SEM NÓS NUNCA MAIS

janeiro 12th, 2023

SEM NÓS, NUNCA MAIS

Prof. Severino Vicente da Silva

Pouco tempo após a eleição ser definida em favor do sr. Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Hoornaert escreveu em seu blog que a derrota do ex-presidente pouco dizia, uma vez que o bolsonarismo crescera e criara raízes nas diversas instâncias do Estado brasileiro, e na mente de muitos cidadãos. O mal estava instalado, era um elefante na sala (http://eduardohoornaert.blogspot.com/2023/01/o-elefante-na-sala.html).

Enquanto isso o ano de 2023 começava com uma festa pelo retorno de  Lula à sede do governo, com todos os simbolismo e promessas de um futuro mais próprio para a diversidade brasileira, gente comum representando gente comum subindo a rampa do palácio para, em gesto inusitado, colocar a faixa presidencial no novo governante. Parecia a realização do sonho de Darcy Ribeiro.

O antigo presidente recusara realizar o gesto que significaria mais um passo na direção de quebrar o monopólio do poder que esteve sempre, explicitamente, nas mão de um pequeno grupo; o antigo presidente sempre fez parte do grupo que pretende perpetuar o Estado baseado no projeto de fazer uma nação sem povo; após quatro anos no governo, ele e seus companheiros e seguidores, não conseguiam entender, como ainda não conseguem, porque razão havia sido rejeitado. De Longe assistiram a posse dos novos/antigos adversários, a quem definiram como inimigos. Não muito distante dos festejos, continuaram a se fortalecer para, na semana seguinte tentar de surpresa mostrar a extensão de seu poder.

Enquanto os novos governantes ainda não se entendiam no todo e mostravam fragilidades desnecessárias, e uma confiança exagerada de que aqueles que garantiram a doutrinação para a aceitação do fortalecimento da estrutura que sempre pautou o comportamento da elite governante brasileira aceitassem ser parte secundária na política. Enganaram-se, pois os ninhos da seita estavam repletos e os filhotes eram alimentados nas átrios das pretendidas novas catedrais, como provavam as atitudes dos ‘cardeais’ que se recusaram a entregar o comando de suas tropas. Ali estava gritando o sinal da sublevação, da ignomínia e da traição à Constituição Cidadã. E então no oitavo dia do ano veio o dilúvio com o qual pretendiam afogar a democracia, a possibilidade de o povo brasileiro tentar apontar outro caminho para uma nação que ainda não se formou plenamente. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 expõem que a elite econômica do Brasil, aliada aos militares, se recusa a ser protagonista de uma proposta social que acolha todos os ramos formadores da humanidade. A exclusão parece ser o afã de sua existência.

