Posts Tagged ‘Pandemia’

Por que a surpresa?

quinta-feira, junho 10th, 2021

Há sempre que parecer surpresa, ou temos que parecer surpresos ao ler nos jornais que, em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos da América, descobriram que os americanos mais ricos, aqueles que estão entre os cinco mais ricos do mundo, estão entre os que menos pagam impostos naquele país. Essa surpresa, trazida pela pesquisa, adveio do recente debate sobre a taxação das grandes fortunas, debate que vem sendo evitado para que, o mau humor dos homens ricos, não afetem as finanças do país. A querela do imposto sobre as grandes fortunas foi levantada naquele país pelo atual presidente, mas ela vem ocorrendo na Europa já há algum tempo. Soubemos que, ao aumentar o imposto sobre os mais ricos, a França assistiu alguns de seus cidadãos, artistas que dizem ser mais sensíveis aos dramas humanos, migrarem seu endereço fiscal para a Rússia, onde tais fortunas estão protegidas, e eles possam guardar a fortuna que não poderão gastar em duas ou três gerações.

São os mais ricos os que mais usufruem dos benefícios gerados pela sociedade; os trabalhadores que contam os centavos no final de cada mês, buscando fazer que o seu salário coincida com os gastos necessários para a sua sobrevivência, não são beneficiados pela proteção policial, pelos avanços da medicina e da tecnologia; quando seus filhos se perdem não recebem a assistência que os filhos dos ricos recebem com o aparato de bombeiros, salva-vidas, helicópteros para os trazerem de volta para casa com segurança após alguma traquinagem elegante, como subir o Himalaia; os pobres, mas não apenas eles, pois os de classe média que se julgam ricos também, passam a vida vendo como os ricos gastam suas férias em praias paradisíacas. Os mais pobres não podem pagar advogados e técnicos de classe média que os orientem para encontrar falhas do sistema tributário, falhas que são postas quase de propósito, no intuito de enganar a Estado. Os ricos sabem dessas leis, pois eles é que financiam as campanhas de futuros legisladores, os fazedores de leis “falhadas”. O Estado é o seu Estado; relutantemente eles permitem que algumas das conquistas da humanidade estejam ao alcance de todos, ou de um número maior do que seus conhecidos. Afinal, se esses benefícios estiveram ao alcance de todos, qual a vantagem de ser rico? Ser rico é ter riqueza que já não se pode contar, e isso só é possível com a construção da pobreza, da miséria. Não são as fortunas que são construídas, é a pobreza e a miséria que são cultivadas, diligentemente, para que apenas alguns possam ter acesso aos bens que o trabalho de todos produziu. E para isso que alguns constroem exércitos, recrutando os famintos, em troca de migalhas, para que defendam aquilo que deixou de ser da comunidade, e agora pertence a bem poucos. Durante séculos os monarcas tornaram-se protetores de si mesmos ao convencerem os demais que os protegia dos que punham em risco o poder. As narrativas nos mostram como alguns amantes do poder convenceram outros amantes do poder, mas com menor sucesso e, juntos, impuseram o medo aos demais; ao mesmo tempo oferecem a possibilidade de um pedaço de poder aos que se dispuserem a defender a causa do monarca. E esse estratagema tem dado certo, e vem passando de geração em geração.

E nos surpreendemos, ainda, de que os ricos roubem a sociedade.

Mas sabemos bem que as pandemias são oportunidades para fazer crescer as fortunas e os infortúnios. Lá eles fazem pesquisas julgando que a ética protestante vença o espírito do capitalismo; aqui fazem-se CPI, para que os famosos do momento mostrem as suas habilidades de dissimulação e submissão ao que lhe oferece a riqueza ou a sensação de ser diferente, mais afortunado, dos demais.  

Como justificativa para a continuidade da pobreza, há quem cite “pobres sempre os tereis”, frase dita melancolicamente pelo Filho do Homem. Essa frase, parece-me, é um lamento (Mc. 14:6ss). Ele entendeu que o desejo de ajuntar coisas é mais cultivado, pelos homens e mulheres, do que o desejo de ajudar pessoas. Entendo ser um lamento porque, em outro momento, eis que o Ele disse a um jovem rico que procurava ser justo e digno: Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres. A narrativa diz que o jovem rico ficou triste pois tinha muitos bens. (MT. 19:16-22) O jovem entendeu que ele deveria ser pobre, ser livre dos muitos bens que tinha. Como deixar a razão de seu viver, como deixar de ter seguidores prontos a cuidar de suas botas? Essa história que é narrada por Mateus, vem depois da narração que Mateus, antigo cobrador de impostos, faz para dizer que Jesus pagava imposto o imposto devido (Mt. 17:23-26). O imposto é o que se recolhe de indivíduos para garantir que todos tenham os bens produzidos por todos.

