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São João, do Carneirinho à decapitação

quinta-feira, junho 24th, 2021

A festa dedicada a São João está passando. A tradição conta que os fogos e traques diversos são uma maneira de acordar o santo para que ele não perca a festa. Assim é que foram criados o Acorda Povo, para que todos cheguem a tempo para a festa, inclusive o santo que era atento aos “sinais do tempo” e anunciava que um tempo novo estava chegando, um tempo que ele não sabia como seria, pois que o futuro não é para os profetas dizerem, os profetas explicam os acontecimentos, notam quando um modelo já foi vencido pelo tempo e, a humanidade carece de viver novos tempos. Conta a tradição que, quando estava na prisão, ele procura saber, do profeta que anunciou, se agora começava o tempo que ele anunciava, se ainda deviam esperar outro. A resposta veio como um enigma, de acordo com os relatos de Mateus e Lucas (7:22-23): Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. 23 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

Este foi mais um ano em que a festa da fecundidade da terra não foi celebrada, especialmente no Nordeste do Brasil, onde a louvação a São João do Carneirinho (papai gostava dessa especialmente) coincide com a Festa do Milho, a sua colheita, acompanhada com muitas iguarias que eram feitas coletivamente nas famílias, um ritual que começava desde a manhã, desde a descasca do milho, sua limpeza, ralamento, preparo e cozinhamento de pamonhas e canjicas. Estavam envolvidas crianças, que tomavam para si as ‘bonecas de milhos’ e as colocavam em pequenas camas feitas com as palhas rejeitadas para as pamonhas. Enquanto isso o milho era raspado para depois ser lavado e dele tirar o leite necessário para a pamonha e a canjica. Enquanto preparavam o fogo, outros cuidavam de armar a fogueira que chamaria todos à noite, para conversas, compromissos, advinhas. Tudo em louvor da vida, em busca de saber sobre o amor e o futuro. A festa de São João é um louvor à criação e continuidade da vida. Mas, agora já são dois anos sem a festa, sem os folguedos, as brincadeiras. Neste tempo temos que encontrar outras maneiras de celebrar a vida, pois que se anuncia um novo tempo, um tempo, talvez, mais isolado, com menor vida comunitária. Parece que estamos sendo empurrados para viver em nossas cavernas com temor de alguns aspectos da natureza que nos são adversos. Foi assim antes da invenção do modo de fazer fogo. Com o fogo por ele criado, o homem venceu o medo, embora não o tenha destruído. O medo parece ser um motivador para a superação de etapas no movimento de humanização.

Vivemos, agora, muitos medos: medo de que não possamos deter os que pretendem esvaziar e destruir nosso esforço para viver democraticamente; medo de descobrir que nosso desejo de “tortura nunca mais” não foi o suficiente, nem em nosso país nem nos outros, de para impedir que os apologetas dessa prática hedionda da humanidade reaparecesse tão vigorosamente; medo de que a ciência que inventamos não tenha sido uma aliada mais decisiva nesse processo de humanização, pois que, por ser neutra, permite todos os tipos humanos dela se aproximarem, a seduzam e a utilizem para manter e fortalecer o medo para tomar os nossos destinos.

A mais longa epidemia vivida pela humanidade, expõe nossa fraqueza, nossa imprudência. Somos uma sociedade imprudente, pois demoramos a pôr fim à escravidão como maneira de produção econômica e a tornamos como forma de relacionamento social, daí a vitória dos torturadores entre nós. São João do Carneirinho, se tornou o São João pregador no deserto e anunciador de novo tempo, sofreu a tortura da prisão (um dos autoenganos de nossa sociedade é pensar que a tortura é só a física e que torturador é apenas aquele que está na sessão de pancadaria) e finalmente a decapitação. Mas nunca se deixou dominar pelo medo, embora a pergunta que mandou fazer nos mostra que por um instante temeu ter-se equivocado. Deve ter compreendido        que para superar o medo é necessário continuar a fazer com que  os cegos vejam, os coxos andem, os leprosos sejam purificados, os surdos ouçam, os mortos ressuscitem e aos pobres anuncie-se o evangelho.

