elas são regurgitadas, são negadas, são apagadas. E os que estudam a Psique aconselham a procurar outras informações para que não se perca a saúde mental, não se morra espiritualmente.

Daniel Defoe, escreveu o Diário da Peste, que ocorreu na Inglaterra do século XVII, tendo dela sobrevivido. Utilizando depoimentos dos seus contemporâneos nos mostra que eles não tinham ideia de onde vinha a doença e tomaram medidas de restrição social, aprisionando em suas casas os doentes que eram obrigados a conviver com o enfermo e com os ratos e suas pulgas transmissoras. Morreram muitos, e valas foram abertas para a incineração dos cadáveres. Lentamente os homens vão aprendendo que os bacilos, os vírus que provocam as diversas pestes, eles não morrem, mas como que se resguardam para quando surgirem outras oportunidades para o espetáculo mortífero e mortal.

Mas se existem as pestes físicas que destroem as sociedades em sua população, há pestes que destroem as nações em seu caráter, em sua moral, em sua essência, como nos ensina Camus, a peste da traição, da colaboração com a morte. Em todas as pandemias e epidemias sempre surgem os pestilentos da mentira, do ódio, da incompreensão, do esforço para evitar que s humanidade se aperfeiçoe.

Nestes dois anos de convivência com o Coronavírus 2019 temos tido conhecimento e experimentado esses dois tipos. Ambos se tornam mais poderosos com a ignorância, com o conforto que elimina a angústia, a companheira dos que procuram o saber. É o conhecimento que derrota, ao menos provisoriamente, as causas das pestes.

Drama 16 – As pestes melhoram os seres humanos?

quinta-feira, julho 9th, 2020

Drama 16 – As pestes melhoram os seres humanos?

Vivemos momentos difíceis que nos confrontam enquanto sujeitos e enquanto sociedade. Esta não é a primeira vez que a humanidade enfrenta pandemias; no passado o mundo era menor, Gilgamesh e Noé venceram o dilúvio e, o que era entendido como “mundo”, sobreviveu. O Egito sobreviveu às pragas, e sofreu, até que o faraó sentiu a dor com a morte do filho. Há sempre o sacrifício de um filho para que o mundo sobreviva. Boccaccio assistiu sua cidade morrer e viver uma peste enquanto contava histórias. Algum tempo depois as populações Inca, Maia, Asteca, Tupi, Aruaque e muitas outras foram dizimadas por doenças que não conheciam, além de terem travado conhecimento com a pólvora. Carlos II aproveitou a passagem da peste por Londres para modernizá-la. Depois veio o reino da ciência e, em velocidade crescente, a humanidade foi estreitando os laços e os limites geográficos do mundo. Estamos vivendo uma verdadeira pandemia que atinge todos os quadrantes do globo simultaneamente, e vai ficando quase uma companheira permanente, apesar de sabermos que já poderíamos tê-la dominado, enquanto estudaríamos para inventar, descobri a vacina, essa solução dos tempos modernos. Bastaria apenas lavar as mãos com água e sabão, passar um tempo em casa, usar máscara protetora quando precisasse sair. Mas descobrimos que esses benefícios sociais não foram postos ao acesso de todos; como no tempo do faraó, o conforto é assegurado a uns poucos.  

Sabemos que, como dizem os insensatos que ocupam posição de governo, sempre morrem alguns em situações como essa que estamos a viver, mas, ainda assim, haverá sobreviventes suficientes para continuar o processo de construção do que agora estão apelidando de ‘novo normal’. Mais ou menos assim dizia Carlos II no século XVII, em seu castelo. No seu tempo não havia grande parte do conhecimento que desde então produzimos e acumulamos. Aliás, Carlos Stuart II costumava dizer que as pestes servem para melhorar a humanidade. Assim pensam muitos que escrevem nas redes sociais, pois creem que o sofrimento fará melhorar o comportamento moral de nossa sociedade, tão impessoal, tão individualista, tão pouco solidária. O que temos notícia é de uma melhor organização de recolhimento de coisas a serem distribuídas para os mais necessitados, o que é muito bom. Em verdade, essas ações beneméritas, caritativas ou solidárias já ocorriam antes da Covid 19, em momentos especiais do ano, como as festas natalinas, o início de um novo ano, no dia das crianças, etc.. Agora aumentou o número de pessoas que assim agem, ou as emissoras de televisão resolveram amplificar a audiência para essas ações.

Sairemos melhores, após esses dias que não consumimos filas de restaurantes, Filas de ônibus, filas de cinema, e muitas outras filas? Sairemos melhores após três meses sem irmos à praia, ao campo de futebol, às academias para cuidar dos corpos a serem elogiados e invejados pelos que não cultivam esses hábitos? Sairemos mais espiritualizados após esse período afastados dos garçons, mas sempre com um motoboy que nos traz pizza ou outros alimentos que mandamos preparar nos restaurantes aos quais não podemos ir? Se não nos alimentamos como antes, no período pandêmico, não fizemos penitências nem jejum, o que fizemos não foi escolha pessoal, mas imposição das autoridades. Aliás, fizemos o possível para não nos abstermos de nada, ainda que isso custasse uma maior exploração dos invisíveis trabalhadores transportadores de alimentos. Em que esse sacrifício nos fará melhores?

Ah! sim, a pandemia serviu também para que os governos descobrissem os indivíduos invisíveis, esses que não tinham emprego nem renda para atravessar o tempo da peste. Não imaginavam que eram tantos, apesar de estarem nas ruas. Bem, estavam distantes das ruas onde moram os grandes empregadores, os que fazem as leis. Foi uma surpresa notar que há tantas pessoas em situação de miséria, que vão morrer, que estão morrendo, que morreram, porque não tinham água em casa, no lugar onde moravam. Sendo que alguns nem casa têm. O ‘banco social’ ficou surpreso com tanta gente nas portas de suas agências. Como fazer para que essas pessoas não morram de fome? O governo, forçado pelas circunstâncias, viu-se obrigado a criar um “auxílio emergência”. Emergência, dizem os dicionários, é algo que deve ser atendido imediatamente para que seja evitada uma situação terminal. Pois bem, o banco social encontrou um meio de atrasar em dois ou três meses a entrega do  “auxílio emergencial”. Depois descobriu-se que mais de 600 mil pessoas empregadas e em boa situação econômica solicitaram e receberam o auxílio emergencial que seria para os que estavam, ou estão, em situação de emergência.

Estamos vivendo uma crise sanitária, mas não temos ministro da saúde; não temos ministro da educação. Em compensação temos um presidente, aposentado precocemente do exército por não ser bom soldado, que não respeita as leis do país, e que pratica o charlatanismo médico, prescrevendo medicamentos para a população. A rede social Facebook, forçada pelos grandes capitalistas, saiu em  busca de páginas que publicam mentiras e promovam o ódio e, para espanto de todos, algumas dessas páginas eram criadas em computadores da presidência da república, em gabinetes de senador e deputados. Sairemos melhores dessa pandemia, dessa situação de quase anomia social?

Alguns dos isolados socialmente saíram para beber e farrear nas noites cariocas e outras noites. Assistimos que saíram de seus locais de isolamento dispostos a não obedecer qualquer regra, mas estavam sedentos para dizer quem são e humilhar, destratar os fiscais, trabalhadores a serviço da sociedade, explicitando o ódio que cultivam pela humanidade. Saíram melhores? Bobagem pensar que o sofrimento alheio melhora a quem só cuida de si, e vive da vida dos demais.