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Mulheres e Homens Maravilha

quinta-feira, julho 28th, 2022

Mulheres e Homens Maravilha

Prof. Severino Vicente da Silva

         Creio ter havido um tempo no Recife dominado pela Turma do Flau. Foi um tempo anterior ao Estatuto da Criança e do Adolescente, o tempo que preparou o processo de debate que levou ao Estatuto de que protege a criança e o adolescente. Esse tempo da Turma do Flau está muito ligado à história de Brasília Teimosa, esse bairro criado pelo excluídos, que se meteu bem no começo da Praia do Pina, vizinha à Praia de Boa Viagem. Teimosamente, os que não quiseram ou não puderam ir participar da construção de Brasília, a capital que teria sido profetizada por Dom Bosco, e que estava prevista nas constituições do Brasil, e que entrou sem programação na campanha de Juscelino Kubistchek, construíram a sua Brasília, derrubada e levantada a cada semana, teimosa como o desejo da vida por viver, como explicou aquele físico ganhador do Prêmio Nobel. A vida surge por acaso, mas se mantém por necessidade de estar viva.

            A Turma do Flau é resultante dessa teimosia da vida que explodiu no Recife dos anos cinquenta. Eram muitas crianças que ficavam o dia todo sem fazer nada, exceto brincar e gerar preocupações nos pais que saiam para procurar um biscate, um trabalho capaz de assegurar a alimentação diária. Os pobres sabem o que realmente significa “dá-nos, hoje, o pão de cada dia”. No tempo da ditadura, apareceu uma freira, Ir. Aurieta, da Congregação de Jesus Crucificado, que iniciou um grupo de jovens na produção de e venda de picolés. Flau era o nome que foi dado ao picolé. E então foi um caminho para que crianças e adolescentes começassem a ser vistos com uma caixinha, feita de isopor, a vender picolés. E então começaram a reproduzir grupos semelhantes que, depois de algum tempo, não valia a mais sair de casa e da rua para vender picolé. Fenômeno semelhante se seguiu com as padarias do bairro, grupos de famílias se organizavam para produzir pão mais barato. Depois de algum tempo, passou a febre do pão caseiro, também. Mas a Irmã Aurieta ainda continua com a Turma do Flau, não mais vendendo picolé, porém construindo cidadania, acolhendo os mais pobres dos pobres de Brasília Teimosa. Esta é uma mulher maravilha, como Maria de Lourdes, que vive a andar do litoral ao Sertão, debatendo e vivendo a luta pela cidadania das maravilhosas mulheres do povo.

             Cinquenta anos depois de iniciada a organização dos meninos pobres da pobre Brasília Teimosa, Ir. Aurieta sabe que os pobres existem porque eles são produzidos, não malthusianamente, mas de modo quase sistemático, por um sistema de dominação. Aurieta, Lourdes, Dulce, Tereza continuam a cuidar dos pobres, e tantas outras mulheres e homens, como Luiz Tenderine, Romano, Lancelotti.  Antes desses houve muitos que cuidaram dos pobres, desejando diminuir o seu sofrimento, dando-lhes algum alento. Depois deles virão outros com semelhantes desejos e, como eles sofrerão por sentirem-se impotentes contra o modo de viver que produz a pobreza, que leva os pobres à miséria.

            Outro dia comentei que poucas pessoas fazem relação entre a acumulação da bens com a produção da pobreza. Sim, era uma pessoa de curso superior, com diploma guardado em alguma gaveta ou pendurado na parede do seu quarto pessoal. “Pobres sempre os tereis”, disse o Mestre que as pessoas citadas seguem. “Eles não sabem o que fazem” disse o mesmo Mestre, pois sabia que pouquíssimas pessoas fazem relação entre as suas vidas e as vidas dos demais, não querem fazer tal relação. Claro que todos sabemos que todos os atos realizados por um homem, por uma mulher, afetam a vida de todos os homens e todas as mulheres do mundo, pois não somos uma ilha, nos disse o criador de Gulliver, repetindo laicamente o que os religiosos dizem. Ah, neste grupo poucos fazem essa relação, assim como o profissional de formação universitária não consegue fazer a relação do corte do ICMS da gasolina que abastece o seu carro com a situação do ensino básico. A negação da realidade foi a maneira encontrada para a manutenção do sistema produtor de riqueza e pobreza, simultaneamente. A negação da realidade não é uma praga de nosso tempo, ela tem perpassado a vida do Homem Que Sabe. Sabe e sabe negar. É quase instintivo, mas é só reprimido, ensinou o barbudo de Viena.

            Em todas as sociedades humanas encontramos diferentes formas de desigualdade, mas a sociedade que vem se formando, de maneira mais explícita nos últimos trezentos anos, estar a criar e aprofundar noções como Direitos e Deveres, alguns sociais para além dos pessoais, também reconhecidos nos últimos séculos. “Nós todos já nascemos com direitos” disse a mulher defronte do morro deslizado que matou alguns dos seus familiares e acabou com a casa de sua mordia; “Estamos perdendo nossa dignidade”, disse ela, mas aí devia dizer: estão tirando a nossa dignidade, a nossa humanidade. Essa mulher é resultante das transformações sociais dos últimos trezentos anos, as suas frases não seriam ouvidas no na civilização do francês Luiz XIII, do mongol Gengis Kan, do grego Sócrates, do egípcio Putifar. As palavras daquela mulher dizem que pode haver, que há outra maneira de viver, que é reconhecendo a existência do outro e seus direitos. Se não desejarmos e fizermos este caminho que faz medo, caminharemos para a destruição.

