AS GUERRAS , AS RELIGIÕES E AS PERDAS

abril 19th, 2022

As guerras, as religiões e as perdas.

Prof. Severino Vicente da Silva

Desde fevereiro os meios de comunicação estão a nos fornecer informações e comentários sobre o conflito que, no final daquele mês, tornou explícito o conflito entre a Federação Russa e o Ucrânia. Buscam explicações próximas e distantes para o conflito. Então muitos souberam que Kiev é anterior à Moscou, mas desde então os tártaros e outros povos dominaram a região, e entre um massacre e outro das populações, foi sendo formado o Império Russo e, depois, a União das Repúblicas Soviéticas que, dissolvida antes do século XXI começar, deu origem à Federação Russa. Ao mesmo tempo, várias repúblicas que formavam a URSS, recuperaram, ou conseguiram a independência. Entretanto, a nostalgia da unidade na diversidade socialista que parecia existir no tempo ‘centralismo democrático’, filho que se rebelara contra o Pai Czar, permaneceu. E tem a contenda cultural permanente entre o Ocidente e o Oriente, militarizada na Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN e o finado Pacto de Varsóvia, enterrado com os tijolos do Muro de Berlim. Continuando Viva, a OTAN é um pesadelo permanente para Vladmir Putin, agente da KGB e atual centro do poder na Federação Russa. Putin teme que seus vizinhos, antigos membros da URSS no tempo em que ele era um agente secreto que assistiu a queda do Muro. Aproveitando a inapetência democrática dos que governavam a Rússia nos anos subsequente à dissolução da segunda potência mundial, Eis que Putin aparece como o restaurador da Rússia e, sem surpresa é aceito como líder permanente, aquiescendo às múltiplas modificações no corpo da Constituição da Federação Russa. Putin tem contrato até 2036. Bem tendo iniciado a invasão da Ucrânia, apelidada de Operação Especial, desapareceram dos noticiários: a permanente imigração de povos africanos e árabes para a Europa; o conflito entre palestinos e israelenses; a guerra no Yemen; o governo do Taliban no Afeganistão; e outros ‘pequenos’ conflitos como a ação dos Jihadistas em Moçambique, a crise humanitária da Venezuela, os assassinatos de mulheres no mundo inteiro, etc. 

Não tem sido fácil a vida dos líderes religiosos que se levantam contra guerras nos dias atuais. Atualmente os líderes do catolicismo romano têm assumido posturas claras contra a guerra, e isso está causando tanto reboliço quanto a simpatia de Pio XII pela Alemanha hitlerista. Um bispo da Igreja Ortodoxa Católica admoestou o papa Francisco dizendo que não se pode colocar na via sacra russos e ucranianos para rezar juntos. O Patriarca Kiril da Igreja Ortodoxa Russa tornou apoio claro seu apoio às ações de Putin e, como ele, põe a responsabilidade no Ocidente. O Conselho Mundial das Igrejas deverá decidir até o final do ano se a Igreja Ortodoxa Russa continuará a fazer parte desse Conselho. As relações históricas que as religiões mantiveram com os governantes tornou um vício essa aproximação, de tal forma que os líderes devem trabalhar muito para que os seguidores de sua fé entendam o que realmente significa paz. O nacionalismo religioso é um caminho largo e asfaltado para as guerras, hoje como foram no passado. Mas é preciso estarmos atentos, vigilantes para não seguirmos pela fácil estrada das guerras como solução, pois elas são criadoras de novos problemas. Um deles é o vício de sangue para aplacar o medo provocando terror.

Outro debate que desapareceu desde fevereiro é a questão da natureza. Cuidar do clima, dizem os senhores da guerra, só depois de destruirmos o inimigo. Eles são o inimigo, mas não precisam ser destruídos, vamos tentar educa-los, mesmo que eles continuem matando.

Só para lembrar os cristãos: seu conceito melhora muito quando cuidam dos pobres, das viúvas, dos órfãos, dos desamparados, dos perseguidos. Perdem sempre quando se envolvem com guerras, ainda que ganhem.         

Frei Henrique Soares, de Cabrália ao Corcovado

abril 7th, 2022

FREI HENRIQUE SOARES, DE CABRÁLIA AO CORCOVADO

Prof. Severino Vicente da Silva.