A existência humana não pode ser explicada apenas por uma tensão binária, tampouco a história dos homens. Jacques Monod explica que a ocorrência da vida teria sido um acaso, um acontecimento fortuito, mas, um vez instalada, é a necessidade de manter-se viva que permite a continuidade da vida. Falava-se que os portugueses teriam chegado a essa terra que denominamos Brasil, por acaso, no ano de 1500. Essa foi a primeira maneira de desqualificar um dos nossos antepassados, negando-lhes o reconhecimento de seus estudos para o domínio dos mares, na construção naval, no domínio das ciências, enfim. Essa percepção negativa que foi construída sobre os portugueses e sua cultura, parece ter sido resultante das explicações proclamadas pelas nações da Europa Setentrional, que tardiamente seguiram os caminhos abertos pelos lusitanos, a partir de meados do século XVII, na demonização da cultura barroca católica em face de uma pretensa separação da religião protestante em relação ao Estado. Tal explicação levou gerações a acreditarem que todo o processo de destruição dos povos originários desse continente que hoje chamamos América, teria sido realizado pelos iberos. Quando menino e adolescente, tive aulas nos cinemas para nos convencer que os matadores dos Dakotas, dos Chayenes, dos Pés-Pretos, dos Navajo eram heróis fundadores, enquanto os padres jesuítas eram vilões destruidores de nações. Só recentemente é que europeus não iberos começaram a ser vistos como comerciantes de africanos escravizados, eram mostrados apenas os criadores das ligas antiescravistas. Os europeus que, bem ou mal, mesclaram com indígenas ou africanos passaram a ser vistos como inferiores, assim como seus descendentes. Foi com este preconceito contra si mesmo que o Brasil veio sendo construído desde a separação política de Portugal. E o ensinamento que os povos indígenas eram traidores, mentirosos, preguiçosos, antropófagos, etc.  Dos negros africanos e seus descendentes diziam que eram lascivos, preguiçosos, só trabalhavam sob chibata, indolentes e sem religião, como diziam também dos povos indígenas. E aprendemos isso, e naturalizamos essa situação, nos livros, nas escolas, nas igrejas e nas delegacias. Por isso sempre pareceu tão fácil à elite dominar e manter seu poder. Mas estou pensando mais claramente na elite que se firmou especialmente após 1870, embranquecida pela chegada de europeus excluídos do sistema industrial, cuja inclusão foi bastante facilitada pelos que aqui já haviam se alojado. Foi fácil para eles criar uma República excludente, como escreveu um dos seus líderes, os que não concordavam em algum ponto foram massacrados e depois elogiados como sendo “antes de tudo, um forte”; foi fácil convencer que o golpe de 1930 foi uma “revolução”; também foi fácil convencer várias gerações que o que seus avós lutaram para conseguir, foi um agrado dada por um estancieiro que governou o Brasil como dirigia a sua fazenda. Ainda há professores que ensinam que a CLT foi uma doação de Getúlio Vargas retirando o protagonismo de operários que construíram parte de São Paulo no início do século XX, depois vieram “os do Norte” e completaram o serviço.

Mas, como a dinâmica da História não é bipolar, as elites viram-se forçadas a permitir alguma participação do povo, aprovando o voto, desde que a pessoa fosse alfabetizada, assim se excluía 70% da população. Claro que não foram construídas escolas para o povo, mas o povo construiu escolas para si. E começaram a votar e indicar caminhos para o país, e esses caminhos foram sendo obstruídos. O Recife foi a última capital a eleger seu prefeito e, uma vez eleito, tomaram providência para impedir que ele atuasse. Em 1964, afastaram do poder um presidente eleito, conseguiram o golpe impedido em 1954 e 1961. Desde o tempo do primeiro imperador eles sempre querem um poder moderador, alguém que acima das leis represente aqueles que fazem leis para os favorecer e impedem a participação da maioria.

Eles tentaram no dia 8 de janeiro de 2023, mais uma vez, impedir que o Brasil seja planejado para mais que 30% da sua população. O que viram subir a rampa do Palácio na tarde do dia 1º de janeiro, foi a realização de seu maior pesadelo: excluídos incluindo-se. É que a vida, o desejo de viver, é assim pode vir por um acaso mas, depois que se instala começa o tempo da necessidade. Os que estão no reino da necessidade de comer, de vestir, de morar, precisam responder a essas necessidades, e a necessidade de participar. Falta muito, mas chegaremos lá, faremos a humanidade, diversa e colorida, incluir a todos. Como disse Sônia Guajajara: Sem nós nunca mais.

Pelé

dezembro 30th, 2022

Tem coisas que a gente pensa mas não tem coragem de dizer e, na emoção, escorregam as palavras. Eu tinha oito anos quando vi Pelé jogar na Suécia e os suecos aplaudindo ser derrotados pelo rapazola que chorava nos braços de Gilmar dos Santos. Mas isso foi lá em casa, acendendo uma vela, pedindo aos santos que ajudassem a Pelé, que eu acabara de conhecer. Nunca vou esquecer esse momento quando chorei vendo Pelé chorar e, com os colegas, realizar uma volta olímpica com a bandeira do Brasil cobrindo a todos.

Foi nessa época que também conheci Didi e Vavá, e Garrincha, Djalma Santos, Beline, Nilton Santos, Pepe. Depois eu soube que foi nessa época que se superava o “complexo de Vira Lata”, uma explicação de Nelson Rodrigues para o constante fracasso brasileiro. Cresci amando dois times: o Santos e o Santa Cruz.

