Archive for the ‘Atualização Histórica’ Category

Confusão entre privilégio e direito; Direito aristocrático em Estado Burguês

quarta-feira, julho 17th, 2019

Não sou jurista, mas como cidadão li alguns autores. e penso. O Brasil, ensinou Darcy Ribeiro, é um povo novo, composto de várias vertentes, e tem como resultado algo nunca visto antes, mas que está sempre a fazer Atualizações Históricas, para acompanhar o ritmo daqueles povos que historicamente chegaram à frente produzindo conhecimentos. Se esforçar-se muito e fizer o dever de casa, bem que poderia criar alguma nova tecnologia e não apenas viver a fazer adaptações. Veja o nosso Supremo Tribunal Federal. Dom Pedro II o desejava no modelo norte americano, atuando em defesa da Constituição, interpretando-a em favor dos brasileiros, todos o brasileiros. Entretanto, os ingleses que fundaram os Estados Unidos da Amárica do Norte cuidaram de abandonar os maus hábitos dos ingleses de quem se separaram às turras, em duas guerras. Bem, parece que Dom Pedro II, esse imperador com jeito de burguês, parece que não conseguiu fazer funcionar a Corte suprema. Ela veio com a República que decidiu seguir o modelo dos americanos. Mas nem tanto.

Todos lembramos que quando se julgava alguns aspectos do processo conhecido por “mensalão’, todos ouvimos o mais antigo membro do STF argumentar, para garantir alguns direitos dos acusados, baseado em códigos criados pelos reis de Portugal e Espanha, códigos que foram criados para garantir os interesses dos nobres, pois que nos tempos de Dom Manuel e dom Felipe, o povo a que se referiam as leis era a nobreza; a arraia miúda, a canalha ficava de fora dos códigos, sobrevivendo da subjetividade dos reis e seus juízes, na maioria dos casos. Pois é isso, quando o Brasil tornou-se nação independente, não se afastou das leis manuelinas e Filipinas. Nosso curso de Atualização Histórica para a formação do Estado burguês foi falho, pois queremos ser iluministas com os parâmetros dos reis absolutistas. Os que não permitiam que os nobres fossem julgados, exceto pelos tribunais reais. Coisa de privilégio. Não é à tia que um senador, representante do estado do Piauí disse que não se pode conceber que um político seja julgado pelo código penal, isso é para o povo, a canalha, como dizia Voltaire.

Estamos, a nação brasileira, em situação bastante interessante diante as nações porque um dos nossos ministros Supremo Tribunal Federal, não considerando todos os acordos internacionais subscritos pelo Brasil a respeito da repressão aos crimes de lavagem de dinheiro, terrorismo, fraude bancária, crime organizado, milícias e outros contra a economia geral, resolveu atender pedido da defesa do senador, filho do atual presidente. Assim, ele que ainda nem foi acusado de coisa alguma, conseguiu o direito de não ser investigado a respeito de transações bancária aparentemente suspeitas. E para atende-lo o presidente do STF, “sem querer”, inocentemente, garantiu que todos as investigações sobre esses crimes (atentados contra a sociedade) seja suspensas, pelo menos até o mês de novembro. Claro que as academias do crime, as milícias, os doleiros, todos os que enganam a sociedade estão protegidos, enquanto furtam a sociedade. E como ficam os acordos assinados com os países que colaboram com o Brasil, e entre si, em situações de investigações semelhantes, todos já sabemos. O Brasil, como dizia o fado de Chico Buarque, “ainda vai tornar-se um imenso Portugal”, aquele dos séculos XVI e XVII.

Em Novembro deste ano ouviremos Celso de Mello citar as Manuelinas e filipinas; ouviremos o iluminista Marco Aurélio de Mello defender, intransigentemente, os direitos individuais dos que não carregam a mínima consideração aos direitos coletivos. As milícias e os nobres filhos do presidente atual (que ser o próximo) continuarão a ter o seu sigilo bancário garantido, até que algum procurador, sem os dados que são fornecidos pelo Controle de Atividades Financeiras, agora que ela foi, graças ao presidente do STF, proibida de lhe passar os dados necessários para que seja instruído o pedido de investigação.
Pois este é um dos resultados das Atualizações Históricas mal assimiladas, propositalmente mal assimiladas, parta que se possa continuar protegendo e separando os nobres do pobres. Esta é a “nova política” do governo Bolsonaro, o retorno ao Velho Regime. Aquele em que o rei está sempre certo, pois, um sinal de sua clareza é que os outros dele não concordem. Ou como dizem que ele disse: le lois c’est moi.

