Archive for the ‘Irmandades’ Category

Escondidos na biblioteca 3

segunda-feira, fevereiro 17th, 2020

Escondidos na Biblioteca 3

Uma biblioteca sempre surpreende, nela encontramos amigos que nos fazem mais bem que encontramos nas ruas e festas. É um refúgio, uma festa muito particular. Conversamos silenciosamente e depois fazemos muito barulho a respeito do que vimos e ouvimos dos amigos. Recentemente alguns amigos apareceram em forma de imagem, fotografias tomadas ao acaso, algumas, e outras apresentando amigos fazendo pose, com risos dizendo que estão felizes e se deixam fotografar eternizando o sorriso. Após alguns anos pode ser que não lembremos mais o que fez surgir o sorriso, apenas supomos que queiram dizer: que bom que estamos juntos neste momento.

Quando passeie nos sertões colhi muitos sorrisos, é o que dizem as fotos, e também algumas expressões sérias, como a dos Penitentes que encontrei em Belém do São Francisco, esmolando para a preparação das festividades da Semana Santa. Um surpresa ver o Decurião com a cruz sendo seguido por homens e algumas mulheres, numa tarde de sol escaldante. Duas fotos, quase sem permissão, sem proibição. Gente do povo, gente negra que agradeça ao Bom Jesus dos Martírios a vida que levam, carregadas de esperanças e exploração. Mas seguem a vida em direção da eternidade que, como lembrava Dom Hélder, “começa aqui e agora”. Em Belém do São Francisco vi e quase dancei São Gonçalo, em agradecimento pela graça de ter recebido a aposentadoria. Os pobres sofrem tanto que, receber a aposentadoria que lhe é de direito,  só com a intervenção de São Gonçalo do Amarante. Com o primeiro recebimento vem a festa de agradecimento, congregando amigos da cidade, das cidades vizinhas, do outro lado do Rio São Francisco.

Estava escondida, em uma prateleira, fotos da Festa da Coroação do Rei do Congo, promovida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de Floresta. A festa ocorre no final do ano, quando os reis, em cortejo, vão à Igreja, sentam-se em tronos posto na nave da Igreja da Irmandade para a Santa Missa. Igreja lotada e os reis assistindo a missa celebrada pelo bispo. Depois veio o desfile nas ruas da cidade, com a guarda de honra, e a grande festa com bolos e refrescos, na sede da Irmandade. Uma alegria só. A minha cresceu quando soube, anos depois, que um artigo que escrevi e foi publicado n’O Tamborete, um jornal dos estudantes de jornalismo da UFPE, uma experiência de incubadora digital, ainda no início dessa era que vivemos,  foi uma das bases que tornaram a Irmandade um Patrimônio Imaterial da Cultura Pernambucana, uma decisão tomada a partir da análise de historiadores e conselheiros da Cultura. Essa coroação dos Reis de Congo não virou carnaval. Ela é única e, rio quando lembro que famoso historiador paulista, que também vive em minha biblioteca, escreveu que não havia negros no sertão. Ainda bem que todos sabemos que todos os livros, inclusive os que formam a historiografia, são datados, exatamente por serem históricos. Hoje tem crescido a importância da Irmandade e outras associações representativa da história brasileira, feita pelos escravos e seus descendentes, firmam-se em um território dominado pelas tradições impostas apenas por um grupo étnico-social, que, quase sempre, tornam quase impossível a vida dos pobres a quem exploram. Ter participado do processo de renovação do entusiasmo da população negra de Floresta é um dos meus orgulhos como cidadão.

Lamentavelmente não encontrei fotos de minha participação da grande festa do padroeiro da cidade, Nosso Senhor dos Aflitos, no último dia do século XX, com uma pequena palestra na catedral, assistindo a entrada triunfal do andor de São Benedito ocupando lugar de honra, como tem sido feito desde final do século XVIII.

Pátio de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda

sexta-feira, janeiro 13th, 2017

Terminei a leitura de ADROS, PÁTIOS E PRAÇAS PÚBLICAS, de autoria de Fernando Guerra de Souza, professor de História da Arte no Departamento de Arqueologia da UFPE, uma publicação do Centro de Estudos de História Municipal – CEHM, desta cidade do Recife. Sua leitura nos convida a percorrer os muitos espaços de sociabilidade criados ao longo da trajetória humana, mais especificamente a tradição greco-romana e europeia, matriz dominante de nossas cidades. É um percurso que nos apresenta, com elegância, os pontos básicos para a compreensão das transformações dos espaços de acordo com as necessidades sociais, e assim fazemos uma pequena arqueologia dos Adros, Praças e Pátios que encontramos no Estado de Pernambuco, mas sempre relacionando-os com a grande tradição que nos envolve. Belas fotos relacionadas com o texto e aos espaços mencionados, sejam eles espaços nascidos no atendimento de necessidades religiosas sejam aqueles espaços crescido a partir das atividades seculares.

