Archive for the ‘Cidadania’ Category

A partir de Brumadinho, lições possíveis.

sexta-feira, fevereiro 1st, 2019

O mês de janeiro nos trouxe muitas surpresas, o que não surpreende, pois é próprio de cada dia ter as suas específicas novidades e propostas de vida e à vida. Pela primeira vez experimentei ir ao oceano, e o fiz em uma barca de pescador, para além de duas horas de navegação. Foram experiências incríveis, maravilhosas. No mesmo dia, enquanto eu desfrutava da beleza do mar, ocorria o desastre da barragem de Brumadinho, MG. A velocidade das notícias solapa paraísos individuais. A simultaneidade parece nos levar a vencer os espaços físicos, as informações nos chegam a velocidades espantosas, e nos colocam em ciclones, nos fazendo girar e viver tempos diversos e distantes como vizinhos. Desde os anos sessenta experimentos momentos como esse e sempre fico parado, tentando compreender o que se passa ou se passou.

A primeira vez que me senti nesse ciclone está relacionada com a Guerra dos Sete Dias, da qual tive conhecimento quando retornava de uma viagem ao interior alagoano, e o rádio de pilha informava que estava havendo mudanças territoriais e políticas no Oriente Médio, tão distante, mas que invadiu aquele coletivo, e me recordo de uma frase mais ou menos assim: “poxa, a gente não pode se afastar e o pessoal faz uma guerra sem nos avisar”. Era ironia, era surpresa, era a descoberta da impotência e da nossa aparente insignificância no drama da humanidade. Não, não era aparente, somos insignificantes, mesmo. Em muitas outras ocasiões essa experiência se repetiu, cada vez com novos equipamentos de comunicação, cada vez mais aperfeiçoados e, atualmente, caso se deseje, pode-se saber de tudo que ocorre no mundo, ao preço de ficar ausente do que acontece na sua vizinhança, na escola de seu filho, na reunião do Departamento da empresa em que trabalha, no quintal de sua casa, e mesmo na sala onde você está conectado com o mundo exterior.

Uma das minhas catequistas, essas pessoas que nos educam na religião (seja ela qual for), na preparação para a minha primeira comunhão me alertou: “devemos amar todo o mundo, mas lembre-se que é mais fácil amar os chineses que você não conhece do que o seu colega ao lado. Procure amar o seu colega e, quando encontrar um chinês de verdade, continue amando a ele”. Pois bem, muitas das informações agora nos chegam pelo Facebook, essa comunidade que nos envolve e nos faz amigos de pessoas distantes (algumas parecem estar tão próximas!) e, até mesmo algumas que encontramos nos corredores da vida cotidiana, da vida física, mas que pouco sabemos delas. O Facebook nos faz querer bem a elas, mas podem nos mostrar que elas são as mais difíceis de serem amadas, porque agora estão duplamente próximas, sendo que, na distância que a comunidade virtual permite, elas expressam mais naturalmente o que tenderiam a dissimular nos encontros imediatos, aqueles que Spielberg chamou de “Terceiro grau”. O criminoso desastre de Brumadinho (a cada hora sabemos mais que foi criminoso) gerou situações que expuseram o pensamento insuspeito de amigos.

Todos os atos são simbólicos e dizem o que desejam e o que se deseja ver neles. Quando o Estado de Israel prontificou-se em enviar uma turma com equipamentos capazes de rastrear pessoas vivas, ocultadas em escombros, um político logo disse que seria uma parada para Israel invadir a Venezuela. Li que muitos dos meus amigos do Facebook acolheram essa bobagem como verdade. Em seguida li que vieram para pesquisar e explorar certo tipo específico de minério, que era mais uma ação de um país imperialista. E li outras sandices semelhantes que eram aplaudidas por amigos daqueles que postavam, sendo que alguns também são meus amigos. E a eles pouco interessava o fato de que Israel foi o único Estado que enviou uma força tarefa para auxiliar os moradores de Brumadinho a encontrar seus parentes, caso eles ainda estivessem vivos. Claro que chegou um momento que tais equipamentos não mais teriam utilidade e a força tarefa retornou. Os comentários de meus amigos lembravam as conversas ocorridas na Alemanha, em 1933, quando começou o boicote às lojas dos comerciantes judeus. Foi o primeiro passo. Os passos seguintes, os professores de história que publicaram e aplaudiram (curtiram) essas insinuações maldosas no Facebook sabem e ensinam aos seus alunos. Contudo, o que ensinam parece seguir uma irônica definição de aula: aula é um processo pelo qual o apontamento que estava no caderno do professor passa para o quadro e, em uma seguida para o caderno do aluno sem passar pela cabeça de nenhum dos dois. É dessa forma que a escola forma ignorantes.