Dedicado ao Padre Tiago Torlby

E então ficamos surpreendidos por acontecimento aparentemente comum, no Brasil, desde que Frei Henrique Soares, em rápida passagem nessas terras, então, recentemente descobertas, celebrou a missa na Páscoa do ano 1500, na presença do representante do rei de Portugal. Ali estava exposta a aliança que se formara desde a vitória de Afonso Henriques sobre as pretensões dos outros iberos. Tão antiga quanto a Sé de Braga, é essa união entre a Coroa e a Mitra. Essa união tem sido mantida através dos séculos lusitanos e, por extensão aos brasileiros que, neste ano deveriam estar celebrando a separação política de Portugal. Mas, tendo ocorrido a separação dos reinos de Brasil e Portugal, não existiu a separação do Trono e a Mitra. Coroado por um bispo, no espaço de uma igreja, o novel imperador manteve o Padroado e, dessa forma o seu poder sobre o bispo que abençoava e punha a coroa em sua cabeça. Como Pedro Álvares Cabral, o imperador participou da missa e do Te Deum. Nada disso impediu que fosse expulso do trono, pelos súditos, em Sete de Abril de 1831. A historiografia serviçal iniciada pelo Visconde de Porto Seguro nos fez aprender e decorar a expressão “abdicação em favor de seu filho”.

Outro Te Deum e outra missa foi assistida pelo adolescente que passa a ser o segundo imperador do Brasil em 1840. Assim começava o Segundo Império, de Pedro Álvares a Pedro de Alcântara Orleans e Bragança. E seguiu até o golpe que inaugurou a República e com ela, a separação da Estado com a Mitra. Entretanto, logo foram entabuladas conversações entre a República, representada por Rui Barbosa que traduzira um livro adverso à Igreja, e Dom Macedo Costa, bispo que amargara a prisão por ordem do Imperador. Ambos entendiam que a República não poderia dispensar os serviços da Igreja, doutrina que embasou a construção de uma neo-cristandade que buscou a cristalização nos anos de 1930. Escolhendo um evento para marcar esta nova cristandade, podemos tomar o 12 de outubro de 1931, quando foi inaugurado o Cristo Redentor, no morro do Corcovado, com a presença do Ditador Getúlio Vargas ao lado do Cardeal Sebastião Leme. Não houve o Te Deum naquele dia, mas se manteve a tradição que atravessou o Atlântico, os séculos e os regimes: a cooperação do Estado e a Igreja para manter a união estabelecida nos acordos de 1822.

Em boa parte do século XX, os cardeais e os bispos julgaram que poderiam manter a aliança com o Estado, silenciando sobre os excessos das ditaduras, e os pequenos espaços temporais de liberdades democráticas; e poucos se deram conta que o povo brasileiro estava mudando, como o mundo, pois a sociedade viu-se obrigada a considerar a chegada da parte invisível do povo, um povo mais preto, mais mulato, mais pardo, mais indígena, explicitando outras crenças, outras formas de falar de Deus, outros deuses. Era um Povo Novo, como ensinava Darcy Ribeiro; um Povo Novo traz consigo problemas diferentes e novos, e este Povo Novo chega desejando outras soluções que não fosse a submissão aos tradicionais Donos do Poder, no linguajar de Raimundo Faoro.

Os novos problemas e possíveis soluções são percebidos apenas por uma minoria, mas essa percepção racha a sociedade, como ocorreu na tentativa de evitar a emergência do novo, em 1964, e que estabeleceu uma nova ditadura até 1985. E entre as muitas ações realizadas e vistas no período, assistimos a corrida de líderes religiosos das múltiplas religiões para alcançar o prêmio de ser protagonista da novíssima cristandade. E foi grande a concorrência entre algumas lideranças das ditas igrejas cristãs. Apenas uma minoria dos religiosos não mais queria a apoiar-se ou sentar-se na cadeira ao lado da do “ditador de plantão”, como bem definiu Carlos Imperial. Os ditadores gostam dos obedientes, deixam que levem algumas vantagens, desde que colaborem efetivamente a manter a unidade do Estado. Os mais cooperativos receberam maiores prebendas, mais espaço nas ondas de rádio, de televisão, ampliando os púlpitos e arrecadação de dízimo. Afinal o crescimento populacional também ampliou o número dos “sempre os tereis”, esses que precisam da constante caridade para que o mundo não se renove.  

No mundo plural, a novíssima cristandade não se faz apenas com uma igreja ou religião. A pluralidade religiosa exige múltiplos acordos, aqueles que primeiro se aproximam do Trono e colaboram com maior eficácia com o poder, são melhor aquinhoados com os nacos de poder que sobram. Os que continuaram a sentir-se imprescindíveis ao poderoso do momento, ficaram esperando serem chamados para agir. Depois perceberam que estavam fora do jogo por “serem mornos”. A série apresentada na NETFLIX, com o título SINTONIA, mostra a vida de três jovens no mundo da droga violência e religião, os evangélicos estão presenes mas não há menção ao catolicismo. Embora a série apresente jovens paulistas, pode ser que tenha ocorrido caso semelhante no Rio de Janeiro. A Igreja Católica perdeu espaços peela aderência de uma prática bem sucedida no passado, uma adesão ao mundo que não quer mudar. Pode ser que os cardeais recentes pensassem que poderiam imitar Dom Leme. Na ‘Revolução de 1930’, o presidente Washington Luiz recusava entregar o governo e ameaçava matar-se, então os generais mandaram chamar o cardeal Leme que conversou com o presidente, e este aceitou a saída honrosa do exílio. Esse movimento resultou na inauguração do Cristo Redentor do Corcovado, um sonho da princesa Isabel.

