Archive for the ‘Humanidade’ Category

Crise Covid-19 ou do Ocidente?

sábado, março 28th, 2020

Notícias da Europa dão conta que a rainha Elizabeth II estaria com COVID19. Não há confirmação mas a bolsa de apostas apontam a vitória da Rainha. Pior para Charles, que poderá perder a oportunidade de ser rei. Mas brincadeira de lado, vi que apostadores na vitória da Rainha a chamam de ‘lagarto’, capaz de adaptar-se às mais difíceis situações. Coisas do humor britânico, tão necessário neste momento. Também leio que esta pandemia está a nos mostrar que a Europa perdeu a liderança civilizacional, ou a  completou.

Desde 1914 que Oswald Spengler chamava atenção ao Declínio do Ocidente, aos limites que estavam sendo alcançados. Mostrava que as civilizações têm seu ciclo. Arnold Toynbee fez grandes estudos sobre as civilizações, apontando, o que todos sabem, que nenhuma delas é eterna e, chega um momento em que ocorre a perda da criatividade, o momento no qual as novas gerações rejeitam o que receberam, ou não veem necessidade de continuar o que receberam. Morre a civilização. Outra lhe toma o lugar, recolhendo o que de bom existia, ou que lhes dava condições de ser a liderança da humanidade.

O mal estar europeu vinha sendo apontado desde meados do século XIX, na escrita dos poetas, nas linhas dos romancistas, nas tintas dos artistas plásticos que, em seus sonhos para a além do efêmero, apontavam ser um engano a adoração à técnicas que suavizavam o modo de viver de alguns, mas endureciam o coração de duas ou três gerações que impunham o seu modo de viver aos africanos, que vinham sofrendo séculos de desumanização, e aos asiáticos que buscaram manter suas tradições isoladas do contágio europeu desde o século XVII. Mas a fome do poder e o emagrecimento da alma tornaram os povos europeus fechados em si enquanto arrombavam as portas do globo. Para Garaudy, antigo secretário geral do Partido Comunista Francês, o Ocidente seria apenas um acidente ao longo da vida humana, um acidente ocorrido entre os século XIII e XVII, e que conheceu seu apogeu nos séculos XIX e XX. É o que vemos, que estamos assistindo: sua fragmentação, sua dissolução, anunciada desde o século XIX, como mencionamos.

Mas o que era o Ocidente, como ele se formou, quem e o que lhe deu as bases?  Creio que ele é um amálgama das experiências que se encontraram e  se confrontaram desde as primeiras experiências humanas até o século XVI. O fim do Renascimento, a vitória da Quaresma, a organização do pensamento científico levaram a Europa à busca dos ideais de perfeição e controle sobre o mundo religiosa, e solidificaram o Ocidente que se cristalizou na vitória tecnológica sobre a natureza. Após a solidificação dos novos princípios religiosos e assunção da predestinação, nada mais interessava. Semelhante ao que ocorrera com a civilização muçulmana, alguns séculos antes. Assumindo que estava predestinado a dominar o mundo e que as nações lhe seriam vassalas, o “novo Israel” se impôs com a religião profana, a religião da ciência, da superioridade sobre todos. Então, o Ocidente não mais aprendeu, como aprendera e se formara na antiguidade cristã e na Alta Idade Média, períodos nos quais não teve pejos de sincretizar os costumes, os deuses. Mas, a partir do período pós Reforma, a Europa não mais aprendeu, apenas expandiu seu modo de viver. A perda da ideia da aceitação do outro, a perda da criatividade é a perda da fé em si mesma. Não sem razão o segunda metade do século XX foi o tempo das crises, crises das quais nada se aprendeu. Mas alguns dos povos que foram dominados pelo Ocidente, aprenderam a ser ocidentais, adaptando-se e recriando o que recebiam. Eles herdarão o Ocidente.

