Corpo de Cristo, corpo do Brasil

Severino Vicente da Silva

Quem escuta, quem escreve, sabe o quanto as palavras sofrem ao serem ditas, escritas. Presume-se que elas sejam entendidas, que, ao serem ditas e escritas, elas reflitam o que aprendemos que elas dizem. Mas, as palavras, cada uma delas não significam apenas uma coisa, um sentimento, um sentido. Além disso, cada um que as ouve pode escolher um sentido. As palavras podem ser ditas para aproximar e, ao serem ouvidas, terminam por separar. Tão difícil a coincidência entre o emissor e o ouvinte. Sempre há um mistério nesse espaço de tempo entre os lábios e as orelhas. As palavras ditas carregam o momento de sua emissão, além da tensão das pregas vocais e movimentos labiais, tensão que sofre a alma do emissor e a situação da orelha. Toda palavra dita sai em determinado momento emocional e, pode ser a resposta a outro momento; pode ser ação ou reação. As palavras, ditas ou escritas não são puras, são intencionais e toda intenção existe em momentos de incerteza. Todos os momentos são de incerteza. Ainda que dele já haja expectativa, melhor entender que cada momento está cercado por expectativas. E mesmo quando escritas, cabe lembrar que antes de materializar-se em desenhos, as palavras foram pensadas, repensadas, escolhidas, talvez  com o objeto de aparecerem puras, apenas com uma intenção e objetivo, e dessa forma, serem entendidas por aquele que as lerá e as pesará, buscando entender qual, ou quais, a razão de elas terem tomado tal forma. As palavras, cada uma delas é um universo de rotas. E qual é o tamanho do universo?

Cristãos, mais especificamente os católicos, celebram hoje a festa do Corpo de Cristo, uma festa celebrada, segundo a tradição, desde o século IV, uma festa em torno de duas palavras: corpo de Cristo. Tais palavras querem resumir “este é o meu corpo”, e o corpo da humanidade é de sofrimento, de fome, de doenças, de carências, resultado de uma concentração de riquezas; as riquezas produzidas de maneira que tornam os corpos doentes, frágeis, pois estão famintos e quase despojados de esperança que se possa melhorar a situação desses corpos, enquanto outros corpos usam as palavras, o saber e o trabalho em seu benefício. Esta é uma festa difícil, pois implica em entender as palavras Este é o Meu corpo. Interessante que lá, naquele livro sagrado para os que nele acreditam, não está escrito: este é meu espírito. Talvez porque o espírito só é possível alcançar através do corpo. Ah, essas palavras e seus sentido. Qual deles escolher?

Por isso é que surpreende, na véspera da festa do Corpo de Cristo (talvez ele não tenha se apercebido disso) o presidente da República, após um ano e meio de não se perturbar pelo sofrimento causado pelas mortes de quase meio milhão de brasileiros nesta pandemia; após desdenhar das vacinas como uma possibilidade de atenuar o sofrimento causado pela doença que afeta o mundo todo; após rir dos que morrem sufocados por falta de oxigênio, venha dizer que “sentimos muito a morte de cada brasileiro”. Essas palavras estão vazias do espírito da verdade, pois elas não combinam com as outras palavras e expressões ditas pelo presidente. As palavras ditas na noite do dia 02 de junho são vazias de espírito, pois jamais deram atenção à vida corpórea dos brasileiros, portanto de seu espírito.

Na Festa do Corpo de Cristo, havemos que pensar nos corpos dos que morreram dessa doença que o homem da morte não quis enfrentar; devemos pensar nos corpos dos que assistiram a morte de seus queridos, nas dores, nas lágrimas derramadas e, com o espírito renovado, saberemos que, como disse o inspirador da festa: venceremos a morte e os seus seguidores.

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