Economia global se conjuga com criação cultural

domingo, junho 30th, 2019

Termina o mês e ocorre o fim do semestre, o primeiro deste ano de 2019, e coincide com a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o MERCOSUL. De um lado 28 países avançados na tecnologia, na cultura, centro do que costumamos chamar de Civilização Ocidental, e que formam a segunda economia mundial, de outro lado, quatro países em constante desenvolvimento (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai), mas com atrasos tecnológicos; dois desses países estão em crise econômica e política. Como se sabe, o MERCOSUL formado por países com culturas diversas, mas formadas com a matriz europeia conjugada com culturas indígenas e africanas, amalgamadas em processo decorrente da expansão dos europeus ocorrida a cinco séculos. Coisa típica de nossa época, um dos signatários, o atual presidente brasileiro, não dos que cultivam a visão globalista. A redação final do acordo, bem como as explicitações de seus pormenores, além de sua prática, é que demonstrará se ele servirá para alçar esses países do sul da América a um patamar que garanta melhor qualidade de vida para seus membros, ou se será um capítulo tardio da política mercantilista.

Este semestre, em minhas aulas, foi dedicado a estudar aspectos da cultura pernambucana, procurando entender sua diversidade no território e, como a sua formação esteve ligada aos processos históricos de desocupação/ocupação do território, que promoveu a extinção de aspectos culturais enquanto ocorria a formação do que hoje chamamos cultura pernambucana, mas tendo em vista jamais afastá-la de suas relações com os demais grupos da humanidade da qual faz parte. Todas as criações culturais são filhas do tempo histórico, da grande história.

Assim é que as tradições “tipicamente pernambucanas” são recentes, quase bicentenárias, mas nelas podemos encontrar o que chamo de ‘sobrevivências medievais’, aqui chegadas nos tempo modernos da Revolução Mercantil. Muitas das tradições trazidas pelos portugueses foram deixadas no passado, ainda que as cores do Pastoril, da Guerra entre Cristãos e Mouros, continuem a aparecer. Afinal, as cores podem receber novos significados, podem ser culturalmente lidas, de acordo com as novas organizações sociais. Mesmo em solo conservador, as mudanças ocorrem.
Buscando escapar da armadilha que o tempo semestral ergue, começamos estudar Pernambuco a partir do Sertão, seguindo conselho de Capistrano de Abreu, deixando os caranguejos e siris para o final. E então ocorreu que não sobrou tempo para refletir sobre as manifestações culturais da Mata e do Litoral, apenas as mencionamos, e vimos que os estudantes cuidaram de, em seus artigos finais, fizeram a reflexão dessas experiências culturais mais próximas, ao mesmo tempo em que se assombravam com a riqueza e produção cultural que ocorre no Agreste e Sertão do Estado.

Embora quase bicentenária, as expressões tipicamente pernambucanas, começaram a ser vistas como cultura na segunda metade do século XX, mais especificamente após 1960. Aliás, os anos sessenta foram decisivos para a superação de conceitos definidores do belo/feio, não apenas em Pernambuco mas no mundo ocidental, como ocorrera no início do século XX. Entre nós, essa explosão cultural foi a descoberta de um povo em constante movimento, um povo sem terra em busca de um lugar, no mangue ou nos morros.

Quase um ensaio sobre a história da educação brasileira

domingo, maio 12th, 2019

Enquanto o feriado dedicado a homenagear a o Trabalhador, não o trabalho, passava conversávamos sobre o que ocorre neste final da segunda década do século XXI com o sistema de educação brasileiro, com a atuação dos atuais governantes, especialmente os que foram escolhidos para gerir os caminhos da educação: um deles fez a escolha de ser brasileiro, tendo nascido na Colômbia, mas que continua a falar espanhol, na pronúncia e na gramática; o outro, é desses estrangeiros que nascem no Brasil, eternos turistas de sua pátria, desconhecedores de seus compatriotas e resultante de uma educação que sempre negou o Brasil.

