Archive for the ‘Globalização’ Category

Crise Covid-19 ou do Ocidente?

sábado, março 28th, 2020

Notícias da Europa dão conta que a rainha Elizabeth II estaria com COVID19. Não há confirmação mas a bolsa de apostas apontam a vitória da Rainha. Pior para Charles, que poderá perder a oportunidade de ser rei. Mas brincadeira de lado, vi que apostadores na vitória da Rainha a chamam de ‘lagarto’, capaz de adaptar-se às mais difíceis situações. Coisas do humor britânico, tão necessário neste momento. Também leio que esta pandemia está a nos mostrar que a Europa perdeu a liderança civilizacional, ou a  completou.

Desde 1914 que Oswald Spengler chamava atenção ao Declínio do Ocidente, aos limites que estavam sendo alcançados. Mostrava que as civilizações têm seu ciclo. Arnold Toynbee fez grandes estudos sobre as civilizações, apontando, o que todos sabem, que nenhuma delas é eterna e, chega um momento em que ocorre a perda da criatividade, o momento no qual as novas gerações rejeitam o que receberam, ou não veem necessidade de continuar o que receberam. Morre a civilização. Outra lhe toma o lugar, recolhendo o que de bom existia, ou que lhes dava condições de ser a liderança da humanidade.

O mal estar europeu vinha sendo apontado desde meados do século XIX, na escrita dos poetas, nas linhas dos romancistas, nas tintas dos artistas plásticos que, em seus sonhos para a além do efêmero, apontavam ser um engano a adoração à técnicas que suavizavam o modo de viver de alguns, mas endureciam o coração de duas ou três gerações que impunham o seu modo de viver aos africanos, que vinham sofrendo séculos de desumanização, e aos asiáticos que buscaram manter suas tradições isoladas do contágio europeu desde o século XVII. Mas a fome do poder e o emagrecimento da alma tornaram os povos europeus fechados em si enquanto arrombavam as portas do globo. Para Garaudy, antigo secretário geral do Partido Comunista Francês, o Ocidente seria apenas um acidente ao longo da vida humana, um acidente ocorrido entre os século XIII e XVII, e que conheceu seu apogeu nos séculos XIX e XX. É o que vemos, que estamos assistindo: sua fragmentação, sua dissolução, anunciada desde o século XIX, como mencionamos.

Mas o que era o Ocidente, como ele se formou, quem e o que lhe deu as bases?  Creio que ele é um amálgama das experiências que se encontraram e  se confrontaram desde as primeiras experiências humanas até o século XVI. O fim do Renascimento, a vitória da Quaresma, a organização do pensamento científico levaram a Europa à busca dos ideais de perfeição e controle sobre o mundo religiosa, e solidificaram o Ocidente que se cristalizou na vitória tecnológica sobre a natureza. Após a solidificação dos novos princípios religiosos e assunção da predestinação, nada mais interessava. Semelhante ao que ocorrera com a civilização muçulmana, alguns séculos antes. Assumindo que estava predestinado a dominar o mundo e que as nações lhe seriam vassalas, o “novo Israel” se impôs com a religião profana, a religião da ciência, da superioridade sobre todos. Então, o Ocidente não mais aprendeu, como aprendera e se formara na antiguidade cristã e na Alta Idade Média, períodos nos quais não teve pejos de sincretizar os costumes, os deuses. Mas, a partir do período pós Reforma, a Europa não mais aprendeu, apenas expandiu seu modo de viver. A perda da ideia da aceitação do outro, a perda da criatividade é a perda da fé em si mesma. Não sem razão o segunda metade do século XX foi o tempo das crises, crises das quais nada se aprendeu. Mas alguns dos povos que foram dominados pelo Ocidente, aprenderam a ser ocidentais, adaptando-se e recriando o que recebiam. Eles herdarão o Ocidente.