Um dos ensinamentos colhidos por conta do desastre criminoso de Brumadinho é que o Facebook revelou a face nazista de alguns amigos. E, devo seguir o ensinamento de minha catequista, se desejo ajudar a superar o mal que nos circunda.

Promessas e expectativas no primeiro dia de uma nova tentativa republicana

terça-feira, janeiro 1st, 2019

Parte dos anos que vivi está ligada à assessoria à Igreja Católica, com um hiato na formação de padres. Aprendi muito naquele período pois, embora leigo, estive na borda do mundo clerical. Somos muitos com essa experiência de fronteira. Hoje, dia em que Jair Bolsonaro toma posse, vem-me à memória alguns comentários que ouvi de Dom Augusto Carvalho, bispo de Caruaru, cidade do Agreste de Pernambuco. Nascido no ao de 1917, no município de Floresta, Sertão pernambucano, Dom Augusto vivia com simplicidade, cuidava da educação; comprou o Colégio Caruaru e o tornou colégio diocesano, fundou a Faculdade de Filosofia de Caruaru. É apontado como o bispo que mais ordenou padres no Nordeste. Recordo que, em uma de nossas conversas sobre seus seminaristas, disse com um riso sério a um deles, que veio a ser ordenado: quando nós perguntamos se vocês prometem que vão ser obedientes a quem os ordena e aos sucessores, sempre dizem que sim, mas, com o tempo. alguns esquecem que prometeram.

Desde que nasci o Brasil foi governado por duas dezenas de presidentes, entre os provisórios, os ditadores, além de uma Trinca que, segundo Carlos Imperial, se revezava até à posse do general Médici. Todos eles seguiram o ritual de jurar respeitar e fazer cumprir a Constituição. Alguns tentaram golpes (Carlos Luz, Jânio Quadros); Raniere Mazilli bisou a presidência sem ter sido eleito, pois a assumiu antes da posse de João Goulart e depois de sua deposição; todos os generais ditadores, que se autodenominaram presidentes, juraram ser fiéis à Constituição enquanto namoravam com Atos Institucionais, nos fazendo lembrar famosa canção do Rei do Brega, Reginaldo Rossi, em que mencionava uma noiva que “vai trair o marido em plena Lua de Mel”. José Sarney, como Castelo Branco, assumiu o cargo com uma Constituição,mas com o compromisso de promover a feitura de outra, e quando foi jurar que iria respeitá-la, sua mão tremia, e era um tempo em que era bem mais saudável. Seu sucessor, Collor de Mello, estuprou a Constituição, realizando o que dizia que seu oponente faria: tomou a poupança da população fazendo o oposto do juramento. Itamar Franco acordou com seu Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, promover algumas modificações na Constituição de 1988 (longa e ainda não regulamentada) com o objetivo de diminuir o Estado para fazer crescer a sociedade, como se dizia então. Desde o fim da Ditadura que assistimos a utilização das Medidas Provisórias, muito além do que é permitida pela Constituição. Normas constitucionais parece que foram criadas para favorecer alguns grupos e, tendo sido assim, aqueles que auxiliaram fazer a Constituição, mas que só a assinaram por exigência protocolar (não assinaram por convicção) não titubearam em promover pequenas alterações para implementar programas que não havia´m sido debatido por toda a sociedade. O caso da manutenção dos direitos políticos de um presidente afastado legalmente é emblemático. Assim vem sendo a prática: promete-se para não cumprir, como dizia o bispo de Caruaru.