Nossa conversa era sobre o financiamento à educação. No Brasil, ao longo de nossa história, cuidar da educação jamais foi uma preocupação do Estado ou da sociedade. Sabemos que ainda temos muitos analfabetos no Brasil e, nossas estruturas sociais estão a produzir mais, nas modalidades de totalmente analfabetos e analfabetos funcionais, desses que se tornam capazes de assinar documentos mas que não o leem pois a leitura os cansa, são os alfabetizados com a função de assinar. Não carece muita imaginação para entender porque o Estado Português pouco se interessava por aumentar o nível cultural de sua colônia, entregue àqueles que se prontificavam em tudo obedecer a El Rei, desde que pudessem extrair e ficar com parte das riquezas produzidas deste lado do oceano Atlântico. Tampouco houve interesse do Estado brasileiro, o que se organizou, depois de 1822, foi utilizando os mesmos alicerces estabelecidos pelos portugueses; afinal, é loucura pensar que donos de escravos viessem a cuidar para que seus escravos tivessem acesso a livros, à palavras que indicassem caminhos como os seguidos pelos ingleses, desde o século XVII, e por outros povos no séculos seguintes. E aqui é bom lembrar que nações como Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, França, Japão, chegaram ao século XX com índices de analfabetismo inferiores a 20 ou 10% de sua população. Interessante é que, excetuando o Japão e a França, a alfabetização da sociedade não foi impulsionada pela ação do Estado, mas resultou, principalmente, de instituições eclesiásticas ou civis. Claro que ocorreu a criação de academias financiadas por algum estadista, como foi o caso do Cardeal Mazarino, e da atuação de príncipes, mas como política de Estado, apenas Frederico Guilherme tornou o estudo e o ensino obrigatório aos seus súditos. Foram sociedades formadas por, sim, gente rica que compreendeu que pouco adianta a sua cultura se ela não puder ser discutida e que tenha um alcance maior do que os espaços de suas salas de estar. As famílias nobres contratavam, elas mesmas os educadores de seus filhos. Nos países que aderiram às Reformas de Lutero, Calvino e outros reformadores, a necessidade de acompanhar as leituras bíblicas, nos lares e nas igrejas, motivou o desejo da leitura. Reconhecer o valor de quem estuda, escreve, pensa, divulga o pensamento é um dos fatores que fez surgir a sociedade democrática; e facilitar o acesso ao conhecimento, é outro caminho que parece ter sido empregado por aquelas sociedades. E assim fizeram e fazem ainda,é porque a sua riqueza e a riqueza de sua nação andam quase em paralelo. Para supor isso, basta verificar o quanto de bibliotecas e museus existem nas cidades de tais povos, e como elas são tratadas, e como os livros são parte do cotidiano. O Estado, naqueles países, só veio cuidar da educação como sua política, na segunda parte do século XIX, premidos pelos avanços do conhecimento e da Revolução Industrial.

A preocupação com a educação das massas é consequência da Revolução Industrial, pois a nova tecnologia exigia conhecimentos básicos de leitura dos operários. É só no final do século XIX e início do século XX que a educação das massas tronou-se uma preocupação dos países que se envolveram com o processo de industrialização, tornaram-se desenvolvidos, países centrais. No Brasil, em que pese os debates que geraram o otimismo da educação, e mesmo o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, ainda na primeira metade do século XX, e que, redigido por Fernando de Azevedo, foi assinado também por Anízio Teixeira, Loureço Filho, Afrânio Peixoto, Cecília Miereles, entre outros, as estruturas econômicas do Brasil não haviam mudado de forma a exigir um esforço na direção da educação das massas. E mesmo da juventude da elite, que então era enviada para estudar na Europa. Foi a crise de 1929 que obrigou industriais paulistas a criarem uma escola superior em São Paulo, A Faculdade de Filosofia e Ciências e Letras de São Paulo, germe inicial da Universidade de São Paulo.

