Archive for the ‘Ensino de História’ Category

Escondidos na biblioteca 2

sábado, fevereiro 8th, 2020

Escondidos na biblioteca 2

Pois então as fotos que foram redescobertas pela queda dos livros, levaram-me a Belém do São Francisco; elas são registros de minhas atividades Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco, parte da Autarquia Belemita de Cultura, Desporto e Educação, quando auxiliei a reorganização do curso de História, como já havia feito em Arcoverde. Tive o prazer de conhecer uma cidade que sempre primou pela formação de seus cidadãos, embora carregando toda a bagagem do coronelismo, já bem moderno, pois Belém do São Francisco é a primeira cidade pernambucana projetada, tomando como modelo Belo Horizonte. Vivenciei as festividades do Centenário da Cidade, inclusive criando camisa comemorativa, aproveitando o fato de ter sido o paraninfo de uma turma que se formava no ano de 2003. Conheci de perto a devoção a são Gonçalo do Amarante, inclusive levando um aluno do curso de História da UFPE para estudar a tradição, mesmo sem ter ele recebido bolsa para tal tarefa. Essa devoção levou-me à casa de Seu Jerônimo, em Itacuruba, devoto e organizador da festa desse santo dos pobres e protetor das prostitutas, uma festa de fartura para honra do santo que só aceita esse tipo de pagamento. Festa de São Gonçalo, expulso do litoral no século XIX, mas que está presente nos sertões de Pernambuco, Alagoas e Bahia, é sempre uma festa onde se canta, dança e come. Também conheci os primeiros bonecos gigantes do carnaval pernambucano que chegou “das europas” navegando o Rio São Francisco, uma idealização do padre Norberto, faz agora Cem anos. Os bonecos chegaram no Recife em 1966 e aclimataram-se em Olinda.

Convidado para ajudar o curso de História que apresentava um baixo índice de matrícula, levei para o CESVASF quase todos os professores do Departamento de História para realização de palestras e cursos no finais de semana. Também tive a satisfação de iniciar vários recém formados e recém mestres a realizarem concurso público e tornaram-se professores permanentes naquela Autarquia Municipal. Alguns ainda estão radicados em Belém do São Francisco, outros terminaram por assumir em outras instituições universitárias que já existiam no Sertão, além da chegada da das universidades federal e estadual. Isso foi possível pela coragem dos professores Maria Auxiliadora Lustosa e Licínio Roriz que, foram os responsáveis pelo ressurgimento, também do curso de Geografia. Outro aspecto que considero positivo de minha passagem e de outros professores da UFPE que dedicaram alguns finais de semana aos jovens do Sertão, é que muitos estudantes e professores sentiram-se motivados a enfrentar a pós-graduação stricto sensu, melhorando o capital humano da região.

Ser professor no CESVASF, nos finais de semana durante cinco anos, foi gratificante, aguçou-me a sensibilidade para entender melhor os seres humanos, embora tenha deixado algumas marcas negativas decorrentes de meu temperamento que se recusa, às vezes, deixar de ser um jovem de vinte anos, ou seja, um anacronismo. Mas creio que a liberdade que foi-me dada para agir, permitiu-me exercer o magistério superior, ampliar meus conhecimentos enquanto apontava caminhos de pesquisas a professores que passaram a juventude vendo a graduação e a pós graduação apenas possíveis aos mais próximos do litoral. Acompanhei jovens Pipipan (quando a tribo estava renascendo), Tuxá, Pankararu; mulheres que passaram parte de sua juventude lavando roupa na margem do São Francisco, em suas pesquisas e escrita de seus Trabalhos de Conclusão de Curso e de monografias para sua especialização. Foi maravilhoso assistir a formação de professores de história, geografia, matemática e biologia nos difíceis tempos do início do século XXI, quando a região estava estigmatizada como ‘polígono da maconha’ e muitos evitavam a região. Mas esses jovens professores estão espalhados nas cidades dos sertões baianos e pernambucano, cuidando de formar novos cidadãos. A recuperação do CESVASF levou à criação do primeiro curso de Direito no Sertão e  

Aliás, recebi em minha vida poucas demonstrações em forma de títulos, orgulho-me de ser Cidadão Belemita.  

