Archive for the ‘Direitos Humanos’ Category

É possível o Corpus Christi no isolamento social?

quinta-feira, junho 11th, 2020

Drama 12

Desde 16 março estou em quarentena determinada pelo governo do Estado e pela ideia de que devo evitar a contaminação viral do Covid19. Aproveito o tempo para aprofundar o relacionamento com filhos e esposa, mas também com amigos, conhecidos e desconhecidos que, eventualmente acessam o www.biuvicente.com , e também par refazer algumas leituras, pesquisar textos que nos concedem através dessa maravilha que é a rede internacional de computadores. Com ela o isolamento deixa de ser social para ser apenas distanciamento físico. Neste isolamento temos a possibilidade de conversar com o mundo e sair do isolamento.

Creio que foi no final dos anos sessenta que o tema de redação de um dos vestibulares de uma universidade foi “Homem algum é uma ilha”, título do livro do monge Thomas Merton, tomado de empréstimo à obra de John Donne. Nesse livro, publicado pela primeira vez em 1955, o monge trapista trata de muitos assuntos sociais que eram vividos naquela época. Apontava ser impossível alguém viver sem tocado pelos dramas vividos pelos outros seres humanos, que a nenhum humano era dado o direito de escusar-se de participar da solução dos problemas que infligem a humanidade, pois não há uma solução apenas para o indivíduo, o indivíduo só terá solvido seu problema se todos os demais forem alcançados nessa solução. Sempre me encantou como um monge trapista, isolado em seu mosteiro, pode influenciar tanto uma ou mais gerações. Tive a felicidade de passar quinze dias do ano de 1972, na abadia Nossa Senhora de Getsemani, no Kentucky, Estados Unidos da América do Norte. inclusive conhecer a sua ermida, mais isolada no bosque. E foi naquele isolamento que Thomas Merton refletiu, escreveu e conversou com o mundo sobre os problemas sociais que, infelizmente, não conseguimos resolver. E isso em uma época anterior à esse acúmulo de meios que hoje temos para nos comunicar com o mundo, com as pessoas.

Então recebo de João Paulo Lucena, em meu isolamento, a pergunta se não escreveria algum texto sobre o Corpus Christi, uma festa que os católicos celebram desde o século XIII, a partir da região que hoje é Bélgica. Esta é uma festa da Eucaristia, uma celebração na qual os católicos refletem sobre a doação da vida. Não é apenas uma adoração estática, mas a verdadeira adoração é cuidar para que todos tenham o pão. A festa de Corpus Christi lembra que nenhum homem é uma ilha, pois o católico sabe que ele é convidado para ser um com todos, na grande eucaristia, que divide o pão e o vinho, divide as riqueza para que nada falte a nenhum dos seus semelhantes.

Interessante é que Thomas Merton decidiu ser católico após assistir uma missa na Igreja do Corpo de Cristo, próxima do campus da Universidade de Columbia, onde então era professor; na mesma igreja foi batizado e comungou pela primeira vez. Estava com 24 anos de idade, no ano de 1938. Em 1941 foi aceito para viver na Abadia de Getsemani, e em 1949 recebeu a ordem sacerdotal. Enquanto fazia suas tarefas na abadia, Merton usava as duas horas de repouso para escrever, escreveu mais de sessenta livros sobre direitos humanos, espiritualidade, armas nucleares, pacifista lutou contra a guerra do Vietnam, diálogos com a diversas religiões. Viveu até 10 de dezembro de 1968, na Tailândia, onde participava de uma ação com monges budistas.

Neste isolamento social, cabe ficar atento aos que provocam cisão entre os homens, cuidam de destruir o pouco de humanidade que temos construído, agir para que formemos um corpo saudável, uma sociedade que volta-se para a construção da igualdade, da justiça, da compaixão.

Drama 11 – Mais que nunca é preciso cantar

quarta-feira, maio 27th, 2020

Mais que nunca é preciso cantar que prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão

Final do mês de maio é a aproximação do meio do ano. Afinal passou a páscoa e, para alguns povos é a época da colheita ou das férias de verão. Mas isso era nas sociedade agrícolas que eram organizadas de acordo com a sequência das estações. O mundo moderno, no sentido de ser o mundo industrializado, pleno das máquinas que a matemática do engenheiro uniu-se à criatividade dos inventores segue outros modelos, pois a noite não mais existe para descansar e preparar-se para outro dia de trabalho no campo. A noite e o dia continuam existindo mas carregam muitas outras possibilidades de uso, especialmente para a diversão. Dorme-se outra hora, ou não se dorme. O mês de maio, no mundo católico, o mês de Maria, era o período de usar as noites todas indo à igreja para a reza do terço, da Ladainha, finalizando-se na coroação de Nossa Senhora como Rainha, dos Homens, dos Anjos, do Mundo.

