Archive for the ‘Cavalo Martinho’ Category

Epifania de Jesus, epifania do povo

domingo, janeiro 5th, 2020

Epifania do Senhor. Aprendi sobre a visitação de três Reis Magos, três sábios que, saídos do Oriente, seguiram uma Estrela que os guiou até um estábulo onde encontraram uma família que recentemente tinha visto o nascimento de um menino a quem deram o  nome de Jesus. Anos depois aprendi que esta palavra: Jesus, significa Deus Salva. Os reis, que ninguém sabe de onde eram, se governavam alguma nação, ajoelharam-se diante do menino e lhe deram presentes. Enquanto os reis do Oriente faziam isso, o rei que governava as terras onde nascera o menino, teria mandado matar todas as crianças de até dois anos de idade para evitar que se cumprisse a profecia de que aquela criança seria rei. Muitas mortes para atingir uma determinada pessoa. Um gasto de vida sempre é realizado por aqueles que cultivam a morte e, são incapazes de oferecer presentes; quando muito trocam objetos, prestígio para manterem-se em evidência. Isso aprendi anos depois, de tanto ver as pessoas só oferecerem presentes se forem convidadas a festas. Não fazem como os Reis (sem terra) do Oriente. Chegaram sem serem convidados,e trouxeram presentes. Tudo isso era representado nos Pastoris, na danças das ciganas que vem do Egito e pedem licença para adorar porque “Jesus nasceu para nos salvar”.

A Festa dos Reis Magos, no Nordeste do Brasil marca o fim do período natalino, quando se realiza a queima da Lapinha, aquele espaço criado na Idade Média, para representar o local do nascimento de Jesus. A Lapinha – também dito Presépio – foi criação do espírito didático de Francisco de Assis para transmitir o espírito do nascimento de Jesus. E esta metodologia tornou-se mais, incorporado ao catolicismo popular, passou a ser parte da cultura europeia e chegou ao Brasil com os portugueses. E vieram as festas das pastoras que fizeram parte das festividades da Igreja até os anos sessenta. O racionalismo que criticou o catolicismo moderno europeu, veio com muita sede contras as tradições populares que estavam a escapar do modelo clerical desde a romanização. Aplicado com entusiasmo pelos reformadores de então, os padres que aplicaram o Vaticano II, os presépios e, principalmente, os pastoris foram afastados da praças próximas às igrejas e foram sumindo.  

O pastoril sobreviveu os ventos do Concílio Vaticano I, à pastoral sacramentalizante, mas não conseguiu vencer os primeiros entendimentos do ensinamentos do Vaticano II. Embora tenha sido pouco refletido esse aspecto, o Vaticano II auxiliou a enfraquecer a cultura popular tradicional, e agora são muitos os que  estão a reencontrá-la neste tempos de recuperação, reencontro da identidade local frente ao mundo globalizador. Ainda bem que os movimentos da Cultura Popular, os Pontos de Cultura continuam a ação de, mesmo não sendo parte da cultura dominante, age por ser parte inerente do povo que sempre foi negado. Talvez não seja um grande exemplo, mas vou tentar.

Quando os Carmelitas aportaram em Olinda no final do século XVI, o primeiro da colonização portuguesa, o governador de Pernambuco que era devoto de Nossa Senhora do Carmo, entregou aos padres carmelitanos o orago de São Gonçalo do Amarante, protetor dos pescadores e das mulheres não casadas. O orago ficava localizado fora dos limites da cidade. Hoje poucos habitantes e visitantes de Olinda sabem quem foi esse São Gonçalo, nem mesmo sabem de sua existência, mas era muito popular,e dançavam em seu louvor no interior das igrejas. Desalojado de sua ermida, os devotos cuidavam de sua devoção na Igreja do senhor do Bonfim. No século XX sumiu. Mas ele está por aí. Quando vamos assistir/participar de uma festa de Cavalo Marinho, encontramos o povo cantando os Reis e a Estrela do Oriente, e também os Arcos de São Gonçalo.

 Ó que caminho tão longe

Tão cheio de areia quente

Junto com São Gonçalo

Vamos continuar em frente

E continuam cantando a Estrela do Oriente junto com os Arcos de São Gonçalo.

MARIANO TELES, Mestre de um Povo Novo

terça-feira, fevereiro 19th, 2019

Políticas públicas que auxiliem a promoção de pessoas ou grupos de pessoas, comunidade são necessárias em sociedades como a nossa, caso haja o desejo de diminuir as desigualdades e afirmar a liberdade republicana para todos os que formam a nação. Somos uma nação resultante da chamada Revolução Mercantil, promotora das Grandes Navegações realizadas por Espanha, Portugal, seguidos por Holanda, França e Inglaterra. Tal Revolução tecnológica está ancorada no Livro e na pólvora como arma eficaz de dominação. Mas, apesar de nos voltarmos tanto para os feitos dos generais e seus exércitos conquistadores, foi a imprensa que garantiu o domínio cultural sobre os povos americanos, e mesmo sobre outras civilizações melhor apetrechadas nas criações espirituais, mais sofisticadas que as mantidas pelos Povos Coletores e Caçadores. A escrita, sobre a qual os europeus estavam aperfeiçoando o domínio com a tipografia, e a decisão de evitar que os povos submetidos a ela tivessem acesso, foi o que estabeleceu e manteve a dominação nas terras que receberam o nome do empregado dos banqueiros italianos. Além da conquista territorial, consequência das vitórias militares, foi a conquista espiritual que garantiu aos povos da pequena Europa estabelecer seus padrões básicos de hábitos, costumes, religião, leis aos povos que eles encontraram em seu périplo. Darcy Ribeiro ensinou que esta Revolução Tecnológica resultou Povos Testemunhos, Povos Transplantados e um Povo Novo, o Brasil.

