Archive for the ‘Adolescência’ Category

Diários de gerações

sábado, maio 30th, 2020

Faz algum tempo que desejo escrever sobre algumas experiências em minha adolescência que, creio, fazem parte deste período de formação de alguns, especialmente os que estiveram em torno de alguma liderança católica nos anos sessenta. Trata-se de dois livros que, parece, acompanharam muitos jovens nas décadas de sessenta e setenta. Foram editados pela Duas Cidades, editora que, parece-me, esteve ligada aos padres dominicanos. Refiro-me ao Diário de Danny e ao Diário de Ana Maria. Havia um mais famoso, ainda nos dias de hoje, o Diário de Anne Frank, a menina judia que contou seu cotidiano no esconderijo, para livrar-se da sanha assassina dos nazistas. Ela terminou caindo e sendo morta. Vive hoje com grande vigor e merecendo ser lida, refletida e amada por todos que desejam a vida plenamente. Anne Frank escreveu sobre as dificuldades do silêncio que lhe era imposto pela situação e, conseguia verificar o quão era possível comunicar-se consigo mesmo, mantendo a sua jovialidade e saúde mental/espiritual, Danny e Ana Maria viviam no mundo pós Segunda Guerra, o mundo criado após a derrota do exército alemão, a destruição dos campos de extermínio. Anne Frank terminou sua aventura em Bergen-Belsen. 

A escrita de diários registrando acontecimentos da vida, reflexões sobre o que então se vivia, tem sido um hábito desde que a cresceu a produção de papel, o que permitiu que o prazer de ler e escrever ultrapassasse as paredes de mosteiros e palácios. Refletir sobre o que se faz durante o dia é uma orientação prática, os monges e outros religiosos o fazem antes de dormir, um exame de consciência, que os católicos são convidados a fazer quando se dirigem ao confessionário. Mas isso era feito mentalmente, ainda que orientado por livros como A Imitação de Cristo e outros. Colocar no papel, como o fez Anne Frank e como mutos fizeram, ainda fazem, é uma maneira de acompanhar o crescimento da espiritual. Os diários auxiliam a fazer a anamnese de si mesmo.

Eu li os dois diários, o de Danny e o de Ana Maria, que foram escritos por Michel Quoist, um padre francês que teve atuação e influência bem forte na vida dos jovens franceses e, também nos países onde ele missionava. Escrever os diários de dois adolescentes foi um dos muitos caminhos utilizados pelo padre Michel Quoist para debater as questões que ele julgava serem essenciais para um engajamento dos católicos nos problemas sociais que a Europa enfrentava, então. Simulando a vida de um rapaz e de uma moça, Michel punha os adolescentes franceses a pensar no que ocorrendo ao redor. A década de 1950 foi vivida muito intensamente pelos católicos franceses, saídos de uma guerra e envolvidos em questões sobre a convivência com povos diferentes, já conhecidos, mas que a Segunda Guerra dera oportunidade de recomeço.

Ao longo do século XIX a França estabeleceu um império, notadamente na África e Ásia, como o fizeram outras nações europeias, o que lhe valeu terem as matérias primas necessárias para as suas indústrias e riquezas para serem consumidas. Mas a Grande Guerra começou a questionar para onde essas riquezas levavam. O que faziam os católicos para diminuir, se não podiam acabar, a exploração dos povos? A derrota dos nazistas abriu espaços para a expansão do comunismo materialista da União Soviética, mas o que faziam os católicos diante da exploração dos operários e das nações subjugadas.

Na busca de novos caminhos, alguns padres franceses foram viver em bairros operários, e o fizeram anonimamente, sem expor o seu status clerical, ainda nos anos quarenta. A experiência criou atrito entre o Vaticano e o governo francês, o que levou Pio XII a suspender essa possibilidade de vida sacerdotal, confirmada, posteriormente por João XXIII. Ao mesmo tempo a Guerra de Independência da Indochina, e do Marrocos, interpelava os ideais le,a da França. O processo de descolonização questionava conceitos tradicionais, surgiam novas nações e, com elas a compreensão de que nem todos os humanos estavam tendo acesso aos bens da economia, da cultura criados pela sociedade que começa a ser chamada, às vezes pejorativamente de Ocidental e Cristã. Os economistas iniciavam a falar em Terceiro Mundo    mundo subdesenvolvido. Os diários escrito por Danny/Michel Quoist são um meio eficaz de levar os jovens a debater os conflitos da sociedade que está em mudança, está modificar valores, como atestam as reflexões encontradas no Diário de Ana Maria/Michel Quoist. A experiência desses  jovens franceses vieram abrir caminho para reflexões de jovens brasileiros, católicos, pertencentes à classe média, buscavam criar e aprofundar uma nova religiosidade mais conscientes dos problemas enfrentados pelos jovens, deixando no passado as certezas de comportamentos fixos, de costumes que apenas preservavam o status quo.

