Archive for the ‘Processo Histórico’ Category

Drama 5. Em torno do Mistério

sexta-feira, abril 10th, 2020

Os Sagrados Mistérios da Sexta feira Santa, é uma frase que escuto desde a minha infância, nas missas que assisti, foram poucas, e nas missas que participei, e foram muitas. Nunca gostei da expressão “assistir a missa”, nunca gostei de assistir algo, no sentido de ver que algo está acontecendo sem a minha participação. Nunca gostei de assistir aos sagrados mistérios da Semana Santa, como sempre recusei assistir a minha vida, esse mistério que começou faz sete décadas.

A Semana Santa começou a existir para mim quase no final da minha primeira década de vida, quando fiz a primeira comunhão, após ter sofrido grave acidente, no qual tive o fêmur direito quebrado. Ainda engessado, sofri a “gripe asiática” que dominou 1957. Esses dois acontecimentos marcam até hoje a minha memória. Tendo sobrevivido a febre, fui o único da família que a teve, fiz sozinho, na Capela Santa Terezinha, a primeira comunhão. Tem um retrato meu, de paletó e gravata brancas. Lembro que papai me levou a um alfaiate próximo ao cemitério de Casa Amarela. A minha primeira Eucaristia foi a minha inserção nos Mistérios da Semana Santa, o mistério da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Anos depois, aprendi uma oração atribuída a Santo Tomás de Aquino, uma reflexão sobre o mistério, Ela começa assim: Meu Deus, te adoro dentro de mim. Não lembro o que vem mais, sei que está no missal dominical, mas o início da oração diz que Deus está dentro de mim, que sou templo, casa de Deus. Esse é um grande mistério.

Quando estudava teologia, em uma aula, ouvi do padre Diomar Lopes reflexões sobre por que pode ser exagerado o cuidado de não deixar qualquer partícula da hóstia – que pode ser chamada também de partícula, pois o corpo de Cristo está na Eucaristia e não se pode reduzir a Eucaristia em um pedaço de qualquer coisa, um objeto que significa, que carrega a eucaristia e, embora seja a eucaristia não é a Eucaristia. Este é o mistério.

A Eucaristia, vivida no mistério da grande Ceia, é algo além do pedaço de pão, do copo do vinho. O Mistério envolve o que vem antes da ceia, o ato de ter os pés lavados por aquele que é a Eucaristia. Envolve a ceia, o partir e repartir um pedaço de pão para que todos que recebem desse pão, e também bebem o copo de vinho, todos no mesmo copo. O pão e vinho tem que ser para todos. O Mistério envolve o que vem em seguida, a prisão, o sofrimento, o escárnio, o olhar zombeteiro, as lágrimas dos que podem estar a começar a entender. Não é entender o mistério, o mistério jamais será entendido. O mistério é vivido. Como entender que Deus está dentro de mim? Como entender o sofrimento que antecede a morte?

Dizemos que na Semana Santa é a semana para refletir sobre a paixão e morte de Jesus, como se apenas naquela semana ele estivesse em paixão, mas ele esteve em paixão todos os dias de sua vida, ele sempre foi apaixonado, a vida é a paixão e deve ser vivida com paixão e com compaixão. Existe a tradição que uma mulher, Verônica, que se aproximou e, em gesto de compaixão, enxugou o suor e sangue que corria no rosto daquele apaixonado. E os dois trocaram olhares de compaixão. Sem palavras, só gesto e olhar. Um mistério, essa mulher que surge e desaparece, e permanece. Quanto amor no gesto, no fazer, no agir. Verônica significa vitória, a que vence. Verônica vence a dúvida e assume o Mistério que o que ela está vendo é mais do que o que ela está vendo. É o Mistério. Como é mistério o que aquela outra mulher, Madalena, aceita que o corpo que ela busca não é o corpo que ela busca, é o mistério que ela vê quando vê o corpo que já não pode tocar. Assim como Maria aceitou o mistério de ser a mãe de Deus. Tudo isso é o Mistério que Semana Santa.

Neste ano uma nova doença está marcando o mundo, e uma historiadora já nos disse que ela marca o final do século XX. Em uma postagem anterior escrevi que estamos vivendo a transição para uma nova civilização. Leila Schwarcz e eu estamos querendo entender o que se passa neste tempo, que está mudando a maneira de ver o que nos rodeia, estamos tentando explicar o fato humano, o que possível, pois o que é humano não é mistério. O Mistério é aceitar o Mistério, aceitar e viver apaixonadamente a vida, na certeza de esta paixão pelo amor, pela entrega, pelo serviço, pela aceitação da vida.