Parece que o atual cardeal não percebeu que os tempo mudaram e o Estado tem mais escolhas para fazer alianças com aqueles que desejem. O militares de pijamas que governam o país atualmente jamais perdoaram as ações de Bispos como Dom Hipólito, Dom Valdyr Calheiros, Dom Arns, Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldaglia, Dom José Maria Pires, e outros que se direcionaram ao novo, ao novo tempo, ao Povo Novo que desejava e deseja uma nova sociedade na qual não sejam tratados como lixo. Por não perdoarem essa novo mudo de ser Igreja, os apijamados deixaram, de maneira geral, os cristãos católicos fora dos acordos para manter as antigas e carcomidas estruturas que mantém a maior parte do povo escravizado pela impossibilidade de atender suas necessidades básicas e procuram reanimação nos templos que vendem ‘os céus’ enquanto lhe tomam as terras. Talvez tenha sido a solidão vivida no palácio de São Joaquim, longe do poder e distane do povo, que levou o cardeal Dom Orani Tempesta a celebrar uma missa – Te Deum seria um exagero maior – para o atual presidente, família, agregados e ministros, aos pés do Cristo Redentor do Corcovado, na esperança de ser redimido pelo ‘ditador’, ou melhor, pelo plantonista servidor da elite herdeira dos escravocratas. Talvez Frei Henrique de Soares seja desses personagens permanentes da história do Brasil.

SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

março 22nd, 2022

SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

Prof. Severino Vicente da Silva 

Quase trinta dias do mês de março e a guerra, uma das muitas que atualmente estão ocorrendo no planeta, explicitada pelo ataque da Rússia à sua vizinha Ucrânia, continua sem perspectiva de fim, exceto quando se tornar semelhante a Canudos, defendida por velhos e crianças. No final, vencerá o que está melhor armado. A questão é que quando o relato de Canudos apareceu de maneira mais ordenada, já não havia mais a população no local para ser testemunha, o que não é o caso atual. Contudo, quase um século depois, quando o exército chegou a governar o Brasil em uma ditadura, a presença de Canudos ainda era tão forte que foi necessário afogar o defunto que, ainda vive. Talvez ocorra isso com a Ucrânia, derrotada militarmente, destruída fisicamente em sua estrutura, tornar-se-á viva simbolicamente. Os sertanejos que criaram o Brasil foram dizimados no sertão bahiano e, contudo, Édipo jamais teve paz.

Na década de setenta, um grupo de padres sociólogos, historiadores e teólogos, criaram uma Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, deveria ser um organismo eclesiástico, pois que os teólogos achavam que a Igreja havia feito a opção pelos pobres, contudo, ocorria uma virada e, o papado que se iniciava apontava para um período de conservadorismo e reação, acompanhando o processo político então vivido na América Latina, com as ditaduras que vinham sendo criadas e incentivadas desde 1964, então a CEHILA foi criada como uma instituição laica, escapando, destarte, do controle eclesiástico. Assim foi possível uma trajetória de repensar a participação da Igreja Católica no processo de formação da América Latina. Essa ação foi fundamental para a compreensão da Igreja e o papel por ela desempenhado desde a Conquista e colonização; mas também veio a revelar-se importantíssima para mudanças na historiografia da região. Quando as universidades não ultrapassam os espaços da repetição, a história mostra, a sociedade aponta os caminhos que os acadêmicos depois tomam, no sentido de andar neles e no de tornar a coisa como sendo criação deles.

Naquele mesmo período, sob a regência de David Rockfeller, setores capitalistas viviam o sonho da Trilateral, uma comissão supra nacional que apontaria os rumos políticos do mundo sob a batuta dos Estados Unidos da América, Alemanha e Japão. Era secretário dessa Trilateral, o ainda jovem Jimmy Carter, que veio a ser presidente dos EUA e, um dos responsáveis pela desarticulação das ditaduras criadas por seus interesses duas décadas antes.