No livro do professor Fernando Guerra de Souza não poderia deixar de ter papel de protagonismo a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, caminhando para o quarto centenário, a primeira igreja dedicada à Senhora do Rosário no Brasil. Nós sabemos que o Brasil é formado desse amalgama ameríndio-afro-europeu, não apenas na composição biogenética da população, mas, principalmente cultural. Ao dizer cultural, sabemos o quanto as religiões foram importantes na organização das múltiplas culturas e civilizações geradas no constante processo de mudanças da vida humana, e no caso brasileiro, isso parece tão óbvio! Mas, o que é interessante é que, no Brasil as religiões inicialmente se afirmaram sem o concurso dos sacerdotes. Certo que ocorreu a matança física e cultural dos pajés e lideranças religiosas das selvas, mas a religiosidade se manteve e também se firmou no Brasil inventando novos sacerdotes que, sabiamente juntaram valores e símbolos das religiões que vieram da Europa e da África. E essas religiões chegaram aqui e se organizaram antes que seus respectivos sacerdotes estabelecessem.

As religiões, os deuses, estão no coração dos homens e se despejam nos lugares onde eles vivem. Foram os mercadores e marinheiros os primeiros evangelizadores cristãos. Tomemos o caso dos franciscanos, foi uma terceira que deu as terras para os frades quando eles chegaram; no Recife, os pescadores criaram a Igreja de SanTelmo antes da criação da paróquia de Pedro Gonçalves. Para usar um termo da teologia cristã protestante, eles estavam exercendo o sacerdócio universal. Assim foi o caminho percorrido pelo catolicismo: primeiro o católico comum, depois vem o padre para organizar. Podemos dizer o mesmo das religiões que vieram da África, não foram os babalorixás e as Orixalás que criaram os cultos, os cultos os criaram para atender a necessidade. E como não havia uma autoridade explícita que definisse a ‘ortodoxia’, ocorreu a mestiçagem também nas religiões, o sincretismo ameríndio-afro-europeu que pode ser visto em qualquer templo das muitas religiões que são praticadas no Brasil. Evidentemente que a religião dos europeus teve uma dominância sobre as demais, entretanto, jamais as outras deixaram de estar presentes e influentes na vida social. Mesmo os escravos, acolhidos no mundo católico, puderam organizar seu espaço nesse novo universo que lhe foi dado, pois, segundo a doutrina, todos são livres no amor de Deus, organizaram-se em confraria, tiveram a permissão para construírem seus templos e cultuarem a Virgem do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia e todos os santos. Assim, os seus senhores evitavam de os encontrar em seus momentos de liberdade, quando estavam aos pés da Senhora do Rosário. Assim entendemos o porquê de serem tantos os afilhados de Nossa Senhora da Conceição.

Construtores das igrejas das outras irmandades, construíram a sua, resultado de seu labor e dos irmãos libertos que, reunidos conseguiam a alforria, a liberdade dos irmãos escravizados pelos homens. As irmandades dos Homens Pretos são a afirmação do trabalho, do sonho e da sua realização. O momento do culto, seja o culto interno na Igreja, seja o culto público nas procissões. A honra de carregar o andor de nossa Senhora do Rosário, ou o andor de São Benedito ou de Santa Efigênia nos ombros cansados do corte da da cana ou do calor das caldeiras, é afirmação da liberdade, ainda que no campo espiritual. Como ouvimos dizer, às vezes dizemos nós, “estar aos pés de Nossa Senhora é o céu na terra”.

Por tudo isso é que nos custa a acreditar que, na arquidiocese que recentemente foi pastoreada por Dom Helder Câmara, já considerada um Herói da Fé, a Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos esteja sendo ameaçada pelo bispo que deveria cuidar dos direitos daqueles que, faz quatrocentos anos, cuidam do orago dedicado à Mãe de Cristo, ali, onde nenhum homem branco quis morar, pois era fora da cidade, mas hoje é considerado centro histórico de Olinda. E, no entanto é lugar dos pobres e os pobres são a preferência de Jesus, o Filho de Maria.