escondidos na biblioteca

quinta-feira, fevereiro 6th, 2020

U m barulho levou-me ao que chamo de biblioteca, aqui em casa, um quarto onde alguns livros estão postos em estantes, arrumados na melhor forma possível para deles me servir. Eles ficam lá, esperando que os abra, vez em quando, em busca de informações, de reflexões que outros desenvolveram com o objetivo de aperfeiçoarem-se e, ajudar quem viesse a se interessar, como é o meu caso. O barulho, descobri, depois, foi causado pela queda de uma prateleira que não resistiu ao peso de um volume da Divina Comédia e outros livros escritos sobre a história do Brasil, mais especificamente, de Pernambuco. Juntando os livros, descubro que meus gatos haviam tentado dormir sobre um baú de fotografias e as espalhado. Dedico-me às fotos, o olho que me resta quer divertir-se com as imagens e cores. Começo a organizar, melhor, limpá-las e descubro-me no encontro dos dois séculos de minha vida.

Os últimos anos do século XX levaram-me ao Sertão, mais especificamente à Belém do São Francisco, pois algumas pessoas que não me conheciam solicitaram-me a auxiliar na reorganização do curso de História do CEVASF. Meus finais de semana ficaram comprometidos, pois da sexta-feira, após o expediente da UFPE até o domingo passaram a ser ocupados com jovens do sertão do São Francisco, das duas margens, que frequentavam aquele centro universitário criado havia cerca de vinte anos. Depois soube que um dos colegas do Departamento de História havia participado da criação de um entidade que oferece curso superior no Sertão. Eu já havia estado na margem do São Francisco no final dos anos sessenta e início dos setenta, cuidando de animar a juventude católica, a chamada Pastoral da Juventude. Naqueles anos foi Petrolina, a diocese dirigida por Dom Antônio Campelo de Aragão que recebera meus serviços. Depois, já no início dos noventa, estive em Petrolina em curso de Especialização, promovida pela Fundação de Ensino de Pernambuco, que então se organizava para ser a Universidade de Pernambuco. Fui substituir um colega que deveria ir a São Paulo. Foram duas experiências diferentes, e delas tiro proveito até hoje, pois além de receptivas, as pessoas sempre me apontaram caminhos que eu desconhecia. Fui conhecendo o meu povo, fui me conhecendo, ampliando meus olhares para o interior do meu Estado, o que me diziam ser o Brasil profundo. Aprendi a ver os contrastes diversos. E o que fazia eu?

Uma vez o professor Eduardo Hoornaert disse-me que eu estava fazendo o trabalho de “vulgarização do conhecimento”, mas no sentido, disse-me ele, do que foi a Bibliothèque Bleue , a Biblioteca Azul, uma experiência de leituras populares que tornaram accessíveis o conhecimento aos grupos de menor prestígio e poder econômico, no Antigo Regime, mas também no início do tempo da modernidade industrial. As fotografias espelhadas e que pediam organização, mostraram-me nas cidades baianas e pernambucanas banhadas pelo rio São Francisco, mas não apenas elas, pois estive em Euclides da Cunha e em toda a região de Jeremoabo para conhecer de onde chegavam os alunos a quem eu iria servir. Fiquei tão envolvido por esse trabalho que perdi um ano do Nóis sofre mas Nós goza. E esqueci que devia participar de eventos nas capitais, eventos promovidos pelas instituições de pesquisa em história. O Sertão me engoliu por quase uma década. Depois, as fotos levaram-me para a experiência na Mata Norte do Estado de Pernambuco, pois fui convidado auxiliar o Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Nazaré da Mata, de quem fui servo até 2015. Dois mundos que me tomaram e que me alimentam até hoje.

Rescritas da história – muitas e diversas maneiras

domingo, abril 7th, 2019

14 Anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor
(Paulinho da Viola)

Eu tinha quase 14 anos quando meu pai me pôs a estudar no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, sim, o mesmo que foi interventor em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, após ser Ministro da Justiça e do Trabalho. Foi assim que no dia Primeiro de abril, o diretor do CTPAM (prof. Abelardo, talvez), suspendeu as aulas por que soube estar ocorrendo movimentação militar na cidade e o melhor era todos irem para casa. Saímos do CTPAM e descobrimos que não havia transporte coletivo. Eu estava na Encruzilhada e tinha que ir para Nova Descoberta. Sem ônibus, peguei um bigú que me deixou em Casa Forte. Outra carona deixou-me na entrada de Nova Descoberta. Mais 1500 metros e cheguei em casa, e tudo parecia calmo.