Enquanto o tempo girava, Eduardo Hoornaert, um dos fundadores da CEHILA, sonhava e realizava, com uma pequena equipe (Paulo Tannuci, Ir. Adélia, Frei Domingos Sávio, Biu Vicente), uma Cehila-Popular, uma estrada para escapar do vicio de pesar sobre o povo, deve-se favorecer o povo pensar, sobre si e sobre a elite que o domina. Por atuar na Cehila-Popular, não sem dificuldade, pude ser membro da CEHILA-Brasil e da Cehila-Latino-americana. Entre os muitos trabalhos que realizamos juntos na Cehila-Popular, houve aqueles que envolveram violeiros improvisadores, desde Sergipe até o Ceará. Fazíamos encontros para nos contar histórias, acrescendo nosso conhecimento com as trocas de saberes. Conversávamos sobre os temas de afloram a partir do Rio São Francisco, dos Sertões e das cidades de cada um. Também conversávamos sobre a relação que sempre existem entre qualquer arruado e a grande política que os arruados desconhecem. Contávamos e aprendíamos a história do Brasil, as histórias dos brasis; a história do mundo e as histórias dos mundos. A Comissão Trilateral entrou em uma dessas conversas, e olhando o mapa, sim havia mapas, veio a pergunta: e a China, onde entra nessa história? Eduardo tomou a conversa e mostrou que na tradição cristã, os reis vieram do Oriente trouxeram presentes e depois não mais ouvimos falar deles. Mas a primeira tradição do cristianismo voltava-se para o Oriente, lembrava que a expressão que se usava é que as pessoas devem “se orientar”; é voltados para o Oriente que formamos os pontos cardeais. Depois aprendemos que as especiarias chegavam do Oriente para a Europa pela Rota da Seda, iniciada na China e, pela mesma rota, mais tarde pela rota dos oceanos, as especiarias foram pagas com o ouro e prata retirada das Américas.

A Comissão Trilateral não pretendia “Orientar-se”, mas sua meta era que todos olhassem para o norte. Nortear-se é um hábito que veio a ser criado recentemente, coisa do século XX. Foi no século XIX que a China deixou de ser o centro, o Império do Meio. Entretanto, mesmo quando a Inglaterra tinha o seu imenso Império, a joia da Coroa era o Oriente. O auge da Era Vitoriana foi a coroação de Vitória como Imperatriz da Índia.

Neste mês de março, no dia em que começa o outono, penso que assisto a parte final do fracasso da Comissão Trilateral, enquanto a tendência política parece confirmar que se torna explícito: Orientar-se será o verbo das próximas décadas.

A Cehila-Popular realizou um trabalho educacional muito interessante, além de, também produzir artigos hoje utilizados por um ou outro acadêmico, como que seguindo os passos da CEHILA-Brasil e Latino-americana. O esforço para refutar a CEHILA pode ser visto no esforço do historiador Jacobina Lacombe ter escrito um livro para criticar, aqui no sentido de falar mal, da obra de Eduardo Hoornaert. Soube do livro de Lacombe, pois uma influente historiadora de renome local, deu-me cópia do livro com riso nos lábios: “vê o que estão dizendo da obra dos teus historiadores”. Agora percebo que, desnorteada, ela precisava orientar-se para os novos tempos, esses que deploram as ações do Barão do Jeremoabo.

Em torno do aniversário de Olinda e Recife

março 12th, 2022

Em torno do aniversário de Olinda e Recife

Prof. Severino Vicente da Silva

Então é mais uma aniversário de duas cidades vizinhas, Olinda e Recife. Algumas pessoas dizem que são irmãs e outras falam da relação materno-filial. Ambas recebem uma iluminação especial do sol, uma concentração de luz que, segundo dizem, é a alegria dos fotógrafos. Que seja. Olinda, disse um poeta, é um lugar de desejo, nem mesmo lá se mora, lá, diz ele, é onde se vê. E o que se vê desde as colinas que formam a cidade primeira, é o Recife. Um olindense maldoso, daqueles que carregam o pesar de Olinda não ser mais a capital, dirá que se vê “o aterro”, as terras que foram criadas e tomadas do mar, dos mangues, do rio.

Essas duas cidades são possuídas por rios, sumidos ao longo do tempo em que os homens e mulheres criaram as cidades. Alguns rios sumiram e, vez por outra aparecem e, como outras cidades, ocupam as ruas que os sufocaram. Assim foi com o rio Bultrins, o rio Tapado, o rio Fragoso, o rio Doce, o rio Beberibe, que vem desde Camaragibe, como resultado do abraço dos rios Paca e Araçá. Todos eles quase reduzidos a canais, quase sempre infectados com os dejetos humanos. Esses em Olinda, mas destino semelhante sofreram o rio Tijipió, o rio do Brejo, o Passarinho, o rio Parnamirim, e o famoso Capibaribe, que quase ressurge ao abraçar-se com o Beberibe, antes de lançar-se ao Oceano Atlântico.