Assistimos hoje mais uma posse, mais juramentos, mais explosão de esperanças por uma parte da população, enquanto outras estão desejosas do fracasso da administração que hoje começa e, um terceiro grupo cultiva expectativas que sempre chegam acompanhadas de desconfianças. Sou desses últimos que não conseguem ver militares (grupo treinado para mandar e cumprir ordens), tipo especial de clero, de gente separada para ser protetora de um povo, mas que não vive a vida do povo que diz proteger. Vivi o tempo de sua dominação, dos seus “presidentes”, mas também conheci e sofri a ação de outros “cleros” menores, mas parte daquilo que um marxista chamava de Aparelhos Ideológicos do Estado. O clero quase sempre se transforma em uma Nomenklatura. Por isso sempre estaremos atentos aos que escolhemos para jurarem que vão nos defender. Quase sempre querem nos controlar.

D de Dezembro, de Direitos Humanos,

domingo, dezembro 9th, 2018

Estudava eu no Colégio Estadual Dom Vital, localizado próximo ao Mercado de Casa Amarela, e recebi de uma colega um LP de Moacyr Franco, que guardo até hoje e, vez por outra o ponho na rodar. Entre as muitas versos de Nazareno de Brito, um deles me vem desde então: “Cada um ver dezembro no fim”, dizia eles a respeito dos conselhos que todos nos cuidam de nos oferecer em momentos de crise, mas o mês de dezembro tornou-se marcante para mim por ter-me iniciado a compreensão de uma enorme bifurcação. Dois momentos, um deles vivido com intensidade por mim, o 13 de dezembro de 1968, pois na tarde daquele dia, mandando “às favas todos os escrúpulos”, os militares e civis que estavam no poder, com exceção de Pedro Aleixo, então vice-presidente, assinaram o Ato Institucional de Número 5 que, supreendentemente, suspendeu todos os Direitos dos Cidadãos. Pois bem, sob a liderança de Dom Hélder, passamos parte daquele ano refletindo sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948. Assim, naquele dezembro de celebração do 20º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, vimos cair uma situação difícil para todos os que, no Brasil estávamos lutando para a realização do projeto que reconhece, a todos os humanos, os direitos de Nascer, de Viver, de Morar, de Pensar, de Falar, de Crer, de Ir, de Vir, de Ser Cidadão, de alimentar-se a à sua Família, de ter Uma Pátria, de Trabalhar, de receber salário por seu trabalho, ter uma Família, de Associação, de ser tratdo com Dignidade e Respeito, Ter acesso ao Estudo, direito a uma Crença, todos esses direitos (outros aqui não citados) que, durante a Segunda Guerra Mundial foram negados a milhares de homens e mulheres, estabelecendo a barbárie, negando a possibilidade da civilização.

O verso de Nazareno de Brito terminava dizendo, de forma magoada e triste: “mas se um dia eu tiver que chorar, ninguém chora por mim”. E deve ter sido assim que sentiam todos os que foram levados a Campos de Concentração para servirem de cobaias a experimentos pseudocientíficos e serem mortos posteriormente, com a negação absoluta de suas humanidades. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é um código, é um projeto de humanidade após a instalação da Maldade em grande parte do planeta. Nenhuma lei obriga qualquer país a cumprir essa declaração, mas não a cumprindo estar a afirmar que abre mão de seu compromisso com a humanidade, encaminha-se para tornar-se inimigo dos que buscam esse ideal, afasta-se do grande colégio das nações. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é uma regra a ser inscrita no espírito, na mente, ou como dizem os românticos, no coração de cada homem e da cada mulher. E, deixando no passado o pessimismo do poeta, se for o caso, todos choraremos as dores de cada, mas evitaremos as dores de todos à medida que nos dediquemos a criar condições para que todos possam gozar de todos os Direitos explicito na Declaração de 1848, e nos demais documentos que ela gerou.