Este ano os templos estarão vazios de pessoas celebrando o Mistério da vida, mas o Mistério é vivido como Santo Tomas de Aquino nos disse: Meu Deus, eu te adoro dentro de mim.

Drama 2 – Superar a doença da morte

sexta-feira, março 27th, 2020

Próprio da humanidade inventar meios para sua preservação, ensinar o que aprendeu no ato da invenção, modificar o aprendido, aperfeiçoar o recebido. É que tem ocorrido sempre, mas não somente. Alguns aprenderam mas não transmitiram o que aprenderam ou aperfeiçoaram, interromperam o processo, ou melhor, modificaram o processo humano: tornaram seu o que era comum.

Qual o nome que tenho? Quem o pôs em mim? Porque razão escolheu este nome para marcar-me entre todos os seres? Sim, o nome que carregamos é uma marca que permite sermos reconhecidos pelos demais, mas esta marca nos foi dada por alguém que possuía um objetivo ao nomear-me. Devem ter sido essas as considerações que fizeram meu filho Isaac interpelar sua mãe, marcada om o nome do avô, Manuel. É uma tradição romana. Aprendi, que as mulheres carregavam o nome de algum ancestral. Mas, porque pus o nome Isaac em meu caçula? Quantas tradições culturais, civilizacionais em um só parágrafo: romana, judia, africano-portuguesa.

Conto histórias para meu filho dormir, então quis contar a história do seu nome. Uma história que começa em Ur da Caldeia, na Mesopotâmia, no tempo de Hamurabi. Abrão, homem de alguma posse, casado com Sara, teria tido um encontro com o seu deus pessoal que lhe ordenara abandonar a cidade, ir para o deserto com sua família. E então ele migra com a mulher, seus bois, cabras, escravos, alguns parentes. Abrão diz a Sara que seu deus lhe havia dito que teria uma grande descendência e que eles formariam um grande povo. O tempo passava e Sara não engravidava e já havia passado tempo de ela engravidar. Para agradar o marido, Sara permite que ele tenha um filho com uma de suas escravas e adota esse filho como seu. Sara não parece confiar na promessa do deus de Abrão, procura um jeito de cumprir a sua parte na promessa para a qual não fora consultada.

Uma tarde dois jovens estão de passagem e passam no acampamento de Abrão que os recebe e os trata bem. Na conversa os estranhos dizem que logo Sara engravidará e  Abrão terá o filho que lhe fora prometido. Sara escuta e ri , pois entende que seu tempo de maternidade já havia passado. Os visitantes reclamam de sua pouca confiança ou fé no deus de Abrão. E seguem viagem. Algum tempo depois o corpo de Sara apresenta os sinais da gravidez. No tempo apropriado pare seu filho. Então Abrão fica muito alegre e diz que o menino que nasceu é a alegria de sua velhice, um prêmio, e o chama de Isaac. Foi pela alegria de ter um filho após os sessenta anos que eu, formado em parte da tradição judaica, resolvi chamar de Isaac o meu filho.

Poderia ter terminado neste ponto a história, mas o filho de Abrão, que então passara a ser conhecido como Abraão, tem uma vida maior que o seu nascimento. O nascimento é apenas um momento da vida que começara antes e terminará muito depois da experiência da vida. Assim continuei a história, não mais do nome, mas da vida de Isaac. O deus de Abraão cumprira a promessa, mas, diz a tradição, havia mais a ser realizado, mudado.