No início dos anos setenta, em um estudo sobre a história, ocorrido em um dos conventos estabelecidos na Primeira Olinda, Eduardo Hoonaert e eu discutíamos sobre isso com cantadores repentistas. Era o tempo em que se discutia a Trilateral, discussão que ocorria fora dos labirintos dos departamentos de história, embora bordejassem as áreas de ciências políticas. Falava-se que haveria de surgir um mundo com três polos: América do Norte, Europa e Ásia. Coisas dos Rockfeller, que provocou o aparecimento de Jimmy Carter na política internacional. Era visto que os EUA (América do Norte) pensaria na questão da segurança; a Alemanha (Europa) cuidaria da questão alimentícia e o Japão (Ásia) ficaria responsável pela tecnologia. O mundo ainda era o da Guerra Fria. Assim a china não aprecia nos esquadros. Mas, em nossa conversa, que possuía uma base teológica, discutia-se que a humanidade esteve sempre olhando para o Oriente, por isso dizíamos ‘orientar-se’, mas desde o Renascimento tudo passou a ser ‘norteado’. Lembramos que até a segunda metade do século XIX, o mundo (ainda que não proclamasse abertamente) sempre olhava para a China, para onde foi levado grande parte do ouro das Minas Gerais, embora a maior parte das pessoas não saibam disso, julgam que tudo ficou na Inglaterra.

Naquela ocasião, Eduardo Hoornaert chamava atenção para o papel que a China iria desempenhar no século XXI. Estamos vendo agora. Não pela maldade da China, mas pela incapacidade do Ocidente enfrentar algo novo, como o Covid-19.

Vamos nos orientar?

Epifania de Jesus, epifania do povo

domingo, janeiro 5th, 2020

Epifania do Senhor. Aprendi sobre a visitação de três Reis Magos, três sábios que, saídos do Oriente, seguiram uma Estrela que os guiou até um estábulo onde encontraram uma família que recentemente tinha visto o nascimento de um menino a quem deram o  nome de Jesus. Anos depois aprendi que esta palavra: Jesus, significa Deus Salva. Os reis, que ninguém sabe de onde eram, se governavam alguma nação, ajoelharam-se diante do menino e lhe deram presentes. Enquanto os reis do Oriente faziam isso, o rei que governava as terras onde nascera o menino, teria mandado matar todas as crianças de até dois anos de idade para evitar que se cumprisse a profecia de que aquela criança seria rei. Muitas mortes para atingir uma determinada pessoa. Um gasto de vida sempre é realizado por aqueles que cultivam a morte e, são incapazes de oferecer presentes; quando muito trocam objetos, prestígio para manterem-se em evidência. Isso aprendi anos depois, de tanto ver as pessoas só oferecerem presentes se forem convidadas a festas. Não fazem como os Reis (sem terra) do Oriente. Chegaram sem serem convidados,e trouxeram presentes. Tudo isso era representado nos Pastoris, na danças das ciganas que vem do Egito e pedem licença para adorar porque “Jesus nasceu para nos salvar”.

A Festa dos Reis Magos, no Nordeste do Brasil marca o fim do período natalino, quando se realiza a queima da Lapinha, aquele espaço criado na Idade Média, para representar o local do nascimento de Jesus. A Lapinha – também dito Presépio – foi criação do espírito didático de Francisco de Assis para transmitir o espírito do nascimento de Jesus. E esta metodologia tornou-se mais, incorporado ao catolicismo popular, passou a ser parte da cultura europeia e chegou ao Brasil com os portugueses. E vieram as festas das pastoras que fizeram parte das festividades da Igreja até os anos sessenta. O racionalismo que criticou o catolicismo moderno europeu, veio com muita sede contras as tradições populares que estavam a escapar do modelo clerical desde a romanização. Aplicado com entusiasmo pelos reformadores de então, os padres que aplicaram o Vaticano II, os presépios e, principalmente, os pastoris foram afastados da praças próximas às igrejas e foram sumindo.  

