Archive for the ‘Cultura popular’ Category

Coisas que se acredita

sexta-feira, outubro 7th, 2016

Então já estamos no sexto dia de outubro, este ano um dia mais único que todos, pois ele o é em todas as direções: 6102016. Um dia de alegria para feiticeiras e feiticeiros, bruxos e bruxas, todos crentes de que há deuses que cuidam dessas coincidências e a magia do pensamento assegura que tudo já está organizado.

Faz dois dias que estávamos a lembrar um jovem de Assis, aquela cidade italiana que tinha a vocação industrial antes que ocorresse a grande revolução que carrega esse nome. Francisco diz ao pai, homem de indústria e influente na política da cidade, que tem mais o que fazer que ficar juntando moedas trocadas por pedaços de panos coloridos. Prefere ser irmão de todos e sai para reconstruir a casa do Pai, depois de quase destruir a casa do seu pai, segundo o pensamento de Pietro.

Outubro é o mês para lembrar que o jovem Francisco ficou desnudo para nada dever a Pietro de Bernadone dei Moricone, demonstrando à cidade que recusava a riqueza daquele homem, e saiu em busca dos pobres e de reconstruir a Igreja, pois que sentia ser sua essa tarefa. E saiu a amar de tal forma que incomodou muito aos que diziam como amar. Louco pela vida em uma época em que as mudanças provocavam medo e alegria (elas sempre fazem isso), ria desses medos e aventurou-se na vida.

Muitos jovens ricos e nobres seguiram seus passos, para escândalo dos familiares. Também havia pobres. Mas Fernando foi um desses nobres que seguia o sonhador. Fernando veio a ser professor em uma das primeiras universidades. Como Francisco, Fernando, por suas ações, foi considerado santo, um desses homens que se aproximam muito de Deus e passam a ser modelos para os demais. Fernando é o Antônio que nasceu em Lisboa e foi professor em Pádua, mas segundo minha tia Neguinha, cuidava de achar tudo que se perdia dentro de casa. Aliás, nos lugares de onde venho, pois sou matuto, essas coisas que se perdem são, dizem, artes do Saci, um curumim tão travesso que resolveram pintá-lo e dizer que ele é africano. Tia Neguinha nunca levou muito à sério essa história de que Antônio cuidava de ser casamenteiro, pois essa era a função de Gonçalo de Amarante, outro português que também vivia na mesma época de Francisco e Antônio.

No final do século XIX, os italianos chegaram em grande quantidade ao Brasil e trouxeram o São Longuinho. Pois bem, ele logo se tornou o achador oficial, diminuindo as responsabilidades de Antônio. Antônio pedia sempre algum tostão, o Longuinho quer que você dê três pulos e grite seu nome. Pouca gente sabe é que Longuinho esteve muito próximo de Jesus, pois dizem que ele estava na crucifixão, tendo sido o soldado que usou a lança que perfurou um lado de Jesus, de onde saiu sangue e água. Até hoje não sei bem qual relação fazer entre a longa lança daquele soldado (por isso seu nome Longuinho) com as coisas perdidas e os pulinhos que se dão em seu louvor. Talvez seja porque depois de furar o lado do Senhor, ele encontrou a fé. Pode ser, mas pode ser apenas mais uma dessas coincidências que se descobre para dar algum sentido aos pequenos gestos da vida.

Dedicado a Eduardo Hoornaert, apreciador das histórias que o povo conta

Zeferino Rocha, meu mestre

terça-feira, agosto 2nd, 2016

E certas notícias chegam um dia. É infalível que saberemos da morte de alguém, de algum conhecido a cada dia, especialmente se já foi rompida a faixa dos sessenta. São notícias que sabemos de sua chegada, mas que nos surpreendem e envolvem de tristeza, nostalgia. O boletim informativo da universidade tem sido o mensageiro de algumas dessas notícias envolvendo colegas que já estão aposentando ou aposentados. A notícia que li hoje levou-me ao início da década de sessenta, ela me diz que no dia 31 de julho morreu o Professos Zeferino de Jesus Barbosa Rocha.