O mês de maio começou a ser diferente em 1969. Aquele foi um ano carregado medo, aqui no Brasil. Toda uma geração estava começando a experimentar o que era viver em uma ditadura, embora ela existisse desde 1964, quando, militares e empresários depuseram um presidente que perdera a liderança da nação. Será que a tivera em algum momento? Essa pergunta existe, embora seja parcamente exposta. Indivíduos e comunidades não são seduzidos pela ideia de praticar dizer a verdade que pode lhes envergonhar. O ano de 1968 foi mais glorioso: nos Estados Unidos da América do Norte pelo festival Woodstock, um engano que virou sucesso; na França, pela ocupação das universidade realizada por estudantes e pela quase deposição De Charles De Gaulle; pela Primavera de Praga. Foi, também, o ano do Massacre na Universidade do México; e, no Brasil, foi marcado pela Passeata dos Cem Mil ocorrida em junho, ocorrida três meses após a morte de Edson Luiz, em março, no restaurante Calabouço; pela edição do Ato Institucional de número 5, em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, protetora dos olhos. Assim, 1969 começa e vive a instalação do medo. Para os que viviam em Pernambuco, este medo tornou-se tangível pelo atentado contra a vida de Cândido Pinto,  presidente da União Estadual dos Estudantes, ocorrida em abril; no mês seguinte, pelo sequestro seguido do assassinato do padre Antônio Henrique de Pereira Neto.

Ao longo de 1968, a Arquidiocese de Olinda e Recife tomou como tema central de sua ação a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, celebrando seus vinte anos. Claro que era uma ação com o objetivo de alertar o descompromisso do Brasil em assumir a realização do projeto universal. Creio que essa foi a razão do ódio profundo que a ditadura cultivou contra Dom Hélder Câmara, o primeiro grande líder defensor desses direitos. Participei ativamente da preparação e da realização dos eventos ocorridos no Colégio São José e na Paróquia do Arraial do Bom Jesus, em Casa Amarela. Dom Hélder nos apontava o caminho de fazer a Revolução dentro da Paz, em um período em que a violência começava a tomar novas formas. Vivíamos na apreensão do que ocorreria no dia seguinte. E os dias seguintes nos colocaram diante do inimaginável: mataram um padre por não puderem atingir o bispo. Um recado cifrado que foi respondido com orações e a reunião de quase todos os setores da sociedade. Sequestrado após uma reunião com jovens de classe média, moradores do bairro de Parnamirim, jovens de famílias tradicionais, cujo nomes lemos nos livros de história, viram, sem se aperceber, o sequestro. O corpo do padre foi encontrado dois dias depois, massacrado pela tortura dos agentes do regime. A comunidade católica entoava, na Matriz do Espinheiro, o hino da Campanha da Fraternidade daquele ano, que tinha como tema: FRATERNIDADE E VIDA: DOM E COMPROMISSO. A canção, ainda hoje cantada, diz assim: “prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão.” Durante o cortejo que levou o esquife do padre Henrique desde o Espinheiro até o Cemitério da Várzea, soldados do exército nos acompanhava dizendo que era par nossa proteção, mas na verdade era uma ação intimidatória, provocatória. Em determinado momento tentaram tomar o caixão de nossas mãos. Tremi de medo, pensei correr, muitos pensaram, poucos fizeram e, numa resposta começamos a cantar o Hino Nacional Brasileiro, que os ditadores haviam tomado para si, como o fizeram com os demais símbolos nacionais. As vozes misturavam e os cantos ecoaram ao longo da Avenida Caxangá. O Enterro do padre Henrique nos chamava a defender o Brasil, não permitindo que os ditadores e seus sequazes nos expulsem de nossa pátria, de nossa nação. Cantar o Hino Nacional passou a ser uma prática no enfrentamento com os ditadores. Foi assim na campanha do anticandidato Ulisses Guimarães. Aos poucos, nos anos seguintes fomos retomando o país da mão dos seus destruidores, apontando seus erros, até que eles assumiram que fracassaram e nos entregaram o país de volta, mas o devolveram maculado pelo mal, como podemos perceber atualmente.    