            Negar o saber, negar a possibilidade do outro viver, é caminhar para a destruição da vida. Tomara que Jacque Monod tenha razão e os homens decidam pela necessidade de manter a vida.

A Sednhora do Carmo e o Vampiro da história

sábado, julho 16th, 2022

É dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife, ao lado de Santo Antônio, mais antigo e tornado soldado protetor. Essas homenagens e esses dias de glória e festejos dedicados aos santos protetores, vêm de um tempo mais religioso, mais festivo e, como era menor o número de habitantes, menores as possibilidades de divertimento, as homenagens pareciam ser maiores, mais concorridas. Antes, toda população era da mesma religião, pois que ela era oficial; antes todos os comerciantes faziam questão em tomar em suas mãos, ainda que por pouco tempo, o andor que levava o santo a andar nas ruas da cidade que protegia. Novos tempos, novos costumes, novas fidelidades. A cidade cresceu, outras religiões e outros santos vieram fazer companhia aos católicos, e cresceram de tal modo, que ouvi, recentemente, um babalorixá dizer que “os católicos deviam nos agradecer, pois nós fazemos propaganda dos santos deles, pois em certos dias nós vamos às suas igrejas rezar para os nossos orixás”. E a Senhora do Carmo que foi posta como padroeira, a apedido dos comerciantes, hoje vem se tornando avatar de Oxum, o orixá da riqueza. E os pobres da periferia, completam todos os bancos da Basílica. De acordo com o babalorixá, se houver algum católico, não encontrará local para assento. São novos esses tempos.

São tempos de espetáculos. Aliás, o filósofo francês que participou do espetaculoso maio de 1968, sabe que a vida sempre foi um espetáculo, desde os tempos faraônicos. Os mais abastados, ou seja os que tomaram para si o que todos produziam, sempre vestiam-se para apresentar um espetáculo, sempre prontos a mostrar o quanto riqueza produzida por tantos, foi drenada e, em determinados momentos festivos, os que a produziram podem dela usufruir pelos olhos, admirando – mirando de longe – o que eles fizeram e não podem tocar. Foi sempre assim. O espetáculo da fé, o espetáculo do poder. Nestes dias atuais, a novidade é que o povo também se enfeita e sai para se mostrar, ser visto como sendo acumulador/portador de riqueza. As bijuterias, roupas que parecem com aquelas usadas pelos reis, pelos nobres, estão no corpo do povo, que parece rico. Charmosamente chanelianos. Antes era o carnaval que servia para esse espetáculo popular, esta festa do mundo ponta cabeça; nestes tempos, o carnaval é um detalhe, pois todos os dias são de espetáculos, não do povo, mas desse grupo que não se quer povo, mas não consegue ser o sacerdote, nem o rei, de modo permanente. No carnaval o povo não se engana, ele sabe, ou sabia, que tudo terminava na Quarta Feira ouvindo o padre dizer que ele era apenas pó. Um pequeno lembrete sobre a provisoriedade desta vida, que é necessário ser humilde diante do tempo infinito que é a eternidade. Mas, quem leva à sério o que diz o sacerdote? Melhor esquecer a eternidade que começa com o fim do tempo que se vê passar, e viver a eternidade que dura o tempo presente. Ainda que este tempo seja duvidoso e que tem a certeza do seu fim.

Os séculos foram de guerras, os livros de história estão repletos de heróis cujos feitos foram levar homens aos campos de batalhas, vê-los matar-se mutuamente. Assim forjaram as nações, os impérios que eram tão grandes quanto o número de mortos que deixavam nos campos. Quantos poemas dedicados à morte e àqueles que levaram os jovens para morrer ou matar, tirando-os dos braços de suas amantes. Esses cantos de morte encantavam mulheres que perdiam a oportunidade de viver por mais tempo um grande amor. Alguns casais abraçavam-se durante a véspera da viagem, da batalha ou da morte. E faziam a glória dos heróis e construíam as pátrias. As nações sempre foram construídas com cadáveres. Continuam a existir essas fábricas de heróis, e com elas e eles, a fome endêmica, também geradora da morte. Milhões de pessoas morrem de fome no mundo, milhares de pessoas morrem em cada país e, nessa guerra silenciosa, há novos heróis que não montam cavalos, não vão aos campos de batalhas, como aqueles louvados por Heródoto, Tucídides e tantos outros. Os campos de batalhas são, hoje, as casas de câmbio, as bolsas de valores. Na verdade elas sempre estiveram lá, dissimuladamente. Para conseguir dinheiro com o objetivo de fazer uma guerra na Irlanda, Carlos I arrastou-se até o Parlamento e ouviu um não. O “não” pronunciado pelos Comuns anunciou a Guerra Civil e, essa matança provocou um novo modo de governar a sociedade. A defesa dos interesses de nobres e clérigos de alto escalão levou à revolução na França e a matanças para que fosse criado um mundo de fraternidade. Muitas mortes levaram à República na América de Norte e, mais morte ainda para que fosse estabelecida o fim da escravidão dos negros no país da liberdade. Como disse Michelet, “a história é um vampiro”. E, no entanto, a história é os homens em movimento, não é uma ideia.