Essa não foi a única influência recebida pelos jovens católicos de classe média, especialmente aqueles que chegavam às universidades, e tornavam-se membros da Juventude Universitária Católica. Mas, todas essas iniciativas tiveram por base a prática de um padre belga, Joseph Cardjin, criador da Juventude Operária Católica – a  JOC. Mas então, já são outros caminhos do envolvimento social dos católicos no século XX.

Esquecidos

terça-feira, janeiro 24th, 2017

Os esquecidos
Por Biu Vicente

Janeiro de 17 quase ao seu final e tudo parece tão modificado que já se torna difícil lembrar o que ocorreu no mês passado.

Muitas mortes ocorreram no Brasil em duas semanas. Uma estatística diz que nos primeiros quinze dias foram mortos quase um policial por dia neste país pacífico. Por seu turno, em três presídios parece ter havido um esforço para superar as mortes nas guerras que estão em andamento naquela parte do mundo que os professores de história nos ensinam terem se formado as primeiras civilizações. Nos tempos de Hamurabi o código dizia que o olho perdido exigia que o outro perdesse seu olho. Nas prisões brasileiras o que está valendo nem é a Lei do Talião, mas a lei que não reconhece o direito simples de viver, se mata para não morrer, enquanto não se é morto. O que os programas de informação estão a nos mostrar é a prática de matar para não ser morto. A decapitação retorna como prática comum, tanto nas guerras do Oriente Médio que usam a religião como justificativa, quanto nos presídios nos quais a justificativa é manter-se vivo, ou explicitar qual a facção está no comando do país. Falta apenas o carnaval de cabeças espetadas, como ocorria nas ruas de Paris no Período do Terror.

O Estado Brasileiro acostumou-se a pensar em apenas 30% da população, fazia planejamento apenas para um terço dos habitantes do país, agora se vê obrigado a ampliar suas preocupações. A sociedade ampliou-se, embora sem fazer crescer proporcionalmente a produção de riquezas. Se há mais gente consumindo, tem haver um crescimento da produção e um alargamento da oferta de ocupação, de oportunidades educacionais, de possibilidades de recreação, facilidade de locomoção, ampliação de coleta de lixo e atendimento preventivo para garantir a saúde e a segurança dos novos grupos convidados a serem plenamente cidadãos, etc.; sem esses complementos cria-se uma sociedade anômica e anêmica social e culturalmente. O Estado que sempre pensou apenas em um terço da sociedade, deve aprender a pensar mais largamente. Novos tempos, novos hábitos. Mas formar novos hábitos leva algum tempo, e pode ser que nosso jovem Estado de apenas duzentos anos, ainda incompletos, já esteja bastante envelhecido; parece que perdeu a prática de sonhar e desejar mudar: ser capaz de sacrificar-se por uma causa é coisa de jovens; ser capaz de fazer os outros sacrificar-se por uma causa, é próprio dos velhos, especialmente dos velhos que venderam seus ideais ainda na segunda idade e, na terceira idade, só pensam em seus confortos. São elefantes que gostam de conforto enquanto esperam a morte. Essa parece ser uma imagem que representa bem a elite que hoje está à frente do Brasil, (talvez não apenas no Brasil, mas em outros países) homens velhos que não souberam ou não quiseram deixar brotar e crescer o novo. Preferiram as novidades, e assim somos uma sociedade que está sempre ofertando novidades a meninos crescidos que se tornam velhos sem experimentar a juventude. Levaram a sério aquela história que “a juventude é uma calça jeans azul e desbotada”.

Na mais rica nação do mundo ocorreu a posse de um novo mandatário que, parece, está disposto a mandar às favas tudo que lembre a construção de uma civilização, uma possibilidade, uma chance para a humanidade. Prefere, ele, apenas a lealdade a seu grupo pequeno. Pensar na humanidade tornou-se estranho, uma vez que vivemos em uma sociedade que cuida de agir pelo prazer do imediato, cuida do pequeno retalho, do fragmento que se escolhe para dizer que é seu. Começamos a agir como aquela galinha da fábula que, tendo caído uma jabuticaba em sua cabeça, saiu a cacarejar que havia caído um pedaço do céu. Donald Trump, em seu discurso de posse citou o “homem esquecido”, imagem utilizada por Franklin Delano Roosevelt, para referir-se aos desempregados da Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Este novo presidente foi eleito com o voto dos esquecidos, dos desempregados, daqueles que aparecem nos livros como estatísticas, números sem história que contam a história dos anônimos, esquecidos por aqueles que dizem defendê-lo, enquanto fortalecem sistemas que os tornam mais esquecidos nas histórias. William Reich os chamava de Zé Ninguém. O Zé Ninguém pensa do pescoço para baixo.

