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São João, do Carneirinho à decapitação

quinta-feira, junho 24th, 2021

A festa dedicada a São João está passando. A tradição conta que os fogos e traques diversos são uma maneira de acordar o santo para que ele não perca a festa. Assim é que foram criados o Acorda Povo, para que todos cheguem a tempo para a festa, inclusive o santo que era atento aos “sinais do tempo” e anunciava que um tempo novo estava chegando, um tempo que ele não sabia como seria, pois que o futuro não é para os profetas dizerem, os profetas explicam os acontecimentos, notam quando um modelo já foi vencido pelo tempo e, a humanidade carece de viver novos tempos. Conta a tradição que, quando estava na prisão, ele procura saber, do profeta que anunciou, se agora começava o tempo que ele anunciava, se ainda deviam esperar outro. A resposta veio como um enigma, de acordo com os relatos de Mateus e Lucas (7:22-23): Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. 23 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

Este foi mais um ano em que a festa da fecundidade da terra não foi celebrada, especialmente no Nordeste do Brasil, onde a louvação a São João do Carneirinho (papai gostava dessa especialmente) coincide com a Festa do Milho, a sua colheita, acompanhada com muitas iguarias que eram feitas coletivamente nas famílias, um ritual que começava desde a manhã, desde a descasca do milho, sua limpeza, ralamento, preparo e cozinhamento de pamonhas e canjicas. Estavam envolvidas crianças, que tomavam para si as ‘bonecas de milhos’ e as colocavam em pequenas camas feitas com as palhas rejeitadas para as pamonhas. Enquanto isso o milho era raspado para depois ser lavado e dele tirar o leite necessário para a pamonha e a canjica. Enquanto preparavam o fogo, outros cuidavam de armar a fogueira que chamaria todos à noite, para conversas, compromissos, advinhas. Tudo em louvor da vida, em busca de saber sobre o amor e o futuro. A festa de São João é um louvor à criação e continuidade da vida. Mas, agora já são dois anos sem a festa, sem os folguedos, as brincadeiras. Neste tempo temos que encontrar outras maneiras de celebrar a vida, pois que se anuncia um novo tempo, um tempo, talvez, mais isolado, com menor vida comunitária. Parece que estamos sendo empurrados para viver em nossas cavernas com temor de alguns aspectos da natureza que nos são adversos. Foi assim antes da invenção do modo de fazer fogo. Com o fogo por ele criado, o homem venceu o medo, embora não o tenha destruído. O medo parece ser um motivador para a superação de etapas no movimento de humanização.

Vivemos, agora, muitos medos: medo de que não possamos deter os que pretendem esvaziar e destruir nosso esforço para viver democraticamente; medo de descobrir que nosso desejo de “tortura nunca mais” não foi o suficiente, nem em nosso país nem nos outros, de para impedir que os apologetas dessa prática hedionda da humanidade reaparecesse tão vigorosamente; medo de que a ciência que inventamos não tenha sido uma aliada mais decisiva nesse processo de humanização, pois que, por ser neutra, permite todos os tipos humanos dela se aproximarem, a seduzam e a utilizem para manter e fortalecer o medo para tomar os nossos destinos.

A mais longa epidemia vivida pela humanidade, expõe nossa fraqueza, nossa imprudência. Somos uma sociedade imprudente, pois demoramos a pôr fim à escravidão como maneira de produção econômica e a tornamos como forma de relacionamento social, daí a vitória dos torturadores entre nós. São João do Carneirinho, se tornou o São João pregador no deserto e anunciador de novo tempo, sofreu a tortura da prisão (um dos autoenganos de nossa sociedade é pensar que a tortura é só a física e que torturador é apenas aquele que está na sessão de pancadaria) e finalmente a decapitação. Mas nunca se deixou dominar pelo medo, embora a pergunta que mandou fazer nos mostra que por um instante temeu ter-se equivocado. Deve ter compreendido        que para superar o medo é necessário continuar a fazer com que  os cegos vejam, os coxos andem, os leprosos sejam purificados, os surdos ouçam, os mortos ressuscitem e aos pobres anuncie-se o evangelho.

 E bem-aventurado aquele que em mim se não escandalizar.