Com quase 14 anos pouco entendia do que estava acontecendo. O que se dizia era que tinham prendido o governador Arrais e o presidente não estava em Brasília.
Depois foi ouvir as notícias as notícias pelo rádio. Falava-se de prisões de deputados vereadores, sindicalistas. Muitos dos moradores de Nova Descoberta trabalhavam na Fábrica da Macaxeira, e as famílias estavam assustadas. Alguns dos provedores ficaram desaparecidos por uns tempos, e quando voltaram estavam desempregados. A memória traz a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”. É que os comunistas haviam deixaram o Brasil na miséria. Vi muitas pessoas levarem alianças, anéis, brincos para a Praça da Independência, com o intuito de salvar o Brasil. Ao mesmo tempo os rádios e jornais informavam sobre Inquérito Policial Militar – IPM, para demonstrar o crime de políticos e sindicalistas. Parece que fiquei uma semana sem aula, tempo para que tudo se acalmasse.

Sempre tive um carinho especial por Felipe dos Santos. Ele havia liderado, em Vila Rica, Minas Gerais, uma revolta para expulsar o portugueses do Brasil, livrar o Brasil de pagar o Quinto a Portugal. Aprendi, ante de chegar ao Ginásio, hoje quinta série, que Felipe dos Santos foi o Protomártir da Independência do Brasil. Aprendi a amar o Brasil e Felipe dos Santos sempre foi, e continua sendo, o meu herói. Ele foi esquartejado, sua casa foi demolida, sua terra salgada para que nada mais nascesse ali. Foi a ordem do Conde de Assumar, meu primeiro vilão. Nos anos seguintes os livros não mais mencionavam Felipe dos Santos, começava o tempo de Tiradentes. Esse personagem foi ficando cada vez mais falado e bonito, a cara dele era bem parecida com a de Jesus Cristo. Até mesmo os poetas e cantores da oposição ao regime cantavam esse Mártir da independência. Estanislau Ponte Preta escreveu uma Exaltação a Tiradentes, com conotação jocosa, mas ele era o homem que “foi traído mas não traiu jamais a inconfidência de Minas Gerias. Ary Toledo cantava assim, “Foi no ano de 1789, em Minas Gerais que o fato se deu // E havia derrame do ouro (…) Esse ouro ia longe distante passava o mar, ia para Portugal para rei gastar (…) o mineiro garrou a pensar: se esse ouro que é ouro da terra e de nossa terra porque é que se vai (…) se juntaram numa reunião e resolveram fazer uma conspiração (…) Manoel da Costa, Antonio Gonzaga e Oliveira Rolim e tem mais um nome, o nome do homem que foi mais herói esse fica pro fim. E o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser, Joaquim José da Silva Xavier”.

As escolas de samba do Rio de janeiro se esmeraram em produzir sambas sobre o herói de Minas Gerais (a bem da verdade A Império serrano, em 1949 exaltou Tiradentes). Tudo isso ajudava muito a aceitar o esquecimento de Felipe dos Santos, que carregava dois sérios problemas: era português e civil, não podia ser herói de um movimento nacionalista liderado por militares.

Bem tudo isso veio vindo em meus pensamentos nesta semana quando se escancarou o projeto revanchista de revisar ou reescrever a história da Brasil, negando a existência de uma ditadura iniciada em abril de 1964, mudando os livros didáticos, como disse o brasileño com assento no ministério da educação. Historiadores estão atentos para iniciativas tortuosas como a do atual governo que, carente de um Golbery do Couto e Silva, foi pescar com Olavo de Carvalho. Assumindo o bom humor, Golbery de Couto e Silva teve Elis Regina, Chico Buarque, a Portela (1967) como propagandistas de seu herói. Mas precisamos lembrar que dizia Capistrano de Abreu sobre a Inconfidência de Minas Gerais.

A partir de Brumadinho, lições possíveis.

sexta-feira, fevereiro 1st, 2019

O mês de janeiro nos trouxe muitas surpresas, o que não surpreende, pois é próprio de cada dia ter as suas específicas novidades e propostas de vida e à vida. Pela primeira vez experimentei ir ao oceano, e o fiz em uma barca de pescador, para além de duas horas de navegação. Foram experiências incríveis, maravilhosas. No mesmo dia, enquanto eu desfrutava da beleza do mar, ocorria o desastre da barragem de Brumadinho, MG. A velocidade das notícias solapa paraísos individuais. A simultaneidade parece nos levar a vencer os espaços físicos, as informações nos chegam a velocidades espantosas, e nos colocam em ciclones, nos fazendo girar e viver tempos diversos e distantes como vizinhos. Desde os anos sessenta experimentos momentos como esse e sempre fico parado, tentando compreender o que se passa ou se passou.