 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

Chuvas, Covid e Vida

sexta-feira, fevereiro 26th, 2021

A noite foi chuvosa, a maré estava alta e resultou em alagamentos nas ruas, impedindo muito a chegarem em suas atividades externas cotidianas. As chuvas causam sempre apreensão nas cidades do Grande Recife, embora sejam esperadas pelo alento que trazem para que a sensação térmica torne o dia mais agradável. Nem sempre a brisa marinha, ventilação natural, consegue satisfazer o desejo de bem estar. Mas as chuvas lançam perguntas mais amplas sobre os que moram nas ruas, apenas com a proteção das marquises e o temor de gente malvada que insiste em tornar a vida pior do que ela é.

A chuva forte da noite nos chega quando, em um só dia, morrem atingidos pela Covid19, mais de um mil e quinhentas pessoas que, somadas aos que morreram nos últimos doze meses, no Brasil, somam um quarto de milhão de pessoas. É uma meta que parece ainda não agradar ainda ao presidente da República que usa seu tempo para dizer que o uso da máscara para proteção não tem dado resultado e, por tal razão deve ser negligenciada. Talvez não haja chuva para limpar as bobagens ditas pelo personagem que melhor exemplifica este início do século XXI, um resultado do cultivo da vontade individuais sobre as responsabilidades sociais que vem garantindo a frágil permanência do homem neste planeta.

Este século tem sido a soma da desimportância da vida humana explicitada nas ações das duas guerras mundiais do século passado, nas torturas praticadas pelas ditaduras latino-americanas da segunda metade do século, nas guerras tribais africanas, resultantes da desastrosa maneira utilizada pelas potências europeias quando ocuparam o continente com a ‘missão’ de civilizá-la. Até que se imaginava que a experiência dos fascismos levaria a uma mudança do comportamento humano, debalde. O otimismo que parecia crescer com as promessas da Declaração Universal dos Direitos Humanos, viu-se limitado pela dificuldade em realiza-los, de reconhecer a mulher, a criança, os idosos, os negros, como iguais aos que sempre comandaram o poder. Um último suspiro parece ter sido as revoltas jovens dos anos sessenta em Paris e em Woodstock. Mas o massacre, esquecido, dos universitários do México e o desastre do provocado pelos Rolling Stones e Charles Manson, em 1969. Então veio o pessimismo junto com aperfeiçoamento nas técnicas e formas de comunicação do vazio existencial. E o fim da Guerra do Vietnam, das ditaduras americanas, a vitória dos sandinistas foram incapazes de trazer alento a uma juventude que já tinha tudo resolvido e passou a viver a juventude da geração anterior. Ninguém mais afirmava nada, começou-se a pensar no futuro do pretérito. Todos querem ser o super-homem, aquele que sozinho tudo resolve; perdeu-se, em alguma esquina do tempo, a solidariedade, a prática mutirão. Por isso o poeta disse que “ainda vivemos como os nossos pais”, como os nossos ancestrais?

Desde então vale a “lei de Gérson”, aquela que diz que se deve levar vantagem em tudo. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. O século XXI tem esse tom tribal, pois o globo, como disse Marshall Mcluhan, virou uma aldeia, mas é uma aldeia formada por muitas aldeias e, em cada uma delas uma tribo. As redes de comunicação nos confirmam que quanto mais falamos que existe o “outro”, menos o vemos. Somos Narcisos obcecados, como provamos neste último ano. E, no entanto, venceremos o vírus, como nossos antepassados venceram combates semelhantes, mas venceríamos mais velozmente e com mais beleza, menos tristeza, se estivéssemos agindo com um pouquinho de solidariedade.

Os mais ricos, sempre soubemos, jamais enxergaram e enxergarão além de suas posses. Tem sido assim desde que temos relatos das pandemias dos tempos modernos. Mas venceremos esse desafio com o trabalho coletivo dos cientistas, dos médicos e médicas, das enfermeiras e dos enfermeiros, dos maqueiros, dos auxiliares de limpeza dos hospitais, dos coveiros e de todos que arriscam suas vidas para salvar a vida dos demais. Dos poderosos, das vacas de Bazan, sempre os ouviremos dizer que “a vida é assim mesmo”, enquanto seguem o que ou quem lhes dá sensação de poder e vida.  