Embora bilionário ou trilionário, Trump era um “homem esquecido” a quem não se dava crédito, mas ele falava com os outros esquecidos, com a linguagem necessária para manter a pulsão de vida, a vida não sofisticada, a mais simples. Esses esquecidos se fizeram lembrar. Agora veremos até onde iremos com ideais tão pequenos: como uma conta bancária, um prato de feijão ou lentilhas, a vitória do clube, da tribo da nação que substituem humanidade.

Na cerimônia de sua posse, Trump, que é um homem esquecido, esqueceu que estava acompanhado da esposa.

O Domingo é republicano e as praias nos pertencem

segunda-feira, novembro 14th, 2016

O DOMINGO É REPUBLICANO

Meados de novembro. Despreocupado piso na areia da praia de Pitimbu. A algazarra e os sons mais diversos são acompanhados por meus olhos embebendo as cores. Todos os matizes brasileiros, todos os mestiços.

A memória me carrega ao passado. Faço parte desse povo que aproveita os domingos, seus feriados permanentes ao longo do ano, para sair de seus lugares e viver o sonho de expandir seu mundo. Sempre sonhamos com o mar, sempre fomos à sua procura. Foi lá que os portugueses nos encontraram na busca da Terra Sem Males.

Hoje esse sonho parece ser é ofertado pela televisão que tem o programa “estou de folga”, e eles sempre mostram praias. Quem vive pendurado em morros de periferias das capitais ou em cidades distantes do litoral, ir à praia é sonho paradisíaco. Horas de viagem em ônibus fretados, são segundos em direção do sonho, das águas salgadas, ao menos, uma vez no ano, às vezes na vida. É o sonho do adolescente que juntou algum dinheiro e, talvez com os pais, pagará uma viagem até o litoral. Será um dia radiante. Ônibus vai lotado, nele há grande quantidade de ansiedade escondida e exposta nas vozes altas e anedotas nervosas. Sempre há um grupo de rapazes com violão, tambor, pandeiro para que a viagem fique menos cansativa. Duas ou três horas de viagem. Quando a praia é vista grande gritaria. Depois é encontrar um lugar na areia. Enquanto os mais velhos conversam em torno de um litro de Rum Montila e muita Coca-Cola, as crianças cavam piscinas com suas mães e os rapazes jogam bola, exibindo-se para as meninas moças do bairro.

Andando na areia da Praia de Pitimbu, PB, lembro que foi assim que, crescendo na periferia do Recife, eu, ainda menino de 12 anos conheci Tambaú, também na Paraíba. Era um passeio promovido pela Cruzada Eucarística da Paróquia de Nova Descoberta. Em passeio de ônibus semelhante fui à distante praia de São José da Coroa Grande, quase vizinha à antiga Comarca de Alagoas. Outro passeio levou-me à Suape, embora fosse mais comum ir até Gaibú, essas praias do litoral sul de Pernambuco. Foi também em excursões semelhantes que conheci as então distantes praias de Conceição e Janga, em Paulista, além da famosa Ilha de Itamaracá, Ponta de Pedras, em Goiana e Rio Doce, esta última em Olinda.

Como se pode perceber, fui farofeiro e gosto de ver meu povo farofeiro feliz. Claro que nesses domingos, nesses feriados nacionais os moradores dessas praias não saem de suas casas. Não se misturam com esse povo. Esses farofeiros, que trazem de casa suas panelas com o que comerão.

Uma vez, já com filhos, em um belo 7 de setembro, dia comemorativo da Independência do Brasil e simbólico dia da Abertura do Verão, em Pernambuco, me encaminhava para a Praia de Maria Farinha e parei na casa de um amigo. Era uma passada rápida e ele me perguntou para onde eu iria. Ao saber que eu estava com a família indo à praia, ele disse: “vá não, hoje esses negros de Nova Descoberta e Casa Amarela estão descendo dos morros”. Sorri e disse à minha esposa: vamos logo.

Quase não gosto de brasileiros que não gostam de brasileiros. Não me agrada essa gente mesquinha, que quer a praia e o mar só para si. Uma vez, em Copacabana, esperando um ônibus para retornar a Zona Norte, uma senhora me disse: “esse ônibus não, espere o próximo. Depois que abriram esse túnel a nossa vida ficou muito difícil”. Ela parecia com o meu amigo do Janga, apesar de ela ser branca.