Como tudo que é vivo, essas cidades nasceram com sangue e no sangue. A Marim dos Caetés tem seu batismo na guerra com os indígenas que carregavam esse nome. os expulsaram, perseguindo por todo o litoral, e os sobreviventes foram para o “sertão”, buscar espaços de vida. Tomado o espaço, vieram os engenhos, levantados às margens dos rios que forneciam energia e recebiam os detritos. Olinda cresceu, chamava atenção por sua riqueza, concentrada no morro onde Duarte Coelho fez moradia, ergueu uma igreja dedicada ao Salvador do Mundo, hoje catedral do segundo bispado do Brasil, desde final do século XVII. Pouco antes, a riqueza olindense chamou atenção dos comerciantes das Sete Províncias, os chamados Países Baixos, em guerra com a Espanha, que então era possuidora das terras de Portugal. Os batavos, flamengos, neerlandeses, holandeses, como queiram chama-los, incendiaram a orgulhosa cidade, pois decidiram que o Recife, que servia como porto aos produtores de açúcar moradores de Olinda, oferecia melhores possibilidades para os projetos dos comerciantes da Companhia das Índias Ocidentais. Assim, a vila de pescadores começava a sua projeção para além dos arrecifes. Um herdeiro de engenhos e usinas, entusiasmado com a beleza que viu, um dia chegou a dizer que o mundo começa no Recife. Sendo verdade, Olinda foi o vestíbulo.

Muito antes do pintor pernambucano, um alemão resolveu fazer do Recife, especialmente da ilha que fica entre os braços do rio, uma cidade renascentista. Mas, uma semana anos não foi suficiente para que o nobre alemão realizasse o seu sonho, testemunhado pelas pinturas e livros que retrataram o mundo visto por eles. Naqueles anos, porém, o Recife engalanou-se, fez-se pontes para ligar as ilhas e festas, inclusive com bois voando; como também voaram as ordens religiosas que se mudaram para a cidade de “seu Maurício”. Só os de São Bento ficaram no morro que compraram, perto do Varadouro. Um bardo mineiro, séculos depois versejou que os artistas devem estar onde o povo está. Franciscanos e carmelitas sabiam disso.

Olinda viu-se despojada, inclusive os tijolos que antes sustentavam paredes de casas ricas, e muitos serviram para a construção do Recife, cidade com vocação mercantil, local de vivenda das muitas religiões praticadas com relativa liberdade, como sentiram os jesuítas que foram expulsos, e os franciscanos comensais do alemão lembrado como holandês, amigo dos judeus e contratado pelos líderes da Igreja Reformada da Holanda.

Entretanto, as ondas da política levaram o Brasil de volta para Portugal Restaurado e, os senhores de engenho fizeram a Guerra da Restauração não desejada, e retomaram para o domínio dos lusitanos. Olinda procurou de volta o esplendor, inclusive construindo um palácio para o governador, perto do Mosteiro de São Bento, que ampliara suas propriedades na então abandonada Olinda. Contudo o Recife seguiu o curso irreversível e, os novos governadores ampliam os espaços da cidade.

No início do terceiro século veio a inevitável separação, acompanhada com fuga de governadores, prisão de bispos, discursos inflamados de autonomia republicana, mas, enfim o Recife passou a ter pelourinho para espancar escravos, e, também, a sua Câmara do Senado.

Com tempo a passar, Olinda, dizem, tornou-se um lugar “de ventos e conventos”. Mas teve um Seminário que alimentou ideias de Revolução e Liberdade, junto com padres que atuavam no Recife; depois passou a ter uma Escola de Leis. Mas o poder se esvai. Logo se mudaram o governo da Província, a sede do bispado e a Escola de Direito para o Recife. No início do quarto século as irmãs se completam: os ricos do Recife passam feriados natalinos na antiga capital, inclusive com estrada terrestre, com trens que fazem percurso pela Encruzilhada e Beberibe. O Banho de mar atrai a muitos que frequentam as praias do Carmo, Milagre, Farol.

As duas cidades festejam juntas o aniversário porque o Recife não sabe como começou, embora saiba seu lugar. Então, um recifense nascido na Paraíba, há muitos deste tipo pois o Recife sempre abraça quem o escolhe, definiu, após muitos estudos que concluíram por nenhuma data, que o 12 de março é a data de nascimento do Recife. Daí a festa de hoje, com missa celebrada pelo reitor do Seminário de Olinda, na Catedral de São Salvador do mundo, com presença do prefeito, ex-prefeita, muitos seminaristas, personalidades homenageadas, mas com pouca afluência da população. Afinal são poucas as famílias que moram no burgo fundado por Duarte Coelho que agora é, basicamente, apenas um ponto turístico, embora nas encostas do morro haja algumas moradias. Mas esta parte mais antiga, mais ‘histórica’ é cada vez menos povoada, e é para onde os governantes da cidade atraem os turistas.

Parece que naquilo que deveria ser a homilia, ouvi o reitor informar ao prefeito que serão celebradas missas em alemão. Dá a impressão de que há mais turistas alemães que católicos de fala portuguesa no Alto da Sé e frequentadores da Catedral. Mas isso é uma história que parece ter agradado ao prefeito, embora ele não saiba falar fluentemente o alemão.