Quando conheci Zeferino Rocha. Eu tinha dez anos de idade, pensava em ser padre, e ele era o padre Reitor do Seminário Menor da Imaculada Conceição da Várzea. O Jovem padre gostava de Futebol, jogava com os alunos mais velhos, da Terceira, aqueles que estavam a caminho da filosofia e da teologia. Tenho na memória alguns momentos dessas excursões futebolísticas de Zeferino. No dia do padre, primeiro domingo de Agosto, festa de São João Vianey, era um desses dias especiais, quando ocorria o confronto entre os padres e os seminaristas. O time dos padres recebia alguns professores leigos e um ou outro seminarista para compor o time. Zeferino sempre jogava no ataque e sempre teve que enfrentar quem era, para mim, o menor do seminário, um gigante que chamávamos de Pingo.

Zeferino me apresentou a música romântica do século XIX. Duas tardes por semana ele reunia alguns de nós para ir até à sala da reitoria e nos ensinava a apreciar a música, conversava sobre os compositores, suas vidas e o sentidos dos movimentos sonoros. Às vezes lia-se alguma poesia. Anos depois esta experiência serviu-me para introduzir a disciplina Educação Artística, no curso médio do Colégio São Luiz, tentando imitá-lo.

Jamais tive ‘aula’ com Zeferino, mas aprendi muito com ele. Aprendi que devemos aceitar a morte, mas também rebelar-se com ela. Essa lição foi decorrente da morte inesperada de um dos meus colegas, o seminarista Roque, da diocese de Pesqueira, que foi alcançado por um tubarão na praia de Boa Viagem, onde fomos a um domingo de recreio, na casa de retiro dos padres jesuítas. Foi em 1962. Os lamentos de Zeferino e a sua discussão com Deus ainda ecoam na minha memória, como ecoaram na capela, exigindo que o corpo de Roque fosse devolvido para ser entregue à família, o que só veio a ocorrer na quarta feira. Aquela tarde, aquela oração jamais esqueci. Sim não sei das palavras, mas da emoção que sua alma sentia e me toca até hoje. No ano seguinte Zeferino já não era mais o Reitor. Zeferino parecia ter sumido de minha vida. Soube que havia deixado o presbiterato, e que se tornara psiquiatra, professor da UFPE e de outras universidades, entre elas a René Descartes (Paris V).

Meus contatos com Zildo, seu irmão, informavam-me no que era a minha curiosidade. Ele aposentou-se no mesmo ano que entrei na Universidade Federal de Pernambuco. Mas encontrei-me com ele lendo a Paixão e Amor de Abelardo e Heloísa, um belo livro, e também as Cartas desses amantes, traduzidas e comentadas por ele. Durante os quatro semestres que lecionei Idade Média, esses livros constavam da bibliografia. Quando Paula de Renor e Carlos Carvalho encenaram adaptaram seu livro para o teatro, fui convidado a conversar com o elenco sobre o século XII, pude finalmente falar com meu mestre Zeferino Rocha, agora já amparado em uma bengala, mas sempre pesquisando e escrevendo sobre o Amor e a Paixão, essa dupla geradora de conflitos e vida.

Nessas palavras desejo expressar minha gratidão, e até mesmo amor, ao padre, ao escritor e ao professor Zeferino Rocha.

Histórias das e nas escolas que o povo cria.

terça-feira, fevereiro 16th, 2016

Todos nós temos nossas predileções e, se algumas delas nos afastam de algumas pessoas, haverá outras que nos aproximem dessas mesmas pessoas. Não podemos excluir de nossas relações apenas por pensarem um pouco diferente de nós, algumas pessoas, pois, é possível que elas tenham mais coisas em comuns conosco do que imaginamos ou percebamos na superfície. É por darmos atenção às epidermes que cultivamos sentimentos racistas, excluímos socialmente, politicamente, religiosamente pessoas de nosso entorno social. Ênfase em demasia em algum aspecto entre muitos que a realidade e as pessoas possuem, escurece nossa visão, impede que a luz nos penetre e, sem percebermos, nos separamos do mundo, criando uma ficção que nos agrada, nos satisfaz por possibilitar exaltar a nossa capacidade de nos ver. Confundimos o mundo conosco, nos fazemos deuses e nos amamos, ou julgamos termos encontrado o amor, ao confundir a nossa sombra conosco. É a idolatria, o culto ao vazio de sentido e damos sentido ao vazio. É a nossa desgraça.