O imposto deveria ser para que o lamento “pobres sempre tereis” possa ser superado, mas os ricos, os que se apoderam de tudo, também ficam com o imposto que não pagam e roubam o imposto dos que pagam.

E ainda nos surpreendemos que os ricos roubem da sociedade.

Severino (Biu) Vicente da Silva

Perde-se mais que vidas individuais

segunda-feira, abril 26th, 2021

Perde-se mais que vidas individuais

Esta manhã o repórter me informa que os gastos do poder legislativo federal com viagens e despesas que fazem para que sejam pagas pelos impostos dos brasileiros foi superior ao orçamento que da Fundação Osvaldo Cruz -FIOCRUZ, órgão do Estado para pesquisar, conhecer e melhorar a situação da saúde dos brasileiros. O egocentrismo, o egoísmo, dos nossos legisladores os fazem capazes de se entenderem superiores aos demais cidadãos. Eles, apesar de terem sido eleitos para representar o povo e legislar em seu interesse, resolvem usar o poder que lhes é concedido por algum tempo para criar benefícios para si e para os seus áulicos. Mas eles são o reflexo da civilização da qual fazemos partes e, terrível dizer, dividimos com eles esse mesmo egoísmo, esse mesmo desprezo pelo bem comum. Nascemos e vivemos em uma sociedade que decidiu não viver coletivamente, mas em ajuntamentos; não mais viver como comunidade, ou seja, ser um grupo de pessoas que decide viver juntos e perseguir os mesmos ideais de buscar uma felicidade comum. Aprendemos e fortalecemos a ideia de “farinha pouca meu, pirão primeiro” em lugar de “a farinha está pouca, vejamos como pode chegar pouco para todos”. Descartou-se de tal forma a ideia de comunidade, que atualmente ela é aplicada às favelas, àquele grupo de pessoas a quem são negados os direitos de uma habitação digna, acesso à água, à iluminação, à educação escolar, à diversão, ao corpo e espírito saudável. É isso que ouvimos quando os noticiários informam que “as comunidades pobres se organizam para se ajudar”, e dizem isso deixando claro que aqueles que vivem nas favelas não fazem parte de seu mundo, o mundo limpo dos condomínios fechados por serem temerosos de que as pessoas das “comunidades” os ataquem e tomem um pouco do muito que eles possuem. É este comportamento que leva à morte a civilização criada pela Europa nos últimos quinhentos anos. Ou mudamos esta visão do mundo ou não teremos um bom futuro.

A pandemia do COVID19 tornou mais claro essa opção pelo bem estar particular e individual dos setores que não fazem parte das “comunidades”, eles a assistem de longe e, quase se surpreendem quando algum deles é atingido. A pandemia mata mais os pobres que os ricos, cinicamente dirão: é que há mais pobres que ricos; a pandemia mata mais negros que brancos, e de novo dirão que há mais negros que brancos. Ficam preocupados porque o comércio diminuiu, que algumas empresas foram à falência. Não sei bem os dados sobre o Brasil, mas nos EUA foram as empresas pertencentes a negros as que mais fecharam. Esses que julgam não precisar dos demais companheiros sociais, que acreditam na grande fake do self made man, ainda não entenderam que não é apenas uma escolha entre a economia e a saúde, mas é uma escolha sobre uma maneira de compreender a vida e, que a obsessão em negar a inevitável cooperação entre os homens pode vir a acarretar na aceleração do processo de destruição da vida humana, pois a vida humana, como as demais vidas que formam a vida, só é possível na visão comunitária. A preocupação com o lucro sobre o sofrimento do outro impede que se pense na suspensão das patentes. O que fazem os grandes laboratórios, assistimos nos mercados ao acompanhar pessoas que compram o que não necessitam, e lamentam não estarem indo aos restaurantes que, diariamente, jogam restos de comida no lixo.