A primeira vez que me senti nesse ciclone está relacionada com a Guerra dos Sete Dias, da qual tive conhecimento quando retornava de uma viagem ao interior alagoano, e o rádio de pilha informava que estava havendo mudanças territoriais e políticas no Oriente Médio, tão distante, mas que invadiu aquele coletivo, e me recordo de uma frase mais ou menos assim: “poxa, a gente não pode se afastar e o pessoal faz uma guerra sem nos avisar”. Era ironia, era surpresa, era a descoberta da impotência e da nossa aparente insignificância no drama da humanidade. Não, não era aparente, somos insignificantes, mesmo. Em muitas outras ocasiões essa experiência se repetiu, cada vez com novos equipamentos de comunicação, cada vez mais aperfeiçoados e, atualmente, caso se deseje, pode-se saber de tudo que ocorre no mundo, ao preço de ficar ausente do que acontece na sua vizinhança, na escola de seu filho, na reunião do Departamento da empresa em que trabalha, no quintal de sua casa, e mesmo na sala onde você está conectado com o mundo exterior.

Uma das minhas catequistas, essas pessoas que nos educam na religião (seja ela qual for), na preparação para a minha primeira comunhão me alertou: “devemos amar todo o mundo, mas lembre-se que é mais fácil amar os chineses que você não conhece do que o seu colega ao lado. Procure amar o seu colega e, quando encontrar um chinês de verdade, continue amando a ele”. Pois bem, muitas das informações agora nos chegam pelo Facebook, essa comunidade que nos envolve e nos faz amigos de pessoas distantes (algumas parecem estar tão próximas!) e, até mesmo algumas que encontramos nos corredores da vida cotidiana, da vida física, mas que pouco sabemos delas. O Facebook nos faz querer bem a elas, mas podem nos mostrar que elas são as mais difíceis de serem amadas, porque agora estão duplamente próximas, sendo que, na distância que a comunidade virtual permite, elas expressam mais naturalmente o que tenderiam a dissimular nos encontros imediatos, aqueles que Spielberg chamou de “Terceiro grau”. O criminoso desastre de Brumadinho (a cada hora sabemos mais que foi criminoso) gerou situações que expuseram o pensamento insuspeito de amigos.

Todos os atos são simbólicos e dizem o que desejam e o que se deseja ver neles. Quando o Estado de Israel prontificou-se em enviar uma turma com equipamentos capazes de rastrear pessoas vivas, ocultadas em escombros, um político logo disse que seria uma parada para Israel invadir a Venezuela. Li que muitos dos meus amigos do Facebook acolheram essa bobagem como verdade. Em seguida li que vieram para pesquisar e explorar certo tipo específico de minério, que era mais uma ação de um país imperialista. E li outras sandices semelhantes que eram aplaudidas por amigos daqueles que postavam, sendo que alguns também são meus amigos. E a eles pouco interessava o fato de que Israel foi o único Estado que enviou uma força tarefa para auxiliar os moradores de Brumadinho a encontrar seus parentes, caso eles ainda estivessem vivos. Claro que chegou um momento que tais equipamentos não mais teriam utilidade e a força tarefa retornou. Os comentários de meus amigos lembravam as conversas ocorridas na Alemanha, em 1933, quando começou o boicote às lojas dos comerciantes judeus. Foi o primeiro passo. Os passos seguintes, os professores de história que publicaram e aplaudiram (curtiram) essas insinuações maldosas no Facebook sabem e ensinam aos seus alunos. Contudo, o que ensinam parece seguir uma irônica definição de aula: aula é um processo pelo qual o apontamento que estava no caderno do professor passa para o quadro e, em uma seguida para o caderno do aluno sem passar pela cabeça de nenhum dos dois. É dessa forma que a escola forma ignorantes.

Um dos ensinamentos colhidos por conta do desastre criminoso de Brumadinho é que o Facebook revelou a face nazista de alguns amigos. E, devo seguir o ensinamento de minha catequista, se desejo ajudar a superar o mal que nos circunda.