 Cantemos com o bardo:

A vida não é só isso que se vê, é um pouco mais que os olhos não conseguem perceber, as mão não ousam tocar, os pés recusam pisar. ….

O País da Coconha

sábado, janeiro 16th, 2021

Quinze dias se passaram desde que o ano de 2021 teve início. Quando ocorreu o mágico momento em o ponteiro que marca os segundos, eram muitos os pensamentos positivos e as preces que pediam, aos muitos deuses e deusas, um ano melhor do que aquele que estava finando. 2020, ao finar-se deixava uma marca triste no número de finados, de pessoas que deixaram de ser, que passaram a ser lembranças, para os que lhes conheciam e, com eles, dividiram parte de seu tempo e, é quase certo, sonharam alguns sonhos, tendo alguns deles sido materializados. Mas, os mais otimistas entendiam que haveria muitas repetições das dores que a peste traz.

As alegrias, sabemos, são pequenas flores que aparecem nos jardins, em uma brava luta contra o que se convencionou chamar de erva daninha. Elas são sempre em número maior que as flores de nosso agrado. Aliás as flores que nos alegram quando olhamos nos  jardins, só o fazem porque nos dedicamos a elas. Muita gente é feliz sem saber, ou pensar, que o que lhes traz felicidade é resultado de seus esforços. Também os sofrimentos. Fala-se que o Conselheiro Acácio costumava dizer que “as consequência chegam depois”. Assim sendo, as dores de 2020 e dos anos que seguiremos, são resultantes da ação de cuidarmos das flores ou deixarmos crescer as ervas daninhas. O que dói é admitir que se existem esses sofrimentos, esses acontecimentos indesejáveis que nos molestam hoje, eles foram cultivados, foram desejados, de alguma forma, nos anos anteriores.

O ‘País da Coconha’ quem não o deseja? Os brasileiros, talvez mais que qualquer outro povo o deseja, até mesmo mais do que aqueles que o inventaram, o imaginaram. Pintores europeus mostraram esses sonhos, os representaram com lavradores deitados na relva, e em êxtase viam as galinhas já greladas vindo na direção de sua boca para satisfazer seu apetite. Os lavradores sonhavam isso, pois viam isso ser vivido pela nobreza que, não trabalhando na terra, recebiam os alimentos em suas mesas tendo, no máximo, de fazer o esforço de leva-los à boca para o supremo trabalho de mover as mandíbulas e, com a língua, empurrar o alimento para o estômago.

O que parece é que os vieram da Europa para formar o Brasil trouxeram em sua mente o País da Cocanha e uma certa Visão do Paraíso, julgaram ter encontrado o lugar da benção inicial, e pensaram e agiram como se na Cocanha tivessem chegado. Não, eles não eram nobres, os que vieram para o Brasil, era gente que se enobreceu na guerra de conquista do litoral africano e em algumas regiões da Ásia, então criaram para si o que julgavam ser o mito. Para tal passaram a explorar, sistematicamente, os habitantes da terra e, mandaram buscar, no outro lado do Atlântico, gente para substituir os nativos. Começara o processo de substituição de tecnologia para a produção e, desde então, isso é pago com o preço do atraso. Daí, quando não mais puderam ficar com Portugal lhes tomando parte do que lhes cabia, promoveram a ‘separação’ e desde então não se envergonham de dizer que estão “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”.

Com mesma tranquilidade de sempre, seus descendentes continuam fazendo pouco caso das mortes dos que produzem a riqueza para que eles se empanturrem de comida e bebida. Daí o descaso com que tratam a pandemia Covid 19, colocando a economia acima da vida dos trabalhadores. Se fizeram isso com os nativos escravizados, com africanos escravizados, continuaram a fazer com os moradores arrendatários, e o fazem atualmente com os motoristas e cobradores de ônibus, com os frentistas, com os empregados e empregadas domésticas, com os entregadores de comida pronta, com os comerciários. Animados pelos novos godos, os comerciantes e industriais exigiram, continuam exigindo, que as atividades econômicas não parem, para que seus lucros não cessem. Talvez até estejam fazendo cálculos para saber qual o ganho da Previdência Social com a morte dos mais velhos. Só eles podem envelhecer, ainda que vilmente.