Gosto muito dos feriados de verão. Eles são republicanos. O povo toma as praias, ruas e as praças enquanto a pretensa nobreza se esconde nos alpendres de suas casas de praia, esperando a praia no dia seguinte ao feriado, pois o povo brasileiro voltará a trabalhar enquanto ela irá à praia. Você sabe como é: ‘segunda feira é dia de branco”. O domingo é republicano, e o povo não o vive como besta, embora assim o vejam.

Adolescência, história e historiadores

segunda-feira, novembro 7th, 2016

Os recentes acontecimentos da República mostram crescimento do protagonismo de novos grupos sociais, cada vez mais jovens assume-se a responsabilidade para apontar soluções para os graves problemas da humanidade. Nesses últimos cem anos nós saímos da ‘descoberta’ da adolescência para uma situação em que os adolescentes passam à posição de influenciar decisivamente os caminhos que a sociedade deve cumprir.

A princípio a adolescência parecia ser uma fase na qual os jovens adultos ‘treinariam’ e aperfeiçoariam as suas habilidades para a vida social e para assumi-la posteriormente. Vivemos, em nossa sociedade brasileira, uma ascensão do poder jovem que coloca em segundo plano o protagonismo da geração que, por pouco anos, não é sua companheira de adolescência. Os anos sessenta do século passado foram a ponte dessa travessia que, de acordo com a sociedade observada, pode ser uma ponte mais larga ou mais estreita. Mas parece que as diferenças entre as sociedades dependem de como foram forjadas as suas juventudes.

Montesquieu, analisando os comentários da sua geração que reclamava que os jovens estavam destruindo os valores da sociedade, lembrava que os jovens são formados pelos mais velhos, ou seja, eles são a realização, o resultado do processo educativo e formativo que os adultos ofereceram aos jovens. Alguns adultos felicitam-se constantemente pelas ações juvenis, desde que elas concordem com o que eles desejam. E muitos adultos ficam mais felizes porque observam que os jovens são suas cópias, reproduzem os seus sonhos e, por isso não têm tempo, ou possibilidade de sonhar os sonhos de sua juventude.

Lembro que uma vez disse a um jovem padre que animava grupos de jovens que algumas decisões os jovens não têm condições de tomar, mas aquelas que são próprias de sua idade, eles devem assumir a responsabilidade. Claro que eu era, e ainda sou sete anos mais jovens que aquele padre. Então ele disse: quero ver você repetir isso daqui a cinco anos. Minha resposta foi: quando eu tiver 25 anos não mais estarei à frente desse grupo, não mais estarei liderando grupos de jovens. Assim o fiz, embora continue ouvindo e debatendo com os jovens até hoje, ajudando, quando me solicitam a que eles descubram e realizem a sua caminhada. Quanto ao padre, não sei o que fez daquela discussão que tivemos quando éramos jovens.

A vida que temos são os riscos que corremos. Uma vez eu ouvi do professor Potiguar Matos que a História é uma ciência de velhos Os historiadores fazem muitas pesquisas para entender como a história aconteceu. Depois eles refletem e procuram, a partir dos traços e evidências do passado que lhes chegaram, organizam um relato que faça sentido e dizem que o que ocorreu pode ter sido de tal forma. O risco é, depois de algum tempo eles acreditarem que as pessoas do passado agiram exatamente como eles entenderam. E quanto mais jovens, com menos pesquisas, mais os que contam histórias assenhoram-se do passado, e cultivam a certeza do passado. Claro que alguns mais velhos fazem o mesmo, e servem de modelo aos mais jovens. Como cientista o historiador sabe que o seu conhecimento é o conhecimento possível naquele momento vivido por ele; o historiador sabe que a sua explicação do passado é uma possível dentro da corrente que chegou até ele, é uma aproximação. Mas sempre uma aproximação relativa por conta do parco conhecimento que temos e da impossibilidade de voltarmos no tempo. Mas esse exercício da dúvida é sempre considerando os vestígios do passado que chegaram até o historiador. Pensar além dos vestígios é possível, mas então, parece-me, não será mais história. Poderia ser um sonho bonito, ou o seguimento de um sonho ou quimera, o desejo de fazer, hoje, mudanças que os homens e mulheres do passado recusaram no seu tempo. Depois que o leito do rio se forma na longa duração, talvez só a morte do rio, com a construção de uma grande barragem, daria a impressão que poderíamos voltar ao paraíso ou ter alcançado a Parusia. Mas será que ainda seria história?

Outro professor disse que até os trinta anos repetimos o que ouvimos dos professores, depois repetimos o que lemos deles e, só após os quarenta começamos a ter nossa opinião historiográfica. Alguns de meus alunos, ao receber o certificado de conclusão do curso de bacharelado ou licenciatura em história, colocam em seu cartão de visita: historiador.