No início dos anos setenta, em um estudo sobre a história, ocorrido em um dos conventos estabelecidos na Primeira Olinda, Eduardo Hoonaert e eu discutíamos sobre isso com cantadores repentistas. Era o tempo em que se discutia a Trilateral, discussão que ocorria fora dos labirintos dos departamentos de história, embora bordejassem as áreas de ciências políticas. Falava-se que haveria de surgir um mundo com três polos: América do Norte, Europa e Ásia. Coisas dos Rockfeller, que provocou o aparecimento de Jimmy Carter na política internacional. Era visto que os EUA (América do Norte) pensaria na questão da segurança; a Alemanha (Europa) cuidaria da questão alimentícia e o Japão (Ásia) ficaria responsável pela tecnologia. O mundo ainda era o da Guerra Fria. Assim a china não aprecia nos esquadros. Mas, em nossa conversa, que possuía uma base teológica, discutia-se que a humanidade esteve sempre olhando para o Oriente, por isso dizíamos ‘orientar-se’, mas desde o Renascimento tudo passou a ser ‘norteado’. Lembramos que até a segunda metade do século XIX, o mundo (ainda que não proclamasse abertamente) sempre olhava para a China, para onde foi levado grande parte do ouro das Minas Gerais, embora a maior parte das pessoas não saibam disso, julgam que tudo ficou na Inglaterra.

Naquela ocasião, Eduardo Hoornaert chamava atenção para o papel que a China iria desempenhar no século XXI. Estamos vendo agora. Não pela maldade da China, mas pela incapacidade do Ocidente enfrentar algo novo, como o Covid-19.

Vamos nos orientar?

Drama 2 – Superar a doença da morte

sexta-feira, março 27th, 2020

Próprio da humanidade inventar meios para sua preservação, ensinar o que aprendeu no ato da invenção, modificar o aprendido, aperfeiçoar o recebido. É que tem ocorrido sempre, mas não somente. Alguns aprenderam mas não transmitiram o que aprenderam ou aperfeiçoaram, interromperam o processo, ou melhor, modificaram o processo humano: tornaram seu o que era comum.

Qual o nome que tenho? Quem o pôs em mim? Porque razão escolheu este nome para marcar-me entre todos os seres? Sim, o nome que carregamos é uma marca que permite sermos reconhecidos pelos demais, mas esta marca nos foi dada por alguém que possuía um objetivo ao nomear-me. Devem ter sido essas as considerações que fizeram meu filho Isaac interpelar sua mãe, marcada om o nome do avô, Manuel. É uma tradição romana. Aprendi, que as mulheres carregavam o nome de algum ancestral. Mas, porque pus o nome Isaac em meu caçula? Quantas tradições culturais, civilizacionais em um só parágrafo: romana, judia, africano-portuguesa.

Conto histórias para meu filho dormir, então quis contar a história do seu nome. Uma história que começa em Ur da Caldeia, na Mesopotâmia, no tempo de Hamurabi. Abrão, homem de alguma posse, casado com Sara, teria tido um encontro com o seu deus pessoal que lhe ordenara abandonar a cidade, ir para o deserto com sua família. E então ele migra com a mulher, seus bois, cabras, escravos, alguns parentes. Abrão diz a Sara que seu deus lhe havia dito que teria uma grande descendência e que eles formariam um grande povo. O tempo passava e Sara não engravidava e já havia passado tempo de ela engravidar. Para agradar o marido, Sara permite que ele tenha um filho com uma de suas escravas e adota esse filho como seu. Sara não parece confiar na promessa do deus de Abrão, procura um jeito de cumprir a sua parte na promessa para a qual não fora consultada.

Uma tarde dois jovens estão de passagem e passam no acampamento de Abrão que os recebe e os trata bem. Na conversa os estranhos dizem que logo Sara engravidará e  Abrão terá o filho que lhe fora prometido. Sara escuta e ri , pois entende que seu tempo de maternidade já havia passado. Os visitantes reclamam de sua pouca confiança ou fé no deus de Abrão. E seguem viagem. Algum tempo depois o corpo de Sara apresenta os sinais da gravidez. No tempo apropriado pare seu filho. Então Abrão fica muito alegre e diz que o menino que nasceu é a alegria de sua velhice, um prêmio, e o chama de Isaac. Foi pela alegria de ter um filho após os sessenta anos que eu, formado em parte da tradição judaica, resolvi chamar de Isaac o meu filho.

Poderia ter terminado neste ponto a história, mas o filho de Abrão, que então passara a ser conhecido como Abraão, tem uma vida maior que o seu nascimento. O nascimento é apenas um momento da vida que começara antes e terminará muito depois da experiência da vida. Assim continuei a história, não mais do nome, mas da vida de Isaac. O deus de Abraão cumprira a promessa, mas, diz a tradição, havia mais a ser realizado, mudado.