Mas estamos no final da primeira quinzena do mês de janeiro, o mês daquela deusa que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, que só percebemos quando presente. Enquanto ele não existe é apenas desejo.

Os habitantes de Coconha não formam uma nação, pois uma nação é formada por pessoas que se juntam para realizar o sonho comum e o fazem solidariamente, mesmo quando  não em igualdade total. Uma sociedade na qual apenas uma parte tem acesso aos bens criados por todos, uma sociedade que se comporta como Siris na Lata, uma sociedade que não admite o mínimo de solidariedade e reconhecimento do outro, jamais será uma nação: será sempre um grupo de exploradores que cultiva o egoísmo, que aceita negar a dor do outro. Coconha é uma sociedade de necrófilos, de genocidas. O Paraíso, mesmo para os exploradores é um inferno, como disse um cronista dos tempos em que Portugal explorava essa região do globo: o Brasil é o paraíso dos mulatos, o purgatório dos brancos e o inferno dos negros. Por isso temos Manaus. Vocês sabem, Manaus era uma nação indígena suprimida pelos sonhadores de Coconha.

Continuamos assim, neste início do século XXI. Vemos que os que estão no poder de Coconha carregam inveja dos mulatos; continuam a tornar um inferno a vida dos negros, mas jamais sentem-se no paraíso, que continua sendo uma Visão, como dizia aquele historiador respeitável. Mas é um paraíso que jamais será alcançado pois eles tudo farão para tornar a vida de todos um inferno, criando dificuldades as mais diversas, inclusive para o acesso à vacina. Mas isso não os fará felizes, seu líder continua desejando uma praia. Em outros países que também vivem da exploração de seus compatriotas, mas que se esforçam para ser uma nação, os líderes cuidam para que o seu cotidiano sofrido não seja definido como inferno. É que eles não sonham com Coconha.

Drama 18 – Hiroshima, Xingu e Casaldáliga

quinta-feira, agosto 6th, 2020

É madrugada do dia 6 de agosto, setenta e cinco anos depois da explosão de uma bomba sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Naquela manhã cerca de 80.000 pessoas morreram imediatamente após a passagem do Enola Gay. Três dias depois, o Bocks’Car lançou outra bomba sobre Nagasaki, e 40.000 pessoas tiveram o mesmo destino. Assim terminava a Guerra do Pacífico e tinha início a Era Atômica, uma era na qual todos os habitantes da terra podem ser evaporados instantaneamente, as civilizações destruídas, pois elas só existem se os homens existirem. Neste 6 de agosto, um vírus que parece ter chegado no Brasil no final do ano 2019, provocou a morte de 90.000 pessoas e, ao término do mês de agosto, possivelmente terá matado cerca de 120.000 brasileiros. Não foram mortas instantâneas, como as que ocorreram no final do Império Japonês, forçando o imperador admitir         que não era uma divindade. As divindades morrem quando expostas ao público, perdem suas forças quando deixam de ser mistério. Ao longo da jornada, os homens tiveram muitos deuses e ainda os têm, mas eles perdem com a racionalidade das bombas. As bombas são racionais, os deuses, seus crentes e os vírus não o são.