Sempre que me perguntam sobre o Maracatu de Baque Solto, ou sobre os desfiles que clubes, troças, blocos, maracatus, afoxés que as pessoas realizam durante o carnaval, eu digo que vejo a História do Brasil, do meu povo, de suas/minhas experiências que são colocadas nas ruas, nos lembrando de nosso passado de sofrimento, mas posto ali na glória das artes, quase apontando o que poderia ou poderá ser. Afinal, aprendi com Carlos Mesters que o Paraíso, nosso mito da Criação, pode ser uma saudade ou uma esperança. Meu amigo Paulo Cavalcante, carioca mundializado após três viagens aos NOrdeste, logo após os primeiros desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, profetizou que a transmissão que a Rede Globo de Televisão estava a fazer do desfile, era um desrespeito à cultura popular e a história do Brasil. Como é belo o instante em que o historiador rompe e expõe a manipulação, abre caminho para a superação do momento, escapando do processo de alienação espetacular que a sociedade de consumo impõe. O desfile das Escolas de Samba, dos Maracatus dos Baques Virado ou Solto e todas as demais manifestações populares que ocorrem no Reinado de Momo, são aulas, são reflexões de nossas vidas, das contradições que nos fazem ser o que somos. A cada carnaval somos chamados a ver como se reconta a nossa história e somos convidados, como Paulinho da Viola, a ver as coisas que estão no mundo e não apenas no que dizem as academias oficiais compostas por quem quase sempre vê o povo tão distante, e cria essas distâncias, que já não se reconhece nele. Nem o povo se vê nelas.

Claro que o carnaval é um festival que aliena, assim como algumas (às vezes quase todas) aulas de história, filosofia, psicologia ou sociologia em nossas universidades e nos encontros que elas e seus professores realizam para conversar sobre o povo. E então se louvam por seus conhecimentos insossos, sem sabor. Saber sem sabor não é sabedoria.

Carnaval: o cheiro do povo e o povo dos camarotes

quinta-feira, fevereiro 4th, 2016

O Carnaval que começaria no próximo sábado, conforme uma tradição, está ocorrendo a pleno vapor, de acordo com a nova tradição iniciada na segunda metade do século XX, quando nossa sociedade buscava encontrar uma maneira de escapar da repressão política imposta pelos civis e militares a partir de 1964. O protesto musical e o deboche dos costumes foi um dos caminhos encontrados para diluir o mecanismo repressivo. O golpe interrompeu a criação da alegria, amorteceu muitas utopias, milhares de desejos. O povo parecia ter desaparecido, mas nos subúrbios continuava a existir o processo de criação do povo, de manutenção de suas alegrias. Esse processo parece ter acontecido em todo o país. Apenas nas pequenas cidades e nos subúrbios das grandes, é que o carnaval, a alegria popular mantinha-se.

“Os anos setenta foram muito duros, para os pobres que empobreciam com a politica do arrocho salarial, e para a classe média, que ainda corria atrás do “corcel cor de mel”, mas foram também o início do processo de reconstrução da alegria. O ano de 1972 trouxe o filme de Cacá Diegues Para quando o carnaval chegar que parece ter tocado na letargia. Lembrança rápida nos chega a Banda de Ipanema em 1973, o Nóis sofre mais nós goza, em 1976, o Galo da Madrugada em 1977. Em Olinda, naquele 77 ocorreu a vitória de Germano Coelho e reinvenção do carnaval de rua de Olinda, experimentado ao longo do ano com o Forró Cheiro de povo. Voltava a irreverência no carnaval. Uma explosão de criatividade foi acionada e muitos blocos foram criados e tomaram as ruas das cidades, ofuscando os bailes de clubes e os corsos dos automóveis – palanques ambulantes de exibicionismos.

