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Matuto e matutos

sexta-feira, julho 2nd, 2021

MATUTO E MATUTOS

Severino Vicente da Silva

Nos anos finais do século passado frequentei algumas regiões do “interior” de Pernambuco, o Sertão, aquela parte geográfica do país mais distante do litoral, pude compreender certos mitos, verdades aparentes que me foram ensinadas nas salas de aulas e nas ruas, e que foram absorvidas, com algum preconceito, a respeito do Sertão e o seu modo de viver. Frequentando a região e conhecendo algumas franjas do viver das pessoas, aprendi coisas novas, de modo que o Sertão ficou sendo também a minha terra, fui me tornando sertanejo. Como cresci quase cheirando o mar, tudo que não era do litoral era-me estranho. Convidado para ir dividir com jovens sequiosos de saber o que havia aprendido ao longo de minha vida, nos bancos escolares e em outros lugares, a ida ao Sertão deu-me oportunidade de lenta e quase inconscientemente, compreender que havia aprendido pouco. O que não quer dizer que o Sertão sabe tudo, mas a experiência de ter vivido lá alguns finais de semana, foi valiosa para entender novos caminhos. Eu já estivera em outros lugares além das ruas do Recife, a cidade que me desafiou a viver do magistério. Cresci vendo enchentes do rio que desce desde o Agreste para criar uma ilha em cooperação com o Oceano Atlântico, e ainda outra com um rio matuto; cresci no Recife sentindo o vento solto de agosto, fazendo levantar as saias da moças nas esquinas dos prédios levantados à beira do rio, zombando das palafitas formadoras das favelas fluviais; acompanhei as chuvas que serrilham o barro dos morros ocupados corajosamente por uma gente que, como minha família, chegou da Mata; tudo isso era o meu mundo, e me fez.

E quando voei para longe, fui por cima, tão alto e tão rápido que pouco aprendi no trajeto, mas a surpresa da vida com objetos e pessoas tão distintas que lá encontrei encantou-me. Encantados não aprendem, embora o encantamento inicial pode vir a ser um dos caminhos do aprendizado. Viver com o encantador nos põe em contato com seus segredos e, podemos alcançar suas fragilidades.

Hoje observo que houve um tempo que eu não, queria ser matuto, desgostava-me que assim me vissem. Viver no Recife é aprender a não ser matuto. Matuto, diz o dicionário, “é aquele que demonstra timidez, retraimento, desconfiança”; do matuto também se diz que é “indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social; caipira, roceiro, jeca”[i].  Ser matuto é ser descriminado negativamente.

Engraçado é que houve um momento em que uma Junta de Matutos, afastou do governo Gervásio Pires Ferreira, revolucionário de 1817, escolhido na Convenção de Beberibe (1821) para governar Pernambuco, primeira região livre do domínio dos portugueses.[ii] Quem e o que eram esses “matutos”, será que a sua ação aprofundou, ou criou, esse sentimento nos recifenses?

Aqueles Matutos eram senhores de engenho, membros das tradicionais famílias Albuquerque e Cavalcanti, a quem se atribui os maiores feitos da história pernambucana. Após terem participado de conspirações e revoltas contra o poder colonial em 1801, e mesmo em 1817, eles foram seduzidos pelos projetos de José Bonifácio de Andrade e Silva, cuja carreira política se fez sob a proteção dos Bragança. Ao Regente uniram-se após o Sete de setembro de 1822, o regente de Dom João, aqui deixado para evitar que aventureiros se apossassem das terras conquistadas pelos lusitanos. Então, os Matutos, os donos de terra e escravos, abandonaram os ideais de Frei Miguelinho, padre João Ribeiro, Padre Tenório. Mais tarde derrotaram a Confederação do Equador, que levou Frei Caneca ao arcabuzamento anônimo, pois os recifenses, livres ou escravos a quem prometiam liberdade, recusaram colocar as cordas no pescoço do patriota recifense. Não quiseram ficar como os “Matutos”.  Mas não se manda se não se tem a quem mandar.

Por crescer no Recife, sendo matuto de Carpina, retirante para o litoral, aprendi a não gostar de matutos, tornei-me recifense. Os do Recife, sem saberem, refazem a historiografia silenciosamente, enquanto o historiador oficial conta a vitória dos Matutos e, procura entender porque sua história é tão rica, mas fica perdida na bagaceira.

Neste período de celebração de dois séculos da independência de Pernambuco, há que se lembrar que houve uma disputa interna na elite, sendo uma parte mais enamorada dos ideais republicanos e de autonomia em relação ao Rio de Janeiro e à Lisboa, e outra parte mais próxima do projeto dos Bragança, sob a liderança de José Bonifácio, apoiada nos setores mais conservadores e monárquicos, pois a monarquia lhes servia mais. Entre 1821 e 1825 houve muita troca de lugares na política, para finalmente os Matutos, senhores dos engenhos da Zona da Mata, continuarem a cavalgar a Província. O professor Marcus Carvalho nos lembra que se pode dizer

 com razoável segurança que 1824 não foi uma aventura republicana pura e simples, mas uma radicalização desesperada, o desdobramento trágico das tentativas de tomar o poder feitas pelas facções das elites que não queriam se aliar ao projeto centralista e autoritário vindo do Rio e que, por alguns meses, chegaram a preferir a manutenção do status de reino unido, desde que dentro do modelo federalista e constitucional adotado, por algum tempo, pelas cortes a partir de 1820.[iii]

Hoje sei que não devo colocar, juntar, no mesmo espaço social, os que formaram a Junta dos Matutos e os matutos que vieram a formar as residências que ocupam os morros da Macaxeira, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Córrego do Euclides, Beberibe e os becos do Arruda. Afinal são Dois Séculos no qual assistimos os dois matutos: um que é Cavalcanti e sua parentela, o outro que é o cavalgado. Por outro lado, compreendo que são duzentos anos de reclamações dos cavalgadores em relação às esporas e freios que lhes são postos desde que, para garantir a limpeza de suas botas, aceitaram por medo de uma haiatização, o café sempre servido sem açúcar.


[i] https://www.google.com.br/search?q=matuto+significado&sxsrf=ALeKk02kQR31dIE56D4vCyn89MmqF9mJXw%3A1625139690208&source=hp&ei=6qndYOCwCtS85OUPw4KiwAo&iflsig=AINFCbYAAAAAYN23-poUJFBYITiB1RkOIcN-BbCJdZLu&oq=matuto&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAEYATIFCAAQsQMyAggAMgIIADICCC4yAgguMggILhDHARCvATIICC4QxwEQrwEyAggAMgIIADICCC46BAgjECc6CAguELEDEIMBOgUILhCxA1CgR1i_S2C_dmgAcAB4AIABkwSIAdYMkgEJMi0xLjEuMC4ymAEAoAEBqgEHZ3dzLXdpeg&sclient=gws-wiz. Visto em 1º/07/21.

[ii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014

[iii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014