O Povo Novo, surgido no processo da Revolução Mercantil, não teve acesso direto à tecnologia, recebendo-a à conta gotas, sempre que interessava aos conquistadores. Ora, é a leitura o instrumental básico para a transmissão e recriação do mundo moderno e, como sabemos, não houve qualquer interesse em construir escolas que tornasse comum a leitura, a escrita e o estímulo à criação de bibliotecas. Os portugueses não tomaram iniciativa de popularizar a tecnologia da escrita e da leitura; os espanhóis criaram, de imediato universidades em algumas de suas colônias, mas não escolas para o vulgo, o índio, o meztizo; as universidades estava para atender os Creoulos, para a formação de quadros administrativos garantidores da dominação. Assim os espanhóis, segundo Darcy Ribeiro, fizeram das civilizações Inca, Maia e Azteca, povos Testemunhos.

Nesta semana que passou, dia 14, ocorreu a morte de Mariano Teles, pessoa que conheci no início do século, mas que nasceu na primeira metade do século XX. Foi em um dos engenhos da cidade de Aliança e, em sua adolescência assistiu o desmanche dos engenhos de fogo morto, tornados em fornecedores de cana para as usinas que se estabeleciam na região desde o início do século XX. Mas enquanto a cana chegava vagarosamente, os sítios eram os locais de moradia dos trabalhadores da cana, e nesses sítios, descendentes de escravos que se caldeavam com descendentes de índios, criavam suas brincadeiras, ou davam novo sentido a essas brincadeiras. Quando Severino Lourenço da Silva, que ficou conhecido como Mestre Batista, estabeleceu-se no sítio Chã de Camará e começou a fazer “samba” nos finais de semana, Mariano Teles começou a frequentar o lugar e, um dia, tomado de muita coragem, pediu para entrar na brincadeira do Cavalo Marinho. Nunca mais deixou de brincar e aprendeu tudo que podia aprender com o Mestre Batista, de tal maneira que, cm a morte de Batista, Mariano passa a mestrar, e o fez até que sua saúde permitiu. Na universidade do Mestre Batista, foram formados os Mestres Biu Alexandre, Luiz Paixão, Biu Roque, Mané Salustiano, Gumercindo, Grimário, Mané Deodato, Antônio Teles, Zé Duda, Mariano Teles e muitos outros, inclusive o jovem Siba.

Mestre Mariano Teles conviveu com todos esses nomes famosos no mundo que fica distante daquele que está mais próximo da tradição europeia, mas que, recentemente, vive a conversar com esses mestres da cultura que o povo recriou, a despeito das imposições ou, talvez, por causa das imposições. Assim, o Cavalo Marinho, que o padre Lopes Gama, o Carapuceiro do Recife da segunda metade do XIX, dizia não conhecer algo “ tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi. Em tal brinco não se encontra nem enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o boi, um capadócio, enfiado pelo fundo de um panacu velho, chama-se cavalo marinho; outro, alapardado sob lençóis, chama-se burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo , outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama caipora. Há além disso outro capadócio que se chama pai Mateus.(…)”. (O Carapuceiro, n.2 (11/1/1840) citado por Evaldo Cabral de Melo).

A descrição da brincadeira que o padre assistiu – a contragosto, diga- se, continuou a existir em alguns bairros do Recife, mas escondeu-se na Mata Norte do estado, recriando-se e se mantendo, com a inteligência e a memória dos que não tiveram acesso às tecnologias, mas viam e ouviam e, desse vir e ouvir, guardaram, cultivaram as experiências que hoje são buscadas pelos doutores diplomados que, às vezes com falsa humildade, sentam-se aos pés de mestre como Mariano Teles, para saber como é e que era o passado de seus (nossos) avós. Mariano Teles pode ter sido o último Mestre da Cultura Popular que não foi afetado pela escala de espetáculo que vem dominando o conhecimento da cultura popular; não se tornou “artista”, continuou Mestre, em Chã de Camará, assistindo, de longe os brilhos de seus colegas em plagas distantes, dançando sob os olhares dos novos carapuceiros que, parecem saber mais que todos, e assumem a tarefa de dizer o que vale ou não vale a pena ser cultivado.

Mestre Mariano Teles, a quem ouvi, sentado no banco de seu quarto, ou debaixo de frondosa jaqueira no sítio Chã de Camará, continuou cantando e dançando os Arcos de São Gonçalo no chão de terra batida, mas cheio de barroca; ali onde ele aprendeu os versos da Estrela de Belém, continuava ensinado às crianças; no mesmo terreiro ensinava a Toada do Vaqueiro e o drama de suas filhas. Todas as Figuras ele sabia cantar e dançar, como ensinou ao jovem Mestre Zé Mário.

Jamais esquecerei a singeleza e a elegância da resposta que, uma noite deu ao seu amigo Mestre Salustiano, em um dos primeiros Encontro de Cavalo Marinho. Mestre Salustiano Perguntou: “Mariano, qual a figura mais bonita do Cavalo Marinho” Ele disse: “não sei, se eu disser que é esta você vai dizer que é aquela, seu disse que é aquela, você vai dizer que é esta. Cada tem a sua preferia e a preferida é a mais bonita para quem acha.”

Saudade de Mestre Mariano Teles, mestre de um povo novo, que se tornou novidadeiro. Ele não, foi para outra Chã, foi dançar com Mestre Batista, conversar com Salustiano e, com Biu Roque, cantar.