Desnaturalizar ou atacar? Um pequeno comentário

domingo, junho 13th, 2021

Severino Vicente da Silva[1]

Ao buscar textos a serem utilizados em suas aulas, o professor de história busca os historiadores para leitura e indicação aos futuros professores, buscando atualizá-los, no que pode, com as pesquisas em seu campo de magistério. Assim é encontrei, para serem utilizados nas próximas disciplinas que irei lecionar no curso de História da UFPE, encontrei a bela coleção organizada pelos historiadores pernambucanos Marcília Gama da Silva e Thiago Nunes, Pernambuco na Mira do Golpe, publicada pela Editora Fi, do Rio Grande do Sul, em 2021. Obra de fôlego, em três volumes com artigos importantes e necessários de serem lidos e estudados pelos que desejam esclarecer e conhecer, na medida do possível, os atos e as intenções daqueles que viveram e protagonizaram aqueles tempos difíceis, os tempos da ditadura militar, que tanto limitou Pernambuco nos mais diversos campos sociais, políticos, econômicos e culturais.

O primeiro volume dessa bela coletânea, é dedicado à Educação, Arte-cultura e Religião. Neste volume encontrei o artigo Amigo ou inimigo: Dom Hélder Pessoa Câmara e os primeiros anos da ditadura militar (1964-1966) escrito pelo historiador Márcio André Martins de Moraes. Chamou-me atenção o título e o objetivo que levou o historiador a escrevê-lo, e que está explicitado já na primeira frase: “No decorrer deste capítulo, dedicaremos nossos esforços a desnaturalizar uma visão de que Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil, 1964 a 1985.” [490]

Achei interessante que o historiador não pretende compreender a atuação do arcebispo nos primeiros momentos de seu ministério na diocese que lhe foi confiada, mas, parece, já tem um objetivo claro antes de iniciar sua pesquisa e quer prová-la, e para isso vai aos documentos. Não procura os documentos para perguntar o que eles dizem, mas procura aqueles que dizem o que deseja. Creio haver aí um desentendimento metodológico, uma vez que devem ser perguntas a orientar o trabalho do historiador que é, de certa forma, um investigador. Claro que há hipóteses que devem orientar a busca dos documentos e a sua leitura, mas o investigador não prejulga as fontes e o objeto de suas pesquisas, parece-me.

Mas de onde é que vem essa informação de que se naturalizou a ideia de que “Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil”, uma vez que não se apresenta ao leitor nenhum documento que dê cabimento a tal afirmação? Contra que demônios está lutando o nosso historiador? Será que o nosso historiador esqueceu de ler artigo publicado por José Comblin, no livro Dom Hélder Pastor e Profeta, publicado em 1983, pela Editora Paulinas, por Maria Bernarda Potrick? Eu o cito em minha obra Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife, publicado em co-edição da Editora Universitária-UFPE e Reviva, no ano de 2006 e segunda edição em 2014. Naquele artigo, o padre e sociólogo José Comblin, após dizer que Dom Hélder Câmara foi uma dos primeiros que tomaram posição aberta para denunciar os abusos e a falsidade interna do sistema, diz que após ter estimulado uma política de colaboração com o regime, o arcebispo teve que modificar as mentalidades do episcopado e da Igreja, para adaptá-los a uma política de confronto e separação. Não há naturalização da postura “amiga” de Dom Hélder em relação ao seu comportamento nos dois primeiros anos à frente da Arquidiocese. Ao contrário, há uma visão crítica e sem preconceitos.

Como bem notou o autor do referido artigo, a separação clara ocorreu no desentendimento de Dom Hélder com o general Muricy, relatado muito bem por Kenneth Serbin, no seu Diálogos nas sombras. Lá está dito, também, que a amizade entre os dois era antiga, tendo Dom Hélder oficiado o casamento do general, mas essa amizade pessoal, antiga e nunca negada pelo arcebispo, não o impediu de agir conforme eram as exigências de sua consciência como bispo e como ser humano comprometido com a verdade. Por outro lado, sempre é bom lembrar que Dom Hélder não participou daquele Diálogo nas Sombras, uma conversa entre membros da hierarquia católica e alguns generais, como o Muricy, que estavam na reserva. O general Muricy estava em busca de resolver a tensão que entre o regime e a Igreja, especialmente aquele grupo mais aguerrido, cuja referência era Dom Hélder Câmara.

Em suma, este pequeno artigo tem o interesse de esclarecer que, embora em conversas de barbearia há quem julgue que Dom Hélder sempre foi contra o sistema, no campo historiográfico já existem obras com visão crítica, mas sem prejulgamentos, sobre o comportamento do arcebispo de Olinda e Recife nos tempos difíceis da ditadura militar.

