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Drama 11 – Mais que nunca é preciso cantar

quarta-feira, maio 27th, 2020

Mais que nunca é preciso cantar que prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão

Final do mês de maio é a aproximação do meio do ano. Afinal passou a páscoa e, para alguns povos é a época da colheita ou das férias de verão. Mas isso era nas sociedade agrícolas que eram organizadas de acordo com a sequência das estações. O mundo moderno, no sentido de ser o mundo industrializado, pleno das máquinas que a matemática do engenheiro uniu-se à criatividade dos inventores segue outros modelos, pois a noite não mais existe para descansar e preparar-se para outro dia de trabalho no campo. A noite e o dia continuam existindo mas carregam muitas outras possibilidades de uso, especialmente para a diversão. Dorme-se outra hora, ou não se dorme. O mês de maio, no mundo católico, o mês de Maria, era o período de usar as noites todas indo à igreja para a reza do terço, da Ladainha, finalizando-se na coroação de Nossa Senhora como Rainha, dos Homens, dos Anjos, do Mundo.

O mês de maio começou a ser diferente em 1969. Aquele foi um ano carregado medo, aqui no Brasil. Toda uma geração estava começando a experimentar o que era viver em uma ditadura, embora ela existisse desde 1964, quando, militares e empresários depuseram um presidente que perdera a liderança da nação. Será que a tivera em algum momento? Essa pergunta existe, embora seja parcamente exposta. Indivíduos e comunidades não são seduzidos pela ideia de praticar dizer a verdade que pode lhes envergonhar. O ano de 1968 foi mais glorioso: nos Estados Unidos da América do Norte pelo festival Woodstock, um engano que virou sucesso; na França, pela ocupação das universidade realizada por estudantes e pela quase deposição De Charles De Gaulle; pela Primavera de Praga. Foi, também, o ano do Massacre na Universidade do México; e, no Brasil, foi marcado pela Passeata dos Cem Mil ocorrida em junho, ocorrida três meses após a morte de Edson Luiz, em março, no restaurante Calabouço; pela edição do Ato Institucional de número 5, em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, protetora dos olhos. Assim, 1969 começa e vive a instalação do medo. Para os que viviam em Pernambuco, este medo tornou-se tangível pelo atentado contra a vida de Cândido Pinto,  presidente da União Estadual dos Estudantes, ocorrida em abril; no mês seguinte, pelo sequestro seguido do assassinato do padre Antônio Henrique de Pereira Neto.

Ao longo de 1968, a Arquidiocese de Olinda e Recife tomou como tema central de sua ação a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, celebrando seus vinte anos. Claro que era uma ação com o objetivo de alertar o descompromisso do Brasil em assumir a realização do projeto universal. Creio que essa foi a razão do ódio profundo que a ditadura cultivou contra Dom Hélder Câmara, o primeiro grande líder defensor desses direitos. Participei ativamente da preparação e da realização dos eventos ocorridos no Colégio São José e na Paróquia do Arraial do Bom Jesus, em Casa Amarela. Dom Hélder nos apontava o caminho de fazer a Revolução dentro da Paz, em um período em que a violência começava a tomar novas formas. Vivíamos na apreensão do que ocorreria no dia seguinte. E os dias seguintes nos colocaram diante do inimaginável: mataram um padre por não puderem atingir o bispo. Um recado cifrado que foi respondido com orações e a reunião de quase todos os setores da sociedade. Sequestrado após uma reunião com jovens de classe média, moradores do bairro de Parnamirim, jovens de famílias tradicionais, cujo nomes lemos nos livros de história, viram, sem se aperceber, o sequestro. O corpo do padre foi encontrado dois dias depois, massacrado pela tortura dos agentes do regime. A comunidade católica entoava, na Matriz do Espinheiro, o hino da Campanha da Fraternidade daquele ano, que tinha como tema: FRATERNIDADE E VIDA: DOM E COMPROMISSO. A canção, ainda hoje cantada, diz assim: “prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão.” Durante o cortejo que levou o esquife do padre Henrique desde o Espinheiro até o Cemitério da Várzea, soldados do exército nos acompanhava dizendo que era par nossa proteção, mas na verdade era uma ação intimidatória, provocatória. Em determinado momento tentaram tomar o caixão de nossas mãos. Tremi de medo, pensei correr, muitos pensaram, poucos fizeram e, numa resposta começamos a cantar o Hino Nacional Brasileiro, que os ditadores haviam tomado para si, como o fizeram com os demais símbolos nacionais. As vozes misturavam e os cantos ecoaram ao longo da Avenida Caxangá. O Enterro do padre Henrique nos chamava a defender o Brasil, não permitindo que os ditadores e seus sequazes nos expulsem de nossa pátria, de nossa nação. Cantar o Hino Nacional passou a ser uma prática no enfrentamento com os ditadores. Foi assim na campanha do anticandidato Ulisses Guimarães. Aos poucos, nos anos seguintes fomos retomando o país da mão dos seus destruidores, apontando seus erros, até que eles assumiram que fracassaram e nos entregaram o país de volta, mas o devolveram maculado pelo mal, como podemos perceber atualmente.    