Quando saiu de Ur levando suas coisas, Abraão levava também seus sacrifício, costumes e, entre eles, havia um hábito de oferecer aos deuses a primícias de tudo que o crente produzia. E Abraão entendeu que tinha a obrigação de oferecer Isaac em sacrifício ao seu deus, de quem disse que ouvira a cobrança. Assim ele chamou Isaac para um passeio e resolveu matá-lo para agradar seu deus. Durante a caminhada Isaac perturbava Abraão sobre qual o animal que seria sacrificado. Eu estava contando essa parte da história quando ouvi o soluço de meu filho, estupefato com a ideia de que Isaac seria morto para a alegria do deus de Abraão. E pouco adiantou ter adiantado a história, ter dito que no último instante o deus de Abraão não permitiu que fosse consumado o sacrifício/assassinato de Isaac, que apareceu um animal e que a história apenas mostrava de como os seres humanos estavam superando uma etapa do drama, deixando de matar seus primogênitos, e que Isaac. Pouco adiantou dizer que, além de ser a alegria da velhice de seu pai, Isaac era também o sinal da libertação, da superação de uma fase antiga e o começo de uma humanidade menos sangrenta e dolorosa, embora ainda muitos sofrimentos estivessem por vir. Lembrei que só vim a entender o que viveram Abraão e seu filho após estudar um pouco de antropologia, pois teologicamente eu apenas aceitava aquela visão de um pai com uma faca na direção do filho indefeso.

Contos de fada servem para explicar o mundo às crianças, são contados por adultos que raramente compreendem o seu significado. Assim também acontece no relacionamento dos homens com os seus deuses. A tradição judaica parece ter início com a superação dos sacrifícios humanos dos seus primogênitos, como se confirma com a história central da libertação no  Egito. A tradição cristã também exige um sacrifício do unigênito. As crianças sofrem muito no aprendizado dessas tradições que formam a cultura, a sensibilidade que carregam as fazem solidárias ao sofrimento de todas as crianças, de todos os humanos que construíram a humanidade.

Vez por outra, as sociedade estão governadas por adultos que não tiveram ou perderam a infância.   

Drama

quarta-feira, março 25th, 2020

Não tem sido fácil a construção da humanidade, ela busca alcançar o que é, parece, inalcançável. Recordo de um debate com um dos meus professores de Bíblia a respeito do que ocorria no Paraíso. A ‘queda’ de Adão e Eva é sempre um enigma. Um dos castigos recebidos por conta da desobediência é a morte, o outro é trabalho e o terceiro é a dor. Os escritores da Bíblia entendiam que os homens e mulheres não morriam antes da desobediência, assim como a necessidade de trabalhar para manter-se alimentado e vivo. Também a chegada da vida não significava a dor nem o risco da morte. Todo o drama ocorreu a partir do momento em que o desejo de conhecer o desconhecido foi maior que o temor do desconhecido. Mas isso tudo ocorreu antes que a história começasse, pois a história começa com o conhecimento de que a vida é o risco de seu desaparecimento em meio do trabalho e dor. A história parece ser a busca para chegar ao Paraíso, e ele pode ser alcançado indo em frente ou sonhando com o que se perdeu. O Paraíso é promessa ou saudade. É promessa da imortalidade ou saudade da imortalidade; promessa de um tempo sem dor ou saudade de um tempo indolor; promessa de fartura sem esforço ou saudade da fartura sem esforço. A história, ou seja a sequencia da vida humana tem sido essa busca de construir ou voltar ao tempo farto sem dor, sem morte.

Meu professor, posteriormente bispo anglicano, respondeu-me dizendo que eu deveria pensar mais sobre o assunto e que ele era/é muito interessante. Ao longo de minha vida encontrei e encontro vários códigos morais que indicam como devem agir os homens: devem ser bons, magnânimos, piedosos, calmos, atenciosos, honestos, francos, respeitadores,  contentes com o que possuem, não serem invejosos, serem como os  lírios dos campos e aves do céu. Esses códigos estão em todos os recantos da terra e são repetidos catequeticamente em todas as religiões e filosofias. Em Confúcio, Buda, Incas, Brâmanes, Abraão, Código Napoleônico.  São ensinados por aqueles que não as seguem, estão acima delas pois delas são guardiões, e por isso eles possuem o que não deve ser cobiçado. E castigam os que não conseguem vencer o desejo. Como eles conseguiram isso? Como eles conseguem isso, ainda hoje? Eles conseguiram o ócio com dignidade e sorriem dizendo duas verdades que parecem excludentes mas são explicativas e complementares: se não trabalhar não come, mas quem trabalha não tem tempo para pensar. Tempo para pensar.