D de Dezembro, de Direitos Humanos,

domingo, dezembro 9th, 2018

Estudava eu no Colégio Estadual Dom Vital, localizado próximo ao Mercado de Casa Amarela, e recebi de uma colega um LP de Moacyr Franco, que guardo até hoje e, vez por outra o ponho na rodar. Entre as muitas versos de Nazareno de Brito, um deles me vem desde então: “Cada um ver dezembro no fim”, dizia eles a respeito dos conselhos que todos nos cuidam de nos oferecer em momentos de crise, mas o mês de dezembro tornou-se marcante para mim por ter-me iniciado a compreensão de uma enorme bifurcação. Dois momentos, um deles vivido com intensidade por mim, o 13 de dezembro de 1968, pois na tarde daquele dia, mandando “às favas todos os escrúpulos”, os militares e civis que estavam no poder, com exceção de Pedro Aleixo, então vice-presidente, assinaram o Ato Institucional de Número 5 que, supreendentemente, suspendeu todos os Direitos dos Cidadãos. Pois bem, sob a liderança de Dom Hélder, passamos parte daquele ano refletindo sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948. Assim, naquele dezembro de celebração do 20º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, vimos cair uma situação difícil para todos os que, no Brasil estávamos lutando para a realização do projeto que reconhece, a todos os humanos, os direitos de Nascer, de Viver, de Morar, de Pensar, de Falar, de Crer, de Ir, de Vir, de Ser Cidadão, de alimentar-se a à sua Família, de ter Uma Pátria, de Trabalhar, de receber salário por seu trabalho, ter uma Família, de Associação, de ser tratdo com Dignidade e Respeito, Ter acesso ao Estudo, direito a uma Crença, todos esses direitos (outros aqui não citados) que, durante a Segunda Guerra Mundial foram negados a milhares de homens e mulheres, estabelecendo a barbárie, negando a possibilidade da civilização.

O verso de Nazareno de Brito terminava dizendo, de forma magoada e triste: “mas se um dia eu tiver que chorar, ninguém chora por mim”. E deve ter sido assim que sentiam todos os que foram levados a Campos de Concentração para servirem de cobaias a experimentos pseudocientíficos e serem mortos posteriormente, com a negação absoluta de suas humanidades. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é um código, é um projeto de humanidade após a instalação da Maldade em grande parte do planeta. Nenhuma lei obriga qualquer país a cumprir essa declaração, mas não a cumprindo estar a afirmar que abre mão de seu compromisso com a humanidade, encaminha-se para tornar-se inimigo dos que buscam esse ideal, afasta-se do grande colégio das nações. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é uma regra a ser inscrita no espírito, na mente, ou como dizem os românticos, no coração de cada homem e da cada mulher. E, deixando no passado o pessimismo do poeta, se for o caso, todos choraremos as dores de cada, mas evitaremos as dores de todos à medida que nos dediquemos a criar condições para que todos possam gozar de todos os Direitos explicito na Declaração de 1848, e nos demais documentos que ela gerou.

No final deste ano, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa setenta ano de vida, é momento de voltarmos a debater esta pauta, conversar sobre esses diretos cujo exercício nos faz humanos. E, se for verdade que vem a tempestade que alguns nos querem fazer crer, devemos nos lembrar de João XXIII, de Martin Luther King Jr., Camilo Torres, Zé de Galileia, Antônio Henrique Pereira Neto, Helder Câmara, Gandhi, Tereza de Calcutá, Nelson Mandela, Austregésilo de Ataíde, Malcon X, Dietrich Bonhoeffer, Chico Mendes, Herozg, e muita gente que lutou para estabelecer, manter os direitos que hoje nós usufruímos e temos o dever de continuar a sua preservação.

Avaliação em final de semestre

domingo, dezembro 2nd, 2018

Estou triste neste fim de tarde, apesar do dia produtivo e alegre com meu trabalho e família. Mas como imaginar o país melhor com a capacidade de nossos principais juízes demonstrarem tanto sabe e pouco cuidado com o povo que lhes pagou a educação e, recentemente vinha sendo achincalhado por pagar auxílio moradia de seis salários mínimos a quem já recebe trinta salários mínimos. Fico triste por ser impotente diante do cinismo do ministro que, durante dois anos fingiu que não tinha tempo para rever tão estúpido “direito”, mas que prontamente definiu que era errado receber tal prebenda, após o presidente da República ceder (de bom grado, parece) à chantagem e lhes conceder um aumento um aumento maior que o ‘benefício’ que lhe foi tirado. Cinismo maior ao pedir vista a um processo para dar a impressão de que está ao lado da população e não contra os que fraudaram contas públicas, desviaram dinheiro público, sabendo que nada vai mudar o que pensam seus colegas, que é o mesmo que ele pensa. Não creio que pretenda punir bandidos, quem faz chantagem com interesses da população.