Nos dias atuais assistimos os filhos e netos da ditadura se apossarem da nação, dos símbolos nacionais. Aproveitam da pandemia do Covid 19 para um processo de higienização social, torcendo para morram os velhos e os fracos.  Não podemos permitir isso. Não podemos ouvir, sem reação, esses netos de carcereiros e torturadores, netos físicos e espirituais,  continuem matando-nos. Devemos lembrar e cantar nossas canções de amor à vida, vivê-las, porque “mais que que nunca é preciso cantar” que “prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão” e  criando “um dia que vem vindo e que vivo pra cantar na avenida girando, estandarte na mão pra anunciar”.   

Dia do Índio? Dia do povo brasileiro?

domingo, abril 19th, 2020

Pois então estamos no 19 de abril, data que foi estabelecida como o Dia do Índio, para que não fosse esquecido o aniversário de Getúlio Vargas, sempre comemorado com festas durante a ditadura que muitos querem esquecer para manter limpo o nome de suas famílias; mas é também dito como o Dia do Exército, pois que o ligaram desde sempre à Batalha do Monte Guararapes, em Jaboatão, Pernambuco. A vitória que teve a participação de índios, negros, mestiços e alguns brancos contra os holandeses, é vista como sendo simbólico da formação de um Brasil múltiplo em tradições de povos e culturas, por isso a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes anuncia em placas nas entradas da cidade “aqui nasceu a pátria”.

E o dia começou com a leitura de três amigos da rede de amizade virtual. O primeiro deles fala do exército. Não é um artigo escrito, mas um depoimento da historiadora Marcília Gama sobre uma instituição, criada no tempo em que Getúlio Vargas, ainda não criara a ditadura, mas a preparava: o Departamento de Ordem Pública e Segurança – DOPS. O golpe do Estado Novo e a ditadura que se seguiu só foram possíveis com o apoio do exército. O DOPS, órgão do Estado, praticamente avançou sobre todo o século XX, marcado pela presença do ditador que veio dos Pampas. Deslindar os caminhos do DOPS em Pernambuco foi a grande tarefa que se impôs Marcília Gama, a quem entrevistei em meu programa (https://www.youtube.com/watch?v=PncnwzhtRc ) da Rádio Universitária AM, atualmente Rádio Paulo Freire. Quando a entrevistei, Marcília acabara de alcançar o Mestrado em história, e fazia suas pesquisas, auxiliando a desanuviar as sombras que escondiam as ações dos agentes do Estado, em guerra constante contra o povo, embora dissesse que era contra o comunismo. Devemos ter em mente que os ditadores nunca defendem o Estado, defendem o seu estado social, os seus interesses pessoais e, o DOPS e toda a rede na qual era partícipe, esconde e confunde. Muito feliz de começar o dia ouvindo Marcília Gama, nessa entrevista que ela concedeu a projeto da Universidade Federal Rural de Pernambuco, trazendo novos olhares de historiadores sobre a ditadura de 1964-1985, tempo de domínio das Forças Armadas, Exército à frente.

