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A Juventude só ocorre uma vez

segunda-feira, agosto 12th, 2019

A juventude só ocorre uma vez
Metade do ano já seguiu para o passado, após alguns décimos de segundos, quando presente parecia ser. Esse momento singular, constante no seu passamento nos dá a sensação de duração. Interessante é que o passado parece ser o presente quando refletimos sobre a situação política brasileira, cada dia mais parecendo algo que já foi visto, vivido e, pensávamos, indesejado mas, agora assistimos, nesses décimos de segundo, quantidade de gente com saudades do passado que pensávamos estar superado. Triste saber que o passado na últimas décadas do século XX, é o presente desejado por cerca de 30% dos brasileiros que parece terem optado por agarrar-se à covardia como maneira de viver. Sim porque todos os sistemas que optam por serem totalitários, erigem a covardia e a falsidade, não apenas como método, mas quase como objetivo a ser atingido. Aos poucos sentimos desaparecer práticas de boa convivência, do respeito mútuo, do reconhecimento do direito de todos e de cada um. É triste verificar que tem crescido o número daqueles que “só trabalham para ganhar dinheiro”. Esse o caminho que as reformas sociais estão tomando nesses oito meses de governo pós petismo.

Dia dos Pais, melhor, dia escolhido para prestar uma homenagem aos pais, pois os pais o são todos os dias. Neste dia dos pais, enquanto passava a calça, assisti um documentário sobre a conquista dos Direitos Civis nos Estados Unidos da América do Norte, uma luta dos afro-americanos que, cem anos após a Guerra de Secessão, ainda não tinha direito a votar, e viver com leis segregacionistas nos estados sulistas, onde o governador George Wallace discursava “segregação hoje, segregação amanhã, segregação sempre”, mas viu-se surpreendido com a capacidade de ver o futuro de duas gerações de afrodescendentes: os mais velhos que assumiam a liderança e os mais jovens, meninos e meninas ginasianas, gente entre 15 e 18 anos, que confrontaram o status quo racista, representado pela polícia e foram presas, em um dia mais de trezentas, forçando o presidente Lyndon Johnson a assinar a enviar ao Congresso a lei da universalização do voto nos Estados Unidos da América do Norte. We shall overcame, cantavam os manifestantes em direção ao futuro. Trinta anos depois do assassinato de Luther King Jr, precisamos recordar que a juventude ocorre apenas uma vez em nossas vidas, e é nela que o futuro é construído, por isso não podemos desperdiçá-la, vivê-la sem objetivo. Estamos experimentamos, neste final de década, a destruição de muitos direitos sociais em nome de uma racionalidade que garante, primeiramente vantagens aos que sempre as tiveram, Não tem sentido apenas dizer que o Estado está quebrado e, por isso é necessário que sejam retirados ou diminuídos os direitos dos mais pobres, enquanto se mantem a lógica da acumulação pura e simples que engorda as ‘vacas de Bazã’. Erros sérios de governantes que, no coração, esqueceram seus ideais e tornaram-se iguais aos seus antigos exploradores. Uma juventude não deve deixar-se enganar com medo do futuro. O futuro virá com ou sem o nosso medo, nosso temor, mas se o enfrentarmos, o que virá será resultado de nosso trabalho na construção do sonho, e não a imposição de um déspota.

Avaliação em final de semestre

domingo, dezembro 2nd, 2018

Estou triste neste fim de tarde, apesar do dia produtivo e alegre com meu trabalho e família. Mas como imaginar o país melhor com a capacidade de nossos principais juízes demonstrarem tanto sabe e pouco cuidado com o povo que lhes pagou a educação e, recentemente vinha sendo achincalhado por pagar auxílio moradia de seis salários mínimos a quem já recebe trinta salários mínimos. Fico triste por ser impotente diante do cinismo do ministro que, durante dois anos fingiu que não tinha tempo para rever tão estúpido “direito”, mas que prontamente definiu que era errado receber tal prebenda, após o presidente da República ceder (de bom grado, parece) à chantagem e lhes conceder um aumento um aumento maior que o ‘benefício’ que lhe foi tirado. Cinismo maior ao pedir vista a um processo para dar a impressão de que está ao lado da população e não contra os que fraudaram contas públicas, desviaram dinheiro público, sabendo que nada vai mudar o que pensam seus colegas, que é o mesmo que ele pensa. Não creio que pretenda punir bandidos, quem faz chantagem com interesses da população.