Nos dias atuais assistimos os filhos e netos da ditadura se apossarem da nação, dos símbolos nacionais. Aproveitam da pandemia do Covid 19 para um processo de higienização social, torcendo para morram os velhos e os fracos.  Não podemos permitir isso. Não podemos ouvir, sem reação, esses netos de carcereiros e torturadores, netos físicos e espirituais,  continuem matando-nos. Devemos lembrar e cantar nossas canções de amor à vida, vivê-las, porque “mais que que nunca é preciso cantar” que “prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão” e  criando “um dia que vem vindo e que vivo pra cantar na avenida girando, estandarte na mão pra anunciar”.   

História para meus filhos e netos: a urina de meu pai e a Covid19.

domingo, março 22nd, 2020

Severino Vicente da silva

Acordo na madrugada pensando na história que contei a Isaac, um pouco da história de meus pais, de Nova Descoberta e minha primeira palestra no ano de 1959, no dia da inauguração da Igreja matriz de Nossa Senhora de Lourdes. Foi uma história narcísica, pois contei de minha participação, como orador da Cruzada Eucarística , naquela festa da comunidade católica, com a presença do arcebispo Dom Antônio de Almeida Moraes Junior. Essa história veio acompanhada com a lembrança de minha mãe que, sem empregada doméstica cozinhava, lavava para toda a família, e administrava os filhos (Zefinha passava a roupa, Lia varria a casa, Doutor cuidava da venda de água na cacimba, etc.) e todos ía-mos  à missa, faziam os deveres de casa. Mamãe era presidente do Apostolado da Oração. Papai comerciava, o dia inteiro no balcão da venda, juntamente com um primo de mamãe, Manoel Lopes. Depois Manoel Lopes montou seu próprio comércio, na mesma rua, e mamãe assumia muitas vez a função de balconista, atividade que Doutor, Lia e eu assumimos várias vezes. A família girava em torno da venda que garantia a vida de todos: alimentação, escola, vestuário.

Ao acordar nesta madrugada pensei no que estava ocorrendo ao meu redor. Ontem passei por uma cirurgia para a retirada de uma pedra no rim, mas a tecnologia e a economia não permitiram, apesar de vasto conhecimento já alcançado pela medicina nessa área, mas ela está atrelada ao sistema econômico que a financia, e às políticas sociais que permitem que o conhecimento prático chegue ou não à população. E isso parece estar relacionado com alguns motivos que fizeram meu pai migrar da pequena propriedade Eixo Grande, à beira do rio Capibaribe na primeira parte da década de 1950.

Nas confusas lembranças que guardo daquele tempo, estão as tardes na calçada da casa, comendo pimentão ou chupando laranja do sítio. Passou-se um tempo em que papai viajara para o Recife e ficara mais que uma semana ou um mês. Se o tempo afeta a lembrança dos mais velhos, bem que alcança e pode ser entendimento diferente por uma criança, inclusive porque a lembrança primeira vai sendo modificada pelas conversas e lembranças de terceiros. Sei dizer que foi muito tempo e, nesse tempo mamãe cuidava da venda. Papai veio ao Recife para verificar o que ocorria, pois começava urinar sangue, no tempo em que a seca atingia o agreste de Pernambuco e na parte que se encontra com  a Mata Norte, como aprendi depois nos livros e aulas de história. Ouvi aquelas conversas, talvez, quando sentado na calçada, e escutava os homens falarem entre si, em voz baixa, que isso não era conversa de menino. Esse “urinar sangue” me acompanhou sempre e era como um problema tão grande que o Hospital Pedro II, onde papai ficou internado, não conseguira resolver. Depois soube que a doença foi superada, a urina voltou à sua cor normal. Em decorrência dessas viagens para tratamento da saúde, veio a ideia de mudar para o Recife. E parte do que possuía foi vendido  para a compra de terreno em Nova Descoberta, onde construiu casa de pau-a-pique e barro. A mesma casa onde morreu, nos meus braças, enquanto mamãe colocava uma vela em sua mão e Cristiano, seu neto, chamava pelo avô.