O Estado brasileiro continuava contente com as escolas de Medicina e Engenharia criadas por Dom João, o Regente de Dona Maria, e com as escolas de Direito criadas por Dom Pedro I. Em termos de educação básica, tudo foi remetido, no Ato Adicional de 1840, para os municípios, sabidamente incapazes de realizar a tarefa, seja por falta de numerário seja por ausência de gente capacitada, além do desinteresse das Câmaras. E, se durante o império foram criadas algumas escolas públicas nas capitais das províncias, nos sertões, a educação só existia pelo interesse de alguns proprietários e padres que criavam escolas para transmitir o mínimo necessário para os filhos da elite e seus imediatos. Afinal, era um país escravocrata.

Durante a República Velha, até 1930, pouco se fez para a expansão do acesso dos jovens à Escola. Entretanto foi muito comum o Estado a criar escolas normais que objetivavam formar professoras de ensino básico. Mas foram as instituições religiosas – católicas e protestantes – as principais responsáveis pela formação da juventude da elite e de setores da classe média, ou melhor, dos filhos de funcionários do Estado, preparando-os para as funções mínimas a serem realizadas pela burocracia do Estado e pelo comércio. Já o Estado Novo preocupou-se mais com o controle dos operários, através da criação de sindicatos e de uma legislação trabalhista que lhe garantiu a submissão os operários e dos sindicatos; as escolas existentes ou que foram estabelecidas no período estavam voltadas para um pequeno grupo da população, e era dirigida para criar um sentimento patriótico nacional. Mas como era para atender a poucos, havia a possibilidade de cultivar a boa qualidade dessa escola. As mais pobres se viam à margem, atendidos por particulares que abriam escolas em suas casas. Ao apagar das luzes da ditadura do Estado Novo foi criado um sistema de educação visando atividades econômicas específicas – Sistema S de Educação: SESI, SENAC, SESC. Mas o ensino técnico profissionalizante, criado por lei ainda no início da segunda década do século XX, jamais foi levado muito a sério em uma sociedade formada, dirigida e planejada para bacharéis, filhos e netos de escravos, que tinham ojeriza ao trabalho manual. E para o trabalho diário de lavar roupa, ou cuidar do jardim, melhor que as pessoas a elas destinadas não gastassem tempo nas escolas.

A década de 1950 assistiu uma parte da sociedade entusiasmada pelo desenvolvimento social e econômico, manifestado no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, e assistiu a migração dos mais pobres e explorados para o sudeste, debateu exaustivamente uma Lei de Diretrizes e Bases para a educação brasileira, que só veio a ser aprovada no início da década de 1960, atrasando o estabelecimento de uma medida comum, um sistema educacional. Nessas duas décadas, 40 e 50, começaram a ser criadas as universidades federais, o que aconteceu formando ajuntamento de escolas superiores que funcionavam autonomamente, e agora passavam a girar em torno de uma Reitoria. Mas as universidades serviam a poucos, porque eram poucos os que frequentavam as poucas escolas existentes. Foi apenas depois de 1964 que começou a ocorrer a universalização do ensino básico, com a criação de um maior número de escolas públicas e, também de professores. Entretanto foram diminuídas as exigências para a contratação de professores, com a suspensão de concursos públicos, ao mesmo tempo em que o arrocho salarial foi depreciando o valor do trabalho, notadamente o de magistério. Relegado ao município, o Ensino Básico foi crescendo em quantidade e deficiência, por falta de professores e por conta das condições necessárias para o funcionamento das escolas, inclusive pela ausência de professores, bibliotecas e equipamentos básicos para o mister. A solução encontrada foi a decisão de tornar, após um curso de atualização e nivelamento de conhecimentos didático-pedagógicos, com duração de um ano, advogados, biólogos, padres, pastores, qualquer um com formação superior, prontos para o ensino. E isso foi forçando a ampliação do ensino superior pois, mesmo aos trancos, a universidade começava a ser horizonte de muitos jovens. Então, na década de 1970 deu-se uma tentativa de universalização do ensino superior, com o estabelecimento de autarquias municipais de educação, com a criação de cursos de formação de professores com o objetivo de atender as demandas locais. Mas, mais uma vez, não ocorreu a formação de profissionais para as áreas técnicas, para química, física, matemática. Embora pressionados pela expansão da industrialização, os entes públicos (federação, estados, municípios) continuaram na tradição de manter o espírito bacharelesco, não formando profissionais que pudessem ser aproveitados nas indústrias e que possibilitassem avanço nas pesquisas tecnológicas, garantindo, dessa forma, a dependência em relação àquelas nações que assumiram o protagonismo do mundo moderno. Como nos explicou Darcy Ribeiro, nos tornamos um povo condenado à Atualização Histórica, sempre fazendo esforços no sentido de acompanhar as inovações que vêm dos países centrais, econômica e tecnologicamente. Entretanto, aos trancos, as universidades federais esforçavam-se para cumprir sua tarefa, enquanto a sociedade continuava a não perceber que atendia apenas a um terço da população, o terço que contava e consumia, o terço que tinha relação direta com o domínio das riquezas produzidas, riquezas a serem consumidas preferencialmente por elas. As estruturas sociais e de pensamento continuavam sendo as mesmas dos tempos coloniais, embora fossem constantemente prometidas, e nunca cumpridas, reformas para ampliar o leque dos que usufruíam o bolo. Assim ocorreu com as decisões tomadas e escritas na Constituição promulgada em 1988, criadora de direitos múltiplos, mas sem haverem sido promovidas as reformas necessárias para a garantia do usufruto de tais direitos.