A tristeza só faz aumentar ao saber que auxiliar da Procuradora Geral da República pediu para deixar o cargo pois perdeu o “auxílio moradia”, embora venha a ser beneficiado com um aumento em seu salário, na cascata que beneficia a todos os promotores. Ah! Esses promotores deveriam promover ações em defesa do direito comum! E poderia continuar o tom de lamento, continuar dessa maneira me levaria desistir dos meus sonhos, aqueles que foram sendo desvelados à medida que conhecia pessoas, que lia livros, que os debatia, que construía a vida como profissional. Todas essas ações estavam, ainda estão, envoltas nesse desejo da humanidade.

Este ano que termina completa 70 anos da proclamação que reconhece a todos os homens direitos inalienáveis, direitos que não lhes podem ser retirados, pois se assim se fizer, deixa-se de reconhecer a sua humanidade, mas, principalmente assume-se assumir a negação da humanidade. Até pormos em papel a relação de Direitos muita água e muito sangue correram. Sabemos que historicamente eles foram construídos com muito sangue derramado, sangue tomado dos que se opunham à modificações que beneficiassem a todos, mas também sangue que, por maldades, alguns líderes fizeram derramar para seu prazer, enquanto mentiam que o faziam em benefício da humanidade. Foi fácil para gente doente usar o desejo de liberdade para destruir possibilidades de liberdade; foi fácil para gente doente, utilizar a ânsia de felicidade que todos os humanos carregamos, no intuito de cultivar a sua maldade, seu desejo de poder. E, como essas pessoas receberam apoio de tantos, doentes e sadios, para a realização de seus projetos de poder! Talvez essa seja a razão da melancolia que trago e que vejo e sinto em tantos colegas de geração. Talvez nós sintamos que fomos utilizados por alguns, e nos deixamos enganar. Mas esse talvez seja um risco que todas as gerações correm na caminhada humana para construir um mundo mais feliz.

Terminei uma das minhas aulas esta semana alegre e perplexo com alguns desses jovens que acompanhei neste semestre. Alegre porque os vi com desejos de mudar o mundo, de fazê-lo mais justo, mas perplexos pois não vi o mesmo entusiasmo em fazê-lo mais feliz. Foi bem mais fácil para eles expressarem o que entendiam por “justiça” que explicitar alguma ideia do que viesse a ser felicidade, para si e para outrem. Até se dispunham a matar e morrer para que a justiça viesse a ser realizada (o Período do Terror não os amedronta), mas foram reticente em saber dizer se eram ou não felizes. Talvez, no nosso ensino da história, sejam mais alimentador dos desejos do heroísmo sangrento e explicito que das vitórias mais fugazes que fazem parte do cotidiano.

Refletindo sobre eventos ocorridos nos séculos XVII e XVIII, esses jovens puderam debater e solidarizar-se com os esforços que pareciam encaminhar para a construção de uma “sociedade justa”, mas não perceberam que havia, também a busca da felicidade e, penso, parece que esta perspectiva é a mesma na qual estão traçando a sua caminhada: a luta pela justiça e, secundariamente, alguma felicidade. Mas, como é “difícil definir o que seja felicidade”, deixa-se essa reflexão para depois. Mas felicidade é algo excessivamente indefinido, algo que nem mesmo os dicionaristas são capazes de afirmar. E, contudo, “todos os homens têm direito à felicidade”.

Um dos livros que mais chamou a sua atenção neste semestre, dizem os seus comentários, não que os explicitassem, foi sobre o Medo, de Dulemeau, não lhes chamou atenção seu livro sobre a busca da felicidade. Talvez mais tarde, quando a justiça houver vencido o medo, haja tempo para esta reflexão.

Os juízes estão mais preocupados em serem justos, defendem como direito de justiça os seus privilégios que eles chamam de direitos, que com o cotidiano do homem comum, como o seu direito a ser feliz, comendo algum pedaço de alimento mais forte que as pipocas vendidas e consumidas nos transportes coletivos usados pelos mais pobres, e os semáforos, para alguns que acumularam algo.

Esquecidos

terça-feira, janeiro 24th, 2017

Os esquecidos
Por Biu Vicente

Janeiro de 17 quase ao seu final e tudo parece tão modificado que já se torna difícil lembrar o que ocorreu no mês passado.

