Archive for the ‘Capistrano de Abreu’ Category

Sobre o esquecimento dos que se lembram da Revolução de 1817

sexta-feira, março 6th, 2020

Tenho em mãos o “Memorial do dia seguinte, a Revolução de 1817 em documento da época”, organizado por Evaldo Costa, Hildo Leal da Rosa e Débora Cavalcante de Moura, uma publicação conjunta do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, e a CEPE editora. A importância desse livro é que põe à disposição do estudante de história, ao cidadão pernambucano, brasileiro e os cosmopolitas, documentos manuscritos gerados em Pernambuco pelo governo de Pernambuco para dentro da província ou das províncias vizinhas, relatando ações, cumprindo decisões do governador Capitão general Luiz do Rego Barreto, o algoz dos patriotas pernambucanos. Esses documentos são antecedidos pelo excelente prefácio do historiador prof. Dr. Flávio José Gomes Cabral, docente da Universidade Católica de Pernambuco. Lamentável a ausência de palavras do historiador e ex-diretor do APEJE, Hildo Rosa, que nos trariam mais informações sobre a qualidade, a situação em que se encontravam tais documentos e o processo que promoveu a possibilidade da recuperação desses documentos. O texto de apresentação, escrito pelo jornalista Evaldo Costa, parece ser o atual diretor do APEJE, apenas diz que “o material que forma a presente coletânea esteve por décadas longe dos olhos de potenciais interessados, integrado ao acervo permanente do Arquivo Público, onde era visitado esporadicamente por alguns poucos especialistas, enquanto permanecia um grande alheamento sobre 1817.” Essas poucas linhas contrastam com os dois parágrafos dedicados a homenagear alguns diretores da administração estadual.

O volume que tenho em mãos, foi resultado do trabalho da “equipe do Arquivo, liderada por Hildo Leal da Rosa e Débora Cavalcante de Moura”, escreveu o jornalista, sem mencionar, como o faria um autêntico diretor de um arquivo público, os responsáveis pelo projeto “Ofícios do Governo de Pernambuco: Retratos da cultura política: ofícios do governo de Pernambuco (1679-1837)” idealizado pelas professoras da Rede Estadual de Educação de Pernambuco e, à época, Mestre Fabíola Correia da Costa e a doutoranda Luciana de Carvalho Barbalho Velez. Tal projeto recebeu financiamento da FACEPE, apoio da UFPE, UFRPE, UFPB, UPE, através de professores que participaram de seu comitê Gestor. O Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano nos recebeu a todos, especialmente ao técnicos Prof. Mestre Douglas Batista e prof. João Batista da Silva Neto. Por gentileza de Fabíola Correia e Luciana Velez, quem apresentou o projeto à FACEPE e o coordenou, foi o prof. Dr. Severino Vicente da Silva, da UFPE.  Graças a esse projeto foram adquiridos materiais diversos para o APEJE que permitiram a leitura e cópia dos manuscritos e um cofre a vácuo para a guarda dos manuscritos.      

A publicação de documentação, especialmente quando ela é única, caso do que foi publicado neste livro, deve ser acompanhada com o maior número de informações possíveis para que toda a historiografia e todos os historiadores sejam beneficiados. A corrida por publicação que gera prestígio instantâneo é prejudicial ao trabalho do historiador. Convém sempre lembrar o cuidado que encontramos nas obra de Capistrano de Abreu e outros grande que, tendo manuseado documentação inédita, tornaram públicas as fontes, os autores e os caminhos que percorreram até a publicação dos mesmos. Assim esperamos de historiadores e de jornalistas que, por motivos outros, vieram ou venham ocupar a mesa de diretor de arquivos públicos. Aliás, neste, os governantes de nosso país dificultam a manutenção dos arquivos, talvez porque alguns que governam o país sejam proprietários de terra. Arquivos bem conservados guardam o segredo, arquivos mal conservados destroem possíveis verdades ou verdades indesejáveis. Melhor queimar, ou deixar perecer, pensam.  