O pastoril sobreviveu os ventos do Concílio Vaticano I, à pastoral sacramentalizante, mas não conseguiu vencer os primeiros entendimentos do ensinamentos do Vaticano II. Embora tenha sido pouco refletido esse aspecto, o Vaticano II auxiliou a enfraquecer a cultura popular tradicional, e agora são muitos os que  estão a reencontrá-la neste tempos de recuperação, reencontro da identidade local frente ao mundo globalizador. Ainda bem que os movimentos da Cultura Popular, os Pontos de Cultura continuam a ação de, mesmo não sendo parte da cultura dominante, age por ser parte inerente do povo que sempre foi negado. Talvez não seja um grande exemplo, mas vou tentar.

Quando os Carmelitas aportaram em Olinda no final do século XVI, o primeiro da colonização portuguesa, o governador de Pernambuco que era devoto de Nossa Senhora do Carmo, entregou aos padres carmelitanos o orago de São Gonçalo do Amarante, protetor dos pescadores e das mulheres não casadas. O orago ficava localizado fora dos limites da cidade. Hoje poucos habitantes e visitantes de Olinda sabem quem foi esse São Gonçalo, nem mesmo sabem de sua existência, mas era muito popular,e dançavam em seu louvor no interior das igrejas. Desalojado de sua ermida, os devotos cuidavam de sua devoção na Igreja do senhor do Bonfim. No século XX sumiu. Mas ele está por aí. Quando vamos assistir/participar de uma festa de Cavalo Marinho, encontramos o povo cantando os Reis e a Estrela do Oriente, e também os Arcos de São Gonçalo.

 Ó que caminho tão longe

Tão cheio de areia quente

Junto com São Gonçalo

Vamos continuar em frente

E continuam cantando a Estrela do Oriente junto com os Arcos de São Gonçalo.

Economia global se conjuga com criação cultural

domingo, junho 30th, 2019

Termina o mês e ocorre o fim do semestre, o primeiro deste ano de 2019, e coincide com a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o MERCOSUL. De um lado 28 países avançados na tecnologia, na cultura, centro do que costumamos chamar de Civilização Ocidental, e que formam a segunda economia mundial, de outro lado, quatro países em constante desenvolvimento (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai), mas com atrasos tecnológicos; dois desses países estão em crise econômica e política. Como se sabe, o MERCOSUL formado por países com culturas diversas, mas formadas com a matriz europeia conjugada com culturas indígenas e africanas, amalgamadas em processo decorrente da expansão dos europeus ocorrida a cinco séculos. Coisa típica de nossa época, um dos signatários, o atual presidente brasileiro, não dos que cultivam a visão globalista. A redação final do acordo, bem como as explicitações de seus pormenores, além de sua prática, é que demonstrará se ele servirá para alçar esses países do sul da América a um patamar que garanta melhor qualidade de vida para seus membros, ou se será um capítulo tardio da política mercantilista.

Este semestre, em minhas aulas, foi dedicado a estudar aspectos da cultura pernambucana, procurando entender sua diversidade no território e, como a sua formação esteve ligada aos processos históricos de desocupação/ocupação do território, que promoveu a extinção de aspectos culturais enquanto ocorria a formação do que hoje chamamos cultura pernambucana, mas tendo em vista jamais afastá-la de suas relações com os demais grupos da humanidade da qual faz parte. Todas as criações culturais são filhas do tempo histórico, da grande história.