Muitas mortes ocorreram no Brasil em duas semanas. Uma estatística diz que nos primeiros quinze dias foram mortos quase um policial por dia neste país pacífico. Por seu turno, em três presídios parece ter havido um esforço para superar as mortes nas guerras que estão em andamento naquela parte do mundo que os professores de história nos ensinam terem se formado as primeiras civilizações. Nos tempos de Hamurabi o código dizia que o olho perdido exigia que o outro perdesse seu olho. Nas prisões brasileiras o que está valendo nem é a Lei do Talião, mas a lei que não reconhece o direito simples de viver, se mata para não morrer, enquanto não se é morto. O que os programas de informação estão a nos mostrar é a prática de matar para não ser morto. A decapitação retorna como prática comum, tanto nas guerras do Oriente Médio que usam a religião como justificativa, quanto nos presídios nos quais a justificativa é manter-se vivo, ou explicitar qual a facção está no comando do país. Falta apenas o carnaval de cabeças espetadas, como ocorria nas ruas de Paris no Período do Terror.

O Estado Brasileiro acostumou-se a pensar em apenas 30% da população, fazia planejamento apenas para um terço dos habitantes do país, agora se vê obrigado a ampliar suas preocupações. A sociedade ampliou-se, embora sem fazer crescer proporcionalmente a produção de riquezas. Se há mais gente consumindo, tem haver um crescimento da produção e um alargamento da oferta de ocupação, de oportunidades educacionais, de possibilidades de recreação, facilidade de locomoção, ampliação de coleta de lixo e atendimento preventivo para garantir a saúde e a segurança dos novos grupos convidados a serem plenamente cidadãos, etc.; sem esses complementos cria-se uma sociedade anômica e anêmica social e culturalmente. O Estado que sempre pensou apenas em um terço da sociedade, deve aprender a pensar mais largamente. Novos tempos, novos hábitos. Mas formar novos hábitos leva algum tempo, e pode ser que nosso jovem Estado de apenas duzentos anos, ainda incompletos, já esteja bastante envelhecido; parece que perdeu a prática de sonhar e desejar mudar: ser capaz de sacrificar-se por uma causa é coisa de jovens; ser capaz de fazer os outros sacrificar-se por uma causa, é próprio dos velhos, especialmente dos velhos que venderam seus ideais ainda na segunda idade e, na terceira idade, só pensam em seus confortos. São elefantes que gostam de conforto enquanto esperam a morte. Essa parece ser uma imagem que representa bem a elite que hoje está à frente do Brasil, (talvez não apenas no Brasil, mas em outros países) homens velhos que não souberam ou não quiseram deixar brotar e crescer o novo. Preferiram as novidades, e assim somos uma sociedade que está sempre ofertando novidades a meninos crescidos que se tornam velhos sem experimentar a juventude. Levaram a sério aquela história que “a juventude é uma calça jeans azul e desbotada”.

Na mais rica nação do mundo ocorreu a posse de um novo mandatário que, parece, está disposto a mandar às favas tudo que lembre a construção de uma civilização, uma possibilidade, uma chance para a humanidade. Prefere, ele, apenas a lealdade a seu grupo pequeno. Pensar na humanidade tornou-se estranho, uma vez que vivemos em uma sociedade que cuida de agir pelo prazer do imediato, cuida do pequeno retalho, do fragmento que se escolhe para dizer que é seu. Começamos a agir como aquela galinha da fábula que, tendo caído uma jabuticaba em sua cabeça, saiu a cacarejar que havia caído um pedaço do céu. Donald Trump, em seu discurso de posse citou o “homem esquecido”, imagem utilizada por Franklin Delano Roosevelt, para referir-se aos desempregados da Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Este novo presidente foi eleito com o voto dos esquecidos, dos desempregados, daqueles que aparecem nos livros como estatísticas, números sem história que contam a história dos anônimos, esquecidos por aqueles que dizem defendê-lo, enquanto fortalecem sistemas que os tornam mais esquecidos nas histórias. William Reich os chamava de Zé Ninguém. O Zé Ninguém pensa do pescoço para baixo.

Embora bilionário ou trilionário, Trump era um “homem esquecido” a quem não se dava crédito, mas ele falava com os outros esquecidos, com a linguagem necessária para manter a pulsão de vida, a vida não sofisticada, a mais simples. Esses esquecidos se fizeram lembrar. Agora veremos até onde iremos com ideais tão pequenos: como uma conta bancária, um prato de feijão ou lentilhas, a vitória do clube, da tribo da nação que substituem humanidade.

Na cerimônia de sua posse, Trump, que é um homem esquecido, esqueceu que estava acompanhado da esposa.