No final deste ano, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa setenta ano de vida, é momento de voltarmos a debater esta pauta, conversar sobre esses diretos cujo exercício nos faz humanos. E, se for verdade que vem a tempestade que alguns nos querem fazer crer, devemos nos lembrar de João XXIII, de Martin Luther King Jr., Camilo Torres, Zé de Galileia, Antônio Henrique Pereira Neto, Helder Câmara, Gandhi, Tereza de Calcutá, Nelson Mandela, Austregésilo de Ataíde, Malcon X, Dietrich Bonhoeffer, Chico Mendes, Herozg, e muita gente que lutou para estabelecer, manter os direitos que hoje nós usufruímos e temos o dever de continuar a sua preservação.

Arquivos: via de garantia do passado do presente e do futuro

quarta-feira, novembro 21st, 2018

O Colecionador de Ossos é um belo filme policial, de suspense, estrelado por Denzel Washington, lançado no Brasil em janeiro de 2000, nos apresenta um policial atarefado em descobrir um assassino em série, que tem como tema/motivação uma série de assassinatos ocorridos em Nova York no final do século XIX. Além da bela interpretação do D. Washington e Angelina Jolie, o filme marcou-me por mostrar como os arquivos da cidade de Nova York estão organizados, bem como suas bibliotecas. Os acervos dessas duas instituições são a maior joia, em minha opinião, da sociedade americana. Elas guardam as histórias que formam a história da cidade, das cidades, podemos dizer, pois o cuidado com a guarda da documentação é enorme naquela sociedade. A sociedade pode ter acesso à sua história porque os arquivos existem, funcionam, guardam os documentos de interesse de todos. O mesmo se diga das bibliotecas, sempre postas à disposição de todos e, existentes nos bairros e subúrbios. E, embora atualizadas em livros, não jogam fora o que já foi lido por gerações anteriores. É assim que se pode saber como se formou o pensamento da sociedade, pois levantando os livros lidos por cada geração, é que fazemos a sua genealogia intelectual. No filme que citei acima, ou em vários outros, nas séries recentemente mais vistas, sempre vemos pessoas recorrendo a arquivos, visitando bibliotecas, lém dos bares e ruas e bordéis, pois assim também são as cidades. Foi buscando informações nos arquivos da cidade, verificando as plantas das cidades de cem anos passados, buscando livros publicados no início do século, que a trama policial foi resolvida.

E o que isso tem com a nossa vida, nos que gostamos tanto de Cocacola e, nossa “elite” sonha com Disneylândia? Nós não temos um arquivo sério, praticamente em nenhum estado brasileiro. O de Pernambuco, uma parte está espremida em um edifício sem espaço para a realização da tarefa de um arquivo público, e outra está em prédio úmido, em região de enchentes, sem condicionadores de ar que mantenham os documentos a salvo. Sempre que chove, as duas dezenas (talvez três) de funcionários têm pesadelos, pensando em como poderão encontrar documentos de duzentos anos. E a capital do Estado, Recife, será que tem arquivo? E as cidades mantêm arquivo? Existe uma política de arquivos para preservar documentos e garantir os direitos dos cidadãos? O Arquivo Público existe para além de uma subdiretoria em algum Órgão governamental? O do Estado de Pernambuco vive uma vida de sem teto: uma administração diz que deve estar na Secretaria de Justiça, a seguinte acha melhor na Educação, mas vem uma terceira e informa que é melhor que fique ligada diretamente ao governador e mais uma pode chegar e dizer que é melhor que o arquivo seja de responsabilidade do secretário de turismo. De qualquer maneira, muito raramente um arquivista é convidado para cuidar do arquivo, quase sempre usado como solução para colocar algum amigo do governador ou de algum político que não sabe bem o que “fundo”.