Mas, como eu disse eu conheci Pelé aos oito anos e vi tudo isso por conta da narração dos artistas que nos contavam o que viam, nos emocionavam com suas emoções verdadeiras. Em um tempo em que as imagens nos vinham pelas palavras dos locutores esportivos. Eles contaram como a realeza europeia se curvou diante a realeza do moleque que foi ensinar futebol aos que pensavam que haviam inventado o futebol. Foi assim que conheci Pelé que depois eu vi no Jornal 100.

Não, nunca conheci a Edson Arantes do Nascimento, nem mesmo quando veio casar-se no Recife. Nunca me interessei por Edson. Aliás, Edson, quando falava, deixava bem claro que ele e Pelé eram diferentes, embora vivessem no mesmo corpo, este muito bem cuidado por Pelé. Assim, hoje ocorreu a morte de Edson Arantes do Nascimento, que nasceu em 1940, em Três Corações, MG, morreu hoje. Pelé nasceu em Santos e não morrerá, pois as lendas e os contos de fadas são eternos. Pelé viverá enquanto houver um atleta, ainda que não seja perfeito como esse corpo educado para ser o corpo de um deus.

Histórias do Natal

dezembro 21st, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Pois bem. Nós estamos ao final do ano. E este mês de dezembro nos trouxe muitas surpresas. Entre elas, destaca-se a situação do Brasil ao final da Copa do Mundo de futebol, promovido pela FIFA. O Brasil não foi o grande destaque, apesar de que parte da imprensa Brasileira ter convencido a população, os tecedores brasileiros, de que o Brasil poderia conseguir o seu hexa campeonato. Ora, o que vimos foi uma seleção pouco entusiasmada pelo futebol, e parecia gastar mais tempo na produção de seus cabelos e na organização de danças coreográficas para comemorar possíveis gols. E o resultado foi simplesmente lamentável. Podemos até dizer que foi ótimo não termos ido para a final do torneio, porque com certeza o vexame teria sido muito maior do que o fato de termos perdido para a Croácia. Assim, a comemoração do hexa campeonato ficou marcada para o ano de 2026. Os argentinos, por seu turno, ganharam o torneio. E o tricampeonato.

Enquanto os orgulhosos e felizes argentinos comemoram o seu título. Aqui no Brasil, o mês de dezembro continuou assistindo cenas deploráveis do nascimento de uma tendência fascista, grupos de pessoas que se recusam a reconhecer o resultado da eleição que ocorreu no mês de outubro. Querem que não venha o ano novo, desejam a continuação da velha política, da constante escolha pelo sofrimento e da destruição da esperança.

Sem surpresa para quem observa os acontecimentos e escuta os sinais do tempo, uma pesquisa nos informa que ESPERANÇA foi a palavra que marcou ano de 2022 paa os brasileiros. Alguns a cultivaram no desejo da manutenção e fortalecimento das forças geradoras do mal e outros a tiveram como um facho em direção do ignoto, desejando que o futuro venha a ser construído com as forças desejosas da manutenção da vida repleta de gestos de bondade criativa e construção de pessoas mais interessadas que sejam diminuídas as desigualdades sociais, econômicas, culturais. O resultado das urnas de outubro indicam que poderemos esperançar coisas, situações, ações que nos levem à construção de uma sociedade mais voltadas para agir na direção de superar os entraves que impedem a criação da humanidade.

