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Projeto Apollo e outras memórias

terça-feira, julho 9th, 2019

Então, todas as datas são passiveis de serem comemorativas, sempre nos trazem à memória acontecimentos que nos formaram, como pessoas nos grupos que nós vivíamos. Sentimos isso à medida que passamos no tempo. O tempo nos faz pensar no que fizemos no passado ou, como disse Belchior, n’o “ mal que o tempo sempre faz”. Mas, talvez o tempo faça mal, talvez tenhamos feito mal no tempo que vivemos e, essas ações marcam o rosto, o corpo e a alma. Assim como também o bem que fizemos no tempo nos deixa marcas, mas não as notamos. É que o bem é quase invisível, especialmente para aqueles que por ele foram afetados; o mal, contudo, parece ter a faculdade de ser melhor visto, melhor avaliado e, portanto, mais amplificado na memória pois os seus efeitos são imediatos. O bem exige mais tempo para ser distinguido, avaliado e aceito. É comum que muitas pessoas apenas com o desaparecimento do benfeitor, seja o desaparecimento fortuito e espacial, seja o definitivo, é que se percebe o bem que ele realizou.

Como disse, sempre há cinquentenários, centenários, e muitos outros aniversários. Este ano é o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial (um uma pausa preparatória para a segunda), e cinquentenário da primeira abordagem por humanos no solo lunar. Quase o fim da poesia, conforme escreveu Gilberto Gil em poema memorável e cantado por Elis Regina, a então rainha da Música Popular Brasileira, ombreando com a Divina Elizeth Cardoso. Mas essas lembranças pouco dizem aos que nasceram depois dos anos setenta, dos tempos difíceis e criativos dos anos sessenta. Eram tempos de ‘cara amarrada’ como descreveu Ivan Lins. Aqueles tempos nos acompanham de diversas maneiras, com sentimentos de tristeza por não termos realizado o sonho, definido como acabado por John Lennon, ele mesmo assassinado; mas também lembrado com orgulho, por essas mesmas pessoas, por terem feito parte dele, por terem tido entusiasmo e esperança, como a fazer parte das ‘minorias abraâmicas’ de dom Hélder Câmara, campeão na luta pela Justiça, por um mundo de paz e sem fome e miséria. Mas também aquele tempo passou a ser mitologizado, tempo lembrado com saudades pela geração que não o viveu, mas que cresceu no mundo em que a luta parece que se resume a entender o que aconteceu, e não mais fazer acontecer, como na poesia de Geraldo Vandré. Agora tudo parece ‘divino e maravilhoso’ e ‘quanto mais purpurina melhor’ para suportar o vazio das esperanças, não perdidas, pois não se perde o que não lhe pertence, como dizia o bordão da comediante.

Na manhã de 16 de julho de 1969, para desespero do que cultivavam (alguns ainda cultivam) aversão aos Estados Unidos da América do Norte, viram dois astronautas caminharem na lua, cumprindo a promessa feita por JFK no início da década. Ainda há muitos que dizem que tudo não passou de uma ação midiática, filmada em alguns deserto americano. Independente desses, continuava a corrida pela conquista, além do conhecimento, do espaço sideral. Em abril de 1971, em uma aula de teologia bíblica, a colega de turma, Irmã Elizabeth, missionária beneditina, pediu permissão para lembrar que, naquele momento estava ocorrendo o lançamento da nave Apolo XIII em direção à lua, e da importância do acontecimento, analisando-o como parte do projeto de Deus para a humanidade, ou como Deus permite ao homem alcançar o conhecimento e que este sirva para o bem da humanidade. Tomei a palavra e disse as bobagens permitidas ao atrevimento dos vinte anos, que “era um gasto inútil enquanto milhares de pessoas estavam vivendo em miséria e fome’, que era um projeto fruto do orgulho e da ganância do império americano, e outras palavras, que escondiam a minha ignorância sobre os resultados positivos que essas viagens estavam a trazer para a humanidade. Hoje entendo que não é a questão do conhecimento, mas da ética dos grupos que têm acesso ao conhecimento e o poder que deixa-lo alcançar todas as potencialidades. A irmã Elizabeth tinha razão, suas informações eram maiores que as minhas, sua amplidão de alma olhou para mim e, depois da aula disse-me que compreendia o que eu dissera. Um ano depois, no mês de julho, eu estava a Detroit, MI, como missionário católico e, notei que, na sala de entrada da Casa Paroquial Holly Trinity, o televisor estava ligado no momento da decolagem da Apolo XV. Não havia ninguém na sala: aquelas viagens estavam se tornando comuns, embora um problema não tenha permitido a alusinagem daquela tripulação.

Afinal quantas memórias temos daquele período, de outros períodos e, sabemos que são tantas quantas as pessoas, e serão múltiplas para cada visita pessoal, muitas delas acrescidas das informações que recebemos posteriormente, mas que a integramos na memória, como houvesse realmente acontecido. Mexer na memória é não apenas ‘reviver o passado’, conforme definição de frevo canção de Edgar Moraes, talvez seja recriar o passado, como diz Foucault. E o recriamos talvez com o nosso humor e experiência. O Pessimismo ou otimismo do presente contagia o passado.