A segunda leitura foi mais amena, um texto de Marcelo Cavalcanti anunciando que virá uma página com o título Atrevido com Estilo, com textos sobre o Recife dos anos sessenta, o que pode ser uma nostalgia ou depoimentos de quem viveu uma época em que, para alguns, o mundo era apenas o que era originário dos centros culturais, e ainda não se oferecia a oportunidade para o surgimento da cultura brasileira. Neste texto ele narra como foi vivido um São João entre casas de família abastada, uma passagem rápida pelo povo que dançava xote e termina em um banco de praça. Vai ser um percurso interessante, verificar se houve realmente esse engajamento com a cultura do povo brasileiro, que não sabia falar inglês e curtia os Beatles nas letras de Nazareno de Brito e outros. Os bens aquinhoados sempre estudaram inglês e cuidavam de debochar dos que ouviam Golden Boy e Renato e seus Blue Caps.

E terminando o começo da manhã, li o belo texto de Lula Eurico, o “burgomestre” do Arruado da Várzea, incrustado na Universidade Federal de Pernambuco, um resto do Caminho que ligava o Recife ao Engenho do Meio e o Engenho de São João, aquele que era de João Fernandes Vieira. Pois que Lula Eurico lembra, em sua crônica deste dia, que deve ter havido uma festa no engenho, nos dias seguintes à Vitória dos pernambucanos sobre os holandeses. Ele menciona que, embora os grandes beneficiários da vitória houvessem sido os proprietários, jamais deve ser esquecido que o sangue ali derramado saiu dos corpos de índios, negros, mulatos, que têm sua representação nas figuras de Felipe Camarão e Henrique Dias, André Vidal de Negreiros. Esses são muito esquecidos na historiografia e, nas aulas de história, são palavras que saem automaticamente e sem maiores comentários dos professores. É por isso são desconhecidos, que sabemos tão pouco sobre os que derramam o sangue na construção da vida do Brasil, e sabemos mais dos que saboreiam os resultados que os enriquecem. Quando não falamos sobre o povo, comum que faz a história com o seu sangue e suor, terminamos apenas por curtir as cervejas e vinhos e migalhas que caem da mesa dos construtores e mantenedores da história organizada pelos que fizeram os muitos DOPS desse país.

Sebastiões redivivos

domingo, dezembro 15th, 2019

Sempre bom encontrar pessoas que consideramos amigas, com as quais podemos conversar sem temor, sabemos que ela vai nos ouvir, não perscrutar possíveis erros em nossa argumentação para, posteriormente, informar outras pessoas que não somos isso e sim aquilo. E se achamos isso bom e celebramos tais ocorrências é porque, parece, não serem bem comuns. Num desses encontros em que conversamos sobre a surpreendente situação vivenciada atualmente: o mundo parece de “pernas pro ar”. Talvez não seja tão difícil de entender como, os cabeças de coco verde, que carregam bastante água e pouca polpa, passaram a dominar os espaços de poder, após anos de cultivo da ideia de liberdade, de igualdade, fraternidade e outros projetos similares. Conhecemos as árvores pelos frutos que elas dão. O resultado desse desencontro entre os ideais cultivados desde os anos setenta do século passado e a realidade medíocre do pensamento único que foi cultivado no início do século XXI fez surgir esses comportamentos conservadores, reacionários presentemente vividos; uma realidade que pode ser comprovada nas escolas, nos ônibus, nas igrejas, nos partidos políticos, nas associações de classe, nos programas de televisão. E a reação negativa diante dos bons filmes é outro aspecto do cultivo da mediocridade para vencer na vida. Chico Buarque e Ruy Guerra, durante a ditadura civil militar terminada em 1985, nos alertavam que “vence na vida quem diz sim”, mas não percebemos que esse fenômeno não ocorre apenas sob domínio dos militares. E então nos perguntamos: O que aconteceu com a educação? Perguntávamos; O que aconteceu com as igrejas? E quase caímos na tradicional desculpa que foi tudo “culpa dos jesuítas” e seu modelo educacional que dominou o tempo de controle político-militar português nessas terras ditas, hoje, brasileiras. Mas os jesuítas foram expulsos pelos portugueses ainda na fase tardia do século XVIII. Faz muito tempo e esse argumento só é repetido para justificar a indisposição dos governantes brasileiros em ampliar o Brasil.