Assim é que as tradições “tipicamente pernambucanas” são recentes, quase bicentenárias, mas nelas podemos encontrar o que chamo de ‘sobrevivências medievais’, aqui chegadas nos tempo modernos da Revolução Mercantil. Muitas das tradições trazidas pelos portugueses foram deixadas no passado, ainda que as cores do Pastoril, da Guerra entre Cristãos e Mouros, continuem a aparecer. Afinal, as cores podem receber novos significados, podem ser culturalmente lidas, de acordo com as novas organizações sociais. Mesmo em solo conservador, as mudanças ocorrem.
Buscando escapar da armadilha que o tempo semestral ergue, começamos estudar Pernambuco a partir do Sertão, seguindo conselho de Capistrano de Abreu, deixando os caranguejos e siris para o final. E então ocorreu que não sobrou tempo para refletir sobre as manifestações culturais da Mata e do Litoral, apenas as mencionamos, e vimos que os estudantes cuidaram de, em seus artigos finais, fizeram a reflexão dessas experiências culturais mais próximas, ao mesmo tempo em que se assombravam com a riqueza e produção cultural que ocorre no Agreste e Sertão do Estado.

Embora quase bicentenária, as expressões tipicamente pernambucanas, começaram a ser vistas como cultura na segunda metade do século XX, mais especificamente após 1960. Aliás, os anos sessenta foram decisivos para a superação de conceitos definidores do belo/feio, não apenas em Pernambuco mas no mundo ocidental, como ocorrera no início do século XX. Entre nós, essa explosão cultural foi a descoberta de um povo em constante movimento, um povo sem terra em busca de um lugar, no mangue ou nos morros.

Migrações, tem sido a caminho da humanização – sobre mamíferos e amor

sábado, junho 15th, 2019

Escuto, vejo e leio nos meios de comunicações as diferentes maneiras de como estamos caminhando em direção do passado. Não é um caminho que negue as conquistas do conhecimento, da ciência, da tecnologia. Nessa direção há avanços cada maiores e mais sólidos, embora não estejam ao alcance de todos, pois que assim acontece desde o domínio da fabricação do fogo. Do domínio do conhecimento e da técnica; que tem este domínio promoveu controle dos demais homens que formam a sociedade. Mas desde então, também, aconteceu o descontentamento com tal situação e, o longo processo de humanização é o caminho de compreender e realizar que o saber é construído coletivamente. A invenção da técnica de fazer fogo não foi resultado da observação de apenas um indivíduo, como não o foram as demais invenções ocorridas desde então, admitir essa ideia é que nos faz civilizados. Somos o conjunto, não o indivíduo.

Neste longo percurso fomos aprendendo a solidariedade enquanto aumentávamos as possibilidades de sobrevivência individual e coletiva. Foi assim que superamos práticas como o infanticídio, o abandono dos velhos, dos doentes, dos mortos, etc. E criamos instituições, filosofias e teogonias para justificar a nossa humanidade, buscando diferenciarmo-nos das demais criaturas. E nos dissemos diferentes de todos e com poderes sobre toda natureza, nomeando-as e dominando-as, pondo-as ao nosso serviço, seja para nossa proteção, seja para auxiliar na produção e alimentos, no encurtamento das distâncias, na diminuição do uso de nossa força e mesmo no esforço de guerra contra os nossos semelhantes que julgamos nossos inimigos, exatamente por causa das filosofias que criamos para nos “humanizarmo-nos”, civilizarmo-nos. Interessante é que, depois dessa longa caminhada na direção a humanização, criamos uma sociedade que nos desumaniza, pois que busca criar mais diferenças, que julgamos inaceitáveis, em oposição ao espírito que nos tornou seres culturais e tão semelhantes nas ações e iguais na biologia. É isso que nos mostram as ciências, o conhecimento que criamos. Mas, eis que aprendemos ser mais fácil cultivarmos a indiferença na relação com os nossos semelhantes.