Nesta semana, eu urinei sangue, fui ao hospital que fica a três quilômetros de minha casa, fique internado por 24 horas, fui operado e voltei para casa sob medicamentos. Penso em como mudou o Brasil nesses sessenta anos em sua medicina e no trato com sua gente; mas mudanças não foram estruturais. É isso que nos alerta essa pandemia covid19, e não apenas no Brasil. Olhando para a América Latina vemos países que tomaram medidas rápidas , pois entenderam que a situação é trágica e que eles não conseguiriam estancar a perda de vidas humanas, embora que para isso percam alguma riqueza econômica. Outros países, como o Brasil, preferiu adotar o ‘jeito’ americano/Trump de ser, agindo de maneira negacionista e pondo em risco a nação. O mandatário americano rapidamente refluiu de sua loucura, o que não fez o governo brasileiro por incúria e falta de inteligência. E foi esta falta de inteligência que acometeu o país em sua período republicano: seguir políticas norte-americanas em todos os campos, sem considerar que, apesar da influência deles nas palavras da primeira constituição, a alma mais profunda do Brasil está nas culturas silvícolas, africanas e europeias, notadamente Portugal e França. De Portugal, dentre muitas coisas, herdamos esse apego à propriedade privada, mas apenas para os que a podem comprar e jamais, quando era possível, abrir possibilidade para os silvícolas e seus descendentes, os africanos e seus descendentes, excluindo do usufruto da cidadania mais de dois terços da população. O Brasil sempre é pensado como um país de 30%, mas é pensado como se esses 30% tivessem conseguido a cidadania como ela foi gestada nos Estados Unidos da América, como eles costumam dizer o ‘selfmade man’. Entretanto o sentimento de liberdade e busca de igualdade nas relações, nos Estados Unidos esteve baseado em um campo político ideológico de relações individuais responsáveis (com prêmio e castigo), mas com possibilidade de abertura para os membros de iniciativa. O Brasil, por outro lado, formou-se, desde a invasão europeia do século XVI, sob o manto da autoridade abusiva e das liberdades controladas por instâncias de poder externo, o que impediu a formação de uma sociedade livre porque impermeável à mudanças estruturais. Sempre, no Brasil, as mudanças foram realizadas para que as mudanças não fossem realizadas. Pois se as mudanças estruturais houvessem sido realizadas não haveria essa sociedade de 70% de excluídos, ou mais. Por isso meu pai morreu sem compreender porque não recebeu o atendimento médico; por similar razão decidiu, intuitivamente, que não poderia mais continuar a morar na periferia geográfica e cultural dominante. Veio para a periferia da cidade grande, onde também se mantinham as estruturas que o prendiam na parte mais inferior da sociedade desde o nascimento; meu pai não desejava para seus filhos, o cabo da enxada e o túnel social fechado que lhe tocara como neto de escravo e filho de índia mestiça. Mas as estruturas mentais que estão na alma do povo brasileiro, impostas por cerca de 30% dos que governam o Brasil desde 1549, e  continuam firmes nas ações dos descendentes dos desencontros dos fundadores da nação, de sorte que atende apenas o pequeno terço. Aos demais o Rosário.

E o Covid19 tem demonstrado isso muito bem. Neste momento há uma grande preocupação, um temor de que ele se espalhe e alcance o terço dominante, por isso é que se discute o vírus, mas não a estrutura, ou ausência de estrutura para os dois terços da população. O vírus tem atingido setores mais ricos e a classe média da sociedade industrial, de modo a fazer tremer o presidente dos Estados Unidos, a princípio agindo com comportamento blasé e arrogante, mas que se transformou quando Nova York, San Francisco pararam. Aqui também, o presidente Bolsonaro tem mudado, mais lentamente, o seu comportamento, pois o vírus pode alcançar as suas bases milicianas. E, agora vemos, depois de três semanas, que o noticiário começa a entender que não tem água nem sabão em quantidade nas periferias – favelas – das cidades, onde o ‘isolamento social’ é quase impossível com as casas em ajuntamento, sem serviço de esgoto e água, lugares onde os Estado não alcança, pois dominado pelas milícias. E não espanta a ninguém essa situação. Também não espanta que tem sido escondido o desastre populacional causado pela Dengue e, da microcefalia da qual já não se ouve. Da última vez que o governo central abordou o tema foi quase informando que não tem responsabilidade sobre casos novos. Digo Governo Central pois não parece ser federal, como demonstra a ação dos governadores do Nordeste ao descaso do governo federal em relação à Covid19, pois em relação à dengue e a criação de infraestrutura necessária para vencê-la, apenas demonstra que fazem parte das mesmas famílias que sugam o Brasil que é produtivo e trabalhador, como os pequenos proprietários e os ambulantes sem carteira de trabalho, tão desprezados como os mascates e tropeiros que formaram o Brasil.