Nossa sociedade tecnológica encontrou meios para que todos tenhamos tempo para pensar. Bem, não é a todos que é dado esse tempo, pois a maioria continua, como nos terraços da Mesopotâmia, vivendo da mão para a boca, trabalhando com o objetivo de ter um prato de sopa de cebola no final do dia. O caldo de carne jamais lhe chegará. Bem, há dias de festas e, neles, algo cairá da mesa. Os quadrupedes e rastejantes que chegarem primeiro alcançarão o osso e terão uma sopa diferente naquela noite.    

“sou um atleta”, “morrem os mais velhos”. As pirâmides precisam ser construídas; Salomão construiu o Templo; o Tja Mahal é mais bela prova de amor;  a Torre Eifel, a Capela Sistina o altar do Mosteiro de São Bento; o Louvre; o Arco do Triunfo. Tudo é arte beleza e sangue.

E Virgílio não entrou no Paraíso.

Dia da Consciência

quarta-feira, novembro 20th, 2019

São numerosas as comemorações coletivas que ocorrem no mês de novembro, religiosas, cívicas mercantis e aquelas familiares e pessoais. No mundo do civismo, nessas comemorações que marcam os momentos de escolhas político-sociais, há as celebrações do início a República, da escolha da Bandeira nacional. Essas celebrações quase sempre nos levam ao passados e, como a sociedade brasileira tem pouco apreço por sua história, pois aprendeu que história é coisa que já passou, essas celebrações servem quase que somente para que se diga o que aconteceu, como aconteceu, quando aconteceu e quem fez. Celebra-se o passado, como se a celebração fosse de algo vivido por outros povos. Essas datas estão sendo celebradas de maneira que elas deixam – talvez deixaram a muito tempo – de ser parte da vida dos que celebram. É por isso que no dia que se celebra o início da República, o ministro da Educação faz a celebração chamando o Marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República de traidor. O ministro da República do Brasil acusa o fundador da República do Brasil de ser traidor por ter proclamado a República e posto é fim à Monarquia. Sente-se, o ministro, como um príncipe traído; afinal um militar mestiço recusou, à sua maneira, o governo típico da Europa, de onde vem toda família do ministro que parece não ter qualquer traço de mestiçagem, típica do Brasil profundo. Dois dias depois de repudiar a República, o mesmo ministro, no palácio presidencial, faz elogios à bandeira. Este é o estado de esquizofrenia que é vivido no país. Esquizofrenia e catatonia que parece atingir as forças armadas republicanas do Estado brasileiro.

Dor maior vivem os brasileiros que pensam e agem semelhantemente ao ministro da Educação neste dia 20 de novembro, pois é nele que celebramos parte de nossa herança esmagada, esquecida, quase odiada: a nossa herança africana. A lembrança de que o Brasil não seria essa nação rica economicamente, cultural e diversa, sem a participação ativa dos povos africanos que, contra seus desejos, foram arrancados de suas terras e transplantados para este lado do Oceano Atlântico. Ter a Consciência de ser Negro é, ao mesmo tempo, ter a consciência de que, na formação do Brasil os que se apoderaram das terras dos primeiros habitantes, usaram os africanos como animais de carga. Ser posto diante dessa evidência, que foi silenciada ao longo da formação do Brasil, faz doer cada músculo moral que ainda resta e precisa ser restaurado naqueles que herdaram os métodos de recusa da humanidade e, lamentavelmente, se recusam a admitir que cultivam o desejo de manter o processo de animalização da maioria da população brasileira, que, formada principalmente de negros, índios e mestiços de todos os matizes, e todos igualados no processo de discriminação sócio racial. Daí porque nos matam tanto.