Agora aproxima-se o festejo natalino, uma festa de aniversário, a comemoração de um nascimento que ocorreu a pouco mais de dois mil anos. Aniversaroo de ima criança nascida em um estábulo, local de descanso para animais e seus proprietários. Os que escreveram sobre este nascimento nos dizem que a vida não estava fácil para os pais dessa criança, pois contam que a sua mãe engravidou antes das bodas esponsais e o seu pai pensou em abandonar a sua noiva. Por pouco o menino teria sido mais uma criança criada só pela mãe. Mas josé, o noivo de Maria reconsiderou sua decisão, Manteve o acordo matrimonial. Resolvido esse problema, eis que a autoridade política resolve fazer um censo, e obriga todos os que saíram de seus locais de nascimento a eles retornarem, o que levou aquela família se dirigir ao povoado de Belém. Mas eram muitos que tiveram de voltar a Belém, por isso não havia casas nem quartos de hospedaria. Só restou ao casal dirigir-se e arrumar-se em uma gruta que havia fora do povoado. Então a jovem inexperiente entrou em trabalho de parto, tendo como auxiliar o marido. Situação de extrema pobreza. Mas parece que não estava muito frio, pois naquela estrebaria só havia dois animais, os pastores preferiram ficar ao relento, apreciando as estrelas, conversando, contado casos e causos, em torno de uma pequena fogueira. Os que narram esses acontecimentos, Lucas e Mateus, chamam atenção a fatos surpreendentes e maravilhosos. Assim como eu, Lucas e Mateus não estavam no dia do nascimento do filho de José e Maria, a quem José deu o nome de JESUS, que quer dizer, Deus Salva.

Mateus diz que homens sábios estavam viajando desde muito longe para conhecer, ainda em criança, aquele que, diziam as estrelas, iria mudar o mundo. Seguiam uma estrela e ela havia parado naquela região. Como entendiam que essa criança que procuravam ia ser importante, um rei (sempre se deu muita importância aos reis), foram perguntar ao rei daquela região, Herodes. Logo Herodes ficou preocupado pois, se alguém ia ser rei, o seu emprego passou a correr perigo. Como Herodes sabia que um sábio do passado havia dito que de Belém viria um rei, nascido de uma jovem, resolveu usar os sábios que vieram do Oriente para ver o rei como seus auxiliares e pediu, gentilmente que, assim que soubessem onde estava essa criança que ia ser rei, mandassem um recado, pois ele desejava prestigiar a criança. Claro que os sábios do Oriente, que pareciam ser reis, conversaram entre si e chegaram à conclusão que Herodes não era de confiança, acharam muito estranho que o rei Herodes nada soubesse da criança. Decidiram que não mais se comunicariam com Herodes. Mateus diz que os reis encontraram o local do nascimento, viram o menino rei, deram-lhe presentes.

Lucas conta outros acontecimentos, esses sem reis. Ele nos conta que perto da gruta havia um grupo de pastores protegendo suas ovelhas e cabras contra a ação de animais famintos. Então os pastores sentiram-se envolvidos por luzes e sentiram medo, quando a voz de um anjo lhes informou que todos deviam alegrar-se pois havia nascido o Salvador na cidade de Belém. Eles viram vários anjos e ouviram que eles davam glória a Deus e aos homens que Ele ama. E o anjo os convidou a visitarem a criança e sua família, deu-lhes o endereço, com indicação para encontrar a família e a criança. E os anjos foram embora, e os pastores resolveram seguir as instruções recebidas. Encontraram a criança e foram logo contando como é que souberam da criança. Lucas diz que os que ouviram as palavras dos pastores ficaram admirados. Devem ter ficado algum tempo conversando sobre o menino. Lucas diz que a mãe de Jesus ouvia tudo, guardava tudo que ouvia. Ela estava maravilhada com o filho. Foi uma noite muito interessante, essa do nascimento de Jesus, nela se encontraram reis de vieram de longe, reis sábios, conhecedores das estrelas, capazes de ler os sinais do tempo, e pastores, talvez não estivesse cuidando de suas cabras e carneiros, mas cuidavam, no relento da noite, dos animais de outros que deviam estar sob seus lençóis, com aconchego de suas casas.

