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MARIANO TELES, Mestre de um Povo Novo

terça-feira, fevereiro 19th, 2019

Políticas públicas que auxiliem a promoção de pessoas ou grupos de pessoas, comunidade são necessárias em sociedades como a nossa, caso haja o desejo de diminuir as desigualdades e afirmar a liberdade republicana para todos os que formam a nação. Somos uma nação resultante da chamada Revolução Mercantil, promotora das Grandes Navegações realizadas por Espanha, Portugal, seguidos por Holanda, França e Inglaterra. Tal Revolução tecnológica está ancorada no Livro e na pólvora como arma eficaz de dominação. Mas, apesar de nos voltarmos tanto para os feitos dos generais e seus exércitos conquistadores, foi a imprensa que garantiu o domínio cultural sobre os povos americanos, e mesmo sobre outras civilizações melhor apetrechadas nas criações espirituais, mais sofisticadas que as mantidas pelos Povos Coletores e Caçadores. A escrita, sobre a qual os europeus estavam aperfeiçoando o domínio com a tipografia, e a decisão de evitar que os povos submetidos a ela tivessem acesso, foi o que estabeleceu e manteve a dominação nas terras que receberam o nome do empregado dos banqueiros italianos. Além da conquista territorial, consequência das vitórias militares, foi a conquista espiritual que garantiu aos povos da pequena Europa estabelecer seus padrões básicos de hábitos, costumes, religião, leis aos povos que eles encontraram em seu périplo. Darcy Ribeiro ensinou que esta Revolução Tecnológica resultou Povos Testemunhos, Povos Transplantados e um Povo Novo, o Brasil.

O Povo Novo, surgido no processo da Revolução Mercantil, não teve acesso direto à tecnologia, recebendo-a à conta gotas, sempre que interessava aos conquistadores. Ora, é a leitura o instrumental básico para a transmissão e recriação do mundo moderno e, como sabemos, não houve qualquer interesse em construir escolas que tornasse comum a leitura, a escrita e o estímulo à criação de bibliotecas. Os portugueses não tomaram iniciativa de popularizar a tecnologia da escrita e da leitura; os espanhóis criaram, de imediato universidades em algumas de suas colônias, mas não escolas para o vulgo, o índio, o meztizo; as universidades estava para atender os Creoulos, para a formação de quadros administrativos garantidores da dominação. Assim os espanhóis, segundo Darcy Ribeiro, fizeram das civilizações Inca, Maia e Azteca, povos Testemunhos.

Nesta semana que passou, dia 14, ocorreu a morte de Mariano Teles, pessoa que conheci no início do século, mas que nasceu na primeira metade do século XX. Foi em um dos engenhos da cidade de Aliança e, em sua adolescência assistiu o desmanche dos engenhos de fogo morto, tornados em fornecedores de cana para as usinas que se estabeleciam na região desde o início do século XX. Mas enquanto a cana chegava vagarosamente, os sítios eram os locais de moradia dos trabalhadores da cana, e nesses sítios, descendentes de escravos que se caldeavam com descendentes de índios, criavam suas brincadeiras, ou davam novo sentido a essas brincadeiras. Quando Severino Lourenço da Silva, que ficou conhecido como Mestre Batista, estabeleceu-se no sítio Chã de Camará e começou a fazer “samba” nos finais de semana, Mariano Teles começou a frequentar o lugar e, um dia, tomado de muita coragem, pediu para entrar na brincadeira do Cavalo Marinho. Nunca mais deixou de brincar e aprendeu tudo que podia aprender com o Mestre Batista, de tal maneira que, cm a morte de Batista, Mariano passa a mestrar, e o fez até que sua saúde permitiu. Na universidade do Mestre Batista, foram formados os Mestres Biu Alexandre, Luiz Paixão, Biu Roque, Mané Salustiano, Gumercindo, Grimário, Mané Deodato, Antônio Teles, Zé Duda, Mariano Teles e muitos outros, inclusive o jovem Siba.

Mestre Mariano Teles conviveu com todos esses nomes famosos no mundo que fica distante daquele que está mais próximo da tradição europeia, mas que, recentemente, vive a conversar com esses mestres da cultura que o povo recriou, a despeito das imposições ou, talvez, por causa das imposições. Assim, o Cavalo Marinho, que o padre Lopes Gama, o Carapuceiro do Recife da segunda metade do XIX, dizia não conhecer algo “ tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi. Em tal brinco não se encontra nem enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o boi, um capadócio, enfiado pelo fundo de um panacu velho, chama-se cavalo marinho; outro, alapardado sob lençóis, chama-se burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo , outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama caipora. Há além disso outro capadócio que se chama pai Mateus.(…)”. (O Carapuceiro, n.2 (11/1/1840) citado por Evaldo Cabral de Melo).