O que se tornou público em São Paulo, nesta semana com umviaduto é significativo: os arquivos da prefeitura não possuem cópia do projeto do viaduto danificado, uma construção de cinquenta anos!!! Procura-se a viúva do arquiteto, será que ela tem? Mas ela se desfez da biblioteca do marido (os maiores inimigos dos livros são as traças e os herdeiros). Quem sabe a construtora? Ah! Houve um incêndio… Procura-se alguém que trabalhou na construção do viaduto, um aposentado que guarde na memória qual foi a dosagem de cimento utilizado, etc. etc. etc. e como seria em Carpina? Em Campinas? Em Petrolina? Em Fortaleza?
Tudo isso mostra que vereadores, deputados, prefeitos, governadores, e outros agentes do Estado que deveriam cuidar e zelar pela coisa pública, estão mais preocupados com o seu salário pessoal, se podem usar carro oficial, se tem verba para comprar o paletó, se se pode contratar os cabos eleitorais para ficar no seu gabinete para que possam ter a sensação de poder.

Sem cuidar de guardar a nossa memória, a memória de nossos atos, de nossos sonhos que se tornaram edifícios, ruas, facilmente nós seremos engolidos pelo tempo. Os poderosos de nossa sociedade guardam o que lhes interessa, não investem na guarda da história do povo brasileiro. Preferem comprar carros novos para passeio dos juízes e defensores públicos que investir na construção de bibliotecas e em uma política de manutenção desses bens culturais comuns. Precisamos cuidar desses equipamentos em nossas escolas, em nossos bairros, em nossas cidades. Todos nós somos a memória da cidade. Apenas os criminosos não querem guardar documentos, eles provam os seus crimes. E como não cuidam dos documentos, sempre que estão encrencados perguntam: você tem algum documento que prove? Sem documentos não há crime. Por isso eles seguem impunes, evitando que construamos nossa história emquanto eles nos impõem uma narrativa a cada governo.

Viva a República

domingo, novembro 18th, 2018

Vivemos tempos difíceis, segundo alguns, na véspera de um tempo de censuras ao pensamento crítico, da possibilidade da perda da liberdade de expressão do pensamento, uma vez que foi vitoriosa, na disputa pela presidência da República brasileira, uma chapa que tem claro viés de direita política, anticomunista e com claros sinais de que pouco entende de política externa, além de coloração nacionalista, solicitando o retorno do patriotismo. Mas essa chapa foi eleita por mais da metade dos brasileiros, natos ou de escolha eleitores, com idade superior a 16 anos, de maneira livre e aberta para o mundo. Ao escolher esses futuros dirigentes do país, esses brasileiros rejeitaram o modelo que vinha sendo aplicado desde o final do século passado. Veremos e experimentaremos nos próximos anos a que vai nos levar a decisão do último outubro. Se não der certo, por certo que a eleição de 2022, ano do centenário da independência política do Brasil, será uma oportunidade de nova mudança.