No dia seguinte, os reis voltaram para suas terras, os pastores para as colinas a cuidar dos animais. José e Maria que tinham ouvido dos reis, que trouxeram presentes de ouro, incenso e mirra, que deviam sair logo daquele lugar, pois Herodes poderia vir a fazer mal à criança. Devem ter começado a organizar os pequenos objetos que traziam consigo. É provável que a família chefiada por José tomou a decisão de sair do país, abandonar sua terra, a terra de seus antepassados, deixar para trás a oficina que ficara em Nazaré. Tornaram-se imigrantes. Parentes e amigos cuidariam dessas coisas até que pudessem retornar.

Esses acontecimentos, junto a muitos outros que fizeram a vida de jesus, foram sendo repetidos de uma geração a outra, chegaram até nossos dias. E essa história é contada para que todos nos vejamos nesse menino, para que vejamos todos os que são obrigados a sair de suas terras originárias, ou ficarem em suas terras, desconhecidos, perseguidos pelos poderosos que semelhantes a Herodes, desejando manter-se permanentemente no poder, perseguem crianças pobres, indefesas, pois são filhos de pais pobres, recusam alimento às crianças, enquanto festejam seus desejos iludindo que louvam aquele que nasceu pobre e foi perseguido desde o nascimento. 

Na festa de aniversário de Jesus, quem pode, como os Reis do Oriente, dá presente; os que não podem dar presente, como os pastores, apresentam-se para alegrar os pais e cantar alegria, canções de ninar.

Cuidemos do Menino Jesus, continuamente ameaçado por reis malvados. Evitemos ser causadores da dor das crianças, não esqueçamos que adultos são crianças crescidas. Vamos perfumar o mundo com o incenso, com o perfume da vida, esse que nos vem das flores.   

Marília Orange

dezembro 3rd, 2022

Severino Vicente da Silva

Esta semana fui impactado com a notícia da ressureição de Marília Orange, uma personagem, uma pessoa importante em minha vida, desde a nossa adolescência. Ela, sua mãe Hortênsia, seu irmão Valdo, a querida Sônia, sempre me acolheram com simpatia e carinho. Sua casa foi sempre um lugar onde encontrei amor. Marília surpreendeu a todos nós quando ele decidiu viver com o seu amor. Seu gesto nos deixou confusos, não sabíamos o que dizer, pois ela rompeu os caminhos que nos haviam ensinado. Lembro dos assustados que fazíamos, festas na casa de Vavá que ficava quase em frente da igreja matriz de Nova Descoberta. E Ninha tinha consciência do seu gesto.

Ninha dedicou parte de sua vida em olhar a administração pública, como servidora atenta, honesta, digna e respeitadora do contrato que assinou com o povo brasileiro de servi-lo. Os bons funcionários são anônimos, pouco conhecidos, mas sem eles o Estado não se manteria servindo ao povo, pois os que chegam a dirigir o Estado, não por concurso e sim por indicação, quase sempre agem em benefício próprio. Em sua vida pessoal, anos depois, sim depois de separar-se de seu amor, Marília voltou a casar com o amor de sua juventude, voltou a viver com ele até o fim dos seus dias.

Entre os muitos momentos que encontrei Ninha, foi na Secretaria de Educação do Município do Recife, quando fiz concurso para professor, mas foi parar na Diretoria de Projetos Especiais da Secretaria, e depois na presidência da Fundação Educar – antigo MOBRAL – com a incumbência de torna-la diretoria de Educação de Jovens e Adultos. Tarefa realizada, fui seu primeiro diretor. Após a mudança de prefeito, por ser o único diretor concursado na prefeitura, os demais estavam ligados à UFPE para onde voltaram, no último dia do governo que saia, fui posto à disposição da Prefeitura de Olinda, onde deveria assumir cargo semelhante, o que não ocorreu por questões político partidária. Então fui convidado a assumir uma assessoria na Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, quando participei do grupo de trabalho que deu início a Educação Indígena, o que me deu a oportunidade de visitar as escolas indígenas. Minha chefe era a professor Elizabeth Varjal. Nesse período recebo um recado de Marília e fui ao Departamento de Pessoal da Secretaria de Educação do Município do Recife, e soube que iria ser exonerado pois os que que me levaram à Secretaria Estadual não haviam comunicado ao município a minha transferência de Olinda para a SEC de Pernambuco. Meu anjo, na forma de Ninha evitou essa enorme crise em minha vida. Ela sorriu e disse que eu deveria tomar conta de mim e não acreditar em tudo que as pessoas me diziam, que eu deveria checar as informações, pois sempre haveria pessoas que prejudicam outras por razões políticas, religiosas ou mesmo por que não desenvolveram bom caráter. Foi mais um momento que Marília tomou conta de mim.