Rescritas da história – muitas e diversas maneiras

domingo, abril 7th, 2019

14 Anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor
(Paulinho da Viola)

Eu tinha quase 14 anos quando meu pai me pôs a estudar no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, sim, o mesmo que foi interventor em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, após ser Ministro da Justiça e do Trabalho. Foi assim que no dia Primeiro de abril, o diretor do CTPAM (prof. Abelardo, talvez), suspendeu as aulas por que soube estar ocorrendo movimentação militar na cidade e o melhor era todos irem para casa. Saímos do CTPAM e descobrimos que não havia transporte coletivo. Eu estava na Encruzilhada e tinha que ir para Nova Descoberta. Sem ônibus, peguei um bigú que me deixou em Casa Forte. Outra carona deixou-me na entrada de Nova Descoberta. Mais 1500 metros e cheguei em casa, e tudo parecia calmo.

Com quase 14 anos pouco entendia do que estava acontecendo. O que se dizia era que tinham prendido o governador Arrais e o presidente não estava em Brasília.
Depois foi ouvir as notícias as notícias pelo rádio. Falava-se de prisões de deputados vereadores, sindicalistas. Muitos dos moradores de Nova Descoberta trabalhavam na Fábrica da Macaxeira, e as famílias estavam assustadas. Alguns dos provedores ficaram desaparecidos por uns tempos, e quando voltaram estavam desempregados. A memória traz a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”. É que os comunistas haviam deixaram o Brasil na miséria. Vi muitas pessoas levarem alianças, anéis, brincos para a Praça da Independência, com o intuito de salvar o Brasil. Ao mesmo tempo os rádios e jornais informavam sobre Inquérito Policial Militar – IPM, para demonstrar o crime de políticos e sindicalistas. Parece que fiquei uma semana sem aula, tempo para que tudo se acalmasse.

Sempre tive um carinho especial por Felipe dos Santos. Ele havia liderado, em Vila Rica, Minas Gerais, uma revolta para expulsar o portugueses do Brasil, livrar o Brasil de pagar o Quinto a Portugal. Aprendi, ante de chegar ao Ginásio, hoje quinta série, que Felipe dos Santos foi o Protomártir da Independência do Brasil. Aprendi a amar o Brasil e Felipe dos Santos sempre foi, e continua sendo, o meu herói. Ele foi esquartejado, sua casa foi demolida, sua terra salgada para que nada mais nascesse ali. Foi a ordem do Conde de Assumar, meu primeiro vilão. Nos anos seguintes os livros não mais mencionavam Felipe dos Santos, começava o tempo de Tiradentes. Esse personagem foi ficando cada vez mais falado e bonito, a cara dele era bem parecida com a de Jesus Cristo. Até mesmo os poetas e cantores da oposição ao regime cantavam esse Mártir da independência. Estanislau Ponte Preta escreveu uma Exaltação a Tiradentes, com conotação jocosa, mas ele era o homem que “foi traído mas não traiu jamais a inconfidência de Minas Gerias. Ary Toledo cantava assim, “Foi no ano de 1789, em Minas Gerais que o fato se deu // E havia derrame do ouro (…) Esse ouro ia longe distante passava o mar, ia para Portugal para rei gastar (…) o mineiro garrou a pensar: se esse ouro que é ouro da terra e de nossa terra porque é que se vai (…) se juntaram numa reunião e resolveram fazer uma conspiração (…) Manoel da Costa, Antonio Gonzaga e Oliveira Rolim e tem mais um nome, o nome do homem que foi mais herói esse fica pro fim. E o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser, Joaquim José da Silva Xavier”.

As escolas de samba do Rio de janeiro se esmeraram em produzir sambas sobre o herói de Minas Gerais (a bem da verdade A Império serrano, em 1949 exaltou Tiradentes). Tudo isso ajudava muito a aceitar o esquecimento de Felipe dos Santos, que carregava dois sérios problemas: era português e civil, não podia ser herói de um movimento nacionalista liderado por militares.