O vampiro não é a ideia da história, mas o homem que faz a história, dominando as plantas, os animais, todos os seres vivos que estão na terra, os domina e os mata, e vive, tem vivido, dessa matança. Essa guerra que sempre se pensou que fosse contra o inimigo da tribo, do clã, da pátria, da nação, tem sido uma guerra contra o planeta. É tempo, já é tempo, de os homens pararem de se destruir, de lutar para acumular riquezas levando o planeta, com todos os seres que nela vivem, inclusive ele, à morte.

Os carmelitas têm como patricarcas dois profetas: Elias e Eliseu. Elias, o maior dos profetas, entre suas ações está o sacrifício de dezenas de sacerdotes de Baal, após manifestar a força e poder de Javé. Elias, parece, não morreu, foi arrebatado aos céus em carruagem de fogo.

A encruzilhada do Antropoceno

sábado, julho 2nd, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Acontecimentos estranhos ocorrem a cada momento na face da terra, como se fora dela haja ocorrências que não parecem comuns, pois o incomum sempre é percebido pelo humano e a partir de suas experiências. Talvez, no universo material estudado por Isaac Newton e, depois por Einstein, as ocorrências não se repitam, mas elas, talvez, não se percebam como extraordinárias. O mundo físico é muito ordinário. Nossa parte física é bastante ordinária e, até mesmo se pode prever o que ocorrerá com ela no seu processo em direção da degeneração. Claro que não é destruição, mas ocorrerão transformações na matéria que parece ter acabado. Mas se pensarmos no mundo que não natural, esse criado pelos homens e mulheres ao longo desse período hoje chamado de Antropoceno, podemos intuir que algo poderá mudar. Mas em que direção?

Em que direção caminharam os antigos egípcios para se tornarem uma potência, dominando alguns povos vizinhos? Quais caminhos foram criados pelos caldeus, assírios e tantos outros povos que procuraram entender de onde vieram, e para que existiam. Pelos testemunhos do que restou de suas culturas e sistemas de vida, podemos induzir que eles entendiam que aqui estavam porque alguma divindade os colocou com o intuito de que lhes prestassem homenagem, dominassem os seus vizinhos, sempre definidos como inimigos da humanidade, entendendo-se como humanidade o conjunto de normas e comportamentos que estabeleceram para suas vidas.

 Ao termo de algum tempo esses e outros povos deixaram de existir fisicamente, mas suas experiências ficaram guardadas, de modo inconsciente, por seus sucessores. Sim, seus sucessores fizeram com eles o que eles fizeram com seus vizinhos. Ocorreu o mesmo com povos de todos os continentes. Mas, como estavam muito isolados, não se conheciam e, para as mesmas perguntas encontraram respostas semelhantes, mas não iguais. Sim, também os povos pré colombianos. Mas todas essas culturas têm em comum o fato de serem animais, seguindo as normas da natureza em seu ciclo vital. Uns sucumbem para que outros continuem a existir. O que parece separar os homens dos demais animais é que, em sua organização parece existir uma norma que os levam a jamais estarem satisfeitos com suas realizações. Depois de dominar os animais diferentes de si, resolveram dominar os animais semelhantes a si. Dessa forma criaram as mais diferentes justificativas para explicar suas ações de domínio. Viviam tranquilos por estarem separados e intranquilos por temerem ser atacados pelos inimigos distantes. Sim, inventaram essa palavra justificativa e permissiva. Os homens permitiram a si mesmos a possibilidade de anular o inimigo, aquele que não reconheciam como igual. E Alexandre foi até à Índia em busca do inimigo. No Antropoceno tudo que diferente torna-se inimigo, portanto, próprio para o extermínio.

Essa situação de buscar o inimigo acentuou-se nos últimos séculos, exatamente os séculos de maior aproximação, pois nesses séculos a natureza foi “totalmente” dominada: na terra, onde milhares de animais já foram extintos para que o homem tivesse onde morar e espaço ´para arrancar do seio da terra as riquezas ali guardadas; nos mares, onde seus navios levam barulhos estranhos que impedem a comunicação entre os animais marinhos, e que também caçam para sua alimentação, e jogam o óleo gerado da morte de seres que viveram em tempo anterior ao Antropoceno, causando a morte de milhares de animais, mas isso também está concetado ao desejo de comunicar-se com o outro; no ar onde a fumaça gerada pela queima de material fóssil suja a atmosfera e a perfura com favorecendo a antecipação da morte da terra, a casa comum dos homens e mulheres, conforme a definição dada por Francisco, Papa dos cristãos católicos.

O século XXI tem sido a explicitação de que a vida se consome na produção da morte, não importa que as justificativas das ações humanas sejam religiosas ou não. Nesta fase do Antropoceno, as justificativas religiosas são dadas pelos que não frequentaram as escolas, nestas se ensina que os deuses e as religiões são desnecessários ou desnecessárias.

