A encruzilhada do Antropoceno

Prof. Severino Vicente da Silva

Acontecimentos estranhos ocorrem a cada momento na face da terra, como se fora dela haja ocorrências que não parecem comuns, pois o incomum sempre é percebido pelo humano e a partir de suas experiências. Talvez, no universo material estudado por Isaac Newton e, depois por Einstein, as ocorrências não se repitam, mas elas, talvez, não se percebam como extraordinárias. O mundo físico é muito ordinário. Nossa parte física é bastante ordinária e, até mesmo se pode prever o que ocorrerá com ela no seu processo em direção da degeneração. Claro que não é destruição, mas ocorrerão transformações na matéria que parece ter acabado. Mas se pensarmos no mundo que não natural, esse criado pelos homens e mulheres ao longo desse período hoje chamado de Antropoceno, podemos intuir que algo poderá mudar. Mas em que direção?

Em que direção caminharam os antigos egípcios para se tornarem uma potência, dominando alguns povos vizinhos? Quais caminhos foram criados pelos caldeus, assírios e tantos outros povos que procuraram entender de onde vieram, e para que existiam. Pelos testemunhos do que restou de suas culturas e sistemas de vida, podemos induzir que eles entendiam que aqui estavam porque alguma divindade os colocou com o intuito de que lhes prestassem homenagem, dominassem os seus vizinhos, sempre definidos como inimigos da humanidade, entendendo-se como humanidade o conjunto de normas e comportamentos que estabeleceram para suas vidas.

 Ao termo de algum tempo esses e outros povos deixaram de existir fisicamente, mas suas experiências ficaram guardadas, de modo inconsciente, por seus sucessores. Sim, seus sucessores fizeram com eles o que eles fizeram com seus vizinhos. Ocorreu o mesmo com povos de todos os continentes. Mas, como estavam muito isolados, não se conheciam e, para as mesmas perguntas encontraram respostas semelhantes, mas não iguais. Sim, também os povos pré colombianos. Mas todas essas culturas têm em comum o fato de serem animais, seguindo as normas da natureza em seu ciclo vital. Uns sucumbem para que outros continuem a existir. O que parece separar os homens dos demais animais é que, em sua organização parece existir uma norma que os levam a jamais estarem satisfeitos com suas realizações. Depois de dominar os animais diferentes de si, resolveram dominar os animais semelhantes a si. Dessa forma criaram as mais diferentes justificativas para explicar suas ações de domínio. Viviam tranquilos por estarem separados e intranquilos por temerem ser atacados pelos inimigos distantes. Sim, inventaram essa palavra justificativa e permissiva. Os homens permitiram a si mesmos a possibilidade de anular o inimigo, aquele que não reconheciam como igual. E Alexandre foi até à Índia em busca do inimigo. No Antropoceno tudo que diferente torna-se inimigo, portanto, próprio para o extermínio.

Essa situação de buscar o inimigo acentuou-se nos últimos séculos, exatamente os séculos de maior aproximação, pois nesses séculos a natureza foi “totalmente” dominada: na terra, onde milhares de animais já foram extintos para que o homem tivesse onde morar e espaço ´para arrancar do seio da terra as riquezas ali guardadas; nos mares, onde seus navios levam barulhos estranhos que impedem a comunicação entre os animais marinhos, e que também caçam para sua alimentação, e jogam o óleo gerado da morte de seres que viveram em tempo anterior ao Antropoceno, causando a morte de milhares de animais, mas isso também está concetado ao desejo de comunicar-se com o outro; no ar onde a fumaça gerada pela queima de material fóssil suja a atmosfera e a perfura com favorecendo a antecipação da morte da terra, a casa comum dos homens e mulheres, conforme a definição dada por Francisco, Papa dos cristãos católicos.

O século XXI tem sido a explicitação de que a vida se consome na produção da morte, não importa que as justificativas das ações humanas sejam religiosas ou não. Nesta fase do Antropoceno, as justificativas religiosas são dadas pelos que não frequentaram as escolas, nestas se ensina que os deuses e as religiões são desnecessários ou desnecessárias.

Há muitas guerras em andamento, neste instante. A mais famosa é entre a Federação Russa e a Ucrânia. Em verdade, está se travar uma guerra entre a concepção de humanidade que o Ocidente (União Europeia, Estados Unidos da América do Norte) e a concepção que o Oriente (Federação Russa, China). É a sempre presente ideia de que meu inimigo deve morrer. Estamos, no século XXI DC, com conceitos extremamente semelhante ao modo de Hamurabi que se proclamava Senhor dos Quatro Cantos da Terra.

Quando refletimos e estudamos essa situação com uma distância razoável, e modo que os misseis não nos alcancem, o fazemos racional e tranquilamente, mas se esse modo de pensar começa a ganhar espaço na sociedade em que vivemos, como está agora acontecendo no Brasil, o medo nos assalta. Nem percebemos que estão a destruir o que de melhor foi criado no Antropoceno, o esforço de, no meio da exploração constante do homem pelo homem, recriar a humanidade com os valores de respeito ao outro, de aceitação do outro, da compaixão tornada forma legal de comportamento. Desenvolvemos a compaixão pelas crianças nascidas com deficiências, não mais aceitamos como norma social abandoná-las ou vende-las; definimos que a tortura, ou seja, o uso de violência contra uma pessoa impossibilitada de defesa, como crime; estamos a criar um novo patamar nas relações entre os sexos; buscamos inibir a violência por motivações religiosas, regulamos as maneiras de estabelecer contrato de trabalho com o objetivo de diminuir a exploração do homem pelo homem; as nações celebram contratos de convivência e cooperação, e tantas outras conquistas e vitórias sobre os comportamentos que hoje consideramos barbárie. Mas falta muito para que superemos esse amanhecer da humanidade. E os estudiosos do Antropoceno nos apontam que esses comportamentos continuam a ser ideais a serem conquistados, enquanto isso, os inimigos da civilização continuam a nos amedrontar.

Até quando o Antropoceno será o causador do fracasso da vida?

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