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Escondidos na biblioteca 2

sábado, fevereiro 8th, 2020

Escondidos na biblioteca 2

Pois então as fotos que foram redescobertas pela queda dos livros, levaram-me a Belém do São Francisco; elas são registros de minhas atividades Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco, parte da Autarquia Belemita de Cultura, Desporto e Educação, quando auxiliei a reorganização do curso de História, como já havia feito em Arcoverde. Tive o prazer de conhecer uma cidade que sempre primou pela formação de seus cidadãos, embora carregando toda a bagagem do coronelismo, já bem moderno, pois Belém do São Francisco é a primeira cidade pernambucana projetada, tomando como modelo Belo Horizonte. Vivenciei as festividades do Centenário da Cidade, inclusive criando camisa comemorativa, aproveitando o fato de ter sido o paraninfo de uma turma que se formava no ano de 2003. Conheci de perto a devoção a são Gonçalo do Amarante, inclusive levando um aluno do curso de História da UFPE para estudar a tradição, mesmo sem ter ele recebido bolsa para tal tarefa. Essa devoção levou-me à casa de Seu Jerônimo, em Itacuruba, devoto e organizador da festa desse santo dos pobres e protetor das prostitutas, uma festa de fartura para honra do santo que só aceita esse tipo de pagamento. Festa de São Gonçalo, expulso do litoral no século XIX, mas que está presente nos sertões de Pernambuco, Alagoas e Bahia, é sempre uma festa onde se canta, dança e come. Também conheci os primeiros bonecos gigantes do carnaval pernambucano que chegou “das europas” navegando o Rio São Francisco, uma idealização do padre Norberto, faz agora Cem anos. Os bonecos chegaram no Recife em 1966 e aclimataram-se em Olinda.

Convidado para ajudar o curso de História que apresentava um baixo índice de matrícula, levei para o CESVASF quase todos os professores do Departamento de História para realização de palestras e cursos no finais de semana. Também tive a satisfação de iniciar vários recém formados e recém mestres a realizarem concurso público e tornaram-se professores permanentes naquela Autarquia Municipal. Alguns ainda estão radicados em Belém do São Francisco, outros terminaram por assumir em outras instituições universitárias que já existiam no Sertão, além da chegada da das universidades federal e estadual. Isso foi possível pela coragem dos professores Maria Auxiliadora Lustosa e Licínio Roriz que, foram os responsáveis pelo ressurgimento, também do curso de Geografia. Outro aspecto que considero positivo de minha passagem e de outros professores da UFPE que dedicaram alguns finais de semana aos jovens do Sertão, é que muitos estudantes e professores sentiram-se motivados a enfrentar a pós-graduação stricto sensu, melhorando o capital humano da região.

Ser professor no CESVASF, nos finais de semana durante cinco anos, foi gratificante, aguçou-me a sensibilidade para entender melhor os seres humanos, embora tenha deixado algumas marcas negativas decorrentes de meu temperamento que se recusa, às vezes, deixar de ser um jovem de vinte anos, ou seja, um anacronismo. Mas creio que a liberdade que foi-me dada para agir, permitiu-me exercer o magistério superior, ampliar meus conhecimentos enquanto apontava caminhos de pesquisas a professores que passaram a juventude vendo a graduação e a pós graduação apenas possíveis aos mais próximos do litoral. Acompanhei jovens Pipipan (quando a tribo estava renascendo), Tuxá, Pankararu; mulheres que passaram parte de sua juventude lavando roupa na margem do São Francisco, em suas pesquisas e escrita de seus Trabalhos de Conclusão de Curso e de monografias para sua especialização. Foi maravilhoso assistir a formação de professores de história, geografia, matemática e biologia nos difíceis tempos do início do século XXI, quando a região estava estigmatizada como ‘polígono da maconha’ e muitos evitavam a região. Mas esses jovens professores estão espalhados nas cidades dos sertões baianos e pernambucano, cuidando de formar novos cidadãos. A recuperação do CESVASF levou à criação do primeiro curso de Direito no Sertão e  