A descrição da brincadeira que o padre assistiu – a contragosto, diga- se, continuou a existir em alguns bairros do Recife, mas escondeu-se na Mata Norte do estado, recriando-se e se mantendo, com a inteligência e a memória dos que não tiveram acesso às tecnologias, mas viam e ouviam e, desse vir e ouvir, guardaram, cultivaram as experiências que hoje são buscadas pelos doutores diplomados que, às vezes com falsa humildade, sentam-se aos pés de mestre como Mariano Teles, para saber como é e que era o passado de seus (nossos) avós. Mariano Teles pode ter sido o último Mestre da Cultura Popular que não foi afetado pela escala de espetáculo que vem dominando o conhecimento da cultura popular; não se tornou “artista”, continuou Mestre, em Chã de Camará, assistindo, de longe os brilhos de seus colegas em plagas distantes, dançando sob os olhares dos novos carapuceiros que, parecem saber mais que todos, e assumem a tarefa de dizer o que vale ou não vale a pena ser cultivado.

Mestre Mariano Teles, a quem ouvi, sentado no banco de seu quarto, ou debaixo de frondosa jaqueira no sítio Chã de Camará, continuou cantando e dançando os Arcos de São Gonçalo no chão de terra batida, mas cheio de barroca; ali onde ele aprendeu os versos da Estrela de Belém, continuava ensinado às crianças; no mesmo terreiro ensinava a Toada do Vaqueiro e o drama de suas filhas. Todas as Figuras ele sabia cantar e dançar, como ensinou ao jovem Mestre Zé Mário.

Jamais esquecerei a singeleza e a elegância da resposta que, uma noite deu ao seu amigo Mestre Salustiano, em um dos primeiros Encontro de Cavalo Marinho. Mestre Salustiano Perguntou: “Mariano, qual a figura mais bonita do Cavalo Marinho” Ele disse: “não sei, se eu disser que é esta você vai dizer que é aquela, seu disse que é aquela, você vai dizer que é esta. Cada tem a sua preferia e a preferida é a mais bonita para quem acha.”

Saudade de Mestre Mariano Teles, mestre de um povo novo, que se tornou novidadeiro. Ele não, foi para outra Chã, foi dançar com Mestre Batista, conversar com Salustiano e, com Biu Roque, cantar.

Fé e políticos salvadores

segunda-feira, outubro 15th, 2018

Dois dias após os festejos em honra da Padroeira do Brasil, com multidões caminhando até o seu santuário em Aparecida, louvando e agradecendo todas as graças com as quais ela protege e mantém o Brasil funcionando de maneira eficaz e bonita, na forma que nós deixamos. Nos dois dias seguintes, devotos da Mãe de Jesus seguem, em procissão, em homenagem à Mãe de Jesus várias ruas e rios são o palco da exposição da fé no Belém do Pará, agora não a nomeando Aparecida, mas como Nazaré, a lembrar a vila onde teria nascido e conhecido a José, esse sempre esquecido auxiliar dos mistérios que rondam a Mãe de Jesus. Tudo isso acompanhado na televisão, com os olhos dos cinegrafistas. Quantas pessoas? Dois milhões? Essas festas provocaram uma admiração a uma senhora que se diz católica, embora não costume frequentar a igreja, exceto quando é festa de Maria do Carmo, a Maria dos Carmelitas. Dizia ela: “ a gente só vê gente pobre seguindo e fazendo as promessas.” Apenas disse: pois é.

Nas semanas que se seguem será completado o processo eleitoral e os brasileiros definirão quem os vai governar nos próximos quatro anos, quem tomará decisões que definirão o caminho da nação na primeira metade do século XXI. Os candidatos não são de confiança, e dividem a preferência do eleitorado. Acusam-se mutuamente de fascista e comunista. Um deles proclama que Deus está acima de tudo e outro, embora seja de tradição Ortodoxa, foi flagrado em templo católico comungando, com o apoio do vigário, mas sob discordância da comunidade. Era um dia de homenagem à Mãe de Jesus. Mas, como dizem os de fé, ela é Mãe de todos, inclusive daqueles que lhes negam a maternidade divina. Entretanto, será que essa questão auxilia a superar o dilema posto à sociedade brasileira?

No pleito de 2014, a candidata e o líder do Partido dos Trabalhadores afirmaram que fariam o diabo para não perder a eleição. Agora, como no século XVII e Henrique de Navarra, o candidato parece dizer: Brasília vale uma missa. Quando Henrique de Navarra disse tal frase já havia ocorrido a Noite de São Bartolomeu. Tomara que não venha ocorrer a tragédia com essa aproximação desarvergonhada dos políticos na direção das Igrejas. Já pensou se esquenta esse debate “fulano está com o apoio dessa igreja x beltrano está com essa outra igreja”. E lá vamos nós, de novo à luta de classes que foi renomeada no Brasil sob o “nós contra eles”.