Rescritas da história – muitas e diversas maneiras

domingo, abril 7th, 2019

14 Anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor
(Paulinho da Viola)

Eu tinha quase 14 anos quando meu pai me pôs a estudar no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, sim, o mesmo que foi interventor em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, após ser Ministro da Justiça e do Trabalho. Foi assim que no dia Primeiro de abril, o diretor do CTPAM (prof. Abelardo, talvez), suspendeu as aulas por que soube estar ocorrendo movimentação militar na cidade e o melhor era todos irem para casa. Saímos do CTPAM e descobrimos que não havia transporte coletivo. Eu estava na Encruzilhada e tinha que ir para Nova Descoberta. Sem ônibus, peguei um bigú que me deixou em Casa Forte. Outra carona deixou-me na entrada de Nova Descoberta. Mais 1500 metros e cheguei em casa, e tudo parecia calmo.

Com quase 14 anos pouco entendia do que estava acontecendo. O que se dizia era que tinham prendido o governador Arrais e o presidente não estava em Brasília.
Depois foi ouvir as notícias as notícias pelo rádio. Falava-se de prisões de deputados vereadores, sindicalistas. Muitos dos moradores de Nova Descoberta trabalhavam na Fábrica da Macaxeira, e as famílias estavam assustadas. Alguns dos provedores ficaram desaparecidos por uns tempos, e quando voltaram estavam desempregados. A memória traz a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”. É que os comunistas haviam deixaram o Brasil na miséria. Vi muitas pessoas levarem alianças, anéis, brincos para a Praça da Independência, com o intuito de salvar o Brasil. Ao mesmo tempo os rádios e jornais informavam sobre Inquérito Policial Militar – IPM, para demonstrar o crime de políticos e sindicalistas. Parece que fiquei uma semana sem aula, tempo para que tudo se acalmasse.

Sempre tive um carinho especial por Felipe dos Santos. Ele havia liderado, em Vila Rica, Minas Gerais, uma revolta para expulsar o portugueses do Brasil, livrar o Brasil de pagar o Quinto a Portugal. Aprendi, ante de chegar ao Ginásio, hoje quinta série, que Felipe dos Santos foi o Protomártir da Independência do Brasil. Aprendi a amar o Brasil e Felipe dos Santos sempre foi, e continua sendo, o meu herói. Ele foi esquartejado, sua casa foi demolida, sua terra salgada para que nada mais nascesse ali. Foi a ordem do Conde de Assumar, meu primeiro vilão. Nos anos seguintes os livros não mais mencionavam Felipe dos Santos, começava o tempo de Tiradentes. Esse personagem foi ficando cada vez mais falado e bonito, a cara dele era bem parecida com a de Jesus Cristo. Até mesmo os poetas e cantores da oposição ao regime cantavam esse Mártir da independência. Estanislau Ponte Preta escreveu uma Exaltação a Tiradentes, com conotação jocosa, mas ele era o homem que “foi traído mas não traiu jamais a inconfidência de Minas Gerias. Ary Toledo cantava assim, “Foi no ano de 1789, em Minas Gerais que o fato se deu // E havia derrame do ouro (…) Esse ouro ia longe distante passava o mar, ia para Portugal para rei gastar (…) o mineiro garrou a pensar: se esse ouro que é ouro da terra e de nossa terra porque é que se vai (…) se juntaram numa reunião e resolveram fazer uma conspiração (…) Manoel da Costa, Antonio Gonzaga e Oliveira Rolim e tem mais um nome, o nome do homem que foi mais herói esse fica pro fim. E o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser, Joaquim José da Silva Xavier”.

As escolas de samba do Rio de janeiro se esmeraram em produzir sambas sobre o herói de Minas Gerais (a bem da verdade A Império serrano, em 1949 exaltou Tiradentes). Tudo isso ajudava muito a aceitar o esquecimento de Felipe dos Santos, que carregava dois sérios problemas: era português e civil, não podia ser herói de um movimento nacionalista liderado por militares.

Bem tudo isso veio vindo em meus pensamentos nesta semana quando se escancarou o projeto revanchista de revisar ou reescrever a história da Brasil, negando a existência de uma ditadura iniciada em abril de 1964, mudando os livros didáticos, como disse o brasileño com assento no ministério da educação. Historiadores estão atentos para iniciativas tortuosas como a do atual governo que, carente de um Golbery do Couto e Silva, foi pescar com Olavo de Carvalho. Assumindo o bom humor, Golbery de Couto e Silva teve Elis Regina, Chico Buarque, a Portela (1967) como propagandistas de seu herói. Mas precisamos lembrar que dizia Capistrano de Abreu sobre a Inconfidência de Minas Gerais.