Quando saiu de Ur levando suas coisas, Abraão levava também seus sacrifício, costumes e, entre eles, havia um hábito de oferecer aos deuses a primícias de tudo que o crente produzia. E Abraão entendeu que tinha a obrigação de oferecer Isaac em sacrifício ao seu deus, de quem disse que ouvira a cobrança. Assim ele chamou Isaac para um passeio e resolveu matá-lo para agradar seu deus. Durante a caminhada Isaac perturbava Abraão sobre qual o animal que seria sacrificado. Eu estava contando essa parte da história quando ouvi o soluço de meu filho, estupefato com a ideia de que Isaac seria morto para a alegria do deus de Abraão. E pouco adiantou ter adiantado a história, ter dito que no último instante o deus de Abraão não permitiu que fosse consumado o sacrifício/assassinato de Isaac, que apareceu um animal e que a história apenas mostrava de como os seres humanos estavam superando uma etapa do drama, deixando de matar seus primogênitos, e que Isaac. Pouco adiantou dizer que, além de ser a alegria da velhice de seu pai, Isaac era também o sinal da libertação, da superação de uma fase antiga e o começo de uma humanidade menos sangrenta e dolorosa, embora ainda muitos sofrimentos estivessem por vir. Lembrei que só vim a entender o que viveram Abraão e seu filho após estudar um pouco de antropologia, pois teologicamente eu apenas aceitava aquela visão de um pai com uma faca na direção do filho indefeso.

Contos de fada servem para explicar o mundo às crianças, são contados por adultos que raramente compreendem o seu significado. Assim também acontece no relacionamento dos homens com os seus deuses. A tradição judaica parece ter início com a superação dos sacrifícios humanos dos seus primogênitos, como se confirma com a história central da libertação no  Egito. A tradição cristã também exige um sacrifício do unigênito. As crianças sofrem muito no aprendizado dessas tradições que formam a cultura, a sensibilidade que carregam as fazem solidárias ao sofrimento de todas as crianças, de todos os humanos que construíram a humanidade.

Vez por outra, as sociedade estão governadas por adultos que não tiveram ou perderam a infância.   

Drama

quarta-feira, março 25th, 2020

Não tem sido fácil a construção da humanidade, ela busca alcançar o que é, parece, inalcançável. Recordo de um debate com um dos meus professores de Bíblia a respeito do que ocorria no Paraíso. A ‘queda’ de Adão e Eva é sempre um enigma. Um dos castigos recebidos por conta da desobediência é a morte, o outro é trabalho e o terceiro é a dor. Os escritores da Bíblia entendiam que os homens e mulheres não morriam antes da desobediência, assim como a necessidade de trabalhar para manter-se alimentado e vivo. Também a chegada da vida não significava a dor nem o risco da morte. Todo o drama ocorreu a partir do momento em que o desejo de conhecer o desconhecido foi maior que o temor do desconhecido. Mas isso tudo ocorreu antes que a história começasse, pois a história começa com o conhecimento de que a vida é o risco de seu desaparecimento em meio do trabalho e dor. A história parece ser a busca para chegar ao Paraíso, e ele pode ser alcançado indo em frente ou sonhando com o que se perdeu. O Paraíso é promessa ou saudade. É promessa da imortalidade ou saudade da imortalidade; promessa de um tempo sem dor ou saudade de um tempo indolor; promessa de fartura sem esforço ou saudade da fartura sem esforço. A história, ou seja a sequencia da vida humana tem sido essa busca de construir ou voltar ao tempo farto sem dor, sem morte.

Meu professor, posteriormente bispo anglicano, respondeu-me dizendo que eu deveria pensar mais sobre o assunto e que ele era/é muito interessante. Ao longo de minha vida encontrei e encontro vários códigos morais que indicam como devem agir os homens: devem ser bons, magnânimos, piedosos, calmos, atenciosos, honestos, francos, respeitadores,  contentes com o que possuem, não serem invejosos, serem como os  lírios dos campos e aves do céu. Esses códigos estão em todos os recantos da terra e são repetidos catequeticamente em todas as religiões e filosofias. Em Confúcio, Buda, Incas, Brâmanes, Abraão, Código Napoleônico.  São ensinados por aqueles que não as seguem, estão acima delas pois delas são guardiões, e por isso eles possuem o que não deve ser cobiçado. E castigam os que não conseguem vencer o desejo. Como eles conseguiram isso? Como eles conseguem isso, ainda hoje? Eles conseguiram o ócio com dignidade e sorriem dizendo duas verdades que parecem excludentes mas são explicativas e complementares: se não trabalhar não come, mas quem trabalha não tem tempo para pensar. Tempo para pensar.

Nossa sociedade tecnológica encontrou meios para que todos tenhamos tempo para pensar. Bem, não é a todos que é dado esse tempo, pois a maioria continua, como nos terraços da Mesopotâmia, vivendo da mão para a boca, trabalhando com o objetivo de ter um prato de sopa de cebola no final do dia. O caldo de carne jamais lhe chegará. Bem, há dias de festas e, neles, algo cairá da mesa. Os quadrupedes e rastejantes que chegarem primeiro alcançarão o osso e terão uma sopa diferente naquela noite.    

