Quantas índias há na Índia? Quantos brasil no Brasil? Quantos mortos entre os mortos

Quantas índias há na Índia? Quantos brasis no Brasil? Quantos mortos entre os Mortos?

Severino Vicente da Silva

O milênio que foi tão esperado como a possibilidade de completar a felicidade, a grande Era de Aquarius, mostra-se mais como o tempo das confusões. Todos parecem confundidos e as crenças religiosas, as mais diversas, invertem os sinais. Houve um tempo, no começo das revoluções, aquelas primeiras no século XVI, que levou as religiões a serem vividas no silêncio das casas enquanto a ciência ganhava as ruas, com publicidade alegria temerosa. Sim, pois certas tendências religiosas uniam-se ao espírito científico para transformar os processos religiosos contra as “bruxas” e outros dissidentes, em alvo de ações jurídicas e sanitárias. Algumas decisões e políticas sanitaristas uniam-se a conceitos religiosos tradicionais que puseram muitos nas franjas da sociedade de então. Os cintos de castidade, tão propalados em sua existência medieval, foram bastante comuns no tempo científico para evitar que rapazes ficassem tuberculosos pela prática do onanismo, condenado em textos sagrados, ou as relações homossexuais, também vistas como doenças até recentemente.

Conceitos religiosos atuaram sempre entre os cientistas. Religiosidades praticadas por gente que se diz científica, se dizem milenares, escudadas em protocolos que remontam ao tempo de Ramsés II. Isso continua sendo experimentado em reuniões de gente “científica” que reclama daqueles que rezam a Salve Rainha ou entregam oferendas aos Orixás. São muitas as comunidades que se formam e se fortalecem neste milênio em torno de ideias não científicas, ideias são divulgadas pelos meios técnicos e científicos presentes em residências que as podem pagar. Aliás, este novo milênio é o milênio em que ficam cada vez mais separados os que podem pagar e os que nada podem possuir. O fosso que separa os pobres dos ricos está cada vez mais largo e profundo, profundidade que cresce com o tamanho dos muros que deixam claro quem é quem, e é quem tem. O que seria o milênio da fraternidade tem parecido mais com o milênio da separação. “Pobres sempre os tereis”, frase atribuída ao inspirador do cristianismo parece ser cada vez mais verdadeira, pois que as ciências, a economia é uma delas, vive a aprofundar reflexões e práticas que justificam e aprofundam o fosso e erguem os muros. Como ouvi, em uma reunião no Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, o meu colega, amigo de sonhos, Yves Morpeuax, “além dos muros físicos, há os invisíveis, e esses são os que mais separam, pois o fazem na mente.”

Quando estivermos, ou não estivermos, assando milhos nas milenares, cada vez em menor número,  fogueiras de juninas ou de São João, no Brasil já teremos ultrapassado o meio milhão – 500.000 – mortos pela Covid19, e muitas dessas mortes foram resultantes da rejeição à ciência médica em nome da ciência econômica; outras, ou as mesmas, resultantes da pregação religiosa daqueles que “controlam a vontade de Deus”, nos templos e nas emissoras de rádio e televisão; a maioria desses atingidos mortalmente pela atual peste, eram pobres. E os pobres são a maioria entre os mortos por serem a maioria entre os vivos. E não apenas no Brasil; mas em todos os países, como nos confirmam as notícias originadas da Índia, elas nos dizem que o Rio Ganges tem recebido muitos corpos daqueles que não podem comprar lenha para cumprir o ritual religioso. E, note-se, a Índia é produtora de princípio ativo para as vacinas. Quantas Índias há na Índia?   

Tags: , ,

Comments are closed.