O noticiário desta sexta feira (14/6) nos dá conta de que a lei Anti-imigração do presidente dos EUA promoveu a separação de uma criança de 4 meses de seus pais. Eram estrangeiros buscando um melhor lugar para a sua família crescer, como fez Abrão e sua mulher Sara, e fizeram José e Maria e seu filho recém-nascido, de acordo com a Bíblia. Essa e outras histórias nos lembram que desde o primeiro grupo humano, o que mais fazemos é migrar, é buscar outro lugar para completar a vida. As migrações quase sempre ocorrem por causa de um sofrimento insuportável, provocado pelas forças da natureza ou sofrimento provocado pela ganância que a guerras. Ao longo do tempo tentamos superar o medo do outro, desse que vem de longe em busca da paz que nosso lugar parece ter. E foi assim que formamos nossa civilização. Entretanto, após termos criado um mundo de tanto conforto, nos descobrimos insensíveis, incapazes de compartilhar. E provocamos dores imensuráveis em nossos semelhantes, dores como separar um casa de suas crias, seus filhos. A ciência nos ensina que todos os seres vivos sentem o que se passa ao seu redor (ciência não é só matemática), os mamíferos em especial, mas não apenas eles – ou nós.

Mas o que está escondido na notícia é que uma família aceitou ficar com a criança enquanto seu pai era deportado, assim como na ditadura argentina, famílias aceitaram ficar com os filhos dos prisioneiros da guerra que os generais travavam com parte do povo argentino. O que causa mais tristeza é que isso incomoda tanto a sociedade quanto incomodava a sociedade romana as crianças abandonadas nos lixos ou entregues para piratas. Em reação a esse costume um grupo assumia essas crianças, preservando a vida e abrindo caminho para os direitos humanos que foram sendo criados no processo civilizador.

Cuidemos para que essas criações humanas não sejam perdidas e nos tornemos seres de sangue frio, esses que cuidam apenas da continuidade biológica e não da cultura (arte, técnicas, religião, ciência, valores, etc.)

SANTA ZITA, a empregada doméstica

domingo, abril 28th, 2019

Santa Zita, a empregada doméstica

Chegamos ao término doe abril. Neste sábado o catolicismo lembra uma mulher que viveu no século XIII, sempre na cozinha e nos espaços internos de rica família italiana, uma doméstica, cuidadora da casa dos outros. A memória católica lembra seu desapego pelos bens, sua generosidade que, por muitas vezes foi fonte da inveja de suas companheiras, sempre dispostas a dizer aos seus patrões que Zita havia dado algo da cozinha, que saíra do trabalho para cuidar de doentes, que dera roupas a pessoas que pediam agasalhos. Santa Zita é pouco conhecida dos católicos no Brasil, embora seja popular na Inglaterra. Talvez seja porque no Brasil não tenhamos essa atividade, empregada doméstica, em nossa sociedade e os padres resolveram não lembrar que gente pobre pode vir a ser santa, e parece não ficar bem colocar gente não aristocrática nos altares. Mesmo agora nesse tempo de Opção Preferencial pelos Pobres, Santa Zita pode não ser um bom exemplo, pois ela não se reunia com as amigas para promover ações sociais libertadoras, preferindo cuidar dos mais pobres que ela, diretamente e não através de entidades como as Irmandades e Confrarias, tão comuns em seu tempo. Mas não havia confraria das que serviam nas casas aristocratas e preparavam a casa enquanto eles cuidavam de frequentar igrejas, e mosteiros. Bom, mas hoje é dia de Santa Zita, que se fez santa por sua dedicação ao seu trabalho e aos que careciam de assistência que não lhes era oferecida pelas instituições. No final de século XIX, várias mulheres – virgens, casadas e viúvas – criaram instituições para atender os “rejeitos da revolução industrial”, mas então eram novos tempos, com a miséria mostrando outras faces e exigindo novas santidades.