Mas esta é a semana da Proclamação da República do Brasil, celebrada no calendário, e com direito a feriado das atividades produtivas para que os cidadãos, os mesmos que, faz um mês, votaram para escolher quem dirigirá a República nos próximos quatro anos. Mas, quando vamos à rua e perguntamos a razão do feriado, são pouquíssimos os que sabem; como este é um saber do cidadão, presume-se que é função da escola republicana refletir e ensinar sobre o tema. Claro que os pais dos alunos, por serem cidadãos devem estar aptos para ensinar, transmitir os valores cívicos da pátria. Pais e filhos passaram, de alguma forma, algum tempo em escolas onde tais valores lhes foram ensinados. Assim, surpreende que muitos não saibam o que é a República e a razão do 15 de novembro ser um feriado. Inclusive não está fácil conversar sobre assuntos dessa natureza, assuntos sobre momentos da história do Brasil, sobre o significado de ser brasileiro, de gostar de símbolos da nação. Coisa quase démodé isso de patriotismo, pois este é o tempo da sociedade global e o comum é a crítica a esses símbolos nacionais gestados no século XIX. Amar o Brasil tem ficado difícil, pois nos dizem que é um país corrupto, e que a bandeira verde e amarela não tem significado, que o certo parece ser o vermelho. Quase ensina-se que é melhor procurar outro país, seja para morar seja para procurar ser cada vez mais parecido com ele. Neste país de corrupto, de violência, um país de povo machista, racista, homofóbico, de tradição europeia, de povo sem educação, que não sabe votar, não, não vale a pena viver, é o que parecem nos dizer celebridades que fizeram e fazem fortuna iludindo a esse povo e que, daqui fogem por causa da violência para lugares onde não existem esses pecados, essas insuficiências do povo brasileiro. Tais insuficiências, estão bem explicadas pelos intelectuais que são ou que vivem em países onde tais insuficiências humanas não existem. Talvez existam, mas eles gostam de lá mesmo assim. Lá eles comemoram o 14 de Julho, o 04 de julho, o Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial (tem até país que celebra a bravura dos soldados brasileiros na Guerra, esses brasileiros que não respeitados aqui no Brasil – recentemente um jovem de 20 anos cuspiu no rosto de um expedicionário chamando-o de fascista). De uns tempos para hoje não parece ser “politicamente correto” assumir que ama o Brasil.

Amar o Brasil não é desamar os demais povos, mas não amar o Brasil onde você nasceu, cresce e se torna adulto, é desamar de parte da humanidade, exatamente aquela lhe é mais próxima. Não parece ser possível conhecer o mundo sem saber andar nas ruas do seu bairro, celebrar a vitória dos povos e não conseguir ver as lutas do seu povo. Quer conhecer o mundo, quer ser cidadão do mundo, conheça sua aldeia, seja cidadão da sua aldeia, parecia dizer quem pensou a palavra COSMOPOLITA. Sabemos pouco dos humanos, de sua história; nos apaixonas por esse ou aquele povo por que ouvimos as histórias deles contadas com orgulho, mesmo sabendo que foram sanguinários, que roubaram povos e nações, que mentiram, mas as suas vidas construíram o país que seus bisnetos vivem. Assim são os heróis deles, assim são os nossos. O que difere é que nós conhecemos os heróis deles e eles conhecem os seus heróis e nós, talvez não conheçamos os nossos heróis. Nossos professores também não. Sabemos pouco de Ana Nery, de Henrique Dias, de Joaquim do Amor Divino, de José Bonifácio, de Machado de Assis, de José do Patrocínio, de Pereira da Costa, de Cruz de Rebouças, de Osvaldo Cruz, de Joaquim Nabuco, de Antônio Vicente Maciel, de Bárbara de Alencar, de Aimberê, de Antônio Faustino, Manuel Balaio, de Marcílio Dias, de Maria Quitéria, Apolônio Sales, de Ulisses Pernambucano, de João Ubaldo, de Érico Veríssimo, e muitos outros.

Sabemos tão pouco de nós, e por preguiça, continuaremos a saber mais dos outros e continuaremos a ter vergonha da bravura que desconhecemos em nosso povo.

Em busca da democracia

quinta-feira, novembro 8th, 2018

Pessoas desacostumados ao exercício democrático estão sempre a cultivar o terror, seja à direita seja à esquerda. Dia 6 de novembro, um manifesto acusa alguns professores de serem “doutrinadores “e os ameaça”. Também ameaça alunos, e diz que irão expulsá-los da universidade. O manifesto ou panfleto não traz assinaturas, é anônimo.

No mesmo dia outro grupo publica nas paredes do CFCH retrato de um professor o acusando de “golpista”. Ameaça expulsá-lo da universidade. Este grupo publica até um telefone para contato.

Um professor agredido é uma agressão ao livre exercício da docência. É insuportável esse comportamento.
É lamentável que estejamos neste nível de incivilidade. Apoio aos prefessores nominados neste horrível documento. Sem medo enfraqueceremos o ódio.

A Universidade publica uma nota repudiando o documento sem assinatura. Nâo menciona o outro documento. Deveria ser mais isonômica