Durante a Ditadura Civil Militar, a expansão do ensino provocou o “funil cultural”, exposto pelo pequeno número de vagas oferecidas nas universidades, o que gerou o fenômeno dos que haviam alcançado a média necessária para o ingresso para vagas inexistentes: o excedente. O ministro da Educação à época, Jarbas Passarinho, então estabeleceu que não há vagas além daquelas ofertadas, portanto não haveria excedentes de candidatos. Entretanto a sociedade continuava a crescer e também o número de jovens interessados na conquista de um diploma. Em uma sociedade marcada pelo estigma da escravidão e da separação social, durante a ditadura do Estado Novo, o Código de Processo Penal estabeleceu que diplomado em curso superior tem o privilégios de uma prisão especial, de forma a não ser obrigado conviver com quem não possui diploma. São muitas as sociedades no território brasileiro: a dos bacharéis portadores de diploma e dos que terminam os estudos com a conclusão do ensino médio, são exemplo dessa nossa diversidade. Claro que esta não é a única nem a principal razão do crescente número de interessados em realizar um curso superior. Nas sociedades modernas a leitura é essencial para a sobrevivência social, e desde os últimos anos do segundo milênio, o estudo passou a ser parte inerente e permanente na vida do cidadão. Além disso, os estudos universitários são prospectores do futuro, não apenas a memorização do já conhecido. Não promover o ensino de graduação e pós graduação é destinar a sociedade ao passado. Isso foi entendido por alguns setores dos governos ditatoriais, mas não foi assimilado por grande parte da sociedade, especialmente aquela que tem sido beneficiária por manter os brasileiros distantes dos conhecimentos que a civilização tem produzido e continua a produzir. Sofre muito aqueles que sonhavam (ainda sonham, pois se não sonhassem este sonho não estaria sofrendo) com o Brasil continuando a crescer no campo da conhecimento, apesar das dificuldades impostas pelos oligarcas que nunca ficaram fora do poder de comando, sempre surfando sobre os sonhos de libertação dos que sabem que são originários da Silva e da Costa. Os que vieram da Costa tem mais facilidade em compreender a sua origem que veio se misturar no processo de mestiçagem e sincretismo religiosos; os da Silva, mais envolvidos pelas seduções e que tornaram o Brasil sua propriedade, julgam-se ser parte da grande sociedade, e esquecem que podem ser a Conceição cantada por Herivelto Martins na voz de Cauby Peixoto: “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu, pois hoje o seu nome mudou e estranhos caminhos pisou, só eu sei que tentado a subida desceu”.

Vivemos em tempo interessantes e estressantes. Os dois últimos presidentes da República gabam-se por terem criados cerca de duas dezenas de universidades, mas não informam se foram dadas as condições exigidas para que elas funcionassem com galhardia, ou se apenas foram criadas por ato voluntarioso, acreditando, com minha mãe “Deus proverá, um anjo cuidará disso”. Bem, o stress é que o seu sucessor parece ser o anjo da morte. Não cuida da vida, não cuida da educação, não cuida do futuro.