Mais uma vez o povo recriou a rua, como o fizera nos primeiros anos da República Velha, o que gerou a criação de instituições para ‘organizar’ o carnaval, orientar os desfiles dos blocos e escolas de samba. Processo semelhante ocorre nesses anos finais da ditadura, com a criação de uma política de incentivo ao turismo – o que é muito bom pois leva o brasileiro a conhecer o Brasil ao menos no período do mundo de ponta cabeça – mas que foi, aos poucos, domando a alegria livre em espetáculo para os visitantes ou, o que pior, para as elites locais, que passaram a transferir os camarotes dos clubes para as ruas, estreitando o espaço para o largos movimentos da alegria que, no carnaval é a vitória contra a mesmice da exploração diária. Novas formas de controle vieram. Cordões de isolamento, passarelas que pretendem tornar o povo observador, admirador da alegria e não o fruidor de sua espontaneidade. Agora é espetáculo o carnaval. O Galo da Madrugada agora sai às dez horas da manhã e, para ele ser o espetáculo para o mundo via televisão, as ruas são fechadas para os “blocos de sujo”; as agremiações que se formam sem pretensões outras que a celebração da amizade e o conforto de zombar do desconforto das roupas europeias em clima tropical. Pelo contrário, agora, até os maracatus de baque solto, criação e caboclos, gente de origem silvícola, de índios da terra, são obrigados a desfilarem como se fossem uma corte europeia do século XVIII.

E se o carnaval continua além da Quarta Feira de Cinzas e, parece-me para recuperar o tempo que perde nos três dias tradicionais em desfiles para agradar os poderosos que só gostam do povo abaixo dos seus camarotes. Eles, como aquele general presidente, preferem o cheiro dos cavalos, não gostam do cheiro do povo.

Feliz Ano da Misericórdia

domingo, janeiro 3rd, 2016

Terceiro dia do ano de 2016, Ano da Misericórdia, estabelecido pelo Papa Francisco para os católicos, tendo em mente que a Misericórdia é fruto do encontro do amor com a justiça. Quando isso ocorre não há espaço para a exclusão de nenhum membro da comunidade humana e também da comunidade ecológica de todos os seres que formam o universo. O Ano Santo da Misericórdia é um grande desafio espiritual para os católicos, mas está aberto também para todos os homens de Boa Vontade. Assim, uma das melhores maneiras de começar o ano é reler, ou ler, a carta Laudato Si – Louvado seja o Meu Senhor – que nos põe diante das responsabilidades humanas para com o planeta e todos os seus habitantes.

Uma das maneiras que temos de viver a misericórdia é modificarmos nossos hábitos de consumo que, podia ser mais bem dito, como modo de estragar e destruir o que está ao redor. Somos seduzidos, nos deixamos seduzir com o consumismo, achamos que ‘não posso viver’ sem isso ou sem aquilo e, por essa razão temos uma grande quantidade de objetos que quase não usamos. Destruímos a natureza que nos cerca, que nos alimenta. Guardando o que não nos é necessário auxiliamos o processo de exclusão social, pois o que nos sobra falta em algum lugar. Ostentando e vivendo de maneira supérflua hostilizamos os que vivem apenas com o necessário. Assumindo posturas dúbias e ou autoritárias com aqueles que, de alguma maneira estão conosco, nos servindo ou nos auxiliando em alguma tarefa, continuaremos a construir o mundo desigual que criticamos. O Ano da Misericórdia deve nos lembrar que somos apenas uma das criaturas que formam o universo e, se temos o dom da possibilidade da consciência, é para preservar o mundo, não para dominá-lo de forma brutal e inconsequente.

Esta semana a cultura brasileira completa o ciclo natalino com a visita dos Santos Reis em muitas localidades onde são recebidos com festas e brindes; em muitos povoados e pequenas vilas estão a celebrar a congada, danças em honra de São Bendito, o santo que cuida da comida e que nada deixa a faltar; em outras comunidades, celebra-se a São Gonçalo do Amarante, que se dedicou às mulheres excluídas, uma festa de fartura, pois assim é que é o céu para os despossuídos; noutras comunidades ainda se faz a Queima da Lapinha, tornando cinza as vaidades das pastoras, gerando a possibilidade do recomeço da longa jornada do ano iniciante. Que Sejamos felizes nessa nova etapa da jornada que temos no universo. Sejamos felizes por sermos colaboradores com a beleza.