Há muitas guerras em andamento, neste instante. A mais famosa é entre a Federação Russa e a Ucrânia. Em verdade, está se travar uma guerra entre a concepção de humanidade que o Ocidente (União Europeia, Estados Unidos da América do Norte) e a concepção que o Oriente (Federação Russa, China). É a sempre presente ideia de que meu inimigo deve morrer. Estamos, no século XXI DC, com conceitos extremamente semelhante ao modo de Hamurabi que se proclamava Senhor dos Quatro Cantos da Terra.

Quando refletimos e estudamos essa situação com uma distância razoável, e modo que os misseis não nos alcancem, o fazemos racional e tranquilamente, mas se esse modo de pensar começa a ganhar espaço na sociedade em que vivemos, como está agora acontecendo no Brasil, o medo nos assalta. Nem percebemos que estão a destruir o que de melhor foi criado no Antropoceno, o esforço de, no meio da exploração constante do homem pelo homem, recriar a humanidade com os valores de respeito ao outro, de aceitação do outro, da compaixão tornada forma legal de comportamento. Desenvolvemos a compaixão pelas crianças nascidas com deficiências, não mais aceitamos como norma social abandoná-las ou vende-las; definimos que a tortura, ou seja, o uso de violência contra uma pessoa impossibilitada de defesa, como crime; estamos a criar um novo patamar nas relações entre os sexos; buscamos inibir a violência por motivações religiosas, regulamos as maneiras de estabelecer contrato de trabalho com o objetivo de diminuir a exploração do homem pelo homem; as nações celebram contratos de convivência e cooperação, e tantas outras conquistas e vitórias sobre os comportamentos que hoje consideramos barbárie. Mas falta muito para que superemos esse amanhecer da humanidade. E os estudiosos do Antropoceno nos apontam que esses comportamentos continuam a ser ideais a serem conquistados, enquanto isso, os inimigos da civilização continuam a nos amedrontar.

Até quando o Antropoceno será o causador do fracasso da vida?

ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO DO PADRE REGINALDO VELOSO

sábado, maio 21st, 2022

ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO VIVIDO PELO PADRE REGINALDO VELOSO.

Prof. Severino Vicente da Silva

Desde a Páscoa que o Padre Reginaldo Veloso foi hospitalizado e, na madrugada de ontem, realizou a sua Páscoa, Como escreveu a sua esposa, está com Papai do Céu.

Conheci Reginaldo quando ele era um dos padres que atendia a Paróquia da Macaxeira, juntamente com Padre Adriano. Esses dois padres são marcos de uma época, do envolvimento da Igreja com os operários. Por motivos diversos, dizem que os dois “deixaram de ser padres”, o que não é verdade. Adriano decidiu ser operário, tornou-se motorista de taxi, fez da rua o altar onde celebrava diariamente, comungando a vida do povo que escolheu para ser seu, pois não nasceu no Brasil, porém poucos foram tão brasileiros como ele. Como costumava dizer Dom Hélder, há estrangeiros que nasceram na Rua da Aurora e há brasileiros que fora dos limites geográficos brasileiros.

O padre Reginaldo Veloso foi afastado do altar por determinação do Arcebispo José Cardoso, escolhido por indicação de um bispo progressista que pretendia agradar a Pernambuco, apontando para substituir Dom Hélder, um bispo que nascera em Caruaru. Nem sempre o berço é um bom pressagio.

Reginaldo nasceu em família católica e veio a entrar em seminário no Recife, foi enviado para terminar os estudos em Roma, onde estudou História da Igreja, mas foi o serviço litúrgico que o conquistou. Depois de ordenado, passou algum tempo como professor em seminário, depois foi indicado para a Paróquia Santa Luzia, criada no início do século XX, para o atendimento religioso dos operários do Cotonifício Othon Bezerra de Mello, vulgo, Fábrica da Macaxeira. No meu tempo de menino, nós saímos de Nova Descoberta, passávamos pela mata de eucalipto plantada para diminuir os efeitos deletérios que a fumaça da fábrica produzia, para as festas natalinas que ocorriam na praça da igreja. A fábrica empregou muitos que desceram da Zona da Mata Norte e ocuparam os morros vizinhos.