SILVA, Marcília Gama da Silva; SOARES, Thiago Nunes. (organizadores).

Pernambuco na Mira do Golpe. Volume 1. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021.

POTRICK, Maria Bernarda. Dom Hélder Pastor e Profeta. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.

SERBIN, Kenneth. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura militar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.      

SILVA, Severino Vicente da Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife.  Recife: Editora Universitária UFPE: Edições REVIVA, 2014.


[1] Professor Associado na Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de História. Doutor em História do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco. Sócio da Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina – CEHILA; Membro do Instituto Histórico de Olinda – IHO. ORCID 000000189111409.

Por que a surpresa?

quinta-feira, junho 10th, 2021

Há sempre que parecer surpresa, ou temos que parecer surpresos ao ler nos jornais que, em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos da América, descobriram que os americanos mais ricos, aqueles que estão entre os cinco mais ricos do mundo, estão entre os que menos pagam impostos naquele país. Essa surpresa, trazida pela pesquisa, adveio do recente debate sobre a taxação das grandes fortunas, debate que vem sendo evitado para que, o mau humor dos homens ricos, não afetem as finanças do país. A querela do imposto sobre as grandes fortunas foi levantada naquele país pelo atual presidente, mas ela vem ocorrendo na Europa já há algum tempo. Soubemos que, ao aumentar o imposto sobre os mais ricos, a França assistiu alguns de seus cidadãos, artistas que dizem ser mais sensíveis aos dramas humanos, migrarem seu endereço fiscal para a Rússia, onde tais fortunas estão protegidas, e eles possam guardar a fortuna que não poderão gastar em duas ou três gerações.

São os mais ricos os que mais usufruem dos benefícios gerados pela sociedade; os trabalhadores que contam os centavos no final de cada mês, buscando fazer que o seu salário coincida com os gastos necessários para a sua sobrevivência, não são beneficiados pela proteção policial, pelos avanços da medicina e da tecnologia; quando seus filhos se perdem não recebem a assistência que os filhos dos ricos recebem com o aparato de bombeiros, salva-vidas, helicópteros para os trazerem de volta para casa com segurança após alguma traquinagem elegante, como subir o Himalaia; os pobres, mas não apenas eles, pois os de classe média que se julgam ricos também, passam a vida vendo como os ricos gastam suas férias em praias paradisíacas. Os mais pobres não podem pagar advogados e técnicos de classe média que os orientem para encontrar falhas do sistema tributário, falhas que são postas quase de propósito, no intuito de enganar a Estado. Os ricos sabem dessas leis, pois eles é que financiam as campanhas de futuros legisladores, os fazedores de leis “falhadas”. O Estado é o seu Estado; relutantemente eles permitem que algumas das conquistas da humanidade estejam ao alcance de todos, ou de um número maior do que seus conhecidos. Afinal, se esses benefícios estiveram ao alcance de todos, qual a vantagem de ser rico? Ser rico é ter riqueza que já não se pode contar, e isso só é possível com a construção da pobreza, da miséria. Não são as fortunas que são construídas, é a pobreza e a miséria que são cultivadas, diligentemente, para que apenas alguns possam ter acesso aos bens que o trabalho de todos produziu. E para isso que alguns constroem exércitos, recrutando os famintos, em troca de migalhas, para que defendam aquilo que deixou de ser da comunidade, e agora pertence a bem poucos. Durante séculos os monarcas tornaram-se protetores de si mesmos ao convencerem os demais que os protegia dos que punham em risco o poder. As narrativas nos mostram como alguns amantes do poder convenceram outros amantes do poder, mas com menor sucesso e, juntos, impuseram o medo aos demais; ao mesmo tempo oferecem a possibilidade de um pedaço de poder aos que se dispuserem a defender a causa do monarca. E esse estratagema tem dado certo, e vem passando de geração em geração.

E nos surpreendemos, ainda, de que os ricos roubem a sociedade.

Mas sabemos bem que as pandemias são oportunidades para fazer crescer as fortunas e os infortúnios. Lá eles fazem pesquisas julgando que a ética protestante vença o espírito do capitalismo; aqui fazem-se CPI, para que os famosos do momento mostrem as suas habilidades de dissimulação e submissão ao que lhe oferece a riqueza ou a sensação de ser diferente, mais afortunado, dos demais.  