Marília ressuscitou no primeiro dia de aula deste semestre e o horário do sepultamento de seu corpo coincidiu com a aula. Mesmo assim tentei chegar ao Parque das Flores, mas as obras na BR e o acampamento de maus cidadãos que não reconhecem o resultado das urnas, sob a proteção de um exército que esqueceu sua função: defender as instituições, não me permitiram chegar e me despedir de minha amiga, de meu anjo protetor, de que cuidou de mim em momento difícil de minha vida. Este depoimento é para dizer a Marília, à Sônia, a Valdo e a dona Hortênsia (em memória), o quanto eu devo a cada um de vocês, cada um à sua maneira, e que eu terei, até a minha ressureição, guardado em minha memória Ninha e cada um de vocês. Sônia, eu amo vocês.

O CUSCUZ DO REI

novembro 27th, 2022

O cuscuz do rei

Prof. Severino Vicente da Silva

Aproxima-se o final de 2022. Já sabemos que nas eleições de outubro ocorreu a vitória das forças que pretendem evitar a catástrofe fascista que parece dominar o Brasil. Pouco mais que a metade do eleitores expressaram o desejo de viver em uma democracia; mas a outra parte dos eleitores decidiu não reconhecer o resultado das urnas e, dão continuidade ao projeto elaborado em algum escondidinho do Palácio do Planalto e, para lamento da nação, com o apoio implícito, envergonhado, de setores das Forças Armadas. Embalados em sonhos pessoais, afastam-se de sua função constitucional, soldados malformados moralmente, protegem os cidadãos que pretendem um golpe. O silêncio que permite os passos em direção a um golpe de Estado, é quase pior que o golpe. É que agindo como milícia, os comandantes das Forças Armadas destroem o que deviam proteger.

Acordei protegido por boas lembranças. Ao cultivar as boas experiências do passado estamos, em verdade, fortalecendo as esperanças nos tempos que virão. Pensei nas mãos de Mamãe preparando o cuscuz matinal, de como ela molhava com salpicos o fubá que vinha a formar o bolo que nos alimentava, com um pouco de açúcar e leite. Fiz a minha primeira refeição com a lembrança de Mamãe, e ouvindo Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, que Alexia encontrou para mim em sua sofisticada discoteca. Os Cantores de ébano era um grupo de cantores negros que usavam apenas as suas vozes, às vezes um violão. Morreram em um trágico acidente de avião. Pelo que lembro fizeram apenas um disco, um LP. E cantavam em celestial harmonia. Percebi que Caetano veloso, que um pouco mais idoso que eu, ouviu bastante os Cantores de Ébano, de tal modo que um dos seus sucessos foi cantando Felicidade, de Lupercínio Rodrigues com Luar do Sertão de Catulo da Paixão Cearense, no mesmo arranjo criado por Nilo Amaro. Na natureza e na cultura, nada se perde, tudo se transforma.

A gente bem que podia treinar em parar de dizer cultura popular brasileira e dizer apenas cultura brasileira. Chamar de cultura brasileira apenas aquela de verniz mais europeu e dar continuidade a uma separação a ser superada. Lima Barreto não foi aceito na Academia Brasileira de Letras, mas agora já temos bem sentadinho lá o autor de A Freguesia do Ó e da Refazenda. Estamos no Expresso 2222.

