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Desnaturalizar ou atacar? Um pequeno comentário

domingo, junho 13th, 2021

Severino Vicente da Silva[1]

Ao buscar textos a serem utilizados em suas aulas, o professor de história busca os historiadores para leitura e indicação aos futuros professores, buscando atualizá-los, no que pode, com as pesquisas em seu campo de magistério. Assim é encontrei, para serem utilizados nas próximas disciplinas que irei lecionar no curso de História da UFPE, encontrei a bela coleção organizada pelos historiadores pernambucanos Marcília Gama da Silva e Thiago Nunes, Pernambuco na Mira do Golpe, publicada pela Editora Fi, do Rio Grande do Sul, em 2021. Obra de fôlego, em três volumes com artigos importantes e necessários de serem lidos e estudados pelos que desejam esclarecer e conhecer, na medida do possível, os atos e as intenções daqueles que viveram e protagonizaram aqueles tempos difíceis, os tempos da ditadura militar, que tanto limitou Pernambuco nos mais diversos campos sociais, políticos, econômicos e culturais.

O primeiro volume dessa bela coletânea, é dedicado à Educação, Arte-cultura e Religião. Neste volume encontrei o artigo Amigo ou inimigo: Dom Hélder Pessoa Câmara e os primeiros anos da ditadura militar (1964-1966) escrito pelo historiador Márcio André Martins de Moraes. Chamou-me atenção o título e o objetivo que levou o historiador a escrevê-lo, e que está explicitado já na primeira frase: “No decorrer deste capítulo, dedicaremos nossos esforços a desnaturalizar uma visão de que Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil, 1964 a 1985.” [490]

Achei interessante que o historiador não pretende compreender a atuação do arcebispo nos primeiros momentos de seu ministério na diocese que lhe foi confiada, mas, parece, já tem um objetivo claro antes de iniciar sua pesquisa e quer prová-la, e para isso vai aos documentos. Não procura os documentos para perguntar o que eles dizem, mas procura aqueles que dizem o que deseja. Creio haver aí um desentendimento metodológico, uma vez que devem ser perguntas a orientar o trabalho do historiador que é, de certa forma, um investigador. Claro que há hipóteses que devem orientar a busca dos documentos e a sua leitura, mas o investigador não prejulga as fontes e o objeto de suas pesquisas, parece-me.

Mas de onde é que vem essa informação de que se naturalizou a ideia de que “Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil”, uma vez que não se apresenta ao leitor nenhum documento que dê cabimento a tal afirmação? Contra que demônios está lutando o nosso historiador? Será que o nosso historiador esqueceu de ler artigo publicado por José Comblin, no livro Dom Hélder Pastor e Profeta, publicado em 1983, pela Editora Paulinas, por Maria Bernarda Potrick? Eu o cito em minha obra Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife, publicado em co-edição da Editora Universitária-UFPE e Reviva, no ano de 2006 e segunda edição em 2014. Naquele artigo, o padre e sociólogo José Comblin, após dizer que Dom Hélder Câmara foi uma dos primeiros que tomaram posição aberta para denunciar os abusos e a falsidade interna do sistema, diz que após ter estimulado uma política de colaboração com o regime, o arcebispo teve que modificar as mentalidades do episcopado e da Igreja, para adaptá-los a uma política de confronto e separação. Não há naturalização da postura “amiga” de Dom Hélder em relação ao seu comportamento nos dois primeiros anos à frente da Arquidiocese. Ao contrário, há uma visão crítica e sem preconceitos.

Como bem notou o autor do referido artigo, a separação clara ocorreu no desentendimento de Dom Hélder com o general Muricy, relatado muito bem por Kenneth Serbin, no seu Diálogos nas sombras. Lá está dito, também, que a amizade entre os dois era antiga, tendo Dom Hélder oficiado o casamento do general, mas essa amizade pessoal, antiga e nunca negada pelo arcebispo, não o impediu de agir conforme eram as exigências de sua consciência como bispo e como ser humano comprometido com a verdade. Por outro lado, sempre é bom lembrar que Dom Hélder não participou daquele Diálogo nas Sombras, uma conversa entre membros da hierarquia católica e alguns generais, como o Muricy, que estavam na reserva. O general Muricy estava em busca de resolver a tensão que entre o regime e a Igreja, especialmente aquele grupo mais aguerrido, cuja referência era Dom Hélder Câmara.