Anos 10 ou anos 70

terça-feira, janeiro 15th, 2019

Na segunda metade dos anos setenta ministrava aulas, juntamente com os professores Rubem Franca, Reginaldo Fontenelle, para onde fui levado pela indicação da professora Sônia Medeiros no Colégio e Curso Radier. Foi um tempo muito interessante, pois tinha que manter em segredo que, pouco meses antes havia sido hóspede do DOI-CODI, no que fui bem sucedido por algum tempo. Nesse período ocorreu um invasão de seres extraterrestres para infernizar as aulas de história. Foi tempo da glória de um rapaz alemão Erich Von Danniken, que preencheu a imaginação de gerações com explicações sobre a construção das pirâmides egípcias, maias e astecas; dos canais da Babilônia e de todas as maravilhas do mundo antigo, fruto do trabalho, das mãos e da capacidade humanas. Sua explicação era que “deuses astronautas” teriam vindo à terra e “ensinado” alguns homens e retornaram para seus mundos para além das galáxias. Havia um guru para essas extravagâncias, um senhor versado em leis que morava em São Lourenço da Mata e, em diversas ocasiões foram promovidos debates entre os professores e esses ‘sábios’. Também os professores das Ciências Biológicas tiveram que participar desses debates, que terminavam por contrapor as teorias da Evolução e o Criacionismo (ou creacionismo). Eram tempos árduos e interessantes, quase divertidos, confronto de mundos, de intenções religiosas em todos os casos, luta contra o pensamento científico. Esses debates provocavam estudos e debates inflamados, com alunos confrontando professores e seus colegas.

A disputa pelo saber, pelo poder. Pelo poder de dizer que só seres de ouyto mundo poderiam ter feito as ‘Maravilhas do mundo antigo”. Se conseguissem isso, também provariam que tudo virá dos deuses. Todos debatiam enquanto a caravana da história continuavam a passar. Ibrahim Sued, cronista social bem sucedido no Rio de Janeiro, todos os dias publicava o que ele dizia ser provérbio árabe: Os cães ladram e a caravana passa. Uri Geller entortava talheres e padre Quevedo vivia a discutir a a Parapsicologia e o ET de Varjinha, em Minas Gerais, era mais uma comprovação da vida extra terrestre. Ainda era o tempo que se anunciava a Era de Aquarius, embora Leila Diniz tivesse morrido;

Brasília foi construída em local previsto pelo místico Dom João Bosco. Vales do Amanhecer traziam novas esperanças, Zé Arigó – Dr. Fritz, cuidava da saúde do povo sem hospitais, médicos e enfermeiros. A caridade cristã de católicos e espíritas era criticada pelos grupos de esquerdas ateias pois entendiam que essa ajuda inviabilizaria a revolução que venceria a ditadura. Vieram novos tempos, esses que vivemos.

Pois bem, não é que estamos debatendo a sério, de novo, essas questões, agora com o auxílio de canais de televisão que, com efeitos especiais estão a demonstrar que tanto as profecias de Nostradamus como os Deuses Astronautas estão vivos. O Mais recente “Arigó” está rico e na prisão, denunciado por abusos sexuais, o que jamais ocorreu com o primeiro.

Nesses tempos novos há muitos cultivadores de deuses, não astronautas, mas que parecem negar a possibilidade criativa dos homens e mulheres de nossos tempos. Sérgio Porto – Stanislaw Ponte Preta – morreu três messes antes da proclamação da escravidão do AI 5, mas notou que havia um Festival de Besteira que Assolava o País – o FEBEAPA. Ele continua existindo, sempre auxiliado de maneira difusa por um Plano Nacional de Burrificação, um PNB, agora mais ou menos detectado nos Ministérios da Educação e da Cidadania.