Aliás, recebi em minha vida poucas demonstrações em forma de títulos, orgulho-me de ser Cidadão Belemita.  

escondidos na biblioteca

quinta-feira, fevereiro 6th, 2020

U m barulho levou-me ao que chamo de biblioteca, aqui em casa, um quarto onde alguns livros estão postos em estantes, arrumados na melhor forma possível para deles me servir. Eles ficam lá, esperando que os abra, vez em quando, em busca de informações, de reflexões que outros desenvolveram com o objetivo de aperfeiçoarem-se e, ajudar quem viesse a se interessar, como é o meu caso. O barulho, descobri, depois, foi causado pela queda de uma prateleira que não resistiu ao peso de um volume da Divina Comédia e outros livros escritos sobre a história do Brasil, mais especificamente, de Pernambuco. Juntando os livros, descubro que meus gatos haviam tentado dormir sobre um baú de fotografias e as espalhado. Dedico-me às fotos, o olho que me resta quer divertir-se com as imagens e cores. Começo a organizar, melhor, limpá-las e descubro-me no encontro dos dois séculos de minha vida.

Os últimos anos do século XX levaram-me ao Sertão, mais especificamente à Belém do São Francisco, pois algumas pessoas que não me conheciam solicitaram-me a auxiliar na reorganização do curso de História do CEVASF. Meus finais de semana ficaram comprometidos, pois da sexta-feira, após o expediente da UFPE até o domingo passaram a ser ocupados com jovens do sertão do São Francisco, das duas margens, que frequentavam aquele centro universitário criado havia cerca de vinte anos. Depois soube que um dos colegas do Departamento de História havia participado da criação de um entidade que oferece curso superior no Sertão. Eu já havia estado na margem do São Francisco no final dos anos sessenta e início dos setenta, cuidando de animar a juventude católica, a chamada Pastoral da Juventude. Naqueles anos foi Petrolina, a diocese dirigida por Dom Antônio Campelo de Aragão que recebera meus serviços. Depois, já no início dos noventa, estive em Petrolina em curso de Especialização, promovida pela Fundação de Ensino de Pernambuco, que então se organizava para ser a Universidade de Pernambuco. Fui substituir um colega que deveria ir a São Paulo. Foram duas experiências diferentes, e delas tiro proveito até hoje, pois além de receptivas, as pessoas sempre me apontaram caminhos que eu desconhecia. Fui conhecendo o meu povo, fui me conhecendo, ampliando meus olhares para o interior do meu Estado, o que me diziam ser o Brasil profundo. Aprendi a ver os contrastes diversos. E o que fazia eu?

Uma vez o professor Eduardo Hoornaert disse-me que eu estava fazendo o trabalho de “vulgarização do conhecimento”, mas no sentido, disse-me ele, do que foi a Bibliothèque Bleue , a Biblioteca Azul, uma experiência de leituras populares que tornaram accessíveis o conhecimento aos grupos de menor prestígio e poder econômico, no Antigo Regime, mas também no início do tempo da modernidade industrial. As fotografias espelhadas e que pediam organização, mostraram-me nas cidades baianas e pernambucanas banhadas pelo rio São Francisco, mas não apenas elas, pois estive em Euclides da Cunha e em toda a região de Jeremoabo para conhecer de onde chegavam os alunos a quem eu iria servir. Fiquei tão envolvido por esse trabalho que perdi um ano do Nóis sofre mas Nós goza. E esqueci que devia participar de eventos nas capitais, eventos promovidos pelas instituições de pesquisa em história. O Sertão me engoliu por quase uma década. Depois, as fotos levaram-me para a experiência na Mata Norte do Estado de Pernambuco, pois fui convidado auxiliar o Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Nazaré da Mata, de quem fui servo até 2015. Dois mundos que me tomaram e que me alimentam até hoje.