E então podemos imaginar, e pode ser mais que a imaginação, pode ser a realidade, que os sucessores dos vice-reis continuaram o seu comportamento, suas práticas de não enxergar que o Brasil é maior que o grupo que forma a corte. E todos queriam participar da corte, e todos querem participar da corte, não encerrar o tempo da corte. Os últimos dados ofertados pelo IBGE nos diz eu ainda vivemos no tempo quase aristocrático, eurocêntrico que gira sobre si mesmo à custa da exploração de suas colônias. E, claro, a corte atrai aqueles que sempre dizem sim aos abusos dos vice-reis e, é dessa forma que os medíocres assumem o poder, sempre dispostos a seguir as orientações emanadas do ‘conselho’, evitando contrariar o vice-rei em exercício. Tem sido assim, também desde o início do século XXI. Os dados divulgados pelo IBGE nos indicam que as estruturas de uma democracia não estão sendo bem fundadas, pois confundem a pintura do rodapé com o cuidado que se deve ter ao estabelecer o alicerce necessário. E como o alicerce de nossa sociedade foi criado para ser explorado pela corte do Rio de Janeiro ou de Brasília, temos que os atuais vice-reis estão a destruir o rodapé que iludia a população explorada. Vivemos sob um governo que desarticulou a defesa das reservas naturais do país; está desestruturando o sistema educacional; cuida de abolir a proteção aos mais pobres; está armando os grupos que defendem a corte pois dela usufruem benefícios; dá mostra de por um fim ao Sistema Único de Saúde – SUS, mais um vez em benefícios dos áulicos da corte.

Uma das razões para este embrutecimento da sociedade brasileira, diz-me um amigo, é resultado do sistema educacional (no fundo ele queria dizer ‘jesuítas’) que forma médicos, arquitetos, engenheiros, advogados sem uma compreensão do Brasil real. E isso é feito com sistema e dedicação, como nos indica a retirada de discussões filosóficas das escolas desde o tempo da ditadura. A sequência de ministros e secretários estaduais e municipais de educação os diz claramente como isso é feito: ausência de continuidade de uma gestão para outra: todo medíocre quer colocar sua marca pessoal na ‘galeria do poder’ e, para tal, cuida de destruir o que o anterior fez, pois cada gestor age como o “único sábio”, aquele que vai solucionar o Brasil. Todos os intermediários entre o Vice-rei e o povo, além de apresentar o poderoso de plantão como ‘salvador da pátria’ sente-se, também um Sebastião redivivo.

As décadas de cada dia

terça-feira, junho 4th, 2019

Colocar um ponto, não o final que tudo acaba, mas um que marque o início de algo novo. É o desafio que acontece a cada manhã, construir o dia. Atividade corriqueira, difícil da qual não se pode fugir, pois cada momento carrega a sua surpresa. E, mesmo tendo consciência dessas artimanhas que a vida oferece, saímos do sono, sonhando dirigir a vida. E então fazemos, de novo o que foi feito ontem, mas ontem foi realizado de modo diferente e, no entanto, o resultado é quase o mesmo, pois o café tem o mesmo sabor de ontem e, embora o ovo pareça o mesmo, sabemos que foi outra galinha caipira que o pôs. E faz cinquenta anos que puseram o corpo do padre Antônio Henrique Pereira Neto, ainda com um fiapo de vida em uma rua lateral da Cidade Universitária. Meio século, e parece que quase nada mudou, uma vez que tem gente no poder agora que, naquele tempo estava aprendendo “velhas lições”, entre elas não “morrer pela pátria’, mas por ela matar, mesmo sem razões, exceto aquelas que a maldade faz enxergar como boa.

Oito anos depois daquele 29 de maio de 1969, a rotina da maldade dos torturadores reaparece na cidade do Recife, dessa feita sobre o padre católico Lawrence Rosemberg e o missionário menonita Thomas Capuano, que, no seguimento de Jesus, viviam com os miseráveis, invisíveis famintos das ruas do Recife, juntando restos de verduras, legumes, abandonados nas feiras, para fazer sopa para os jantares. Tal atividade foi sustada pela prisão e consequente espancamento desses religiosos, extremos seguidores do ideal de serviço aos menores. Surpresa dos torturadores que se depararam com a realidade de serem eles cidadãos dos Estados Unidos. Em seu zelo na realização do mal, criaram um incidente na política internacional, exatamente quando visitava o Brasil o presidente dos Estados Unidos e sua esposa, a qual veio ao Recife conferir a situação de seus concidadãos. Após essa ação, o governador de Pernambuco, Moura Cavalcanti e o presidente Ernesto Geisel, não mais puderam dizer que mentia o arcebispo de Olinda e Recife: a tortura existia e era praticada nos porões dos quartéis das Forças Armadas e nas delegacias de polícia, nestas, sofriam os mãos pobres e sem proteção que famílias de classe média-média ou média alta, podiam oferecer aos seus filhos insatisfeitos com o regime. Quando tais fatos ocorriam, o atual presidente do Brasil, era oficial do exército e adepto do uso da tortura, como demonstrou mais recentemente, quando deputado, homenageando um dos maiores torturadores, o coronel Ustra, em ação naquele período. A violência e a tortura, essa violência sistemática, planejada e executada com requintes de maldade, tem sido uma das faces da cultura brasileira, que a praticou sobre índios e africanos escravizados, mais tarde sobre os pobres deserdados, exilados da cidadania em seu próprio país.