Para os cristãos, católicos em especial, está sendo iniciado o tempo que informa o que vem vindo, e vem vindo a Vida. Anuncia-se a chegada do Menino, o Menino Jesus que recebe visitas nos muitos presépios espalhados em igrejas, capelas, praças e casas. Mesmo nas casas mais ricas, nos bairros onde os pobres não entram, exceto para recolher o lixo, os presépios lembram que nasceu o rei a quem os reis sábios prestam honra e serviço. O Advento é o tempo de arrumar a casa interna, além da externa, para receber o rei que nasceu entre os animais e virá a ‘morrer’ entre os condenados. Vamos comer, com Ele, o cuscuz.

O Escravo Francisco: qual a tradição: a do Medo ou a da Liberdade?

novembro 14th, 2022

O ESCRAVO FRANCISCO: QUAL TRADIÇÃO: A DO MEDO OU A DA LIBERDADE

Prof. Severino Vicente da Silva

Então saímos de casa e olhamos o mundo que carregamos em nós. Quase sempre só vemos o que já conhecemos. Quando encontramos algo que nos é desconhecido, temos que parar e comparar com o que já conhecemos, e.  nesse exercício, podemos crescer em conhecimento, ou podemos não sair de onde estamos. Sempre temos a possibilidade de negar o que de novo nos vem.  Estranha essa situação. Nos últimos dias percebi que, ao sair para usufruir ou conhecer uma cidade histórica, dessas que são nomeadas Patrimônio Cultural, tenho firmado, após conversas aleatórias com seus moradores, percebi que eles não sabem do que estamos falando ou perguntamos. Estaria conversando com estrangeiros em sua própria terra?

Às vezes seria melhor que assim fosse, pois que podem estar cultivando algo que não deveria ser guardado na memória, exceto para que não viessem a ser repetidos. Bem, na história, aprendemos que nada se repete, não da mesma maneira.

Se somos o que fomos, o que somos é resultado do foi vivido no passado, ou seja, o passado nos acompanha de maneira quase definitiva. O Brasil foi sendo gestado com um pequeno número de pessoas a impor suas vontades, desejos e projetos sobre um número enorme de outras pessoas. O Brasil cresceu com a escravidão, terminada oficialmente em 1888. Foram cerca de trezentos e cinquenta aos de abuso, de destruição de pessoas enquanto se construía o Brasil. Relações de ódio, medo, simpatia, ojeriza, carinho, perdas, frustrações, guerras, mentiras, tudo isso e muito mais fez parte da formação do Brasil: devemos reconhecer que foi assim a nossa formação, como foi a dos povos e nações com as quais convivemos no cenário mundial. E tudo isso deve ser parte da memória explícita, não apenas da memória coletiva e reprimida que carregamos. É necessário saber o que fomos e como fomos para entender o que somos.

Falamos da escravidão que tudo criou no Brasil. Joaquim Nabuco ensinou que não há coisa neste país que não tenha o trabalho da mão cativa. O cativo indígena, de quem tudo lhe foi tirado, e o cativo africano a quem nada lhe foi dado. Houve, e há, outra parte que tudo tomou, tudo teve e tudo negou. No tempo presente: tudo tem, tudo tem, tudo nega. Tomou terras do indígena para si, e também lhe tomou a liberdade, os corpos saudáveis de suas mulheres, e lhe tomou e sua alma; tomou para si o trabalho do africano escravizado, tomou seus corpos, seus sonhos, sua alma. Com isso tudo fez surgir um povo moreno, mestiço, a quem tudo é negado, de quem lhe é tomado o resultado de seus trabalhos. Assim foi sendo construído um país que só “pode” ver o mundo com os olhos daqueles que sempre o dominara, que tudo tomou para si.