No início do século XX a prática da Igreja foi de colaboração com os industriais católicos que trouxeram da Europa congregações para formar e manter o espírito cristão dos operários. A situação de cooperação foi sendo modificada no pós Segunda Guerra Mundial por diversas razões, entre elas algumas tentativas que a Igreja Católica estava permitindo serem realizadas na França, com os “padres operários”. Reginaldo estava na Europa quando ocorreu essa experiência, talvez tenha tomado notícias dela, especialmente quando foi suspensa por orientação romana após incidente diplomático, provocado pela prisão dos padres. Nunca perguntei a Reginaldo se esse acontecimento afetou a sua atuação, mas o fato é que quando ele foi trabalhar na paróquia da Macaxeira, a situação social pedia outro tipo de sacerdote. No início dos anos sessenta o arcebispo era Dom Carlos Gouveia Coelho, um bispo preocupado com os trabalhadores, como prova o seu empenho com a JOC e o incentivo que deu ao Padre Paulo Crespo para a organização do Serviço de Assistência Rural de Pernambuco – o SORPE.  Às vezes, quase sempre os leigos chegam primeiro, e havia um ativo grupo da Juventude Operária Católica, aplicando o famoso método VER – JULGAR – AGIR, criado pelo padre Joseph Cardjin, a quem deve ser atribuído a criação da Ação Católica, reconhecida pelo Papa Pio XI. Assim, havia um sentimento/ de crítica ao sistema capitalista, também praticado pelo Partido Comunista Brasileiro, também atuante na fábrica. Então veio o Golpe civil-militar de 1964, que desmantelou a atuação da Igreja e dos comunistas na Fábrica da Macaxeira. E é então quando Reginaldo e Adriano estão cuidando dos católicos da região. A disposição dos novos governantes em acabar com o “comunismo” na Fábrica, levou a Fábrica da Macaxeira à falência, como aconteceu com as outras fábricas de tecelagem e fiação em Pernambuco. Aliás esse é um dos benefícios que o Golpe de 1964 garantiu aos pernambucanos. Tem gente que ainda não consegue juntar essas letras.

Enquanto a “redentora” impossibilitava a ação nas fábricas (elas estavam fechando para gáudio do colonialismo interno) o novo Arcebispo, agora Dom Hélder Câmara, animava novos meios de aproximação cristã na sociedade, os movimentos sociais passavam a substituir os sindicatos, agora entregue à pelegada. Entre os movimentos católicos, surgiu a Pastoral de Juventude no Meio Popular – PJMP, que recebia orientação do Padre Reginaldo, que nessa época começava também a exercitar mais os seus talentos de músico e poeta, voltados para compreender e alimentar os desejos do povo, como fazia o Padre Geraldo Leite, que foi vigário em Pontezinha e depois no Morro da Conceição. Reginaldo veio a ser grande amigo e colaborador do padre Romano Zufery que organizou a Ação Católica Operária – ACO, para manter a animação dos operários. Em 1985, quando ocorreu a morte do Padre Romano, Reginaldo assumiu a tarefa e a ACO tornou-se Movimento dos Trabalhadores Cristãos, uma visão ecumênica.

Em 1968, o padre Reginaldo e toda a arquidiocese envolveu-se no processo educacional para que os brasileiros soubessem que, em 1948, o Brasil havia se comprometido em desenvolver condições para que fosse garantido a todos os Direitos Humanos definidos na Organização das Nações Unidas. Foi esse o tempo de pensar nos Direitos da Criança, e o MAC começa ser gestado. Era o tempo do endurecimento da ditadura civil militar. Então Dom Hélder envia Reginaldo para ser o pároco do Morro da Conceição, Santuário de devoção das camadas mais pobres da sociedade recifense. Também foi escolhido para ser o Coordenador da pastoral de Casa Amarela. Nesse período, em diversas ocasiões fui chamado a refletir sobre as questões sociais, econômicas do Brasil e da região, colaborando para o VER. Foi essa a época em que ocorreu o fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base -CEBs, o Encontro de Irmãos, uma maior participação dos leigos na vida da Igreja, seguindo as resoluções do Concílio Vaticano II. A Igreja Católica do Brasil e da América Latina, refletia sobre os acontecimentos, os julgava a partir da leitura bíblica, e agia. E, dessa reflexão, foi sendo formada a Teologia da Libertação, surgia um pensamento teológico para além da experiência dos católicos europeus.

Vivia-se tal situação na Arquidiocese quando ocorreu o falecimento do papa Paulo VI e a nova janela de riso, aberta pelo papa João Paulo, que morreu trinta dias após a coroação. E então um novo Conclave escolheu o primeiro para não italiano em quinhentos anos, e nomeou-se João Paulo, o segundo com este nome.

O Cardeal Wojtyla cresceu na parte do mundo dominada pela União Soviética que não admitia a liberdade de religião, ou mesmo a religião. E claro que as perseguições que o jovem católico vivenciou a perseguição religiosa em sua nação, e isso influenciou a sua percepção de mundo. Em seu pontificado, um dos objetivos perseguidos era derrotar o comunismo, o que viria ocorrer, cedo ou tarde, por questões econômicas e não religiosas. Mas, mesmo os santos, às vezes não cultivam a paciência histórica e desejam o protagonismo. Este desejo de João Paulo II matou (?) os sonhos de católicos na América Latina. Foram desautorizados e perseguido pelas autoridades vaticanas os teólogos da Teologia da Libertação, chamados, constantemente a explicar-se no Discatério da Doutrina e Fé, nome fantasia para Tribunal do Santo Ofício. Não bastou a perseguição dos regimes locais. Padres foram mortos, bispos sequestrados, leigos aprisionados por praticar sua fé, acusados de comunistas. Quando o padre missionário Vito Miracapillo foi expulso do Brasil por não atender o desejo de um prefeito para que celebrasse para honrar um país que deixava seu povo morrer de fome, Reginaldo levanta sua arte e homenageia o padre expulso com a canção Vito, Vito, Vitória. Isso lhe vale a prisão, é preso por afirmar o que a história mostra que a vitória dos homens não é a vitória de Deus. Corria o ano de 1980. Dezenove anos depois, o arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara, retira o padre Reginaldo Veloso da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, e retira-lhe a condição de presbítero do Altar. Proibido de ser padre, de celebrar a Eucaristia, o povo do Recife, os jornais do Recife, os não católicos do Recife, os não crentes do Recife, todos continuaram a dizer Padre Reginaldo.  Desmantelava-se Igreja Povo de Deus, proclamada pelo Vaticano II, dominava a Igreja clerical, definida no Concílio de Trento, no século XVI. Parecia que se fechava a janela aberta por João XXIII.