A pandemia do COVID19 explicitou que a maioria dos humanos, ou uma grande parte desses humanos, são capazes de usar, fabricar, sonhar coisas, mas ainda não perceberam que ao dedicar-se apenas às coisas, coisificaram-se, perderam a capacidade de recriar-se como novos seres abertos para a vida; optaram pela morte. A pandemia que estamos sofrendo confirmou o que pensaram os líderes nazistas: se dermos oportunidade ao mal ele terá mais adeptos e enganará a muitos. E assim temos a ressurgência do julgávamos ter aniquilado naquele bunker em Berlim, mas muitos escaparam dos bunkers, muito continuaram mentindo, e nesse espaço de dois terços de século voltaram a ocupar espaços e, como disse o profeta: quando um demônio é expulso, volta e encontra espaço, ele não volta só, vem com uma legião.

Nossa tarefa agora é vencer a pandemia e a legião que se apossou do coração de muitos. E para combater o mal só tem um caminho: o exercício do bem.

Severino – Biu -Vicente da Silva  

A casa, as aulas, os tribunais

sexta-feira, abril 9th, 2021

Desde a morte de meu irmão Jorge Cláudio tenho posto meu tempo à leitura dos artigos de meus alunos, tarefa de avaliação das disciplinas colocadas sob minha responsabilidade neste semestre, às tarefas caseiras, essas improdutividades que não entram nas planilhas macroeconômicas. A leitura consome e enriquece. As escolhas que os estudantes fazem para suas pesquisas, transformadas em textos, apontam alguns interesses que, pelo uso da repetição temática da disciplina obrigatória, me surpreendem. O mundo é mais amplo que aquele experimentado por uma pessoa, expressão vulgar repetida, como eram as canções da juventude, a curiosidade dos jovens indicam que tenho passeado em poucas ruas. Surpreende a escolha de pesquisar sobre a Liga das Nações e mostrar que, diferente do que dizem os professores, a aluna indica os frutos positivos que ela gerou, promovendo o primeiro grande esforço para uma ação coletiva das nações, traçando rotas impensáveis em período anterior à Bela Época que se seguiu ao tempo da Rainha Vitória. E vem a reflexão de como vivem os venezuelanos que foram acolhidos para viver e recomeçar nova vida em Igarassu, onde começou Pernambuco. E tem aquele outro, preocupado em entender a vida do pescador artesanal, carregador de uma tradição, de muitas tradições, entre elas os preconceitos de etnia. As mulheres aparecem em muitas formas, como a busca de saber quais foram as que estiveram presentes da Revolução de 1817, a revolução de um Pernambuco extenso. E aquele interesse pela ação das mulheres comuns e que se afirmam diariamente sob uma infinidade de pressões próprias de uma sociedade patriarcal, não apenas no Brasil, pois que esta parte do globo é integrante da sociedade Ocidental de fundo europeu e dificuldades em conviver com as outras culturas que nos formam. Em seguida vem a preocupação teórica sobre como se pensa a mulher, e como as teóricas pensam sobre o que os homens pensaram a respeito das mulheres.  A leitura dos textos e a oitiva das apresentações na sala virtual trazem um universo de novas visões. Ouvi, não a repetição de temas típicos dos historiadores e estudantes de História, mas outra ciência social, e então me deparo com a preocupação sobre aparelhos que diminuem a surdez e aumentam a possibilidade de integração social; ou ainda o simples viver dos moradores de rua, que não são apenas objetos descartados pelo sistema após usados. E em todas as reflexões uma busca de entender como nós chegamos aqui, neste fluído mundo, no qual tudo parece desfazer-se, mas não a curiosidade juvenil que, mesmo na academia, se mantém.

Nesses dias após a morte de meu irmão, morreram muitos outros irmãos, muitos pais, tios, avós, amigos. Alguns que conheci na leitura, como Bossi. E vamos ficando órfãos e com a família diminuída. Este mês de abril, tudo indica que no Brasil haverá mais mortes que nascimentos. Talvez seja a primeira vez que este fenômeno ocorre e, ele terá consequências sérias no futuro. E enquanto as realidades continuam o processo de mudanças, alguns senhores julgam que a principal questão a ser resolvida é manter contato direto do crente com o líder religioso que o fanatiza. Lutero não esperava que seus atos em busca da liberdade de consciência e responsabilidade pessoal diante de Deus, fossem utilizados por alguns pastores, no século XXI, para afirmar que o crente tem que ir ao templo, conversar com o pastor e levar o dízimo para que ele possa comunicar-se com Deus. Mesmo antes de Lutero, em plena Idade Média, papas fecharam as igrejas, proibiram procissões, quando a peste os alcançava e enquanto durasse a endemia. E os papas medievais não tiveram acesso ao conhecimento científico que pastores, alçados ao comando das instituições brasileiras, possuem. E, pastores fantasiados de juristas e ministros de uma República laica, agem com a piedade dos fariseus a quem Jesus perguntou: é lícito fazer o bem, curar um homem, em um Sábado?  Os fariseus, dizem as escrituras, ficaram calados, não tinham resposta diante do óbvio. Mas, esses que colocam longas togas pretas, continuam a arengar seus impropérios, na ânsia de agradar ao Caifaz ou o Herodes do momento. A qualquer momento, fossem eles, momentaneamente sinceros como aqueles que testavam a Jesus, já estariam clamando: “que seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”.