Em suma, este pequeno artigo tem o interesse de esclarecer que, embora em conversas de barbearia há quem julgue que Dom Hélder sempre foi contra o sistema, no campo historiográfico já existem obras com visão crítica, mas sem prejulgamentos, sobre o comportamento do arcebispo de Olinda e Recife nos tempos difíceis da ditadura militar.

SILVA, Marcília Gama da Silva; SOARES, Thiago Nunes. (organizadores).

Pernambuco na Mira do Golpe. Volume 1. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021.

POTRICK, Maria Bernarda. Dom Hélder Pastor e Profeta. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.

SERBIN, Kenneth. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura militar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.      

SILVA, Severino Vicente da Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife.  Recife: Editora Universitária UFPE: Edições REVIVA, 2014.


[1] Professor Associado na Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de História. Doutor em História do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco. Sócio da Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina – CEHILA; Membro do Instituto Histórico de Olinda – IHO. ORCID 000000189111409.

Dia do Índio? Dia do povo brasileiro?

domingo, abril 19th, 2020

Pois então estamos no 19 de abril, data que foi estabelecida como o Dia do Índio, para que não fosse esquecido o aniversário de Getúlio Vargas, sempre comemorado com festas durante a ditadura que muitos querem esquecer para manter limpo o nome de suas famílias; mas é também dito como o Dia do Exército, pois que o ligaram desde sempre à Batalha do Monte Guararapes, em Jaboatão, Pernambuco. A vitória que teve a participação de índios, negros, mestiços e alguns brancos contra os holandeses, é vista como sendo simbólico da formação de um Brasil múltiplo em tradições de povos e culturas, por isso a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes anuncia em placas nas entradas da cidade “aqui nasceu a pátria”.

E o dia começou com a leitura de três amigos da rede de amizade virtual. O primeiro deles fala do exército. Não é um artigo escrito, mas um depoimento da historiadora Marcília Gama sobre uma instituição, criada no tempo em que Getúlio Vargas, ainda não criara a ditadura, mas a preparava: o Departamento de Ordem Pública e Segurança – DOPS. O golpe do Estado Novo e a ditadura que se seguiu só foram possíveis com o apoio do exército. O DOPS, órgão do Estado, praticamente avançou sobre todo o século XX, marcado pela presença do ditador que veio dos Pampas. Deslindar os caminhos do DOPS em Pernambuco foi a grande tarefa que se impôs Marcília Gama, a quem entrevistei em meu programa (https://www.youtube.com/watch?v=PncnwzhtRc ) da Rádio Universitária AM, atualmente Rádio Paulo Freire. Quando a entrevistei, Marcília acabara de alcançar o Mestrado em história, e fazia suas pesquisas, auxiliando a desanuviar as sombras que escondiam as ações dos agentes do Estado, em guerra constante contra o povo, embora dissesse que era contra o comunismo. Devemos ter em mente que os ditadores nunca defendem o Estado, defendem o seu estado social, os seus interesses pessoais e, o DOPS e toda a rede na qual era partícipe, esconde e confunde. Muito feliz de começar o dia ouvindo Marcília Gama, nessa entrevista que ela concedeu a projeto da Universidade Federal Rural de Pernambuco, trazendo novos olhares de historiadores sobre a ditadura de 1964-1985, tempo de domínio das Forças Armadas, Exército à frente.

A segunda leitura foi mais amena, um texto de Marcelo Cavalcanti anunciando que virá uma página com o título Atrevido com Estilo, com textos sobre o Recife dos anos sessenta, o que pode ser uma nostalgia ou depoimentos de quem viveu uma época em que, para alguns, o mundo era apenas o que era originário dos centros culturais, e ainda não se oferecia a oportunidade para o surgimento da cultura brasileira. Neste texto ele narra como foi vivido um São João entre casas de família abastada, uma passagem rápida pelo povo que dançava xote e termina em um banco de praça. Vai ser um percurso interessante, verificar se houve realmente esse engajamento com a cultura do povo brasileiro, que não sabia falar inglês e curtia os Beatles nas letras de Nazareno de Brito e outros. Os bens aquinhoados sempre estudaram inglês e cuidavam de debochar dos que ouviam Golden Boy e Renato e seus Blue Caps.