Esse vazio populacional no local onde começou Olinda parece ocorrer também no Recife, aquela parte que os recifenses e turistas costumam chamar de Recife Antigo, onde se morava e eram realizados grandes comércios no tempo dos holandeses e, ainda recentemente, nos anos setenta do século passado. Mas o porto não foi modernizado a tempo, os armazéns foram perdendo suas funções, a precária chegada de marinheiros e a substituição dos estivadores por esteiras rolantes, também afastaram as prostitutas que tantas agonias traziam às esposas da classe média e de alguns ricaços que atravessavam as pontes após as 18 horas.

Como em Olinda, os prefeitos do Recife gastam parte do seu tempo e dos impostos em ‘revitalizar o Recife Antigo’ e, terminaram por matar o Recife criado ou sonhado pelo príncipe de Nassau, a ilha de Antônio Vaz ou Santo Antônio, mesmo a nova versão inaugurada nos anos quarenta e cinquenta dos novecentos. O que está a crescer são as regiões periféricas das duas cidades, seja nas construções mais populares e numerosas, os barracos nos morros, seja na ‘revitalização do rio Capibaribe, ou melhor, das suas margens, onde aparece um espigão a cada mês. Aos poucos voltou a ser interessante morar na margem do rio, embora há quem diga que já não serve para pesca, navegação. Como Olinda, o rio Capibaribe é “para os olhos”.

As pontes do Recife, como as suas praças estão lá. Os recifenses que moravam na Conde da Boa Vista foram para outros lugares, os colégios cederam seus espaços para centros de compra. Cada centro de compra é uma cidade, ou um pedaço da cidade que foi engolido. Os mascates do Recife vendem seus artigos em frente a lojas fechadas e os moradores dos sobrados não existem mais. Só os dos mocambos.

Olinda tem praias, mas não tem mais coqueiros. Uns foram derrubados pelo avanço do mar, outros pela exploração imobiliária que tomaram seus lugares, assim como os coqueiros havia desarrumado a vida dos cajueiros. Por suas praias estarem encolhidas entre o mar e concreto, são poucos os banhistas, a maior parte deles vindos da Olinda que, pode ter até um padre alemão, mas ele faz questão de falar e rezar em português. Sim, tem essa Olinda que começa pelas bandas do Guadalupe e depois de onde foram construídos os primeiros engenhos. Esse é outro aspecto que une as duas cidades, eles possuem uma parte que não é ‘histórica’, ou seja, não apresenta as casas dos senhores de engenho, pois esses, dizem os livros que eles escreveram, fizeram a história. Sim, assim com o verbo no passado.

 Mas se o presente é construído a partir do que foi passado, o passado só existe se o presente o desejar. Será que o presente de hoje deseja e quer manter vivo o passado ou quer apenas a sua preservação? Preservar algo que não faz parte da vida é simplesmente a exposição gratuita dos objetos. Talvez por isso, essas cidades tenham tantos problemas e dificuldades em manter seus sítios históricos, por negarem a historicidade vivida pelo povo que não fala alemão.

Agora, uma pergunta desse mestiço pardo, nascido em Carpina, criado no Recife e habitante de Olinda: Quando será que que o reitor do Seminário de Nossa Senhora das Graças de Olinda nos informará quando teremos uma missa em nagô na Catedral?

Águas de Março, 2022

março 1st, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Estão por chegar as águas de março, essas que põem fim ao verão. Sim, deve chover, diz a sabedoria dos que conhecem a natureza, até meados de março para que o verão não se transforme em longa estiagem, em seca, terra queimada, sem água, sem verde. Apenas o cinza da dor de não ter o que comer, pois a até a caça sumiu. O mês de março, que por muito tempo foi o início do ano, agora fica perdido como o fim do primeiro trimestre do ano, depois do carnaval, depois das primeiras chuvas, as que sempre nos lembram os limites da tecnologia diante das mudanças da natureza. Certo que a tecnologia mais moderna, essa nossa contemporânea, quase cumpriu o ordenamento de tudo conhecer e tudo dominar, mas, como o gato da fábula, escondido, usa o que não foi dito à ingênua lagartixa que até então se julgava sábia. O gato tem sempre algo a dizer, a fazer, a surpreender.