Curar no sábado, orar onde estiver, mesmo porque Jesus, a quem dizem seguir, não ia ao templo com a frequência que os fariseus esperavam, ele preferia fazer suas orações fora das paredes do templo. E tinha o costume de se afastar para orar, se afastar, ficar só, em silêncio. Apenas em duas ocasiões convidou os amigos a orar com ele. O Pastor Mendonça, em sua fala demonstra que não refletiu sobre os livros sagrados, nem cuidou da  Constituição Brasileira que, aliás, não citou em sua arenga.

Após essa pequena digressão, voltarei para o cotidiano: preparar o café, fazer do cuscuz, talvez tapioca; cuidar dos animais, apoiar Isaac em sua aula, ler meus alunos. Manter a vida, sendo-a como ela me faz e eu a fiz.  

Nóis sofre mas nós Goza?

sábado, fevereiro 13th, 2021

Estamos vivendo um ano muito atípico, com essa “gripezinha” que já matou mais de duzentas mil pessoas, só no país cujo presidente parece sentir-se bem com tantas mortes. Quando ainda não havia sido escolhido para ser carrasco das instituições e do povo brasileiro, o capitão da reserva lamentava que tenham sido mortos tão poucos brasileiros pela ação do exército. Agora ele para estar muito excitado com as mortes que tem provocado pelo seu modo de governar.

Para cuidar do meio ambiente do Brasil, colocou no ministério uma pessoa acusada de crime ambiental; para comandar a Fundação Palmares, que cuida do patrimônio e da herança culturais africanos que vieram como escravos para o Brasil, ele pôs um intelectual negro que nega tais tradições; para cuidar dos assuntos da família e dos gêneros colocou como ministra uma pastora evangélica que vê pecado em qualquer manifestação que ela cria ser contra a Bíblia; no ministério da Ciência e Tecnologia, colocou um astronauta que ainda não sabe como foi ao espaço e silencia quando o presidente levanta sua voz contra a ciência; o ministério das Relações Exteriores, foi entregue a um diplomata que faz questão de colocar o Brasil fora das relações com os Estados Livres e adeptos do pensamento científico; finalmente colocou no Ministério da Saúde, um general obeso, obediente, incapaz de pensar e, dizem ser especialista em logística. Pois bem, este general, que não sabia o que é o SUS, Sistema Único de Saúde, o está destruindo, como já desmobilizou o sistema de vacinação que o SUS mantinha e era considerado, mundialmente, como dos melhores. O general da logística deixou faltar oxigênio para os pacientes, não conseguiu elaborar um plano de vacinação, não comprou as vacinas necessárias para a população. Isso nos faz temer pelo futuro, pois se está a perder o presente, a alegria de viver. O medo da morte está nos rostos dos brasileiros e nos risos dos seus dirigentes: os primeiros apavorados, os segundos, parecem extasiados. 