No  começo dessa madrugada, um historiador lembra-me que em 1960, “pela primeira vez, em toda a história do Brasil, um candidato da oposição ganhou uma eleição para a chefia do executivo”, seu nome era Jânio Quadros, governou com minoria no Parlamento, pois quatro quintos dos parlamentares estavam ligados à eterna situação que governa o Brasil desde sua fundação: a defesa da propriedade da terra para si. Esses parlamentares ficaram bastante surpresos quando, por decreto, Jânio Quadros criou, em 14 de abril de 1961, o Parque do Xingu, a primeira demarcação de terras indígenas da história republicana. Foi uma mexida na tradicional política de controle de terras. Um dos grandes sucessos do carnaval de 1961 foi uma marchinha que dizia: “eu não quer colar, índio quer apito”, uma mostra de como a questão era de conhecimento geral.  Começava um novo tipo de barulho. Em agosto o presidente disse que não suportava as pressões de “forças ocultas” e renunciou. Então, quarenta anos depois, a floresta amazônica arde em chamas, o Pantanal arde em chamas, terras indígenas demarcadas são invadidas, motosserras são acionadas e o chefe do executivo nacional tenta passar uma lei que proíbe fornecer água potável, atendimento médico aos índios atingidos pelo vírus que tem matado mais pessoas que as bombas sobre o Japão. A racionalidade de Truman, que o levou à decisão de jogar à bomba sobre o Japão para pôr fim ao conflito, ainda que isso promovesse tantas mortes, é semelhante à decisão do presidente do Brasil a negar água e atendimento à saúde aos índios: é uma questão de gasto, uma questão econômica.

É essa racionalidade econômica que tem impedido a expansão do saneamento básico: fornecimento de água, recolhimento de lixo e esgoto, para todo o país, para toda a população. Nota-se que o vírus Corona 19 mata mais nos lugares onde não há a oferta e uso desses bens sociais, embora sejam as pessoas que moram nesses locais, os que trabalham e vivem pelo pão diário. Os que sempre estão governando fazem com que seja sempre baixo o pagamento do trabalhador. O mesmo arrocho salarial que vem sendo posto aos trabalhadores brasileiros desde sempre, vem se confirmando com a aprovação das atuais reformas econômicas e sociais, sempre em detrimento do trabalhador, pois a razão sempre aponta que o sucesso é o acúmulo de renda, é ser participante dos clubes dos 20, dos 15, dos 9, dos 5, dependendo do grupo que represente, em determinado momento, o interesse dos que sempre governam.

6 de agosto de 2020, o número de mortes pela Covid 19, no Brasil, ultrapassará 95.000.

Enquanto isso, está vivendo seus últimos dias o primeiro bispo da Prelazia do Alto Xingu, Dom Pedro Casaldáliga, morre de uma vida gasta na defesa dos mais pobres, dos brasileiros roubados de seus direitos básicos.

PS. Historiador Jorge Caldeira, História da Riqueza no Brasil; Haroldo Lobo é o autor da marchinha Índio quer apito.

Drama 14 – Não consigo respirar

domingo, junho 28th, 2020

“Não consigo Respirar”, Uma frase simples, dita por um homem simples, prostrado em uma rua, quando estava sendo sufocado pela pressão de um joelho, com o rosto preso ao asfalto. Por não poder respirar, morreu. O fato ocorreu durante uma pandemia que está a matar milhões em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos da América do Norte, onde o fato ocorreu. É a pandemia do vírus Corona, uma nova versão do Corona que percorreu mundo duas vezes neste século, que foi apelidada de Covid -19, ataca os pulmões, dificultando a respiração daquele que foi tocado por esse invisível companheiro que pode leva à morte. Um policial não é um vírus, mas, se não for bem treinado e educado moralmente, pode deixar parte da população sem respirar, temerosa de sua ação. Algumas pessoas só conseguem entender a possibilidade da morte quando ela chega bem próxima, mas para os mais ricos e os que, em nosso tempo, podem pagar os médicos e os remédios por eles ministrados, a morte é uma visita rara, assim como é a visita da polícia. Aliás, quando a polícia tem que interferir em suas vidas, ela deve seguir tantos protocolos, que é quase impossível que lhes toquem. E se o fizerem, terão outros policiais ao seu encalço. Assim é o mundo no qual vivemos, especialmente em nossa República; nela o presidente interfere em todos os níveis para garantir que a sua prole e a sua riqueza tornem-se intangíveis. Tal situação não ocorre com as populações pobres, do mundo inteiro, elas suspendem a respiração quando um policial se aproxima. A partir daí tudo fica incerto.