Como justificativa para a continuidade da pobreza, há quem cite “pobres sempre os tereis”, frase dita melancolicamente pelo Filho do Homem. Essa frase, parece-me, é um lamento (Mc. 14:6ss). Ele entendeu que o desejo de ajuntar coisas é mais cultivado, pelos homens e mulheres, do que o desejo de ajudar pessoas. Entendo ser um lamento porque, em outro momento, eis que o Ele disse a um jovem rico que procurava ser justo e digno: Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres. A narrativa diz que o jovem rico ficou triste pois tinha muitos bens. (MT. 19:16-22) O jovem entendeu que ele deveria ser pobre, ser livre dos muitos bens que tinha. Como deixar a razão de seu viver, como deixar de ter seguidores prontos a cuidar de suas botas? Essa história que é narrada por Mateus, vem depois da narração que Mateus, antigo cobrador de impostos, faz para dizer que Jesus pagava imposto o imposto devido (Mt. 17:23-26). O imposto é o que se recolhe de indivíduos para garantir que todos tenham os bens produzidos por todos.

O imposto deveria ser para que o lamento “pobres sempre tereis” possa ser superado, mas os ricos, os que se apoderam de tudo, também ficam com o imposto que não pagam e roubam o imposto dos que pagam.

E ainda nos surpreendemos que os ricos roubem da sociedade.

Severino (Biu) Vicente da Silva

Corpo de Cristo, corpo do Brasil

quinta-feira, junho 3rd, 2021

Severino Vicente da Silva

Quem escuta, quem escreve, sabe o quanto as palavras sofrem ao serem ditas, escritas. Presume-se que elas sejam entendidas, que, ao serem ditas e escritas, elas reflitam o que aprendemos que elas dizem. Mas, as palavras, cada uma delas não significam apenas uma coisa, um sentimento, um sentido. Além disso, cada um que as ouve pode escolher um sentido. As palavras podem ser ditas para aproximar e, ao serem ouvidas, terminam por separar. Tão difícil a coincidência entre o emissor e o ouvinte. Sempre há um mistério nesse espaço de tempo entre os lábios e as orelhas. As palavras ditas carregam o momento de sua emissão, além da tensão das pregas vocais e movimentos labiais, tensão que sofre a alma do emissor e a situação da orelha. Toda palavra dita sai em determinado momento emocional e, pode ser a resposta a outro momento; pode ser ação ou reação. As palavras, ditas ou escritas não são puras, são intencionais e toda intenção existe em momentos de incerteza. Todos os momentos são de incerteza. Ainda que dele já haja expectativa, melhor entender que cada momento está cercado por expectativas. E mesmo quando escritas, cabe lembrar que antes de materializar-se em desenhos, as palavras foram pensadas, repensadas, escolhidas, talvez  com o objeto de aparecerem puras, apenas com uma intenção e objetivo, e dessa forma, serem entendidas por aquele que as lerá e as pesará, buscando entender qual, ou quais, a razão de elas terem tomado tal forma. As palavras, cada uma delas é um universo de rotas. E qual é o tamanho do universo?

Cristãos, mais especificamente os católicos, celebram hoje a festa do Corpo de Cristo, uma festa celebrada, segundo a tradição, desde o século IV, uma festa em torno de duas palavras: corpo de Cristo. Tais palavras querem resumir “este é o meu corpo”, e o corpo da humanidade é de sofrimento, de fome, de doenças, de carências, resultado de uma concentração de riquezas; as riquezas produzidas de maneira que tornam os corpos doentes, frágeis, pois estão famintos e quase despojados de esperança que se possa melhorar a situação desses corpos, enquanto outros corpos usam as palavras, o saber e o trabalho em seu benefício. Esta é uma festa difícil, pois implica em entender as palavras Este é o Meu corpo. Interessante que lá, naquele livro sagrado para os que nele acreditam, não está escrito: este é meu espírito. Talvez porque o espírito só é possível alcançar através do corpo. Ah, essas palavras e seus sentido. Qual deles escolher?