Fé e políticos salvadores

segunda-feira, outubro 15th, 2018

Dois dias após os festejos em honra da Padroeira do Brasil, com multidões caminhando até o seu santuário em Aparecida, louvando e agradecendo todas as graças com as quais ela protege e mantém o Brasil funcionando de maneira eficaz e bonita, na forma que nós deixamos. Nos dois dias seguintes, devotos da Mãe de Jesus seguem, em procissão, em homenagem à Mãe de Jesus várias ruas e rios são o palco da exposição da fé no Belém do Pará, agora não a nomeando Aparecida, mas como Nazaré, a lembrar a vila onde teria nascido e conhecido a José, esse sempre esquecido auxiliar dos mistérios que rondam a Mãe de Jesus. Tudo isso acompanhado na televisão, com os olhos dos cinegrafistas. Quantas pessoas? Dois milhões? Essas festas provocaram uma admiração a uma senhora que se diz católica, embora não costume frequentar a igreja, exceto quando é festa de Maria do Carmo, a Maria dos Carmelitas. Dizia ela: “ a gente só vê gente pobre seguindo e fazendo as promessas.” Apenas disse: pois é.

Nas semanas que se seguem será completado o processo eleitoral e os brasileiros definirão quem os vai governar nos próximos quatro anos, quem tomará decisões que definirão o caminho da nação na primeira metade do século XXI. Os candidatos não são de confiança, e dividem a preferência do eleitorado. Acusam-se mutuamente de fascista e comunista. Um deles proclama que Deus está acima de tudo e outro, embora seja de tradição Ortodoxa, foi flagrado em templo católico comungando, com o apoio do vigário, mas sob discordância da comunidade. Era um dia de homenagem à Mãe de Jesus. Mas, como dizem os de fé, ela é Mãe de todos, inclusive daqueles que lhes negam a maternidade divina. Entretanto, será que essa questão auxilia a superar o dilema posto à sociedade brasileira?

No pleito de 2014, a candidata e o líder do Partido dos Trabalhadores afirmaram que fariam o diabo para não perder a eleição. Agora, como no século XVII e Henrique de Navarra, o candidato parece dizer: Brasília vale uma missa. Quando Henrique de Navarra disse tal frase já havia ocorrido a Noite de São Bartolomeu. Tomara que não venha ocorrer a tragédia com essa aproximação desarvergonhada dos políticos na direção das Igrejas. Já pensou se esquenta esse debate “fulano está com o apoio dessa igreja x beltrano está com essa outra igreja”. E lá vamos nós, de novo à luta de classes que foi renomeada no Brasil sob o “nós contra eles”.

Povo religioso, até os ateus vão à missa e pedem que rezem pelos seus doentes, o brasileiro não deixa de fazer suas promessas aos santos preferidos, mas cultiva um messianismo em suas práticas políticas, sempre à espera de um “salvador” da pátria, uma permanente dependência de um rei, um enviado divino. Definitivamente o brasileiro não parece um povo Moderno, não parece ter completado o Processo Civilizador iniciado no século XVI; acomodou-se na epopeia lusídica, tornando-se o Povo Novo, na definição de Darcy Ribeiro, sempre a fazer Atualizações Históricas e, sempre as faz de maneira incompleta, pois lhe falta um dos substratos básicos da modernidade, a racionalidade de ações, do trabalho sistemático e permanente. O povo brasileiro sempre faz uma pausa, seus políticos não apostam na continuidade de projetos e, cada um apresenta-se como o salvador momentoso. Sem planejamento e continuidade administrativa, o povo será sempre presa das mentes que projetam seu futuro e conseguem fazer o povo aceita-lo como seu.

Na eleição de 28 de outubro, dois projetos redentores estão em jogo, dois salvadores da pátria e da democracia (algo que não tem origem nas navegações do século XV) irão, mais uma vez brincar com a fé do povo que vive sob os braços de Redentor, e tem, em suas mais antigas cidades, o Salvador do Mundo como padroeiro.

