O Domingo é republicano e as praias nos pertencem

O DOMINGO É REPUBLICANO

Meados de novembro. Despreocupado piso na areia da praia de Pitimbu. A algazarra e os sons mais diversos são acompanhados por meus olhos embebendo as cores. Todos os matizes brasileiros, todos os mestiços.

A memória me carrega ao passado. Faço parte desse povo que aproveita os domingos, seus feriados permanentes ao longo do ano, para sair de seus lugares e viver o sonho de expandir seu mundo. Sempre sonhamos com o mar, sempre fomos à sua procura. Foi lá que os portugueses nos encontraram na busca da Terra Sem Males.

Hoje esse sonho parece ser é ofertado pela televisão que tem o programa “estou de folga”, e eles sempre mostram praias. Quem vive pendurado em morros de periferias das capitais ou em cidades distantes do litoral, ir à praia é sonho paradisíaco. Horas de viagem em ônibus fretados, são segundos em direção do sonho, das águas salgadas, ao menos, uma vez no ano, às vezes na vida. É o sonho do adolescente que juntou algum dinheiro e, talvez com os pais, pagará uma viagem até o litoral. Será um dia radiante. Ônibus vai lotado, nele há grande quantidade de ansiedade escondida e exposta nas vozes altas e anedotas nervosas. Sempre há um grupo de rapazes com violão, tambor, pandeiro para que a viagem fique menos cansativa. Duas ou três horas de viagem. Quando a praia é vista grande gritaria. Depois é encontrar um lugar na areia. Enquanto os mais velhos conversam em torno de um litro de Rum Montila e muita Coca-Cola, as crianças cavam piscinas com suas mães e os rapazes jogam bola, exibindo-se para as meninas moças do bairro.

Andando na areia da Praia de Pitimbu, PB, lembro que foi assim que, crescendo na periferia do Recife, eu, ainda menino de 12 anos conheci Tambaú, também na Paraíba. Era um passeio promovido pela Cruzada Eucarística da Paróquia de Nova Descoberta. Em passeio de ônibus semelhante fui à distante praia de São José da Coroa Grande, quase vizinha à antiga Comarca de Alagoas. Outro passeio levou-me à Suape, embora fosse mais comum ir até Gaibú, essas praias do litoral sul de Pernambuco. Foi também em excursões semelhantes que conheci as então distantes praias de Conceição e Janga, em Paulista, além da famosa Ilha de Itamaracá, Ponta de Pedras, em Goiana e Rio Doce, esta última em Olinda.

Como se pode perceber, fui farofeiro e gosto de ver meu povo farofeiro feliz. Claro que nesses domingos, nesses feriados nacionais os moradores dessas praias não saem de suas casas. Não se misturam com esse povo. Esses farofeiros, que trazem de casa suas panelas com o que comerão.

Uma vez, já com filhos, em um belo 7 de setembro, dia comemorativo da Independência do Brasil e simbólico dia da Abertura do Verão, em Pernambuco, me encaminhava para a Praia de Maria Farinha e parei na casa de um amigo. Era uma passada rápida e ele me perguntou para onde eu iria. Ao saber que eu estava com a família indo à praia, ele disse: “vá não, hoje esses negros de Nova Descoberta e Casa Amarela estão descendo dos morros”. Sorri e disse à minha esposa: vamos logo.

Quase não gosto de brasileiros que não gostam de brasileiros. Não me agrada essa gente mesquinha, que quer a praia e o mar só para si. Uma vez, em Copacabana, esperando um ônibus para retornar a Zona Norte, uma senhora me disse: “esse ônibus não, espere o próximo. Depois que abriram esse túnel a nossa vida ficou muito difícil”. Ela parecia com o meu amigo do Janga, apesar de ela ser branca.

Gosto muito dos feriados de verão. Eles são republicanos. O povo toma as praias, ruas e as praças enquanto a pretensa nobreza se esconde nos alpendres de suas casas de praia, esperando a praia no dia seguinte ao feriado, pois o povo brasileiro voltará a trabalhar enquanto ela irá à praia. Você sabe como é: ‘segunda feira é dia de branco”. O domingo é republicano, e o povo não o vive como besta, embora assim o vejam.

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