Participei do velório, da queima de velas para iluminar o caminho para a casa do Pai, lembrar a Vela do Batismo, a Vela da Páscoa. As exéquias foram realizadas no Morro da Conceição, mas não foram celebradas na nave do Santuário que o padre Reginaldo cuidou entre 1988 e 1998. Os leigos decidiram fazer esse ritual em uma escola próxima ao Santuário. Vieram muitos padres com vestes litúrgicas para dirigir e celebrar, mas a comunidade decidiu que tudo seria feito pelos leigos, não pelo clero. Três mulheres dirigiram a cerimônia, a Celebração. Um padre representante do arcebispo foi convidado a dizer algumas palavras, e as disse ressaltando as qualidades do padre Reginaldo. O beneditino, padre Marcelo Barros, foi convidado a refletir o Evangelho e, entre muitas palavras, lembrou o Sínodo da Amazônia e a palavra do papa Francisco sobre a necessidade de ampliar a compreensão do sacramento da Ordem. O clima foi de alegria, apesar das lágrimas de saudade. Nenhum dos presentes parecia duvidar que estava acompanhando um presbítero da humanidade, um cristão que não reduz a sua Igreja às determinações clericais. O padre, lembrava Dom Hélder as palavras de pai, o padre é para servir, não para ser servido.    

sábado, maio 14th, 2022

REVISÃO DA HISTÓRIA – De Fátima à Praça do Carmo, da Princesa a Zumbi.

Prof. Severino Vicente da Silva

Ontem foi 13 de maio, terminei mais um semestre debatendo alguns aspectos da trajetória europeia, aquele período que os historiadores brasileiros deram a chamar de Moderno. Fui surpreendido com umas palmas, e com o sorriso alegre dos alunos, até recebi uns abraços. Foi uma turma interessante. Nem deu tempo para conversar sobre o Treze de Maio, data polissêmica em minha formação de cidadão, de professor de história e, segundo dizem, de historiador.

Incialmente, foi-me ensinado sobre o Treze de Maio de 1917, foi o dia em que três crianças, duas meninas e um menino, afirmavam que viram e conversavam com a mãe de Jesus, a Nossa Senhora. O caso ocorreu no lugarejo Fátima, e deu muito o que falar, juntou muita gente, veio o prefeito, o padre, o bispo. Inicialmente as crianças foram mal vistas, tidas como mentirosas, mas aos poucos a comunidade foi aceitando que algo extraordinário ocorria no seu lugarejo. Ontem, o noticiário afirmava que mais de duzentas mil pessoas estavam em Fátima, louvando e venerando a Virgem que apareceu aos Três pastorzinhos.

São muitas as explicações, e maior ainda o número de consequências daquele fato, dadas e vividas na Europa e nas outras partes do mundo desde então. Na sociedade europeia que se tornava cada vez menos religiosa e afastada dos tradicionais instrumentos de educação, como a religião, a visita de Nossa Senhora, era como uma reação da fé ao mundo moderno, às ideias que cresciam de uma possível vitória dos comunistas, em Portugal e no mundo. Os católicos retomaram a reza do Rosário e a veneração expandia-se pelo mundo católico. Cresci praticando a fé com o Terço nas mãos, declinando as Ave Maria necessárias para afastar o perigo do comunismo e trazer a paz para o mundo.  Em minhas andanças na Zona da Mata, à cata da minha história e do meu povo, pude observar que nas portas das casas estava colocada um retrato de Virgem de Fátima, com uma ave maria e o pedido para afastar o comunismo do Brasil. Estavam nas casas mais pobres, mas nas portas das casas do Senhor de engenho, dos donos de fazenda de gado, nas portas dos quartos, nas sacristias das capelas dos engenhos. A veneração a Nossa Senhora de Fátima foi trazida para o Brasil por jesuítas portugueses, perseguidos em Portugal no início do século XX, e, coisa notável, a as mesmas pessoas que sempre desgostaram dos jesuítas nos séculos anteriores, os acolheram e à devoção que traziam.