Todas essas reflexões faço para não perder a consciência de que sou o índio desprezado, o negro evitado e o branco pobre enxerido que quer participar da história do Brasil, e por isso conta essas histórias para seus filhos e netos e a quem estiver disponível. Ela é parecida com 75% da população brasileira.

Sobre a bobagem da censura

quinta-feira, dezembro 12th, 2019

Achei bobagem um dos bispos auxiliares da Arquidiocese de Olinda e Recife suspender a assinatura da NETFLIX por causa da irreverência de um filme cômico. Maior bobagem é anunciar que o fez, pois induz os católicos a aceitarem a ideia de controle da arte, apoiando as bobagens que o o atual governo está a fazer na área da cultura. Além do que, lembro que, antes que o bispo tivesse nascido, os católicos já viram esse fracasso no tempo em que Anselmo Duarte fez o belíssimo Pagador de Promessa. Eu tinha dez anos e os padres recortavam os jornais para que não tivéssemos acesso ao que acontecia além dos muros do Seminário Menor da Várzea. João XXIII tentava abrir a janela que este bispo, décadas depois, que fechar. Nem quero lembrar o que ocorreu com o filme francês sobre Maria. O testemunho da fé pode até ser nestes termos, mas é melhor dialogar, não apenas com outros religiosos, mas com os não religiosos, como aponta documento do Concílio Vaticano II.
Antes que eu esqueça, ao cortar a sua assinatura (até parece a birra de bolsonaro com a FSP), o bispo se proíbe de ver OS DOIS PAPAS, que narra a transição do antigo presidente do Tribunal do Santo Ofício para o Pastor de Buenos Aires.

Dia da Consciência

quarta-feira, novembro 20th, 2019

São numerosas as comemorações coletivas que ocorrem no mês de novembro, religiosas, cívicas mercantis e aquelas familiares e pessoais. No mundo do civismo, nessas comemorações que marcam os momentos de escolhas político-sociais, há as celebrações do início a República, da escolha da Bandeira nacional. Essas celebrações quase sempre nos levam ao passados e, como a sociedade brasileira tem pouco apreço por sua história, pois aprendeu que história é coisa que já passou, essas celebrações servem quase que somente para que se diga o que aconteceu, como aconteceu, quando aconteceu e quem fez. Celebra-se o passado, como se a celebração fosse de algo vivido por outros povos. Essas datas estão sendo celebradas de maneira que elas deixam – talvez deixaram a muito tempo – de ser parte da vida dos que celebram. É por isso que no dia que se celebra o início da República, o ministro da Educação faz a celebração chamando o Marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República de traidor. O ministro da República do Brasil acusa o fundador da República do Brasil de ser traidor por ter proclamado a República e posto é fim à Monarquia. Sente-se, o ministro, como um príncipe traído; afinal um militar mestiço recusou, à sua maneira, o governo típico da Europa, de onde vem toda família do ministro que parece não ter qualquer traço de mestiçagem, típica do Brasil profundo. Dois dias depois de repudiar a República, o mesmo ministro, no palácio presidencial, faz elogios à bandeira. Este é o estado de esquizofrenia que é vivido no país. Esquizofrenia e catatonia que parece atingir as forças armadas republicanas do Estado brasileiro.

Dor maior vivem os brasileiros que pensam e agem semelhantemente ao ministro da Educação neste dia 20 de novembro, pois é nele que celebramos parte de nossa herança esmagada, esquecida, quase odiada: a nossa herança africana. A lembrança de que o Brasil não seria essa nação rica economicamente, cultural e diversa, sem a participação ativa dos povos africanos que, contra seus desejos, foram arrancados de suas terras e transplantados para este lado do Oceano Atlântico. Ter a Consciência de ser Negro é, ao mesmo tempo, ter a consciência de que, na formação do Brasil os que se apoderaram das terras dos primeiros habitantes, usaram os africanos como animais de carga. Ser posto diante dessa evidência, que foi silenciada ao longo da formação do Brasil, faz doer cada músculo moral que ainda resta e precisa ser restaurado naqueles que herdaram os métodos de recusa da humanidade e, lamentavelmente, se recusam a admitir que cultivam o desejo de manter o processo de animalização da maioria da população brasileira, que, formada principalmente de negros, índios e mestiços de todos os matizes, e todos igualados no processo de discriminação sócio racial. Daí porque nos matam tanto.

