Os professores e os dons do Espírito Santo

Os professores e os dons do Espirito

Severino Vicente da Silva

São muitas as tradições religiosas praticadas em nosso ambiente e, embora algumas digam que não, todas são proselitistas. Algumas o são de maneira ostensiva, mas tão ostensiva que quase nos enraivecem no seu afã de fazer aumentar o número de seguidores. Ocupam, se permitem, todos os espaços sociais, algumas apresentando-se como sendo apenas práticas culturais. Assim os deuses, ou as múltiplas revelações divinas, apresentam-se no cotidiano. Dependendo do meio social no qual se vive, evita-se mencionar que se é religioso, embora há quem comece sua falação sempre convidando os demais a louvar seus ancestrais, mas, caso alguém queira fazer o mesmo, clamando outros deuses e santos, este pode ser acusando de estar infligindo o princípio de se viver em uma sociedade laica. Creio que tudo isso apenas demonstra o quanto estamos envoltos nas nossas crenças.

 Houve um tempo em que os sinos católicos tocavam sem temor entre nós, hoje já, em sua maioria, estão silenciados. Os sinos eram, além de lembrança sonora para o atendimento de necessidades espirituais, utilizados para informar a ocorrência de incêndios, ou outras calamidades que atingiam a sociedade. Hoje alguns os consideram um estorvo que os obriga a acordar tão cedo, e então normas são aprovadas silenciando os resistentes a maior parte do dia. Havia até os que viviam da atividade, os sineiros, hoje, como os ascensoristas, substituídos por algum engenho pré-programado. Ninguém deseja o barulho dos sinos, ninguém deseja saber a sua religião, mas a maioria não abre mão que dizer qual é a sua. E nem sempre silencioso no silêncio da noite.

Creio que nesses dias cometi uma pequena gafe pois, em ambiente intelectual, informei que ainda mantenho a fé religiosa recebida desde a convivência familiar, apesar de cultivar a prática da pesquisa científica, inclusive para compreender os caminhos tomados pelas lideranças do meu agrupamento religioso. Sei disso pois, assim que teve oportunidade, o comandante da reunião científica, logo disse que, embora tivesse tido a mesma experiência que tive, hoje já não pode dizer-se seguidor daquela fé, embora continue, por questões culturais, ainda apegado a certas exterioridades praticadas. Era quase um pedido de desculpa, muito diferente daquela seguidora de outra fé, que assumia diante de câmaras de uma emissora televisiva, que estava vestida de branco naquele dia por que era o dia de tal entidade e, mais ainda, dizia que todos os que estavam envoltos de alguma vestimenta daquela cor, na verdade estava louvando o seu espírito protetor. São muitas as maneiras de fazer proselitismo.

Acredito que sempre devamos lembrar com admiração aos que nos ensinaram, os diversos professores, mestres, que tivemos em nossas vidas. Desde ontem que me vem a lembrança de um desses homens que me auxiliaram nessa tarefa de viver: Nércio Rodrigues, sacerdote católico que me auxiliou a compreender alguns dos meandros bíblicos, e, embora tivesse tido um grande atrito com ele, não posso esquecer que ele sempre, em voz alta, começava suas aulas com um “vinde Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis…”. Não lembro de outro que assim o fizesse. Ele o fazia sonoramente pois estava em um ambiente católico, não sei se assim também agia em outras salas de aulas. De qualquer forma, aprendi a oração e a faço, silenciosamente, como o requer os ambientes republicanos que frequento.

Esta conversa é porque hoje é o dia Pentecostes, momento para os católicos lembrarem que suas ações são orientadas pelos dons do Espírito Santo, caso sejam dóceis à sua fé. A Igreja comemora a sua fundação, o momento da consciência de sua missão, a de deixar-se guiar pelo Espírito, pois que ele sabe por onde nos levará, independente da nossa ‘sabedoria’, pois, como costumava lembrar o professor Nércio Rodrigues, o que loucura para os homens é sabedoria para Deus.

Que o Espírito Santo nos guie, com sua Sabedoria, Inteligência, Conselho Fortaleza, Conhecimento, Piedade, Temor de Deus. Assim ultrapassaremos este momento tão difícil em nossa sociedade.

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