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Por que a surpresa?

quinta-feira, junho 10th, 2021

Há sempre que parecer surpresa, ou temos que parecer surpresos ao ler nos jornais que, em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos da América, descobriram que os americanos mais ricos, aqueles que estão entre os cinco mais ricos do mundo, estão entre os que menos pagam impostos naquele país. Essa surpresa, trazida pela pesquisa, adveio do recente debate sobre a taxação das grandes fortunas, debate que vem sendo evitado para que, o mau humor dos homens ricos, não afetem as finanças do país. A querela do imposto sobre as grandes fortunas foi levantada naquele país pelo atual presidente, mas ela vem ocorrendo na Europa já há algum tempo. Soubemos que, ao aumentar o imposto sobre os mais ricos, a França assistiu alguns de seus cidadãos, artistas que dizem ser mais sensíveis aos dramas humanos, migrarem seu endereço fiscal para a Rússia, onde tais fortunas estão protegidas, e eles possam guardar a fortuna que não poderão gastar em duas ou três gerações.

São os mais ricos os que mais usufruem dos benefícios gerados pela sociedade; os trabalhadores que contam os centavos no final de cada mês, buscando fazer que o seu salário coincida com os gastos necessários para a sua sobrevivência, não são beneficiados pela proteção policial, pelos avanços da medicina e da tecnologia; quando seus filhos se perdem não recebem a assistência que os filhos dos ricos recebem com o aparato de bombeiros, salva-vidas, helicópteros para os trazerem de volta para casa com segurança após alguma traquinagem elegante, como subir o Himalaia; os pobres, mas não apenas eles, pois os de classe média que se julgam ricos também, passam a vida vendo como os ricos gastam suas férias em praias paradisíacas. Os mais pobres não podem pagar advogados e técnicos de classe média que os orientem para encontrar falhas do sistema tributário, falhas que são postas quase de propósito, no intuito de enganar a Estado. Os ricos sabem dessas leis, pois eles é que financiam as campanhas de futuros legisladores, os fazedores de leis “falhadas”. O Estado é o seu Estado; relutantemente eles permitem que algumas das conquistas da humanidade estejam ao alcance de todos, ou de um número maior do que seus conhecidos. Afinal, se esses benefícios estiveram ao alcance de todos, qual a vantagem de ser rico? Ser rico é ter riqueza que já não se pode contar, e isso só é possível com a construção da pobreza, da miséria. Não são as fortunas que são construídas, é a pobreza e a miséria que são cultivadas, diligentemente, para que apenas alguns possam ter acesso aos bens que o trabalho de todos produziu. E para isso que alguns constroem exércitos, recrutando os famintos, em troca de migalhas, para que defendam aquilo que deixou de ser da comunidade, e agora pertence a bem poucos. Durante séculos os monarcas tornaram-se protetores de si mesmos ao convencerem os demais que os protegia dos que punham em risco o poder. As narrativas nos mostram como alguns amantes do poder convenceram outros amantes do poder, mas com menor sucesso e, juntos, impuseram o medo aos demais; ao mesmo tempo oferecem a possibilidade de um pedaço de poder aos que se dispuserem a defender a causa do monarca. E esse estratagema tem dado certo, e vem passando de geração em geração.

E nos surpreendemos, ainda, de que os ricos roubem a sociedade.

Mas sabemos bem que as pandemias são oportunidades para fazer crescer as fortunas e os infortúnios. Lá eles fazem pesquisas julgando que a ética protestante vença o espírito do capitalismo; aqui fazem-se CPI, para que os famosos do momento mostrem as suas habilidades de dissimulação e submissão ao que lhe oferece a riqueza ou a sensação de ser diferente, mais afortunado, dos demais.  

Como justificativa para a continuidade da pobreza, há quem cite “pobres sempre os tereis”, frase dita melancolicamente pelo Filho do Homem. Essa frase, parece-me, é um lamento (Mc. 14:6ss). Ele entendeu que o desejo de ajuntar coisas é mais cultivado, pelos homens e mulheres, do que o desejo de ajudar pessoas. Entendo ser um lamento porque, em outro momento, eis que o Ele disse a um jovem rico que procurava ser justo e digno: Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres. A narrativa diz que o jovem rico ficou triste pois tinha muitos bens. (MT. 19:16-22) O jovem entendeu que ele deveria ser pobre, ser livre dos muitos bens que tinha. Como deixar a razão de seu viver, como deixar de ter seguidores prontos a cuidar de suas botas? Essa história que é narrada por Mateus, vem depois da narração que Mateus, antigo cobrador de impostos, faz para dizer que Jesus pagava imposto o imposto devido (Mt. 17:23-26). O imposto é o que se recolhe de indivíduos para garantir que todos tenham os bens produzidos por todos.

O imposto deveria ser para que o lamento “pobres sempre tereis” possa ser superado, mas os ricos, os que se apoderam de tudo, também ficam com o imposto que não pagam e roubam o imposto dos que pagam.

E ainda nos surpreendemos que os ricos roubem da sociedade.

Severino (Biu) Vicente da Silva