A cada ano, se quisermos ser, verdadeiramente um República, a grande data do Brasil deverá ser o 20 DE NOVEMBRO. O Dia da Consciência Negra, o Dia da Consciência do Brasil.

Migrações, tem sido a caminho da humanização – sobre mamíferos e amor

sábado, junho 15th, 2019

Escuto, vejo e leio nos meios de comunicações as diferentes maneiras de como estamos caminhando em direção do passado. Não é um caminho que negue as conquistas do conhecimento, da ciência, da tecnologia. Nessa direção há avanços cada maiores e mais sólidos, embora não estejam ao alcance de todos, pois que assim acontece desde o domínio da fabricação do fogo. Do domínio do conhecimento e da técnica; que tem este domínio promoveu controle dos demais homens que formam a sociedade. Mas desde então, também, aconteceu o descontentamento com tal situação e, o longo processo de humanização é o caminho de compreender e realizar que o saber é construído coletivamente. A invenção da técnica de fazer fogo não foi resultado da observação de apenas um indivíduo, como não o foram as demais invenções ocorridas desde então, admitir essa ideia é que nos faz civilizados. Somos o conjunto, não o indivíduo.

Neste longo percurso fomos aprendendo a solidariedade enquanto aumentávamos as possibilidades de sobrevivência individual e coletiva. Foi assim que superamos práticas como o infanticídio, o abandono dos velhos, dos doentes, dos mortos, etc. E criamos instituições, filosofias e teogonias para justificar a nossa humanidade, buscando diferenciarmo-nos das demais criaturas. E nos dissemos diferentes de todos e com poderes sobre toda natureza, nomeando-as e dominando-as, pondo-as ao nosso serviço, seja para nossa proteção, seja para auxiliar na produção e alimentos, no encurtamento das distâncias, na diminuição do uso de nossa força e mesmo no esforço de guerra contra os nossos semelhantes que julgamos nossos inimigos, exatamente por causa das filosofias que criamos para nos “humanizarmo-nos”, civilizarmo-nos. Interessante é que, depois dessa longa caminhada na direção a humanização, criamos uma sociedade que nos desumaniza, pois que busca criar mais diferenças, que julgamos inaceitáveis, em oposição ao espírito que nos tornou seres culturais e tão semelhantes nas ações e iguais na biologia. É isso que nos mostram as ciências, o conhecimento que criamos. Mas, eis que aprendemos ser mais fácil cultivarmos a indiferença na relação com os nossos semelhantes.

O noticiário desta sexta feira (14/6) nos dá conta de que a lei Anti-imigração do presidente dos EUA promoveu a separação de uma criança de 4 meses de seus pais. Eram estrangeiros buscando um melhor lugar para a sua família crescer, como fez Abrão e sua mulher Sara, e fizeram José e Maria e seu filho recém-nascido, de acordo com a Bíblia. Essa e outras histórias nos lembram que desde o primeiro grupo humano, o que mais fazemos é migrar, é buscar outro lugar para completar a vida. As migrações quase sempre ocorrem por causa de um sofrimento insuportável, provocado pelas forças da natureza ou sofrimento provocado pela ganância que a guerras. Ao longo do tempo tentamos superar o medo do outro, desse que vem de longe em busca da paz que nosso lugar parece ter. E foi assim que formamos nossa civilização. Entretanto, após termos criado um mundo de tanto conforto, nos descobrimos insensíveis, incapazes de compartilhar. E provocamos dores imensuráveis em nossos semelhantes, dores como separar um casa de suas crias, seus filhos. A ciência nos ensina que todos os seres vivos sentem o que se passa ao seu redor (ciência não é só matemática), os mamíferos em especial, mas não apenas eles – ou nós.

Mas o que está escondido na notícia é que uma família aceitou ficar com a criança enquanto seu pai era deportado, assim como na ditadura argentina, famílias aceitaram ficar com os filhos dos prisioneiros da guerra que os generais travavam com parte do povo argentino. O que causa mais tristeza é que isso incomoda tanto a sociedade quanto incomodava a sociedade romana as crianças abandonadas nos lixos ou entregues para piratas. Em reação a esse costume um grupo assumia essas crianças, preservando a vida e abrindo caminho para os direitos humanos que foram sendo criados no processo civilizador.

Cuidemos para que essas criações humanas não sejam perdidas e nos tornemos seres de sangue frio, esses que cuidam apenas da continuidade biológica e não da cultura (arte, técnicas, religião, ciência, valores, etc.)