Por isso é que surpreende, na véspera da festa do Corpo de Cristo (talvez ele não tenha se apercebido disso) o presidente da República, após um ano e meio de não se perturbar pelo sofrimento causado pelas mortes de quase meio milhão de brasileiros nesta pandemia; após desdenhar das vacinas como uma possibilidade de atenuar o sofrimento causado pela doença que afeta o mundo todo; após rir dos que morrem sufocados por falta de oxigênio, venha dizer que “sentimos muito a morte de cada brasileiro”. Essas palavras estão vazias do espírito da verdade, pois elas não combinam com as outras palavras e expressões ditas pelo presidente. As palavras ditas na noite do dia 02 de junho são vazias de espírito, pois jamais deram atenção à vida corpórea dos brasileiros, portanto de seu espírito.

Na Festa do Corpo de Cristo, havemos que pensar nos corpos dos que morreram dessa doença que o homem da morte não quis enfrentar; devemos pensar nos corpos dos que assistiram a morte de seus queridos, nas dores, nas lágrimas derramadas e, com o espírito renovado, saberemos que, como disse o inspirador da festa: venceremos a morte e os seus seguidores.

Quantas índias há na Índia? Quantos brasil no Brasil? Quantos mortos entre os mortos

sábado, maio 29th, 2021

Quantas índias há na Índia? Quantos brasis no Brasil? Quantos mortos entre os Mortos?

Severino Vicente da Silva

O milênio que foi tão esperado como a possibilidade de completar a felicidade, a grande Era de Aquarius, mostra-se mais como o tempo das confusões. Todos parecem confundidos e as crenças religiosas, as mais diversas, invertem os sinais. Houve um tempo, no começo das revoluções, aquelas primeiras no século XVI, que levou as religiões a serem vividas no silêncio das casas enquanto a ciência ganhava as ruas, com publicidade alegria temerosa. Sim, pois certas tendências religiosas uniam-se ao espírito científico para transformar os processos religiosos contra as “bruxas” e outros dissidentes, em alvo de ações jurídicas e sanitárias. Algumas decisões e políticas sanitaristas uniam-se a conceitos religiosos tradicionais que puseram muitos nas franjas da sociedade de então. Os cintos de castidade, tão propalados em sua existência medieval, foram bastante comuns no tempo científico para evitar que rapazes ficassem tuberculosos pela prática do onanismo, condenado em textos sagrados, ou as relações homossexuais, também vistas como doenças até recentemente.

Conceitos religiosos atuaram sempre entre os cientistas. Religiosidades praticadas por gente que se diz científica, se dizem milenares, escudadas em protocolos que remontam ao tempo de Ramsés II. Isso continua sendo experimentado em reuniões de gente “científica” que reclama daqueles que rezam a Salve Rainha ou entregam oferendas aos Orixás. São muitas as comunidades que se formam e se fortalecem neste milênio em torno de ideias não científicas, ideias são divulgadas pelos meios técnicos e científicos presentes em residências que as podem pagar. Aliás, este novo milênio é o milênio em que ficam cada vez mais separados os que podem pagar e os que nada podem possuir. O fosso que separa os pobres dos ricos está cada vez mais largo e profundo, profundidade que cresce com o tamanho dos muros que deixam claro quem é quem, e é quem tem. O que seria o milênio da fraternidade tem parecido mais com o milênio da separação. “Pobres sempre os tereis”, frase atribuída ao inspirador do cristianismo parece ser cada vez mais verdadeira, pois que as ciências, a economia é uma delas, vive a aprofundar reflexões e práticas que justificam e aprofundam o fosso e erguem os muros. Como ouvi, em uma reunião no Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, o meu colega, amigo de sonhos, Yves Morpeuax, “além dos muros físicos, há os invisíveis, e esses são os que mais separam, pois o fazem na mente.”

Quando estivermos, ou não estivermos, assando milhos nas milenares, cada vez em menor número,  fogueiras de juninas ou de São João, no Brasil já teremos ultrapassado o meio milhão – 500.000 – mortos pela Covid19, e muitas dessas mortes foram resultantes da rejeição à ciência médica em nome da ciência econômica; outras, ou as mesmas, resultantes da pregação religiosa daqueles que “controlam a vontade de Deus”, nos templos e nas emissoras de rádio e televisão; a maioria desses atingidos mortalmente pela atual peste, eram pobres. E os pobres são a maioria entre os mortos por serem a maioria entre os vivos. E não apenas no Brasil; mas em todos os países, como nos confirmam as notícias originadas da Índia, elas nos dizem que o Rio Ganges tem recebido muitos corpos daqueles que não podem comprar lenha para cumprir o ritual religioso. E, note-se, a Índia é produtora de princípio ativo para as vacinas. Quantas Índias há na Índia?   

