Archive for the ‘Fábrica da Macaxeira’ Category

Rescritas da história – muitas e diversas maneiras

domingo, abril 7th, 2019

14 Anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor
(Paulinho da Viola)

Eu tinha quase 14 anos quando meu pai me pôs a estudar no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, sim, o mesmo que foi interventor em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, após ser Ministro da Justiça e do Trabalho. Foi assim que no dia Primeiro de abril, o diretor do CTPAM (prof. Abelardo, talvez), suspendeu as aulas por que soube estar ocorrendo movimentação militar na cidade e o melhor era todos irem para casa. Saímos do CTPAM e descobrimos que não havia transporte coletivo. Eu estava na Encruzilhada e tinha que ir para Nova Descoberta. Sem ônibus, peguei um bigú que me deixou em Casa Forte. Outra carona deixou-me na entrada de Nova Descoberta. Mais 1500 metros e cheguei em casa, e tudo parecia calmo.

Com quase 14 anos pouco entendia do que estava acontecendo. O que se dizia era que tinham prendido o governador Arrais e o presidente não estava em Brasília.
Depois foi ouvir as notícias as notícias pelo rádio. Falava-se de prisões de deputados vereadores, sindicalistas. Muitos dos moradores de Nova Descoberta trabalhavam na Fábrica da Macaxeira, e as famílias estavam assustadas. Alguns dos provedores ficaram desaparecidos por uns tempos, e quando voltaram estavam desempregados. A memória traz a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”. É que os comunistas haviam deixaram o Brasil na miséria. Vi muitas pessoas levarem alianças, anéis, brincos para a Praça da Independência, com o intuito de salvar o Brasil. Ao mesmo tempo os rádios e jornais informavam sobre Inquérito Policial Militar – IPM, para demonstrar o crime de políticos e sindicalistas. Parece que fiquei uma semana sem aula, tempo para que tudo se acalmasse.

Sempre tive um carinho especial por Felipe dos Santos. Ele havia liderado, em Vila Rica, Minas Gerais, uma revolta para expulsar o portugueses do Brasil, livrar o Brasil de pagar o Quinto a Portugal. Aprendi, ante de chegar ao Ginásio, hoje quinta série, que Felipe dos Santos foi o Protomártir da Independência do Brasil. Aprendi a amar o Brasil e Felipe dos Santos sempre foi, e continua sendo, o meu herói. Ele foi esquartejado, sua casa foi demolida, sua terra salgada para que nada mais nascesse ali. Foi a ordem do Conde de Assumar, meu primeiro vilão. Nos anos seguintes os livros não mais mencionavam Felipe dos Santos, começava o tempo de Tiradentes. Esse personagem foi ficando cada vez mais falado e bonito, a cara dele era bem parecida com a de Jesus Cristo. Até mesmo os poetas e cantores da oposição ao regime cantavam esse Mártir da independência. Estanislau Ponte Preta escreveu uma Exaltação a Tiradentes, com conotação jocosa, mas ele era o homem que “foi traído mas não traiu jamais a inconfidência de Minas Gerias. Ary Toledo cantava assim, “Foi no ano de 1789, em Minas Gerais que o fato se deu // E havia derrame do ouro (…) Esse ouro ia longe distante passava o mar, ia para Portugal para rei gastar (…) o mineiro garrou a pensar: se esse ouro que é ouro da terra e de nossa terra porque é que se vai (…) se juntaram numa reunião e resolveram fazer uma conspiração (…) Manoel da Costa, Antonio Gonzaga e Oliveira Rolim e tem mais um nome, o nome do homem que foi mais herói esse fica pro fim. E o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser, Joaquim José da Silva Xavier”.

As escolas de samba do Rio de janeiro se esmeraram em produzir sambas sobre o herói de Minas Gerais (a bem da verdade A Império serrano, em 1949 exaltou Tiradentes). Tudo isso ajudava muito a aceitar o esquecimento de Felipe dos Santos, que carregava dois sérios problemas: era português e civil, não podia ser herói de um movimento nacionalista liderado por militares.