“sou um atleta”, “morrem os mais velhos”. As pirâmides precisam ser construídas; Salomão construiu o Templo; o Tja Mahal é mais bela prova de amor;  a Torre Eifel, a Capela Sistina o altar do Mosteiro de São Bento; o Louvre; o Arco do Triunfo. Tudo é arte beleza e sangue.

E Virgílio não entrou no Paraíso.

Sebastiões redivivos

domingo, dezembro 15th, 2019

Sempre bom encontrar pessoas que consideramos amigas, com as quais podemos conversar sem temor, sabemos que ela vai nos ouvir, não perscrutar possíveis erros em nossa argumentação para, posteriormente, informar outras pessoas que não somos isso e sim aquilo. E se achamos isso bom e celebramos tais ocorrências é porque, parece, não serem bem comuns. Num desses encontros em que conversamos sobre a surpreendente situação vivenciada atualmente: o mundo parece de “pernas pro ar”. Talvez não seja tão difícil de entender como, os cabeças de coco verde, que carregam bastante água e pouca polpa, passaram a dominar os espaços de poder, após anos de cultivo da ideia de liberdade, de igualdade, fraternidade e outros projetos similares. Conhecemos as árvores pelos frutos que elas dão. O resultado desse desencontro entre os ideais cultivados desde os anos setenta do século passado e a realidade medíocre do pensamento único que foi cultivado no início do século XXI fez surgir esses comportamentos conservadores, reacionários presentemente vividos; uma realidade que pode ser comprovada nas escolas, nos ônibus, nas igrejas, nos partidos políticos, nas associações de classe, nos programas de televisão. E a reação negativa diante dos bons filmes é outro aspecto do cultivo da mediocridade para vencer na vida. Chico Buarque e Ruy Guerra, durante a ditadura civil militar terminada em 1985, nos alertavam que “vence na vida quem diz sim”, mas não percebemos que esse fenômeno não ocorre apenas sob domínio dos militares. E então nos perguntamos: O que aconteceu com a educação? Perguntávamos; O que aconteceu com as igrejas? E quase caímos na tradicional desculpa que foi tudo “culpa dos jesuítas” e seu modelo educacional que dominou o tempo de controle político-militar português nessas terras ditas, hoje, brasileiras. Mas os jesuítas foram expulsos pelos portugueses ainda na fase tardia do século XVIII. Faz muito tempo e esse argumento só é repetido para justificar a indisposição dos governantes brasileiros em ampliar o Brasil.

E então podemos imaginar, e pode ser mais que a imaginação, pode ser a realidade, que os sucessores dos vice-reis continuaram o seu comportamento, suas práticas de não enxergar que o Brasil é maior que o grupo que forma a corte. E todos queriam participar da corte, e todos querem participar da corte, não encerrar o tempo da corte. Os últimos dados ofertados pelo IBGE nos diz eu ainda vivemos no tempo quase aristocrático, eurocêntrico que gira sobre si mesmo à custa da exploração de suas colônias. E, claro, a corte atrai aqueles que sempre dizem sim aos abusos dos vice-reis e, é dessa forma que os medíocres assumem o poder, sempre dispostos a seguir as orientações emanadas do ‘conselho’, evitando contrariar o vice-rei em exercício. Tem sido assim, também desde o início do século XXI. Os dados divulgados pelo IBGE nos indicam que as estruturas de uma democracia não estão sendo bem fundadas, pois confundem a pintura do rodapé com o cuidado que se deve ter ao estabelecer o alicerce necessário. E como o alicerce de nossa sociedade foi criado para ser explorado pela corte do Rio de Janeiro ou de Brasília, temos que os atuais vice-reis estão a destruir o rodapé que iludia a população explorada. Vivemos sob um governo que desarticulou a defesa das reservas naturais do país; está desestruturando o sistema educacional; cuida de abolir a proteção aos mais pobres; está armando os grupos que defendem a corte pois dela usufruem benefícios; dá mostra de por um fim ao Sistema Único de Saúde – SUS, mais um vez em benefícios dos áulicos da corte.