Ao acordar não sabia que escreveria tais palavras, embora soubesse que deveria escrever, pois que minha alma estava em angústia na manhã. Mas foi no final da tarde, após as aulas sobre a cultura pernambucana, em conversa com essa moça, sentada à minha frente e que trocava conversava com os olhos querendo saber quem eu era e, eu por outro lado, sentia ser ela alguém com que vivi uma experiência, mas não lembrava qual. Então ela pergunta sobre o ITER, o Instituto de Teologia do Recife, lembrando que faz trinta anos que aquela escola teológica foi fechada por ordem vinda do Vaticano, da Congregação dos Seminários, com o aval da Congregação do Santo ofício, em agosto de 1989. Essa foi a aventura, ela lembrou que era estagiária de jornalismo e que acompanhou entrevista minha a respeito da decisão do Vaticano e posta em prática pelo novo arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho. E conversamos sobre o momento atual de nossa sociedade, e percebemos que sentimento semelhantes ao que sentimos passados, trinta, quarenta e dois ou cinquenta anos. Até achamos que, se Dom Cardoso fez o serviço que o conservador João Paulo II desejou realizar no Recife, desmontando o novo “jeito de ser igreja”, uma igreja comprometida em buscar a justiça e, ao menos minorar o sofrimento do povo; parece que o atual presidente, no campo laico, ou mesmo em certos espaços religiosos, parece ser o emissário de Trump para desmontar os Direitos conquistados, em nome da acumulação de riqueza por alguns, garantindo que a miséria crescerá. Um “jeito velho” de produzir sofrimento e dor.

Patrono dos Direitos Humanos

quarta-feira, abril 10th, 2019

“Quanto mais escura for a noite, mais bonita será a madrugada.”

Fui dormir com essa ideia, essa lembrança após saber que deputados escolheram Dom Hélder Câmara como patrono dos Direitos Humanos, no Brasil. Todos os que vivemos seu tempo, os que tivemos o privilégio de o ter conhecido e, mais ainda, de ter estado ao seu lado, sabemos que esta foi uma justa escolha, ainda que outros brasileiros poderiam ser escolhidos. Neste momento lembro Heráclito Sobral Pinto (1893-1991), advogado que, utilizou as leis que defendem os animais para obrigar a ditadura do Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, permitir a defesa de Luiz Carlos Prestes, permitir que o prisioneiro fosse ouvido e levado a um julgamento honesto; e fez isto não porque o prisioneiro houvesse pedido (afinal um comunista ser defendido por um “papa hóstia”!!!), mas porque o senso que deve orientar a vida de um homem, especialmente se houver tido a oportunidade de ter estudado as leis, a vida de um advogado deve ser orientada pelo senso da justiça. Mas ainda hoje homenageiam o ditador, a que cognominaram de “pai dos pobres”, ao mesmo tempo que escondiam dos pobres as maldades cometidas por “seu pai” e seus auxiliares, esses que receberam benefícios da ditadura pelos serviços gentilmente prestados. Muitas foram as mãos e muitos desejos do mundo ficaram imobilizadas para que a ditadura de Vargas fosse mantida e ainda hoje festejada. Heráclito Sobral Pinto poderia ter sido o escolhido para ser o patrono dos Direitos Humanos, pois ele defendeu a dignidade humana antes mesmo que a Organização das Nações Unidas fosse criada e viesse a consagrar o direito de defesa, o direito de que cada pessoa possa ter uma voz que a represente nos tribunais. E ele fez isso gratuitamente.