Em torno do CIEP Mestre Marçal

segunda-feira, setembro 24th, 2018

Esta semana mais um professor foi agredido, melhor dizendo, a agressão a mais um professor chegou aos meios de comunicação, mais especificamente à televisão, o meio de mais fácil acesso. Todos os dias professores são agredidos neste país, carente de muitas reformas, mas que, a cada mudança de ministro, secretário ou diretor de educação, faz uma minirreforma educacional que parece fazer parte daquilo que Darcy Ribeiro chamava de projeto de deseducação do Brasil. No caso do professor Tiago, que exerce a sua profissão em um Centro Integrado de Educação Pública Mestre Marçal no Rio de Janeiro, o que ocorreu e chegou à televisão através de um vídeo feito por um colega dos agressores, foi uma agressão física, pois como ele informou, tem recebido, continuadamente, agressões verbais e morais, salientando que a direção do CIEP sabia do que ocorria e manteve alheia aos acontecimentos. Pelo que disse o professor Tiago, ele não era o único a ser agredido. Todos silenciaram por temor, por medo. Agentes do Estado estão amedrontados, trabalham atemorizados em prédio público, pois o Estado não garante a segurança de seus agentes, dos agentes que levam a saúde, a educação, a civilidade e a cultura nacional e universal àquele ambiente. Medo de que? O Estado está com medo dos donos das favelas, dos morros, das ruas, dos serviços que o Estado deveria cuidar. Os CIEPs foi uma criação do governo de Leonel Brizola que, ao cria-lo, garantiu que a polícia – parte do Estado – não subiria mais o morro. Agora não sobe mais, nem com a ajuda do Exército Nacional, e por isso, o Professor Tiago e centenas de outros que escolheram, ou foram escolhidos pelo Magistério, são agredidos e, só o soubemos, porque um dos seus alunos teria rompido a lei do silêncio imposta aos abandonados pelo Estado. Não fosse o vídeo posta em uma rede social, talvez essa seria mais uma agressão física sofrida por um professor – agente desarmado do Estado, assim como os médicos, enfermeiros, agentes de saúde – jamais seria de conhecimento público.

Estamos na primavera, às vésperas de uma eleição geral, na qual os candidatos pouco debatem sobre o que farão, e seus seguidores mais se agridem que discutem. Falta de prática democrática, próprio de uma população que foi ensinada a só realizar qualquer tarefa se houver a possibilidade de punição. Mentalidade de escravo, de gente que se recusa a assumir o papel de protagonista, porque tem medo: medo de não ser entendido, medo de ser entendido; medo de ser perseguido, medo de não ser perseguido; medo de procurar o futuro, medo que o futuro chegue; medo de conhecer o seu passado, medo que saibam do seu passado; medo de fazer alguma coisa, medo de fazer coisa nenhuma; medo de pensar, medo de ser chamado de bobo; medo de ser chamado de honesto, medo de ser chamado brasileiro, medo de ser chamado comunista, medo de ser chamado fascista, medo de viver pois vive com medo de morrer. Medo porque não sabe e o medo de vir a saber. E o medo faz com que se perca a noção de civilidade, pois o medo faz parte do humano para sua proteção, mas ficar sob o domínio do medo animaliza, produz apenas reações do límbico.
É a ausência da prática democrática, portanto responsável pela vida social, que impele o estudante brasileiro, especialmente os das camadas sociais menos senhoras de seus desejos, só interessar-se pela leitura indicada pelo professor se houver a perspectiva de prova, de reprovação. Acostumado à vara pela desobediência e ao regalo pela obediência, poucos superam essa armadilha e buscam seu próprio caminho. Aprenderam a “estudar para a prova” e, mais lamentável, aprenderam que se alguém lhes disser que não estudaram o suficiente, poderão recorrer à sedução ou à sedição, objetivando criar o medo nos seus professores. Fazem isso pois contam com o silêncio dos diretores, reitores, vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidentes e outras autoridades, pois como alçaram tais voos em sociedade que vive do medo e da bajulação dos feitores e seus mentores?

Em poucos dias teremos o que pode ser o primeiro turno das eleições gerais; até chegarmos à data do segundo turno haverá o dia que, talvez envergonhados, haverá comemoração do dia dos Professores. Uma fugaz homenagem a quem é constantemente maltratado nessa sociedade que se recusa respeitar-se. Será que se houvesse um real respeito aos professores haveria tanto desrespeito às mulheres, aos homossexuais, aos índios? Será que o respeito aos professores e sua função social não traria uma diminuição dos índices de violência, criminalidade, agressão no trânsito? Se olharmos os povos que escolheram respeitar os professores, voltaríamos – ou passaríamos, a ter orgulho de nós mesmos.