Uma das razões para este embrutecimento da sociedade brasileira, diz-me um amigo, é resultado do sistema educacional (no fundo ele queria dizer ‘jesuítas’) que forma médicos, arquitetos, engenheiros, advogados sem uma compreensão do Brasil real. E isso é feito com sistema e dedicação, como nos indica a retirada de discussões filosóficas das escolas desde o tempo da ditadura. A sequência de ministros e secretários estaduais e municipais de educação os diz claramente como isso é feito: ausência de continuidade de uma gestão para outra: todo medíocre quer colocar sua marca pessoal na ‘galeria do poder’ e, para tal, cuida de destruir o que o anterior fez, pois cada gestor age como o “único sábio”, aquele que vai solucionar o Brasil. Todos os intermediários entre o Vice-rei e o povo, além de apresentar o poderoso de plantão como ‘salvador da pátria’ sente-se, também um Sebastião redivivo.

Promessas e expectativas no primeiro dia de uma nova tentativa republicana

terça-feira, janeiro 1st, 2019

Parte dos anos que vivi está ligada à assessoria à Igreja Católica, com um hiato na formação de padres. Aprendi muito naquele período pois, embora leigo, estive na borda do mundo clerical. Somos muitos com essa experiência de fronteira. Hoje, dia em que Jair Bolsonaro toma posse, vem-me à memória alguns comentários que ouvi de Dom Augusto Carvalho, bispo de Caruaru, cidade do Agreste de Pernambuco. Nascido no ao de 1917, no município de Floresta, Sertão pernambucano, Dom Augusto vivia com simplicidade, cuidava da educação; comprou o Colégio Caruaru e o tornou colégio diocesano, fundou a Faculdade de Filosofia de Caruaru. É apontado como o bispo que mais ordenou padres no Nordeste. Recordo que, em uma de nossas conversas sobre seus seminaristas, disse com um riso sério a um deles, que veio a ser ordenado: quando nós perguntamos se vocês prometem que vão ser obedientes a quem os ordena e aos sucessores, sempre dizem que sim, mas, com o tempo. alguns esquecem que prometeram.

Desde que nasci o Brasil foi governado por duas dezenas de presidentes, entre os provisórios, os ditadores, além de uma Trinca que, segundo Carlos Imperial, se revezava até à posse do general Médici. Todos eles seguiram o ritual de jurar respeitar e fazer cumprir a Constituição. Alguns tentaram golpes (Carlos Luz, Jânio Quadros); Raniere Mazilli bisou a presidência sem ter sido eleito, pois a assumiu antes da posse de João Goulart e depois de sua deposição; todos os generais ditadores, que se autodenominaram presidentes, juraram ser fiéis à Constituição enquanto namoravam com Atos Institucionais, nos fazendo lembrar famosa canção do Rei do Brega, Reginaldo Rossi, em que mencionava uma noiva que “vai trair o marido em plena Lua de Mel”. José Sarney, como Castelo Branco, assumiu o cargo com uma Constituição,mas com o compromisso de promover a feitura de outra, e quando foi jurar que iria respeitá-la, sua mão tremia, e era um tempo em que era bem mais saudável. Seu sucessor, Collor de Mello, estuprou a Constituição, realizando o que dizia que seu oponente faria: tomou a poupança da população fazendo o oposto do juramento. Itamar Franco acordou com seu Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, promover algumas modificações na Constituição de 1988 (longa e ainda não regulamentada) com o objetivo de diminuir o Estado para fazer crescer a sociedade, como se dizia então. Desde o fim da Ditadura que assistimos a utilização das Medidas Provisórias, muito além do que é permitida pela Constituição. Normas constitucionais parece que foram criadas para favorecer alguns grupos e, tendo sido assim, aqueles que auxiliaram fazer a Constituição, mas que só a assinaram por exigência protocolar (não assinaram por convicção) não titubearam em promover pequenas alterações para implementar programas que não havia´m sido debatido por toda a sociedade. O caso da manutenção dos direitos políticos de um presidente afastado legalmente é emblemático. Assim vem sendo a prática: promete-se para não cumprir, como dizia o bispo de Caruaru.