Outra personalidade que poderia ter sido escolhida é o cardeal Dom Evaristo Arns (1921 -2016), o Dom que o povo de São Paulo recebeu e que chamava de “tio” o Dom que Pernambuco ganhou. Dom Evaristo afrontou a ditadura civil-militar, à época dirigida pelo general Ernesto Geisel, abrindo as portas da catedral de São Paulo, no intuito de ser o espaço para cultivar a memória de Vladmir Herzog, jornalista assassinado em uma das dependências do exército, tornando pública a responsabilidade do Estado pelo crime, pelo assassinato de Herzorg, e o fez ainda que o assassino fosse o poderoso Estado. E sua catedral se tornou o local dos crentes de todas as crenças. Dom Evaristo alimentou a esperança que gerou a compilação dos crimes da ditatura civil-militar que prendeu, torturou e matou, em livro Tortura Nunca Mais. A tortura que foi denunciada internacionalmente por Dom Hélder Câmara em palestra pública na França, o que lhe valeu o ódio de todos os torturadores; de todos os falsos patriotas que sujam, com o sangue de seus compatriotas, a bandeira que dizem defender; Dom Hélder ganhou o ódio de todos que sabiam do que estava acontecendo, mas, por questões de governabilidade’ silenciaram e assistiram silenciosamente a pena de morte social que a ditadura civil-militar impôs ao arcebispo de Olinda e Recife. Sim, Dom Evaristo Arns poderia ter sido o escolhido, pois com o silenciamento imposto a Dom Hélder, tornou-se a Voz dos que não têm voz, levantou, terna e fortemente a sua voz contra setores poderosos do Estado brasileiro e de grupos de sua própria Igreja. E manteve-se firme na defesa dos Direitos humanos

Vivemos agora um novo tempo, um tempo que deseja emular as ditaduras pretéritas, a quem rendem glórias e afagos; vivemos um tempo no qual os dirigentes eleitos escolheram como heróis os torturadores, um tempo de um governo que tem uma ministra, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, que, penso, imagina-se ser Maria Antonieta por terem lhe dado o nome da Imperatriz do Brasil e confunde a brasileira com a Austríaca que foi feita rainha da França. Maria Antonieta, ao saber que a população de Paris estava revoltada por conta da falta de pão, o alimento diário dos pobres de Paris e toda França e Europa, teria dito que o povo, na falta de pão, comesse brioches. Esta a arrogância do, agora antiquíssimo Regime. A arrogante ministra da agricultura do atual govermo disse, em sessão na Câmara dos Deputados que “nós (o Brasil) não passamos muita fome, porque nós temos manga nas nossas cidades, nós temos um clima tropical”, sugerindo que a população saia às ruas, jardins, plantações e busque tal fruto para garantir a sua sobrevivência. Esquece, tal senhora, que caso o povo siga seu conselho bobo, será vítima da lei que protege a propriedade. Tal é a arrogância dos poderosos, dos que jamais viram o povo, (quando o encontra não percebem além do que dele pode ser retirado para sua conta bancária). As palavras dessa ministram mostra a sua mente oligarca, de uma oligarquia nojenta e, caso houvesse uma pessoa decente na cadeira de presidente da República, esta senhora com mentalidade do século XVIII já estaria demitida. Mas, talvez que ali hoje se senta, pareça ser como Luiz XVI, que, embora tivesse inteligência dos acontecimentos, preferiu seguir como os antigos. Se for assim, precisaremos muito de olhar como agiria o nosso Patrono Nacional dos Direitos Humano para evitar tragédia.

Mas foi um imensa felicidade, neste início de ano, a publicação dessa homenagem a Dom Hélder, pois ela nos alerta que devemos continuar nesta caminho da defesa dos direitos dos homens diante da maldade.