No Brasil da Pandemia do Covid -19. Já morreram mais de cinquenta mil pessoas. Pobres e ricas, mas sabemos que os mais pobres mortos são em números bem maiores que o número dos ricos que morreram. Aos pobres falta assistência médica, moram em lugares onde não chega água, não tem escola para todos os meninos, meninas, rapazes, moças. Os médicos não chegam aos ambulatórios que por ventura existam nesses lugares. Afinal não estudaram seis ou sete anos para subir morros ou ir viver em cidades do interior do Brasil que não possuem internet, nem bares ou boates elegantes. Não foi para isso que eles gastaram os anos de sua juventude frequentando universidade pública, paga pelos impostos tirados exatamente do trabalho dessas pessoas que moram nesses lugares distantes da “civilização”. Não, sem esses confortos esses médicos não poderão respirar, como se prova por sua ausência no que costumo chamar de Brasil Profundo, repetindo o que aprendi de Jarbas Maciel, um dos meus mais queridos professores.

Como o Covid -19 atinge os pulmões, este ano não houve a queima das fogueiras em homenagem aos santos Antônio, João e Pedro. As moças não precisam mais de Santo Antônio para encontrar um marido (será que alguém ainda quer?) pois algum aplicativo apontará alguém para o próximo (?) final de semana. Tivemos menos fumaça, não houve fogos para acordar São João do Carneirinho, e este ano não se fizera compadres e comadres de fogueira. Hoje, as viúvas não acenderam fogueira ao seu protetor, São Pedro, hoje mais conhecido como primeiro papa. Sim, São Pedro intercedeu a jesus por sua sogra, uma mulher sem companheiro que lhe protegesse. Com a Previdência Social, esperava-se que as viúvas tivessem mais proteção do estado, dependessem menos de suas orações a São Pedro, mas neste Brasil, viúva garantida, só se for de militar, que não tem filha para casar, pois se casar perde os cuidados que o Estado deveria conceder às viúvas dos trabalhadores mortos em serviço ou, depois do trabalho se encontrarem algum policial brigado com o chefe, com a mulher ou de cota atrasada com a milícia. O jornal O Globo de hoje (28/06) informa que o número de mortos pela polícia cresceu 26% durante a pandemia. Talvez os policiais estejam esperando um comenda encomendada pela família presidencial.

Ao contar 50.000 mortos pelo Covid 19, o presidente do Brasil convidou um sanfoneiro limitado para uma Ave Maria, querendo homenagear os mortos. Foi seu primeiro suspiro de solidariedade. O sanfoneiro era limitado, cantava mal e Nossa Senhora ouviu porque ela é a Mãe da Misericórdia. E precisamos dela como Advogada nossa contra o mal que atinge o Brasil a partir dos palácios e casernas.  

Tiradentes, civismo, Covid 19

terça-feira, abril 21st, 2020

Esta é uma data muito interessante: 21 de abril, definida como feriado nacional, em homenagem à memória de José Joaquim da Silva Xavier, mais conhecido entre os brasileiros como Tiradentes. Este personagem é apresentado como símbolo e comportamento a ser seguido pelos cidadãos brasileiros. Tiradentes participou de uma tentativa de revolta contra a dominação de Portugal no Brasil, ocorrida nas Minas Gerais, terminada em 1789. A tentativa de revolta foi frustrada porque participantes da conspiração, em busca de vantagens pessoais,  procuraram o Governador das Gerais e denunciaram o que era propensão de ser feito. Assim foi frustrada a chamada Inconfidência Mineira. O título mostra que os envolvidos na conspiração foram vistos como pessoas que não mereceram a confiança do Império português. Eram muitos participantes dos grupos da elite local e dos intermediários: padres, advogados, funcionários do Estado, militares, comerciantes,  donos de lavras de ouro, conforme pode ser comprovado na leitura dos documentos que formam a devassa. Entretanto apenas o alfares, que antes havia sido tropeiro, que exercia a função de barbeiro e também exercia a função de arrancar dentes, recebeu a pena de morte como castigo, uma morte que deveria servir de exemplo para evitar novas tentativas de rebelião. Os demais conseguiram, se não o perdão pela inconfidência, a exclusão da morte por traição. Uns foram exilados para as colônias africanas, outros pagaram em dinheiro o direito de manter a sua vida, pois todos solicitaram perdão à piedosa e clemente rainha Dona Maria I que, clemente e piedosamente, definiu a execução de Tiradentes, o desmembramento e exposição dos pedaços do seu corpo ao longo da estrada que liga o Rio de Janeiro a Minas Gerais, em abril de 1789.