Assistimos hoje mais uma posse, mais juramentos, mais explosão de esperanças por uma parte da população, enquanto outras estão desejosas do fracasso da administração que hoje começa e, um terceiro grupo cultiva expectativas que sempre chegam acompanhadas de desconfianças. Sou desses últimos que não conseguem ver militares (grupo treinado para mandar e cumprir ordens), tipo especial de clero, de gente separada para ser protetora de um povo, mas que não vive a vida do povo que diz proteger. Vivi o tempo de sua dominação, dos seus “presidentes”, mas também conheci e sofri a ação de outros “cleros” menores, mas parte daquilo que um marxista chamava de Aparelhos Ideológicos do Estado. O clero quase sempre se transforma em uma Nomenklatura. Por isso sempre estaremos atentos aos que escolhemos para jurarem que vão nos defender. Quase sempre querem nos controlar.

D de Dezembro, de Direitos Humanos,

domingo, dezembro 9th, 2018

Estudava eu no Colégio Estadual Dom Vital, localizado próximo ao Mercado de Casa Amarela, e recebi de uma colega um LP de Moacyr Franco, que guardo até hoje e, vez por outra o ponho na rodar. Entre as muitas versos de Nazareno de Brito, um deles me vem desde então: “Cada um ver dezembro no fim”, dizia eles a respeito dos conselhos que todos nos cuidam de nos oferecer em momentos de crise, mas o mês de dezembro tornou-se marcante para mim por ter-me iniciado a compreensão de uma enorme bifurcação. Dois momentos, um deles vivido com intensidade por mim, o 13 de dezembro de 1968, pois na tarde daquele dia, mandando “às favas todos os escrúpulos”, os militares e civis que estavam no poder, com exceção de Pedro Aleixo, então vice-presidente, assinaram o Ato Institucional de Número 5 que, supreendentemente, suspendeu todos os Direitos dos Cidadãos. Pois bem, sob a liderança de Dom Hélder, passamos parte daquele ano refletindo sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948. Assim, naquele dezembro de celebração do 20º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, vimos cair uma situação difícil para todos os que, no Brasil estávamos lutando para a realização do projeto que reconhece, a todos os humanos, os direitos de Nascer, de Viver, de Morar, de Pensar, de Falar, de Crer, de Ir, de Vir, de Ser Cidadão, de alimentar-se a à sua Família, de ter Uma Pátria, de Trabalhar, de receber salário por seu trabalho, ter uma Família, de Associação, de ser tratdo com Dignidade e Respeito, Ter acesso ao Estudo, direito a uma Crença, todos esses direitos (outros aqui não citados) que, durante a Segunda Guerra Mundial foram negados a milhares de homens e mulheres, estabelecendo a barbárie, negando a possibilidade da civilização.

O verso de Nazareno de Brito terminava dizendo, de forma magoada e triste: “mas se um dia eu tiver que chorar, ninguém chora por mim”. E deve ter sido assim que sentiam todos os que foram levados a Campos de Concentração para servirem de cobaias a experimentos pseudocientíficos e serem mortos posteriormente, com a negação absoluta de suas humanidades. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é um código, é um projeto de humanidade após a instalação da Maldade em grande parte do planeta. Nenhuma lei obriga qualquer país a cumprir essa declaração, mas não a cumprindo estar a afirmar que abre mão de seu compromisso com a humanidade, encaminha-se para tornar-se inimigo dos que buscam esse ideal, afasta-se do grande colégio das nações. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é uma regra a ser inscrita no espírito, na mente, ou como dizem os românticos, no coração de cada homem e da cada mulher. E, deixando no passado o pessimismo do poeta, se for o caso, todos choraremos as dores de cada, mas evitaremos as dores de todos à medida que nos dediquemos a criar condições para que todos possam gozar de todos os Direitos explicito na Declaração de 1848, e nos demais documentos que ela gerou.

No final deste ano, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa setenta ano de vida, é momento de voltarmos a debater esta pauta, conversar sobre esses diretos cujo exercício nos faz humanos. E, se for verdade que vem a tempestade que alguns nos querem fazer crer, devemos nos lembrar de João XXIII, de Martin Luther King Jr., Camilo Torres, Zé de Galileia, Antônio Henrique Pereira Neto, Helder Câmara, Gandhi, Tereza de Calcutá, Nelson Mandela, Austregésilo de Ataíde, Malcon X, Dietrich Bonhoeffer, Chico Mendes, Herozg, e muita gente que lutou para estabelecer, manter os direitos que hoje nós usufruímos e temos o dever de continuar a sua preservação.