Mas o Treze de Maio tem outro sentido também aprendido na infância, não nas conversas familiares, mas na escola. O Treze de maio de 1888. Foi na escola que aprendi sobre a Princesa Isabel, a filha do Imperador Pedro II, assinou uma lei que ficou conhecida como Lei Áurea, de ouro. João Alfredo, ministro do Império, pernambucano, casado com uma filha do Barão de Goiana, é que redigiu a lei, simples como milagre. Por ela ficou decretado o fim da escravidão de seres humanos no Brasil, seres humanos que, eles ou seus avós, vieram da África. Aqui chegaram para fazer funcionar os engenhos de moedores da cana para fazer o açúcar, a cachaça, o vinagre, mas as pessoas só lembram do açúcar que vinha do caldo da cana espremida, esmagada, como foram esmagadas vidas daqueles africanos aprisionados em sua terra de origem, e trazidos para os engenhos de Pernambuco e das outras regiões do Brasil. Houve festa em todo o Brasil após a Lei Áurea, até o papa Leão XIII mandou um presente para a Princesa. O fim da escravidão no Brasil parecia um presente que dona Isabel deu ao moradores do Brasil que ainda eram escravos naquele ano. Algum tempo depois é que eu soube de José do Patrocínio, de Cruz de Rebouças, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, e fui compreendendo que houve muita luta para que se chegasse a esse fim, e também que havia muita gente não negra, gente que enriquecera comprando africanos e vendendo escravos, interessada no fim dessa prática de transformar seres humanos em animais de carga. Esses conhecimentos foram chegando aos poucos, pois é aos poucos que se conhece a história da família nuclear e da família nacional. Aprendi que meu avô paterno, que não conheci, era preto, e sua esposa, a Vó Florinda, que ainda vi antes que morresse, era uma cafuza de cor negra e cabelo índio. Ainda tenho um retrato dela, ao lado de minha outra avó, quase branca, mas com traços indígenas. Dei-me conta, ouvindo e repensando as conversas mantidas com meu pai, que a história de minha família, como milhares de milhares de outras, é a história do Brasil.

Em 1988, estava trabalhando na Coordenação de Projetos Especiais da Secretaria de Educação da Prefeitura da Cidade do Recife, e a secretária de Educação, professora Edla Soares, orientou para termos atividades em torno do fim da escravidão no Brasil, não no sentido de homenagear a Princesa Isabel, mas de refletir sobre como era a situação das crianças e jovens que frequentavam as escolas do município. Promovemos um seminário que envolveu vários municípios pernambucanos com palestras ditas por professores locais, mas com o a presença de Décio Freitas, que não pode vir; então a secretária convidou um professor, que já recebia um jeton para assessorar a secretaria de Educação, mas ele pediu uma alta soma de dinheiro para substituir o professor Décio. Como coordenador do projeto, recusei pagar ao professor, fiz gratuitamente a palestra. Usamos o dinheiro para coisa mais útil. Também realizamos uma passeata com os estudantes das escolas, ocupamos o as ruas com as crianças e jovens pobres e negros, das escolas municipais e das Escolas da Comunidade, para lembrar aos vereadores que os descendentes dos homens e mulheres escravizados careciam de mais escolas e que oferecessem uma educação de boa qualidade.

O projeto previa uma revista da secretaria de educação, saiu apenas o primeiro número, cuja capa era a representação de uma criança negra com um lápis na boca. A professora Edla Soares escreveu uma apresentação com o título Negro, desbotado não. Vários professores de diversos municípios colaboraram com artigos.  E foi criada a Medalha da Abolição, entregues a pessoas dedicadas às tradições afro-originárias, como a Badia, que a recebeu em cerimônia pública na Praça do Carmo, local da exibição da cabeça de Zumbi dos Palmares e hoje tem a estátua em sua memória; também entregamos a medalha a estudiosos da vida dos negros no Brasil, como a professora Kátia Mattoso.  Plínio Victor e eu sonhávamos com um memorial Zumbi dos Palmares.

Alguns anos depois, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, 1997) assinou decretou que pôs Zumbi dos Palmares no Panteão dos Heróis brasileiros; em 1911, 20 de novembro passou a ser considerado dia da Consciência Negra.

Sim, continuo rezando e pedindo a proteção de Nossa Senhora de Fátima, e tenho respeito à dona Isabel que agiu nas condições de seu tempo e nas suas possibilidades.

O Cardeal, o Cristo e o Exú no Carnaval

terça-feira, abril 26th, 2022

O Cardeal, o Cristo, e o Exú no Carnaval

Prof. Severino Vicente da Silva

Era Carnaval, esse mundo da alegria quase revolução, quando o mundo fica quase de “ponta cabeça”, todo invertido. Ninguém leva sério o rei de plantão, e a chave da cidade fica confiada ao Rei Momo, quase sempre gordo, sempre sorridente, com a pureza de um semiembriagado. Antigamente não tinha Rainha do Carnaval, agora inventaram essa, uma pequena satisfação à família. Antes era Pomba Gira, mulher sedutora, de riso enigmático, promessa de paraíso em três dias. Eram muitas e todas perdidas na multidão, prontas para serem achadas. Cantava-se “durante os três dias não sou de ninguém, até quarta-feira, meu bem”. Mas arrumaram uma rainha que ninguém leva a sério, nem o rei. Nos dias de hoje o carnaval é oficial, no sentido de que, se não precisa mais a licença da Igreja, tem a licença do prefeito, aquele que entrega a chave e vai se divertir, mas antes ele já havia definido os locais liberados para a liberdade que o carnaval promete. Melhor, os locais onde os cidadãos podem ser foliões, ficar doidos de alegria. Sim, tem ruas marcadas para isso. Mas o carnaval se faz a partir da alma do folião que nem se importa do que dizem dele; o folião é um ator de si mesmo e, dança, canta, grita, para si mesmo. Ele é sua plateia, é uma alegria para si. E também para quem não é folião, para quem não quer ser folião, para quem só quer ver folião, para quem deseja ser folião, mas fica pensando no que o vizinho vai dizer. Como é cidadão, o prefeito organizou um jeito de separar os foliões dos que gostariam de ser foliões. E então mandou construir passarelas e bancos para aqueles assistirem o carnaval, separados dos que são foliões. Nas bancadas fez-se outra divisão, criaram-se camarotes, mais isolados, de forma que ninguém saiba as folias que acontecem naquele espaço separado para os separados. Uma alegria para quem não se alegram no carnaval das ruas. “Não fiz, mas vejo”.