O desconhecido alferes, pequeno comerciante sem sucesso, parece ter sido leitor da Constituição dos Estados Unidos da América e propagador, pelos lugares onde passava, das ideias de liberdade aprendidas com a experiência bem sucedida de Jefferson, Washington e outros fazendeiros e comerciantes.

O cultivo da imagem de Tiradentes foi crescendo ao longo do Império governado por Pedro II e, principalmente na República, tempo em que o exército passou a ser um dos principais protagonistas da história do Brasil. Evidente que foi durante a ditadura civil-militar iniciada em 1964 que o culto a Tiradentes cresceu sobremaneira, e sua imagem chegou a ser deformada de modo a parecer com a tradicional imagem de Jesus Cristo.

Mas me tornei admirador de Tiradentes antes de 1964, pois fui apresentado a ele na escola primária e secundária, antes dos meus quatorze anos. Os primeiros anos escolares são fundamentais para a formação do espírito cívico, pois quando vem a adolescência já é tempo de contestação à autoridade de maneira geral. Mas creio que o esforço de tornar Tiradentes uma figura sem defeito, o que ocorreu durante os governos ditatoriais, criou um sentimento de aversão ao civismo e seus símbolos. É que se mostrava o herói tão a favor do status quo que se esquecia que ele foi herói exatamente por não aceitar o status quo.  Quanto mais se impunha o civismo obtuso dos coronéis nas escolas, desde a pré- escola até a pós- graduação, mais afastaram as gerações desse sentimento tão necessário à vida social. Uma parte dos jovens se afastava desse falso civismo por desconfiar de tudo que vinha dos ditadores, e outra parte, não aprendeu ser cívica, por que aceitava, de maneira superficial, o civismo que lhes era pedido: uma obediência bovina, laudatória e não crítica. Perdeu-se o sentido do civismo, pois, a muitos pareceu que o civismo era o servilismo ao poder militar. Naquele período da ditadura os símbolos nacionais foram apropriados pelo que havia de mais triste em nossa sociedade: a Bandeira, o Hino Nacional pareciam ser apenas daqueles que cantavam “prá frente Brasil, salve a seleção” , ou dos que possuíam carro para colocar o adesivo “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Fugia-se das aulas de Moral e Cívica mais do que das aulas de religião. Aliás, foram as aulas de religião que, em grande parte, salvaram um bom número de estudantes do falso civismo imposto pelos militares. Durante a ditadura aquelas aulas foram antídotos ao vírus da subserviência, hoje alguns professores a querem como catecismo, e os catecismos emburrecem. Essa disposição  de rejeição ao civismo, parece acontecer agora, quando muitos jovens recusam o Verde Amarelo, pois ele foi apropriado pelos que confundem o Brasil com os limites de suas fazendas, dos seus carros e clubes sociais, esses que se irritam quando encontram algum outsider nos aeroportos e navios de recreio. Foi nesse percurso que Tiradentes foi perdendo o charme e encanto, tornando-se um feriado, um dia para não ir à escola, não ir ao trabalho e passear na praia.

Neste ano, o feriado de Tiradentes  será passado, por muitos em suas casas. Os brasileiros mais pobres, os que moram em barracos, terão que ir para fora logo que acordarem, pois neles não cabem tanta gente em movimento simultaneamente. Podemos aproveitar a oportunidade para pensar sobre o significado cívico desse distanciamento social exigido para diminuir o número de brasileiros mortos pelo Covid 19.

Foi por todos os brasileiros que José Joaquim da Silva Xavier assumiu a responsabilidade da fracassada Inconfidência Mineira (assim ensinam os livros didáticos, mas eu sempre prefiro usar Conjuração Mineira) enquanto os engravatados juntavam parte de suas fortunas para comprar o perdão do Estado que os exploravam, fortuna que acumularam explorando os demais habitantes das Gerais.