Nas perdas que sofremos nos últimos anos, o mundo tem sentido a perda do Carnaval, uma festa universal que assumiu, desde o início do século XX, ser a principal festa do Brasil. Mas são muitos os carnavais e de diferentes formatos embora seja mais vibrante no Rio de Janeiro, com um modelo de espetáculo, algo para ser visto e aclamado. O carnaval para os outros verem não é o único que existe naquele pedaço do Brasil. São Paulo gostou muito do estilo carioca e montou, com sucesso, as arquibancadas e a passarela. Outro carnaval é o da Bahia, que teve a ousadia de modificar a forma de tocar o frevo e seguir os trios, sem passarelas, mas com cordões protetores, excluindo no carnaval quem já é excluído o tempo todo. Mas aos poucos as cordas cedem espaço, o povo fica cada dia mais próximo do carro que leva o Trio que virou banda, e os cantores/animadores, cada vez mais altos. Pernambuco tem Maracatus de nações africanas e Maracatus de Caboclos de Lança larga para lembrar que a terra tinha dono antes dos entrudos; tem Tribos de Índios e Caboclinhos de passos rápidos que correm atrás das notas dos pífanos, e isso sem contar com as La ursa, os Ursos, e tantas troças. Recentemente, talvez por medo de perder espaços nas televisões, criaram um clube de máscaras e fantasias que saía na madrugada do sábado, mas com os recursos conseguidos, veio a tomar conta de todo o sábado, fechando o Recife para si mesmo e, acabando com o carnaval de rua no Recife na região Metropolitana; tomou para si a cidade que passou a ter um carnaval espetáculo, parecido com o Rio de Janeiro, e com os quase trios soteropolitanos. Mas, para gaudio dos orgulhosos pernambucanos, passou a ostentar título dado pelos ingleses. Aí o povo foi para Olinda, e os bairros de São José e Boa Vista perderam seu carnaval. Coisas da dinâmica da vida.

Este ano, os pernambucanos esperaram o ano inteiro, mas não se meteram na brincadeira, e a Quarta Feira ingrata ocorreu uma semana mais cedo. Publiquei na Revista do Instituto Histórico de Olinda que Recife e Olinda, desde os anos sessenta estendem o carnaval de forma que os ensaios e acertos de marcha têm início em setembro, mas este ano ficaram sem carnaval pois, dançar com a Covid 19, pode ser um convite para o fim do carnaval individual.

Não parece ser fácil viver sem o carnaval, um ritual de passagem, o verdadeiro réveillon brasileiro, pois aqui, “tudo começa depois do carnaval”, tudo que vem antes é ensaio e acerto de marcha. O ritual dá um sentido à vida, ao cotidiano, depois de tentar suprimi-lo. Sem carnaval, como será a quaresma, especialmente para os não crentes, os não religiosos? Ter-se-á que fazer uma nova explicação para as cinzas nos rostos, sem o carnaval? A não existência do carnaval está impedindo que o catador de latas de cervejas oportunize (assim se diz hoje) ao jovem endinheirado a alegria de ajuda-lo na tarefa de alimentar sua família? E o que dizer dos carregadores de gelo, os apertadores de parafusos dos palcos? A não existência do carnaval põe em risco muitas existências, mas a sua realização, neste ano, também põe em risco as existências de muitos. Assim, teremos um carnaval virtual, visto pelas telas. Os computadores serão as avenidas para os mais carnavalescos. Entretanto, os Tambores de Olinda não chegaram ao Pátio do Rosário para silenciar. Como será o silêncio do Pátio do Terço? Talvez volte a ser o silêncio do tempo mais antigo de Badia e suas companheiras da irmandade de São Cristóvão. Escuto que o homem da Meia Noite fará uma ‘live’, julgando manter a tradição, mas não poderá entregar a chave ao Cariri no Largo de Guadalupe. E o Galo, cantará na madrugada, no coreto que já foi do Leão Coroado?

A Sete de Setembro ficará silenciosa neste sábado sem o brilho azulado de Tarcísio Pereira que, não aguentou mais sofrer e foi para o gozo eterno. Não é, o 7, a perfeição, a soma da Trindade com os pontos cardeais? A barba azulada de Tarcísio ficará bem, ao lado do azul do manto de Nossa Senhora. É capaz de se confundir. De lá ele verá o Bloco subir Misericórdia ao som do frevo, e perguntará se o carregador do estandarte é São João do carneirinho. Com certeza também sorrirá ao ver o desaparecimento das barracas da Praça do Carmo e ouvirá algum Querubim dizer: Eu acho é pouco, pois inventaram tantos partidos que o terreiro da Carminha ficou pequeno.

Escrevo essas bobagens porque estou ouvindo, no fundo das minhas lembranças a orquestra nos guiando para a atravessar a ponte da Duarte Coelho e frevar no Pátio de São Pedro antes que o galináceo tmasse o Recife para si. Este ano, Nóis sofre mas nós Goza? Esta é a pergunta que nós põe o último baluarte do carnaval da Boa Vista.

Daqui eu fico pensando: sempre que começam a organizar o que o povo já organizara o povo desaparece, só ficam os catadores de latas.  