Bem tudo isso veio vindo em meus pensamentos nesta semana quando se escancarou o projeto revanchista de revisar ou reescrever a história da Brasil, negando a existência de uma ditadura iniciada em abril de 1964, mudando os livros didáticos, como disse o brasileño com assento no ministério da educação. Historiadores estão atentos para iniciativas tortuosas como a do atual governo que, carente de um Golbery do Couto e Silva, foi pescar com Olavo de Carvalho. Assumindo o bom humor, Golbery de Couto e Silva teve Elis Regina, Chico Buarque, a Portela (1967) como propagandistas de seu herói. Mas precisamos lembrar que dizia Capistrano de Abreu sobre a Inconfidência de Minas Gerais.

algumas lembranças da Fábrica da Macaxeira e da Igreja de Nossa Mãe de Deus

sábado, agosto 26th, 2017

Hoje completa 50 anos da criação da Paróquia de Nossa Senhora Rainha do Mundo, localizada na Macaxeira. Tinha eu sete anos de idade. Foi no mesmo período da criação da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta. As duas novas paróquias eram desmembramento da Paróquia de São Sebastião do Vasco da Gama que por sua vez já havia sido desmembrada da Paróquia do Bom Jesus do Arraial, de Casa Amarela.

O metropolita era Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, bispo conservador que pôs sua assinatura na ata da criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Dom Antônio era conservador, autor de vários artigos na Revista Eclesiástica Brasileira – REB, todos seguindo a linha da Quanta Cura e do Sylabus de Pio IX. Mas Dom Antônio percebeu o crescimento populacional e geográfico da cidade e, cuidou de estabelecer a presença da Igreja naquela região norte do Recife, que vinha num crescendo desde os anos quarenta. E esse crescimento estava ligado a dois fenômenos: 1. a descida da população desde a Mata Norte, pois as usinas levaram ao fechamento dos engenhos e ao processo de substituição dos sítios por canaviais sempre mais sedentos de terra; 2. a transformação desses antigos cortadores de cana moradores de engenhos em operários nas fábricas têxteis, especialmente da Fábrica da Macaxeira. O crescimento populacional, é incrementada nos anos quarenta e cinquenta e levou à ocupação dos morros; essa população operária chamava atenção pela situação precária que vivia, sendo que os operários das fábricas de tecidos eram os que tinham melhor padrão de vida, no que pese a constante renovação da mão de obra nas unidades fabris. E o Arcebispo preocupava-se em não perder suas ovelhas para os sindicatos que saíram em defesa dos operários. Dom Antônio percebeu que era necessário aproximar-se e dar um apoio maior aos que formavam a Juventude Operária Católica – JOC, e era ativos cristãos no meio operário, bastante disputado também pelos partidos, especialmente o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB e o Partido Comunista do Brasil – PCB.

A indústria têxtil de Pernambuco foi instalada em momento de forte presença da Igreja Católica na sociedade, ainda que estivesse sendo vivenciado o processo de secularização, cujo emblema mais explícito é a separação republicana da Igreja com o Estado. Os industriais eram católicos e pretenderam seguir os ensinamentos da encíclica Rerum Navarum, e criaram vilas operárias, com atendimento religioso, educacional e social para os seus operários. Assim, além da igreja e da casa paroquial, as fábricas ofereciam atendimento à saúde, centro de lazer, com cinema e salão de festas para os operários, quase sempre conhecidos como recreios. Evidentemente os industriais também forneciam as instalações para a delegacia de polícia.

Esse fenômeno pode ser visto no Bairro da Torre, em Camaragibe, na cidade de Goiana, ainda agora depois que as fábricas fecharam as suas portas por não terem tido a audácia de renovarem-se parra acompanhar o processo nacional, ou, por os sucessores de seus fundadores terem optado por acompanhar o processo de fortalecimento do capitalismo centralizado na região Sudeste do Brasil, assumindo ações nos setores de serviço, especialmente a hotelaria. Os operários foram abandonados e, simultaneamente os bairros incharam com o capitalismo e suas sequelas se estabeleceram com a nova ordem ou desordem, com a ausência do Estado que, quando chega vem com um atraso irremediável.

Nesta manhã, uma aluna de jornalismo da UNICAP fez-me perguntas sobre a fábrica, lembrando-me do tempo em que saía de Nova Descoberta para, atravessando a mata de eucalipto às seis horas da manhã, apanhar o ônibus elétrico que me levava até a Encruzilhada, onde terminei o curso ginasial. Mas também lembrei que, nas festas de Natal, ia com meus irmãos e amigos para a frente da Igreja de Nossa Senhora Mãe de Deus, brincar no parque e assistir a apresentação do Pastoril. Ao longo do ano, na venda de papai, vendia fiado a muitos operários. Com fechamento da fábrica, aos poucos o comércio de papai também faliu, impulsionado pela chegada dos modernos supermercados.