A tristeza só faz aumentar ao saber que auxiliar da Procuradora Geral da República pediu para deixar o cargo pois perdeu o “auxílio moradia”, embora venha a ser beneficiado com um aumento em seu salário, na cascata que beneficia a todos os promotores. Ah! Esses promotores deveriam promover ações em defesa do direito comum! E poderia continuar o tom de lamento, continuar dessa maneira me levaria desistir dos meus sonhos, aqueles que foram sendo desvelados à medida que conhecia pessoas, que lia livros, que os debatia, que construía a vida como profissional. Todas essas ações estavam, ainda estão, envoltas nesse desejo da humanidade.

Este ano que termina completa 70 anos da proclamação que reconhece a todos os homens direitos inalienáveis, direitos que não lhes podem ser retirados, pois se assim se fizer, deixa-se de reconhecer a sua humanidade, mas, principalmente assume-se assumir a negação da humanidade. Até pormos em papel a relação de Direitos muita água e muito sangue correram. Sabemos que historicamente eles foram construídos com muito sangue derramado, sangue tomado dos que se opunham à modificações que beneficiassem a todos, mas também sangue que, por maldades, alguns líderes fizeram derramar para seu prazer, enquanto mentiam que o faziam em benefício da humanidade. Foi fácil para gente doente usar o desejo de liberdade para destruir possibilidades de liberdade; foi fácil para gente doente, utilizar a ânsia de felicidade que todos os humanos carregamos, no intuito de cultivar a sua maldade, seu desejo de poder. E, como essas pessoas receberam apoio de tantos, doentes e sadios, para a realização de seus projetos de poder! Talvez essa seja a razão da melancolia que trago e que vejo e sinto em tantos colegas de geração. Talvez nós sintamos que fomos utilizados por alguns, e nos deixamos enganar. Mas esse talvez seja um risco que todas as gerações correm na caminhada humana para construir um mundo mais feliz.

Terminei uma das minhas aulas esta semana alegre e perplexo com alguns desses jovens que acompanhei neste semestre. Alegre porque os vi com desejos de mudar o mundo, de fazê-lo mais justo, mas perplexos pois não vi o mesmo entusiasmo em fazê-lo mais feliz. Foi bem mais fácil para eles expressarem o que entendiam por “justiça” que explicitar alguma ideia do que viesse a ser felicidade, para si e para outrem. Até se dispunham a matar e morrer para que a justiça viesse a ser realizada (o Período do Terror não os amedronta), mas foram reticente em saber dizer se eram ou não felizes. Talvez, no nosso ensino da história, sejam mais alimentador dos desejos do heroísmo sangrento e explicito que das vitórias mais fugazes que fazem parte do cotidiano.

Refletindo sobre eventos ocorridos nos séculos XVII e XVIII, esses jovens puderam debater e solidarizar-se com os esforços que pareciam encaminhar para a construção de uma “sociedade justa”, mas não perceberam que havia, também a busca da felicidade e, penso, parece que esta perspectiva é a mesma na qual estão traçando a sua caminhada: a luta pela justiça e, secundariamente, alguma felicidade. Mas, como é “difícil definir o que seja felicidade”, deixa-se essa reflexão para depois. Mas felicidade é algo excessivamente indefinido, algo que nem mesmo os dicionaristas são capazes de afirmar. E, contudo, “todos os homens têm direito à felicidade”.

Um dos livros que mais chamou a sua atenção neste semestre, dizem os seus comentários, não que os explicitassem, foi sobre o Medo, de Dulemeau, não lhes chamou atenção seu livro sobre a busca da felicidade. Talvez mais tarde, quando a justiça houver vencido o medo, haja tempo para esta reflexão.

Os juízes estão mais preocupados em serem justos, defendem como direito de justiça os seus privilégios que eles chamam de direitos, que com o cotidiano do homem comum, como o seu direito a ser feliz, comendo algum pedaço de alimento mais forte que as pipocas vendidas e consumidas nos transportes coletivos usados pelos mais pobres, e os semáforos, para alguns que acumularam algo.