E Santa Zita não carregava a ´preocupação de, a cada abril, apresentar declaração do imposto de renda, pois no seu tempo o Estad,o como o conhecemos ainda não havia se formado; a vida social parecia mais simples e a caridade, ou seja, o cuidado para que não houvesse a morte pela fome, indigência ou velhice desamparada, deveria ser exercida por cada um e pelas famílias. A Previdência era entregue à Providência Divina e o sofrimento poderia ser visto como um castigo. Férias anuais não ocorriam, mas os dias festivos ofereciam possibilidade de descanso para os que faziam parte daqueles segmentos sociais que não careciam trabalhar com as mãos. Nos dias de festas, como hoje, Zita e suas companheiras estavam atentas para que a fartura da casa viesse a ser vista e experimentada pelos que frequentavam a mesa. Nesse sentido, pouco mudou nas relações, agora supervisionadas pela estrutura do Estado que exige certos limites, como não morar no local do trabalho, não trabalhar todos os dias da semana nem todas as horas do dia. Hoje consideramos isso “trabalho análogo à escravidão”; nossa sociedade não admite que haja escravos produzindo riquezas, essa situação tão comum nos Tempos Modernos, aqueles chegados após o tempo no qual Santa Zita viveu.
Os tempos Modernos, como se aprende em nossas escolas, são aqueles que terminaram com as revoluções burguesas europeias, e que podem ser vistos como o tempo da negação da humanidade do outro, embora fosse bem comum o interesse de reduzir tudo e todos à experiência europeia, que nunca foi uma única experiência. A diversidade de experiência religiosas na Europa foi transportada para outras regiões do planeta e, de acordo com o grau de resistência, foi imposta ou assimilada, e contudo todos e tudo era reduzido, entendido, vivido na perspectiva moderna. O que não era moderno não existia e, caso viesse a tentar existir, era eliminado. Assim agiram os europeus de Portugal, Espanha, Holanda, França, Inglaterra. A modernização do mundo fez crescer o número das Zitas na Europa, mas nas Américas, Zita, Mulher livre que saia de sua casa para cuidar da casa de outras pessoas, não existiam entre os séculos XVI e XIX, e quando começaram a ter presença na sociedade, eram tratadas de forma “análoga” à escravidão.

Hoje são muitas as Zitas no Brasil, agora protegidas pela legislação do Estado, pouco respeitada pelos que continuam a enxergar o trabalho manual como vergonhoso, ainda que seja o trabalho em sua própria casa. Paga-se pouco às companheiras de Zita no Brasil, assim como se paga pouco aos que trabalham, como Santa Zita trabalhava, para a satisfação dos que empenham seu tempo para fazer o homem moderno faz: acumular riqueza, embora já nem saiba o que tem, exceto no final de abril, quando o contador, alguém que trabalha para ele, lhe apresenta a relação de seus bens, para que ele diga ao Estado o quanto tem. As companheiras e companheiros de Santa Zita, não precisam apresentar declaração de bens ao Estado, ele sabe que eles nada possuem, senão a vontade de trabalhar para continuar a viver.

Viva a República

domingo, novembro 18th, 2018

Vivemos tempos difíceis, segundo alguns, na véspera de um tempo de censuras ao pensamento crítico, da possibilidade da perda da liberdade de expressão do pensamento, uma vez que foi vitoriosa, na disputa pela presidência da República brasileira, uma chapa que tem claro viés de direita política, anticomunista e com claros sinais de que pouco entende de política externa, além de coloração nacionalista, solicitando o retorno do patriotismo. Mas essa chapa foi eleita por mais da metade dos brasileiros, natos ou de escolha eleitores, com idade superior a 16 anos, de maneira livre e aberta para o mundo. Ao escolher esses futuros dirigentes do país, esses brasileiros rejeitaram o modelo que vinha sendo aplicado desde o final do século passado. Veremos e experimentaremos nos próximos anos a que vai nos levar a decisão do último outubro. Se não der certo, por certo que a eleição de 2022, ano do centenário da independência política do Brasil, será uma oportunidade de nova mudança.