Artigo sobre Carnaval que ultrapassa 30 dias, veja o link abaixo 

https://www.academia.edu/44006285/UM_CARNAVAL_QUE_ULTRAPASSA_30_DIAS

http://www.biuvicente.com/blog/

Pandemia, humanidade, Tomaz de Aquino

domingo, novembro 15th, 2020

Ainda não vencemos o pecado social, a fome que estrutura o nosso mundo, nossos relacionamentos. Ela é a principal distinção visível entre os humanos, mas ela não é a causa das diferenças, ela é a consequência mais visível. A maioria de nós, inclusive os que a sofrem de modo mais aguda, não percebe. Vivemos um desses momentos especiais da história, quando todos os grupos sociais são obrigados a enfrentar a fragilidade da vida, com a morte batendo à porta, na do vizinho que desconhecemos e na nossa. As epidemias sempre fazem com que as doenças deixem de ser algo privado, tornam a morte um assunto diário. Nos nosso dias há muitos meios de tergiversação e a morte raramente ocorre em casa. Em casa a vemos pelo frio das ondas concentradas em aparelhos de televisão. Em nossa época a morte que nos chega é aquela distante, as próximas atinge a poucos. A epidemia do Cólera, que atingiu o Nordeste do Brasil na segunda parte do século XIX, gerou grandes mortes e a ação do Padre Mestre Ibiapina criando as Casas de Caridade, amenizadora de muitas dores naquele momento, e na grande seca de 1877. Provocou o estabelecimento externo dos cemitérios, que nos sertões foram criados por missionários e devotos como o Antonio Conselheiro. Um ataque do Cólera em finais do século XX gerou, em Pernambuco, um banho de mar pelo então governador, para garantir que havia segurança na diversão. O que nos diz essa pandemia do Coronavirus 19, o que ela nos deixará, além da enorme mortandade, ainda nos é desconhecido. Talvez o entulho gerado por hospitais pressurosamente construídos e, rapidamente desmontados quando, aparentemente já não tenham utilidade. Estamos a viver uma epidemia, talvez com maior ciência, mas nosso comportamento não difere muito do comportamento dos não pobres dos século XVII. Talvez tenhamos algum Deccameron escrito em algum desses iates que serviram de refúgio para os herdeiros do comportamento de Carlos II, o rei alegre e moderno, que recriou sua cidade. Mas, nossas cidades e comportamentos serão recriados?

A pandemia tem sido uma oportunidade de expor as vísceras morais dos governantes do mundo. Os jornais apontam que os ditadores, enclausurados nos palácios que mandaram construir ou que a eles foram levados por votos, pouca preocupação tiveram com a população, e até mesmo negaram a existência da doença e suas consequência. Houve até quem pusesse a culpa dos problemas naqueles que morreram, que não souberam lutar e vencer.

Dizem que Nero tocava flauta enquanto a cidade ardia em chamas. Se esse comportamento houvesse ocorrido apenas no lado ocidental do planeta e da cultura, como alguns gostariam, haveria mais uma razão para promover o fim da Civilização Ocidental. Parece que é uma questão da demência dos seres humanos que se recusam aprender novas lições. Por isso nesse processo de mortandade, algumas fortunas pessoais cresceram e cresceu a acumulação. Santo Tomaz de Aquino lembrava que sempre que há algo sobrando para alguém é porque está faltando algo para outro. Alguém rouba, alguém está sendo roubado. Aliás, lê-se nos jornais do dia da eleição para vereadores, que mais de 10 mil candidatos estão recebendo auxílio emergencial para os que perderam empregos por conta da pandemia. Que mudanças advirão das ações desses futuros vereadores?

Nesta semana que passou, o presidente do Brasil reagiu negativamente à sugestão de desapropriar as terras florestais que sofreram os incêndios, ao grito de que “em nosso país a propriedade privada é sagrada”. Faz questão de esquecer que as terras queimadas são propriedade coletiva e, no fundo ele as quer privatizar, matando os animais, as árvores e destruindo os espaços das comunidades indígenas. O presidente nem percebe que a legislação brasileira já permite essa ação, nas terras usadas para o cultivo de drogas e que, neste país, a propriedade deve ter uma função social, seguindo a sabedoria de Tomaz de Aquino.

Hoje é dia de Santo Alberto Magno, professor de Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja e Protetor da Ciência. Estudou Ciências Naturais em Pádua e, renunciou um episcopado para fazer o que mais gostava: lecionar.