Povo religioso, até os ateus vão à missa e pedem que rezem pelos seus doentes, o brasileiro não deixa de fazer suas promessas aos santos preferidos, mas cultiva um messianismo em suas práticas políticas, sempre à espera de um “salvador” da pátria, uma permanente dependência de um rei, um enviado divino. Definitivamente o brasileiro não parece um povo Moderno, não parece ter completado o Processo Civilizador iniciado no século XVI; acomodou-se na epopeia lusídica, tornando-se o Povo Novo, na definição de Darcy Ribeiro, sempre a fazer Atualizações Históricas e, sempre as faz de maneira incompleta, pois lhe falta um dos substratos básicos da modernidade, a racionalidade de ações, do trabalho sistemático e permanente. O povo brasileiro sempre faz uma pausa, seus políticos não apostam na continuidade de projetos e, cada um apresenta-se como o salvador momentoso. Sem planejamento e continuidade administrativa, o povo será sempre presa das mentes que projetam seu futuro e conseguem fazer o povo aceita-lo como seu.

Na eleição de 28 de outubro, dois projetos redentores estão em jogo, dois salvadores da pátria e da democracia (algo que não tem origem nas navegações do século XV) irão, mais uma vez brincar com a fé do povo que vive sob os braços de Redentor, e tem, em suas mais antigas cidades, o Salvador do Mundo como padroeiro.

Povo Novo ou Povo Perdido

sexta-feira, agosto 11th, 2017

Não está sendo fácil, pois a situação é de mudanças em uma constância raramente prevista. Tudo parece mudar e, considerando o pequeno período que nos é permitido compreender, realmente as mudanças ocorrem. Ontem recebi uma foto na qual a frase de famoso escrito apaixonado pelo Brasil, tão apaixonado e crente em seu futuro, que resolveu matar-se na bela paisagem do Estado do Rio de Janeiro. Na foto que me foi enviada a frase parece mais real: Brasil pais sem futuro. Na mesma semana escutei famoso cineasta brasileiro, em seu comentário diário em uma emissora de rádio, citar frase de renomado economista a respeito do Brasil: O Brasil jamais perde a oportunidade de perder uma oportunidade. Lembra-me frase de um político baiano que, ao ser perguntado a razão de mudar tanto de partido, apenas responde: eu não mudo, meus posicionamentos são os mesmos, os partidos é que estão mudando, ora na oposição ora no governo. Mas eu não mudo, estou sempre com o governo.

Neste mutável universo que é o Brasil e sua política, tudo parece acomodar-se nas mais variadas formas: o caráter Macunaíma cada vez mais fica mais Malandro, na casa ou na rua. E não importa se é uma Casa Grande ou Senzala, um Cortiço, um Sobrado ou Mocambo; as aparentes mudanças garantem a alguns que nada mudará e, por isso, a sociedade acostumou-se a pintar anualmente as paredes das casas, mudar a posição dos móveis e garantir que estamos sempre em um país novo, embora envelhecido, governado por velhos que mantém seus privilégios e jovens que agarram-se a ensinamentos seculares, para criar o novo mundo. Enquanto parte da humanidade está preocupada sobre se haverá cursos universitários suficientes e atentos às combinações possíveis no mundo quântico e suas veredas recentemente descobertas, o malandro procura salvar comunidades para fiquem permanentemente em seu estágio de testemunhas de um tempo passado.

O que Darcy Ribeiro deslindou sobre o Povo Novo, mas que não fez uma Revolução Tecnológica, é que ele é obrigado a realizar constante Atualização Histórica para acompanhar o que a criatividade que o conhecimento acumulado é capaz de produzir; entretanto, resolvemos apenas investir nessas reciclagens, ou seja, procuramos ainda utilizar o que já foi descartado. Desde 1949 que há campanhas para acabar com o analfabetismo no Brasil, temos especialistas em Alfabetização de Adultos, que sempre terão emprego garantido, porque as escolas não alfabetizam corretamente as crianças. Vamos nos tornando uma sociedade de reciclados, em reciclagem permanente. A disciplina do comportamento passou a ser encarada como algo fascista, embora os malandros ricos –alguns pensam que são- fiquem sempre deslumbrados com as sociedades organizadas e disciplinadas que encontram sempre que saem do Brasil, com ruas limpas e seguras.

Neste início do século XXI, a indisciplina de Macunaíma parece estar vencendo, e os brasileiros não estão perdendo a oportunidade de perder mais uma oportunidade.