Bem tudo isso veio vindo em meus pensamentos nesta semana quando se escancarou o projeto revanchista de revisar ou reescrever a história da Brasil, negando a existência de uma ditadura iniciada em abril de 1964, mudando os livros didáticos, como disse o brasileño com assento no ministério da educação. Historiadores estão atentos para iniciativas tortuosas como a do atual governo que, carente de um Golbery do Couto e Silva, foi pescar com Olavo de Carvalho. Assumindo o bom humor, Golbery de Couto e Silva teve Elis Regina, Chico Buarque, a Portela (1967) como propagandistas de seu herói. Mas precisamos lembrar que dizia Capistrano de Abreu sobre a Inconfidência de Minas Gerais.

21 de abril: história e mitos

sábado, abril 22nd, 2017

Hoje é 21 de abril. O Brasil parou para homenagear e refletir sobre o exemplo de amor à pátria que José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, legou como exemplo para os brasileiros. Ouvi em uma emissora de rádio que ele era maçom, que a maçonaria não o deixou morrer na forca, tendo sido levado à forca um outro que recebeu a garantia de segurança para sua mulher e filhos. Assim, hoje aprendi que ele viveu alguns anos na Inglaterra, junto com sua namorada com quem viajou. Atualmente está em cartaz um filme – Joaquim – que o coloca como figura central no processo da independência do Brasil. Colocado como principal herói no Panteão Nacional, Capistrano de Abreu, o historiador que queria contar o Brasil a partir do Brasil, celebrou ter escrito Capítulos de História Colonial sem mencionar a Inconfidência Mineira nem a revolta dos senhores de engenho de Pernambuco. Para ele, nenhum desses acontecimentos tinha a profundidade suficiente para fazer parte da grande saga. Quando muito poderiam ser acontecimentos fundadores de uma história local. Claro que devemos fazer a separação entre a história e a criação de mitos fundadores da nacionalidade. Mitos tem base histórica mas superam o fato e tornam-se parte de uma religião civil.

Cada geração, cada instituição, cada nação recria o seu passado, faz sua narrativa, e, embora os mortos governem os vivos, estes estão sempre a recontar a vida dos seus mortos, sempre a seu favor.
A barba e os cabelos longos que o pintor Pedro Américo concedeu ao esquartejado, com o objetivo de agradar os líderes do movimento que pôs fim à monarquia, pareceu reviver na segunda metade do século XX no rosto de jovens metalúrgicos, sindicalistas, estudantes e alguns professores universitários brasileiros que se autodenominaram “heróis do povo brasileiro”. Diferentemente do tenente que tirava dentes nas Minas Gerais do século XVIII, estes últimos chegaram ao poder amaldiçoando o demônio americano, enquanto Joaquim tinha a república americana como modelo para a sua.

Nem sempre a criação de mito é bem sucedida, especialmente quando ela acontece enquanto o herói está vivo. A escolha de como se será visto no futuro não depende da vontade do ‘herói’ enquanto vivo. Quando a morte chega pode ser o começar de uma nova vida, ou o esquecimento. Entretanto, nem Judas Iscariotes nem Silvério dos Reis foram esquecidos. Talvez desejassem.

Nesse mesmo dia 21 de abril, li escrito de uma professora de história dizendo estar ela cansada de toda essa história de corrupção no Brasil, especialmente as reportagens que se ocupam em publicizar os depoimentos dos donos e diretores da Odebrecht. Ela chega a dizer que está cansada do Brasil desde algum tempo, e chega a pensar em deixar o Brasil. Creio que ela, como muitos, andou de braços com possíveis futuros mitos, e confundiram a história do Brasil com a história dos possíveis futuros mitos. Ela não percebeu que podemos manipular com mais facilidade os mortos que os vivos.