Perde-se mais que vidas individuais

Perde-se mais que vidas individuais

Esta manhã o repórter me informa que os gastos do poder legislativo federal com viagens e despesas que fazem para que sejam pagas pelos impostos dos brasileiros foi superior ao orçamento que da Fundação Osvaldo Cruz -FIOCRUZ, órgão do Estado para pesquisar, conhecer e melhorar a situação da saúde dos brasileiros. O egocentrismo, o egoísmo, dos nossos legisladores os fazem capazes de se entenderem superiores aos demais cidadãos. Eles, apesar de terem sido eleitos para representar o povo e legislar em seu interesse, resolvem usar o poder que lhes é concedido por algum tempo para criar benefícios para si e para os seus áulicos. Mas eles são o reflexo da civilização da qual fazemos partes e, terrível dizer, dividimos com eles esse mesmo egoísmo, esse mesmo desprezo pelo bem comum. Nascemos e vivemos em uma sociedade que decidiu não viver coletivamente, mas em ajuntamentos; não mais viver como comunidade, ou seja, ser um grupo de pessoas que decide viver juntos e perseguir os mesmos ideais de buscar uma felicidade comum. Aprendemos e fortalecemos a ideia de “farinha pouca meu, pirão primeiro” em lugar de “a farinha está pouca, vejamos como pode chegar pouco para todos”. Descartou-se de tal forma a ideia de comunidade, que atualmente ela é aplicada às favelas, àquele grupo de pessoas a quem são negados os direitos de uma habitação digna, acesso à água, à iluminação, à educação escolar, à diversão, ao corpo e espírito saudável. É isso que ouvimos quando os noticiários informam que “as comunidades pobres se organizam para se ajudar”, e dizem isso deixando claro que aqueles que vivem nas favelas não fazem parte de seu mundo, o mundo limpo dos condomínios fechados por serem temerosos de que as pessoas das “comunidades” os ataquem e tomem um pouco do muito que eles possuem. É este comportamento que leva à morte a civilização criada pela Europa nos últimos quinhentos anos. Ou mudamos esta visão do mundo ou não teremos um bom futuro.

A pandemia do COVID19 tornou mais claro essa opção pelo bem estar particular e individual dos setores que não fazem parte das “comunidades”, eles a assistem de longe e, quase se surpreendem quando algum deles é atingido. A pandemia mata mais os pobres que os ricos, cinicamente dirão: é que há mais pobres que ricos; a pandemia mata mais negros que brancos, e de novo dirão que há mais negros que brancos. Ficam preocupados porque o comércio diminuiu, que algumas empresas foram à falência. Não sei bem os dados sobre o Brasil, mas nos EUA foram as empresas pertencentes a negros as que mais fecharam. Esses que julgam não precisar dos demais companheiros sociais, que acreditam na grande fake do self made man, ainda não entenderam que não é apenas uma escolha entre a economia e a saúde, mas é uma escolha sobre uma maneira de compreender a vida e, que a obsessão em negar a inevitável cooperação entre os homens pode vir a acarretar na aceleração do processo de destruição da vida humana, pois a vida humana, como as demais vidas que formam a vida, só é possível na visão comunitária. A preocupação com o lucro sobre o sofrimento do outro impede que se pense na suspensão das patentes. O que fazem os grandes laboratórios, assistimos nos mercados ao acompanhar pessoas que compram o que não necessitam, e lamentam não estarem indo aos restaurantes que, diariamente, jogam restos de comida no lixo.

A pandemia do COVID19 explicitou que a maioria dos humanos, ou uma grande parte desses humanos, são capazes de usar, fabricar, sonhar coisas, mas ainda não perceberam que ao dedicar-se apenas às coisas, coisificaram-se, perderam a capacidade de recriar-se como novos seres abertos para a vida; optaram pela morte. A pandemia que estamos sofrendo confirmou o que pensaram os líderes nazistas: se dermos oportunidade ao mal ele terá mais adeptos e enganará a muitos. E assim temos a ressurgência do julgávamos ter aniquilado naquele bunker em Berlim, mas muitos escaparam dos bunkers, muito continuaram mentindo, e nesse espaço de dois terços de século voltaram a ocupar espaços e, como disse o profeta: quando um demônio é expulso, volta e encontra espaço, ele não volta só, vem com uma legião.

Nossa tarefa agora é vencer a pandemia e a legião que se apossou do coração de muitos. E para combater o mal só tem um caminho: o exercício do bem.

Severino – Biu -Vicente da Silva  

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