Lagartixas são capazes de subir as paredes, embora os azulejos limpos e encerados sejam armadilhas, pondo-as em situação vexatória se algum gato estiver por perto e pouco disposto a conversar. Mas se observarmos os gatos quando eles pegam uma lagartixa, barata ou rato, veremos bem que eles não caçam esses animais para sua alimentação, e sim para o seu divertimento. Gatos esses companheiros milenares dos homens, que alguns vezes foram alçados à condição de divindade e outras vezes em emissários das maldades, são a natureza deles adaptados à natureza dos homens, que os domesticaram, sem mesmo saberem porquê. Antigos egípcios perceberam que esses animais protegiam os grãos contra os indomesticáveis ratos; depois verificou-se que eles faziam companhia, em troca de alimento, e serviam para dar e receber carinhos. Amigos dos velhos, especialmente das velhas solitárias e abandonadas por todos os seus relacionamentos, foram vistos como mensageiros do mal, um mal que viria dessas mulheres, acusadas de trazerem sofrimentos, após terem sofrido tanto. Os gatos, mais recentemente, passaram a ser sinônimos de beleza, de delicadeza. A imaginação feminina, capturada pelos que se apossaram das descobertas freudianas para vender produtos de maneira imperceptível, via nesses moços bonitos, a promessa de carinho e dedicação que um gato promete. Mas os gatos jamais foram totalmente domesticados, sempre que podem saem da casa onde vivem, perambulam algum tempo pela vizinhança, e voltam rosnando baixinho, roçando carinhosamente as pernas, na quase certeza de que mãos descerão para os alçar ao colo e, com satisfação lhes alimentar. Logo as redes sociais estarão espalhando a notícia: ele voltou, o boêmio voltou novamente.

Uma vez estabelecidos, os gatos não gostam de que outros gatos ou animais se aproximem do espaço que foi conquistado. Gatos são capazes de lutar com cães e, se necessário para seus fins, podem atacar os humanos. Os humanos também fazem isso, despem os movimentos persuasivos e carinhosos pelo arreganho dos dentes e a exposição do corpo tenso, pronto para o ataque. Quando atacam, nem podemos nos lembrar como eram carinhosos seus movimentos. O ataque de um gato pode deixar feridas permanentes, especialmente porque não se esperava que um dia, esse animal tão fofinhos, viessem assemelhar-se a um dragão. Talvez se esperasse, mas nunca se tem noção do quando seria feito o ataque.

As Águas de Março foram, no Rio de Janeiro, surpreendidas pelas águas que sempre chegam em fevereiro, mas, como é de se esperar, os que dirigem aquele Estado, não apenas o deste momento, não consideram o que a ciência diz sobre o movimento dos rios voadores, nem sobre evitar que seres humanos construam suas residências em locais não adequados, pois a natureza não estabeleceu apenas uma forma de solo. Mas nega-se a ciência e, todos os anos, vemos que morrem muitas pessoas nesse enfrentamento com a natureza, como se ainda vivêssemos nos tempos iniciais da vida humana na terra. A realização de alguns seres humanos parece estar na promoção do sofrimento e da dor em outros seres humanos. Criam-se etiquetas de comportamento que permitem a tranquilidade dos gatos a brincar com as lagartixas, flexionando as mandíbulas de maneira a que o seu brinquedo dure um pouco mais. E a brincadeira segue, a cada ano. O Gato parece saber que a lagartixa, contra todas as evidências, ainda acredita que o gato vai permitir a continuidade de sua vida. Petrópolis, Angra dos Reis, Recife e outras cidades são mostra de como lagartixas tentam escapar do gato subindo azulejos.

E no outro lado da terra, antes que o inverno se fosse de vez, mais uma invasão, mais uma resposta a uma provocação, mais mortes programadas enquanto os gatos decidem quantos vão morrer, onde vão viver até morrer. Não é de hoje que é assim, nem este é o único lugar do planeta onde se faz “jogos de guerra”, jogos que ocorrem na África, no Oriente Médio e em outros espaços habitados por gente não civilizada, de acordo com os padrões que os civilizados da eurásia definiram. Os gatos sempre definem a vida das lagartixas, elas não têm garras. Os gatos da política contratam seus cães de guerra.

Mas cães, como se sabe, também foram domesticados.  

Alguns pensamentos sobre o carnaval

fevereiro 16th, 2022

Alguns pensamentos livres sobre o carnaval

Severino Vicente da Silva

Parece não ser surpresa o quanto grande parte da população apresenta alguma frustração por não haver a permissão oficial para derramar-se no carnaval, festa que transpôs o Atlântico à época das reformas no cristianismo praticado na Europa. O que, à princípio seria um debate sobre os limites de algumas ações praticadas, permitidas e incentivadas pelo papado romano, à medida que eram explicitadas as reações os temas relacionados aos dogmas foram aparecendo e causaram mudanças nas maneiras de vivenciar a fé religiosa. Afinal, ainda que contrarie uma das teses apresentadas por Lutero em outubro de 1517, a fé sempre se apresenta em obras, sejam altruístas ou apenas para a satisfação de garantir a exposição da diferença. As reformas da religião marcaram a sociedade europeia pela afirmação das diferenças, e fortaleceram reis, estados, enquanto criavam novos modos de viver, e matavam outros.