Homenagem a Zé Duda, a Garganta de Aço de Nazaré da Mata, Mestre de Maracatu de Baque Solto.

quinta-feira, setembro 24th, 2015

Uma das características das comunidades e dos grupos tradicionais é o respeito aos mais velhos. Eles são os guardadores das memórias de todos. Em sociedade de pouca ilustração literária, eles são o dicionário e a enciclopédia que tudo sabe. Eles são sempre simples, cessíveis e dispostos a dividir o seu conhecimento. Sua importância é tal que os franceses, exploradores e destruidores de parte das tradições de povos africanos nos séculos XIX e XX, após a Segunda Grande Guerra, a que pôs fim a destruição de seu império afro-asiático, quis dar tons de nobreza a esses homens e veio a palavra GRIOT. Ela que definir a importância desses velhos senhores na manutenção e transmissão do essencial da cultura desses grupos.

Na tradição judaica, o Conselho dos Anciãos são de grande importância na garantia da pureza da sua fé e tradição, da sua cultura e da sua religião. Ser Ancião, mais do que ter vencido a idade mais que seus contemporâneos, é título que se respeita, ainda que dele se tenha alguma discordância. O respeito ao Ancião é garantia da vida cultural do grupo.

Os indígenas temiam e respeitavam os pajés, homens que guardavam os segredos da vida, do tempo, das doenças e da saúde. Era uma função perigosa, pois se a tribo viesse a sentir-se prejudicada por alguma de suas ações, podia expulsá-lo e até matá-lo. Mas há sempre a noção de respeito, como é demonstrado nos rituais da Jurema Sagrada, em Casas de Candomblé ou de Umbanda, lugares em que o Preto Velho vem com seus conselhos e admoestações. E esses pretos velhos foram abandonados após a Lei do Sexagenário, com a impressão de que se lhes davam a liberdade.

Poderíamos seguir mostrando a importância desses senhores e o respeito que a eles é dedicado, até mesmo em sociedades que abraçaram fortemente e são símbolos da modernidade, como é o caso da sociedade japonesa.

Os brinquedos tradicionais da Mata de Pernambuco, os brinquedos populares vivem da memória e da poesia de seus mestres. Alguns dos atuais mestres quase criaram essas manifestações culturais, quero dizer, quase estiveram presentes nos primeiros momentos desses brinquedos que formam a cultura pernambucana. Essas tradições começaram a ser criadas nos anos seguintes à leis que levaram à Lei Áurea, nos momentos anteriores e seguintes à Proclamação da República. Elas têm perto de 130 anos e, mestre Zé Duda, por exemplo, tem 75 anos e conviveu com ANTONIO BARACHO, ZÉ CATU, JAOQUIM MIGUÉ PAILINHA ZÉ VIRIÇO, BATISTA, alguns dos pioneiros, talvez a segunda geração de homens livres para brincar. Homens como Zé Duda e Mestre Mariano são a memória dos tempos inventores dos sambas e moduladores dos movimentos; eles aprenderam com os primeiros mestres, continuaram e aperfeiçoaram seu trabalho, tornaram público o pensamento da gente comum, pois o pensamento da oligarquia açucareira possui seus próprios intelectuais e os modernos meios de reprodução cultural.

É Considerando esses pensamentos e outros que aqui não estão escritos, é que entendo ter sido muito justo o que ocorreu no dia 16 de setembro, na cidade do Carpina: o jovem mestre de maracatu, André de Lica, atual mestre do Cambindinha Brasileiro de Araçoiaba, prestou a José Bernardo da Silva, conhecido como Mestre Zé Duda, e é reconhecido como o Garganta de Aço, o Papa Troféu.
Zé Duda começou em 1951 a mestrar, ainda menino. Seu modelo primeiro foi Baracho. Durante 41 anos foi Mestre do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Viu o “Estrela de Camará” nascer, crescer, vencer e ser modelo de novos maracatus. Neste ano de 2015 ele despediu-se da sua Estrela e dos carnavais após vencer na Avenida Dantas Barreto e levar a Estrela ao lugar onde só brilham os campeões.
Agradeço a André de Lica ter organizado o encontro de mestres para homenagear um dos maiores mestres do Maracatu de Baque Solto, Zé Duda, o Peito de Aço de Nazaré da Mata. O seu gesto é de quem ama sua cultura e sabe quem são os heróis do povo, os mantenedores da sua cultura e da vida de sua alma