Rescritas da história – muitas e diversas maneiras

domingo, abril 7th, 2019

14 Anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor
(Paulinho da Viola)

Eu tinha quase 14 anos quando meu pai me pôs a estudar no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, sim, o mesmo que foi interventor em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, após ser Ministro da Justiça e do Trabalho. Foi assim que no dia Primeiro de abril, o diretor do CTPAM (prof. Abelardo, talvez), suspendeu as aulas por que soube estar ocorrendo movimentação militar na cidade e o melhor era todos irem para casa. Saímos do CTPAM e descobrimos que não havia transporte coletivo. Eu estava na Encruzilhada e tinha que ir para Nova Descoberta. Sem ônibus, peguei um bigú que me deixou em Casa Forte. Outra carona deixou-me na entrada de Nova Descoberta. Mais 1500 metros e cheguei em casa, e tudo parecia calmo.

Com quase 14 anos pouco entendia do que estava acontecendo. O que se dizia era que tinham prendido o governador Arrais e o presidente não estava em Brasília.
Depois foi ouvir as notícias as notícias pelo rádio. Falava-se de prisões de deputados vereadores, sindicalistas. Muitos dos moradores de Nova Descoberta trabalhavam na Fábrica da Macaxeira, e as famílias estavam assustadas. Alguns dos provedores ficaram desaparecidos por uns tempos, e quando voltaram estavam desempregados. A memória traz a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”. É que os comunistas haviam deixaram o Brasil na miséria. Vi muitas pessoas levarem alianças, anéis, brincos para a Praça da Independência, com o intuito de salvar o Brasil. Ao mesmo tempo os rádios e jornais informavam sobre Inquérito Policial Militar – IPM, para demonstrar o crime de políticos e sindicalistas. Parece que fiquei uma semana sem aula, tempo para que tudo se acalmasse.

Sempre tive um carinho especial por Felipe dos Santos. Ele havia liderado, em Vila Rica, Minas Gerais, uma revolta para expulsar o portugueses do Brasil, livrar o Brasil de pagar o Quinto a Portugal. Aprendi, ante de chegar ao Ginásio, hoje quinta série, que Felipe dos Santos foi o Protomártir da Independência do Brasil. Aprendi a amar o Brasil e Felipe dos Santos sempre foi, e continua sendo, o meu herói. Ele foi esquartejado, sua casa foi demolida, sua terra salgada para que nada mais nascesse ali. Foi a ordem do Conde de Assumar, meu primeiro vilão. Nos anos seguintes os livros não mais mencionavam Felipe dos Santos, começava o tempo de Tiradentes. Esse personagem foi ficando cada vez mais falado e bonito, a cara dele era bem parecida com a de Jesus Cristo. Até mesmo os poetas e cantores da oposição ao regime cantavam esse Mártir da independência. Estanislau Ponte Preta escreveu uma Exaltação a Tiradentes, com conotação jocosa, mas ele era o homem que “foi traído mas não traiu jamais a inconfidência de Minas Gerias. Ary Toledo cantava assim, “Foi no ano de 1789, em Minas Gerais que o fato se deu // E havia derrame do ouro (…) Esse ouro ia longe distante passava o mar, ia para Portugal para rei gastar (…) o mineiro garrou a pensar: se esse ouro que é ouro da terra e de nossa terra porque é que se vai (…) se juntaram numa reunião e resolveram fazer uma conspiração (…) Manoel da Costa, Antonio Gonzaga e Oliveira Rolim e tem mais um nome, o nome do homem que foi mais herói esse fica pro fim. E o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser, Joaquim José da Silva Xavier”.

As escolas de samba do Rio de janeiro se esmeraram em produzir sambas sobre o herói de Minas Gerais (a bem da verdade A Império serrano, em 1949 exaltou Tiradentes). Tudo isso ajudava muito a aceitar o esquecimento de Felipe dos Santos, que carregava dois sérios problemas: era português e civil, não podia ser herói de um movimento nacionalista liderado por militares.

Bem tudo isso veio vindo em meus pensamentos nesta semana quando se escancarou o projeto revanchista de revisar ou reescrever a história da Brasil, negando a existência de uma ditadura iniciada em abril de 1964, mudando os livros didáticos, como disse o brasileño com assento no ministério da educação. Historiadores estão atentos para iniciativas tortuosas como a do atual governo que, carente de um Golbery do Couto e Silva, foi pescar com Olavo de Carvalho. Assumindo o bom humor, Golbery de Couto e Silva teve Elis Regina, Chico Buarque, a Portela (1967) como propagandistas de seu herói. Mas precisamos lembrar que dizia Capistrano de Abreu sobre a Inconfidência de Minas Gerais.