Apesar do medo, a crer nas imagens deixadas por pintores flamengos, também havia muita diversão como pintou Bruegel, o velho, no período anterior às Guerras de Religião, período no qual homens e mulheres dedicavam-se à busca da salvação condenando o mundo. Embora os homens e mulheres do Medievo vivessem um “vale de Lágrimas”, um mundo de pestes, guerras e pecados, a vida parecia ser suportável amparada pela esperança do Paraíso. Com as Reformas, parece ter chegado uma religião que nega a possibilidade da esperança, pois tudo já está predestinado, inclusive a salvação. Entretanto, é necessário que se torne explícita a salvação já alcançada, não mais esperada; e a explicitação vem com uma maneira de viver abandonando os prazeres do mundo na certeza da alegria eterna. As brincadeiras deixam de ser importantes, os prazeres, os antigos e os descobertos recentemente em decorrência do comércio e das navegações, devem ser eliminados. Os Carnavais perdem para a Quaresma.

Mas o carnaval atravessa o Atlântico e descobre o paraíso, a Terra Sem Males. A visão da Reforma trazida pelos europeus, principalmente pelos jesuítas, foi ajustada pelos demais clérigos que serviam mais diretamente os moradores das vilas. Não se nega o pecado, mas abaixo do Equador, apenas os padres da Companhia o fazem com veemência, e depois, os pastores trazidos pelos holandeses, o percebem. Aqui parece se manter a compreensão católico-medieval, ainda que haja perseguição aos judeus e cristãos novos. Não há pecado, e, se os há, os atos de penitências e as procissões, momentos para a apresentação da inventividade de artistas locais, enriquecida com a lembrança das procissões anteriores às Teses de Lutero e as definições do Concílio de Trento. Às vezes elas são vistas como ridículas, como as que foram percebidas por Gregório de Matos. As teses luteranas e calvinistas tiveram que esperar o Regente Dom João e o Imperador Pedro II para terem presença e visibilidade social; quanto ao Concílio de Trento, só à véspera da República é que começa a ser implementado nas terras do Brasil, onde o carnaval fez morada.

As procissões e os entrudos sempre foram válvulas de escape em uma sociedade que a tudo reprimia em função dos interesses da Coroa, mas essa sociedade usou a criatividade na arte de burlar os interesses metropolitanos; foi apenas após o fim oficial da escravidão e, principalmente, a República que o carnaval tomou as ruas, lugar de expressão da liberdade. Na República oficial, os militares e advogados tomaram os palácios, mas o povo criou outra república nas ruas, nas principais capitais, e mesmo em algumas cidades de porte médio, fora do circuito do poder. Como o Hino da República, o carnaval diz: abre as asas sobre mim, ó Senhora Liberdade.  Assim, vive-se, nesses anos recentes, uma situação de lamento: mais um ano sem carnaval por causa da peste que tem o nome de Coronavirus19 e suas novas cepas. A saudade do carnaval, das ruas interditadas ao trânsito de automóveis, a permissão de embriagar-se publicamente, de sem pudor ou temor, criticar os grandes e pequenos poderosos, de mostrar o corpo e alma, poder ser visto nas redes sociais proporcionadas pela internet, uma vez que as redes tradicionais estão truncadas, mas são alimentadas pelos dispositivos mais modernos.

Neste ano, mais que no ano passado, ocorrerão bailes de carnavais em recintos fechados, em clubes dos que puderam acumular riquezas, como ocorria no final do século XIX, antes que o povo inventasse os desfiles de blocos, de clubes, escolas de samba, tomando as ruas para si. Este fenômeno levou as autoridades constituídas a tomarem medidas para controlar a folia dos menos ricos e dos pobres.

No século XVII a repressão, ou Reforma dos costumes, foi realizada tanto pelas autoridades religiosas quanto pelas autoridades civis, como demonstram os estudiosos do período. Foi essa associação que permitiu a vitória da Quaresma sobre o Carnaval, e também favoreceu a aceitação da ética do trabalho nas regiões reformadas, bem como o a vitória do indivíduo sobre os interesses sociais.

Neste início do século XXI, o Estado, que se fortaleceu ao longo de três séculos, enquanto defendia os interesses individuais e conseguia manter a coesão social dizendo ter em vista o interesse coletivo, tem encontrado dificuldade de fazer cumprir normas que defendam a sociedade da Covid19, exatamente porque alguns de seus membros, em nome dos interesses individuais, recusam, tanto a vacinação necessária para vencer o vírus como as normas de distanciamento social que antecede e acompanha o processo de superação a pandemia. É para acomodar interesses tão diversos e contrários que, simultaneamente proíbe o carnaval de rua, permite que alguns grupos possam carnavalizar em espaços restritos e de acesso apenas aos endinheirados. A Quaresma é para os pobres que, encontrarão um meio de burla, como historicamente tem feito.

A saudade do carnaval, a busca do prazer na dança da vida parece ser maior que o medo da Dança da Morte, um dos temas da pintura europeia a caminho dos novos tempos urbanos, quando as aldeias se encontram com mais facilidades e os europeus cruzam de novo o Atlântico em busca do passado.