Mas esta é a semana da Proclamação da República do Brasil, celebrada no calendário, e com direito a feriado das atividades produtivas para que os cidadãos, os mesmos que, faz um mês, votaram para escolher quem dirigirá a República nos próximos quatro anos. Mas, quando vamos à rua e perguntamos a razão do feriado, são pouquíssimos os que sabem; como este é um saber do cidadão, presume-se que é função da escola republicana refletir e ensinar sobre o tema. Claro que os pais dos alunos, por serem cidadãos devem estar aptos para ensinar, transmitir os valores cívicos da pátria. Pais e filhos passaram, de alguma forma, algum tempo em escolas onde tais valores lhes foram ensinados. Assim, surpreende que muitos não saibam o que é a República e a razão do 15 de novembro ser um feriado. Inclusive não está fácil conversar sobre assuntos dessa natureza, assuntos sobre momentos da história do Brasil, sobre o significado de ser brasileiro, de gostar de símbolos da nação. Coisa quase démodé isso de patriotismo, pois este é o tempo da sociedade global e o comum é a crítica a esses símbolos nacionais gestados no século XIX. Amar o Brasil tem ficado difícil, pois nos dizem que é um país corrupto, e que a bandeira verde e amarela não tem significado, que o certo parece ser o vermelho. Quase ensina-se que é melhor procurar outro país, seja para morar seja para procurar ser cada vez mais parecido com ele. Neste país de corrupto, de violência, um país de povo machista, racista, homofóbico, de tradição europeia, de povo sem educação, que não sabe votar, não, não vale a pena viver, é o que parecem nos dizer celebridades que fizeram e fazem fortuna iludindo a esse povo e que, daqui fogem por causa da violência para lugares onde não existem esses pecados, essas insuficiências do povo brasileiro. Tais insuficiências, estão bem explicadas pelos intelectuais que são ou que vivem em países onde tais insuficiências humanas não existem. Talvez existam, mas eles gostam de lá mesmo assim. Lá eles comemoram o 14 de Julho, o 04 de julho, o Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial (tem até país que celebra a bravura dos soldados brasileiros na Guerra, esses brasileiros que não respeitados aqui no Brasil – recentemente um jovem de 20 anos cuspiu no rosto de um expedicionário chamando-o de fascista). De uns tempos para hoje não parece ser “politicamente correto” assumir que ama o Brasil.

Amar o Brasil não é desamar os demais povos, mas não amar o Brasil onde você nasceu, cresce e se torna adulto, é desamar de parte da humanidade, exatamente aquela lhe é mais próxima. Não parece ser possível conhecer o mundo sem saber andar nas ruas do seu bairro, celebrar a vitória dos povos e não conseguir ver as lutas do seu povo. Quer conhecer o mundo, quer ser cidadão do mundo, conheça sua aldeia, seja cidadão da sua aldeia, parecia dizer quem pensou a palavra COSMOPOLITA. Sabemos pouco dos humanos, de sua história; nos apaixonas por esse ou aquele povo por que ouvimos as histórias deles contadas com orgulho, mesmo sabendo que foram sanguinários, que roubaram povos e nações, que mentiram, mas as suas vidas construíram o país que seus bisnetos vivem. Assim são os heróis deles, assim são os nossos. O que difere é que nós conhecemos os heróis deles e eles conhecem os seus heróis e nós, talvez não conheçamos os nossos heróis. Nossos professores também não. Sabemos pouco de Ana Nery, de Henrique Dias, de Joaquim do Amor Divino, de José Bonifácio, de Machado de Assis, de José do Patrocínio, de Pereira da Costa, de Cruz de Rebouças, de Osvaldo Cruz, de Joaquim Nabuco, de Antônio Vicente Maciel, de Bárbara de Alencar, de Aimberê, de Antônio Faustino, Manuel Balaio, de Marcílio Dias, de Maria Quitéria, Apolônio Sales, de Ulisses Pernambucano, de João Ubaldo, de Érico Veríssimo, e muitos outros.

Sabemos tão pouco de nós, e por preguiça, continuaremos a saber mais dos outros e continuaremos a ter vergonha da bravura que desconhecemos em nosso povo.