E terminando o começo da manhã, li o belo texto de Lula Eurico, o “burgomestre” do Arruado da Várzea, incrustado na Universidade Federal de Pernambuco, um resto do Caminho que ligava o Recife ao Engenho do Meio e o Engenho de São João, aquele que era de João Fernandes Vieira. Pois que Lula Eurico lembra, em sua crônica deste dia, que deve ter havido uma festa no engenho, nos dias seguintes à Vitória dos pernambucanos sobre os holandeses. Ele menciona que, embora os grandes beneficiários da vitória houvessem sido os proprietários, jamais deve ser esquecido que o sangue ali derramado saiu dos corpos de índios, negros, mulatos, que têm sua representação nas figuras de Felipe Camarão e Henrique Dias, André Vidal de Negreiros. Esses são muito esquecidos na historiografia e, nas aulas de história, são palavras que saem automaticamente e sem maiores comentários dos professores. É por isso são desconhecidos, que sabemos tão pouco sobre os que derramam o sangue na construção da vida do Brasil, e sabemos mais dos que saboreiam os resultados que os enriquecem. Quando não falamos sobre o povo, comum que faz a história com o seu sangue e suor, terminamos apenas por curtir as cervejas e vinhos e migalhas que caem da mesa dos construtores e mantenedores da história organizada pelos que fizeram os muitos DOPS desse país.

Dois Livros e um cuscuz

sábado, setembro 13th, 2014

Manhã do sábado 13 de setembro, madrugada com pequena chuva mais forte que o orvalho molhou a grama e deixou marca no cimento frente à casa. Na cozinha, no preparo do cuscuz, os gestos de minhas mãos umedecendo o fubá, lembram as mãos de minha mãe. Os gestos corriqueiros transportam nossa alma pra as esferas mais distantes e próximas da alma.

Sábado 13 de setembro o livro Informação, Repressão e Memória, escrito por Marcília Gama da Silva, atualmente professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, publicado pela Editora da UFPE, aponta os meandros nos quais fui envolvido, como prisioneiro nos tempos da ditadura militar. Sua leitura traz o tempo de volta, os muitos tempos guardados na minha memória, inclusive os gestos de minha mãe. Estando no Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano, Marcília organizou e refletiu sobre o que foi salvo dos arquivos do DOPS em Pernambuco e, a partir desse olhar meticuloso ele refez o processo de criação e de ação dessa parte do sistema autoritário militar que foi estabelecido no Brasil desde 1964.

Como toda vez que abrimos um livro é a primeira que o abrimos, serão feitas muitas leituras da leitura posta por Marcília. Para além da organização burocrática, ali podemos intuir homens e sua formação: aquele aparato foi criado não apenas em 1964, mas antes, como está demonstrado na arqueologia que leva à criação da Escola Superior de Guerra, nem foi unicamente pelos militares, mas por toda a sociedade que moldou aqueles agentes em sua juventude, ainda quando não eram soldados ou policiais. Apesar de a tortura ter sido realizada nos porões e espaços escuros, a repressão ocorreu ao ar livre de com muita gente sendo informada. Quando estava organizando os arquivo, uma vez Marcília mostrou-me algumas fotos, lá estava eu, ora na rua, ora em alguma manisfetação, ora entrando em um cinema. Eles foram tiradas sem minha permissão: eu estava sendo acompanhado, vigiado. Assim, como eu muitos cidadãos foram marcados pela burocracia do Estado, pelas sombras. O livro de Marília nos mostra as faces sem nome desses agentes, não daqueles que estavam nas ruas bisbilhotando a vida, mas dos que liam, cruzavam as informações e decidiam quem deveria ser mais olhado. Também mostra os discursos dos justificadores da rede de informação, mas não apenas dos grandes, também do torturador comum, que se expõe naturalmente em seus depoimentos pois que acreditava na justeza de suas ações. Os estudantes e pesquisadores do período encontrarão parte do caminho já aplainado graças aos estudos de Marcília Gama da Silva. Leitura obrigatória.

Também importante o livro de Grazielle Rodrigues “Fernando de Noronha e os ventos da Guerra Fria”, resultado de seus estudos para a obtenção do grau de Mestre em História. Afastando-se da visão comum da Ilha como paraíso para as férias, Grazielle optou entender o papel-função desempenhado pelo arquipélago na trama da Segunda Guerra Mundial, nos interesses estratégicos para os aliados e das vantagens alcançadas pelo governo brasileiro no jogo internacional das guerras. Publicado pela Editora Universitária da UFPE, estudantes de história e amantes da história do Brasil e de Pernambuco em particular, devem investir seu tempo nessa leitura esclarecedora.

Essas leituras são como os gestos das mãos em preparar o cuscuz, revolve o fubá para deixa-lo úmido o suficiente, temperado com o sal, e então colocá-lo no recipiente adequado para o cozimento. Faz-se o cuscuz do conhecimento.

Biu VIcente