A cada ano, se quisermos ser, verdadeiramente um República, a grande data do Brasil deverá ser o 20 DE NOVEMBRO. O Dia da Consciência Negra, o Dia da Consciência do Brasil.

Em busca de aprender a Primavera

domingo, setembro 22nd, 2019

Primeiro dia de Primavera, tempo de renovação da vida, após período das chuvas invernais. Como antigamente objetos básicos para o recebimento das primeiras lições, os livros ensinavam através de fotos ou gravuras, era um tempo de dissolução da neve e florescimento, com abelhas e borboletas bailando nos jardins cumprindo a função/destino, dar continuidade à vida enquanto dela se alimenta. A maioria das pessoas que, vivendo onde eu vivo, abaixo do Equador e entre os Trópicos, liam e aprendiam o mundo com aqueles livros, nunca vira neve; provavelmente quase cem por cento dos que conheceram neve por aquelas fotografias, morreram sem experimentar o toque frio dos flocos em seus rostos. Aprendíamos um mundo dos outros, didaticamente, nos Livros Didáticos. E então veio Paulo Freire nos dizer que Ivo Não viu a Uva, e que todos devem ter uma CA-SA, e para construí-la havia de haver TRA-BA-LHO para fazer TI-JO-LO. Quem trabalha dever uma casa para se proteger da CHU-VA. Atualmente os livros esqueceram Ivo e, embora estejamos produzindo, com muito trabalho, uvas, outras frutas aparecem como mais frequência nos livros. A televisão, nos anos sessenta, mas principalmente nos setenta do século passado. Foram caminhos na direção de entender que a vida do outro não é a minha, mas a vida dos outros afeta a minha vida, assim como o trabalho do pedreiro que constrói a casa para o outro. Ivo agora pode ver a uva, mas nem sempre pode entrar nos prédios que constrói. Coisa de Zé, de Mané ou de Zé Mané, podem dizer alguns.

Neste início de primavera recebo, pelo WhatsApp, vídeos que lembram outra primaveras que apontavam a possibilidade de mudanças reais na maneira de ver e viver o mundo. Um deles vem com a poesia e música de Beto Guedes, SOL DE SETEMBRO, uma explicitação das esperanças que se vivia, quase se percebendo o final da ditadura civil-militar iniciada em 1964; a letra diz que pode vir um mundo nascido do perdão, embora muitos tenham sido perdidos na jornada, mas que já se sabe de cor a lição que ainda precisa ser aprendida. Corria o ano de 1979, sonhava-se com a anistia, a volta dos exilados. Ouvir a música quase quarenta anos depois, nos faz perguntar se aprendemos a lição que já tínhamos decorado.

Outro vídeo, outro recurso didático que me foi enviado é a gravação de 1985, We are the World, iniciativa de Michel Jackson e Lionel Richie, acompanhados de outros grandes do show bussiness, com o objetivo de angariar fundos para ajudar as crianças africanas que, além da seca, sofriam com as guerras, as disputas tribais. Estavam abandonadas pelo mundo. O chamamento para auxiliar os povos africanos foi de uma simpatia enorme e, creio, milhões de discos foram vendidos e enviados para acabar com o sofrimento de milhares de pessoas. Era o prenúncio de uma nova primavera, anos depois daquela ocorrida em Woodstock. O vídeo foi-me enviado, e creio que outras pessoas receberam, chamava atenção à situação/idade daqueles artistas hoje. Michael Jackson e Ray Charles estão presentes em memória, os demais estão entre os 69 e 86 anos. Talvez devessem fazer novo clip para ajudar a África, atualmente saindo de uma “primavera árabe”.

Todos sabemos de cor a lição: se está sobrando em um lugar é porque está faltando em outro. Talvez ainda não tenhamos aprendido, especialmente os povos e pessoas que, vez por outra, reúne-se para uma ação de auxílio. Caso de decoração, não de aprendizado. Um dos meus leitores haverá de dizer que é porque não foi ensinado aos africanos, e a outros povos do mundo, o valor da ganância, do ato da acumulação, da gula. Talvez essa lição seja a que tenha sido aprendida, ao longo da história humana a caminho da humanidade. Mas não dá para todos acumularem. Enquanto isso, o inverno continuará a produzir o frio e, também, o sonho da primavera, onde veramente iremos primar pelo homem e humanidade.