Faz alguns anos, quando os católicos do Rio de Janeiro estavam sob a responsabilidade do Cardeal Arcebispo Eugênio Sales, ocorreu memorável acontecimento, quase “esquecido pelas novas gerações” e, também pelas menos novas. Imaginem que um “carnavalesco”, que é uma categoria diferente de folião, pois o carnavalesco diz como alguns foliões devem ficar loucos, na alegria contida de 90 minutos. Uma loucura concentrada, organizada, um espetáculo para que a turma das bancadas possa divertir-se. Pois bem esse carnavalesco, Joãozinho Trinta, que já inovara pondo os seios das mulheres à mostra na passarela, resolveu levar O Cristo Redentor para a passarela. O carro dessa alegoria estaria acompanhado de mendigos. A liberdade do carnaval pretendia fazer uma crítica, uma denúncia da maneira como a cidade estava tratando parte de sua população. Afinal, houve um tempo, quando havia o Estado da Guanabara, falava-se, à voz de surdina e em alguns jornais, que estaria em curso uma política para que a cidade ficasse livre dos mendigos. Esse costume vem da Europa do século XVI, quando se ensaiava a ideia de “o trabalho dignifica o homem”. Pois bem, nos anos 1962-1963, o Estado da Guanabara radicalizou e apareceram muitos corpos de mendigos boiando no rio Mundau. Era a ‘operação mata mendigos”.[1] Foi um escândalo, mas o Cardeal Arcebispo da época, se disse alguma coisa, foi na surdina. Consta que os moradores de Copacabana aprovaram a política do governador Carlos Lacerda. o qual foi um dos líderes civis do golpe de 1964.

Em 1989, quando o Brasil ainda começava a sacudir as dores da ditadura iniciada 1964, é que ocorreu a cena do Cristo e os Mendigos da Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis. O cardeal arcebispo usou todo o seu prestígio para evitar que viesse a ocorrer o desfile do Cristo Redentor em uma escola de samba. Muitos editoriais foram escritos e, possivelmente, muitas conversas de pé de ouvido com os novos paladinos da democracia e defensores do Cristo, esquecendo que ele foi criticado por andar em má companhia antes de ser preso e ser morto entre dois ladrões. Mas o cristo saiu no desfile coberto por lona de plástico preto, com uma grande faixa dizendo bem forte: “mesmo proibido, rogai por nós, cercado de mendigos por todos os lados. Agarrado com os poderes, bem semelhantes aos que mataram nos rios e nos quartéis, o cardeal arcebispo perdeu seu rebanho, pois não abriu caminho para os que denunciavam as injustiças, naquele carnaval.

Este ano, como no ano passado não houve carnaval, esse comum que dá início ao Calendário Lunar, o calendário religioso. Esta semana, contudo, ocorreu o carnaval, totalmente fora de época, na semana seguinte aos festejos de Páscoa, quando os seguidores de Cristo lembram a sua morte e celebram a sua ressurreição. Algumas autoridades religiosas reclamaram, tentaram evitar tal celebração. Não conseguiram e, trinta e três anos depois do Cristo Proibido no carnaval, a escola de Samba Grande Rio, levou Exu para a avenida. Exu é Orixá das religiões originadas na África, que foi atravessado com os escravizados, é o orixá da comunicação, aquele que abre as possibilidades, que aponta os caminhos a serem escolhidos. Os mendigos mortos e encontrados boiando na Guanabara dos anos sessenta, quase todos tinham a pele preta, como preta é a pele de Exu. Não houve debate sobre o passeio de Exu na passarela do samba. Ainda hoje não se sabe como estava representado o Cristo escondido na lona de plástico, que era preta. Nunca saberemos como os carnavalescos imaginaram o Redentor dos Mendigos. Será que tinha a cor do Benedito? Seria o Exu? O cardeal que proibiu sem saber, morreu sem saber. E Marcelo Alencar também não sabe. É não se sabe como era o Cristo.


[1]https://www.researchgate.net/profile/Mariana-Dias-Antonio/publication/334605471_A_Operacao_mata-mendigos_e_o_jornal_Ultima_Hora_Rio_de_Janeiro_1961-1969/links/5d35a1d3a6fdcc370a54d4f2/A-Operacao-mata-mendigos-e-o-jornal-Ultima-Hora-Rio-de-Janeiro-1961-1969.pdf