Os professores e os dons do Espírito Santo

segunda-feira, maio 24th, 2021

Os professores e os dons do Espirito

Severino Vicente da Silva

São muitas as tradições religiosas praticadas em nosso ambiente e, embora algumas digam que não, todas são proselitistas. Algumas o são de maneira ostensiva, mas tão ostensiva que quase nos enraivecem no seu afã de fazer aumentar o número de seguidores. Ocupam, se permitem, todos os espaços sociais, algumas apresentando-se como sendo apenas práticas culturais. Assim os deuses, ou as múltiplas revelações divinas, apresentam-se no cotidiano. Dependendo do meio social no qual se vive, evita-se mencionar que se é religioso, embora há quem comece sua falação sempre convidando os demais a louvar seus ancestrais, mas, caso alguém queira fazer o mesmo, clamando outros deuses e santos, este pode ser acusando de estar infligindo o princípio de se viver em uma sociedade laica. Creio que tudo isso apenas demonstra o quanto estamos envoltos nas nossas crenças.

 Houve um tempo em que os sinos católicos tocavam sem temor entre nós, hoje já, em sua maioria, estão silenciados. Os sinos eram, além de lembrança sonora para o atendimento de necessidades espirituais, utilizados para informar a ocorrência de incêndios, ou outras calamidades que atingiam a sociedade. Hoje alguns os consideram um estorvo que os obriga a acordar tão cedo, e então normas são aprovadas silenciando os resistentes a maior parte do dia. Havia até os que viviam da atividade, os sineiros, hoje, como os ascensoristas, substituídos por algum engenho pré-programado. Ninguém deseja o barulho dos sinos, ninguém deseja saber a sua religião, mas a maioria não abre mão que dizer qual é a sua. E nem sempre silencioso no silêncio da noite.

Creio que nesses dias cometi uma pequena gafe pois, em ambiente intelectual, informei que ainda mantenho a fé religiosa recebida desde a convivência familiar, apesar de cultivar a prática da pesquisa científica, inclusive para compreender os caminhos tomados pelas lideranças do meu agrupamento religioso. Sei disso pois, assim que teve oportunidade, o comandante da reunião científica, logo disse que, embora tivesse tido a mesma experiência que tive, hoje já não pode dizer-se seguidor daquela fé, embora continue, por questões culturais, ainda apegado a certas exterioridades praticadas. Era quase um pedido de desculpa, muito diferente daquela seguidora de outra fé, que assumia diante de câmaras de uma emissora televisiva, que estava vestida de branco naquele dia por que era o dia de tal entidade e, mais ainda, dizia que todos os que estavam envoltos de alguma vestimenta daquela cor, na verdade estava louvando o seu espírito protetor. São muitas as maneiras de fazer proselitismo.

Acredito que sempre devamos lembrar com admiração aos que nos ensinaram, os diversos professores, mestres, que tivemos em nossas vidas. Desde ontem que me vem a lembrança de um desses homens que me auxiliaram nessa tarefa de viver: Nércio Rodrigues, sacerdote católico que me auxiliou a compreender alguns dos meandros bíblicos, e, embora tivesse tido um grande atrito com ele, não posso esquecer que ele sempre, em voz alta, começava suas aulas com um “vinde Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis…”. Não lembro de outro que assim o fizesse. Ele o fazia sonoramente pois estava em um ambiente católico, não sei se assim também agia em outras salas de aulas. De qualquer forma, aprendi a oração e a faço, silenciosamente, como o requer os ambientes republicanos que frequento.

Esta conversa é porque hoje é o dia Pentecostes, momento para os católicos lembrarem que suas ações são orientadas pelos dons do Espírito Santo, caso sejam dóceis à sua fé. A Igreja comemora a sua fundação, o momento da consciência de sua missão, a de deixar-se guiar pelo Espírito, pois que ele sabe por onde nos levará, independente da nossa ‘sabedoria’, pois, como costumava lembrar o professor Nércio Rodrigues, o que loucura para os homens é sabedoria para Deus.

Que o Espírito Santo nos guie, com sua Sabedoria, Inteligência, Conselho Fortaleza, Conhecimento, Piedade, Temor de Deus. Assim ultrapassaremos este momento tão difícil em nossa sociedade.