 Joaquim Nabuco, dizem, era um flâneur, um vadio errante, em suas passagens pela Europa. Olhava ao seu redor, gozava os benefícios que a sociedade inglesa lhe dava, e nada que fizera para o que estava usufruindo. Seria o Pedro, segundo imperador do Brasil outro Flâneur? Sem poder ir a Europa, tento ser flâneur no Brasil. Será isso possível? Joaquim Nabuco em suas andanças inglesas não conseguia ver que estava no interior das minas de carvão. O Imperador se encantava com a França e seus escritores, mas não parece haver a presença da comuna de Paris em suas memórias. Folheando livro de autor alagoano, vejo a hipótese que, influenciado por Victor Hugo, Pedro II começou a comutar a pena de morte definida para os escravos que matassem ou ferissem gravemente seus donos. Era uma lei de 1835, que jamais foi abolida. O senso político do Imperador esteve sempre em luta com a sua convicção na defesa da vida, contra a pena de morte, segundo memorialistas e historiadores. Em relação ao Brasil que se formava com o trabalho escravo, o Imperador se portava como um flâneur. Joaquim Nabuco parece ter abdicado da irresponsabilidade do a Andarilho e se tornou abolicionista. Aliás, ainda estudante defendeu um escravo que matara seu dono, evitando a forca, determinada pela lei de 1835. Como os que estudam história sabem, o Período Regencial (1831-1840) foi um tempo de muitas rebeliões, e a lei que estamos a nos referir foi criada como resposta do Parlamento, em sessão secreta, às rebeliões, especialmente as que envolviam os escravos em luta pela liberdade.

Artur Ramos é um dos brasileiros que dedicou parte de sua vida intelectual para compreender do que é feito o Brasil, atentando para a participação do negro na formação do Brasil. Artur Ramos nasceu na cidade de Pilar, Alagoas. A cidade cresceu com o cultivo da cana e da pesca do Bagre. Mas a cidade agora, como muitas cidades históricas, quer ser local de atração turística. Está a se formar um parque para turismo religioso e, no desejo de alguns, pode vir a ser um local para um teatro aberto, em torno de um fato histórico, pouco registrado nos livros didáticos, na memória das gerações. O Acontecimento envolve Pedro II, o imperador que dizia querer ser professor, mas que não parece ter tido interesse em formar um rede de escolas. Ainda bem, pois os escravos, maior parte da população, não teriam tempo para ir aprender sob a orientação de professores. Seria um desastre para os donos dos escravos. Alguns historiadores simpáticos ao imperador, e à sua cidade protegida por Nossa Senhora do Pilar, informam que um acontecimento na cidade marca o fim da pena de morte no Brasil, pois foi em Pilar que ocorreu último enforcamento de um escravo, a quem o imperador negou clemência. Estamos falando do “escravo Francisco”, levado à forca no dia 28 de abril de 1876. Ele matara seus donos, teve um processo que durou dois anos, mas o processo foi destruído. O equilíbrio político do Imperador evitou a comutação da pena de morte em prisão perpétua, como pedira o Escravo Francisco, pois entendeu que os proprietários locais poderiam revoltar-se contra o Império.

O certo é que o Escravo Francisco, após orar na Igreja do Rosário, a pedido seu, seguiu a pé ao local de sua execução, no Sítio Bonga, acompanhado por uma multidão, mais de mil pessoas em uma cidade que então possuía treze mil habitante. Veio gente de muitos lugares para ver o enforcamento do Escravo Francisco. Uma tradição historiográfica diz que Francisco, após se despedir jogou-se antes que o carrasco agisse. Não permitiu que definissem o momento de sua morte, escolheu ele o momento de sua liberdade. 

Anualmente, a cidade de Pilar refaz esta cerimônia, faz o teatro do enforcamento, a cada 28 de abril seguindo o roteiro que o Jornal de Alagoas fez na edição do domingo 30 de abril de 1878. Os que pretendem tornar turístico este evento, esperam que a cada ano venham mais pessoas para assistir, acompanhar o mesmo trajeto que Francisco fez até o local do seu enforcamento. Soube de pessoas que choravam, enquanto outras diziam que tinha mesmo que ser enforcado para servir de exemplo. Caso prospere essa ação, qual memória ficará: a do escravo que reagiu ao tratamento de coisificação a que era submetido, ou a necessidade de que o exemplo continue a ser dado, e os dominados sejam ensinados que não devem reagir à subordinação?  

   Deodoro da Fonseca, Alagoas, 14 de novembro de 2022

Nota:

  1. Informações foram encontradas em https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/04/04/jornal-de-alagoas-narrou-em-detalhes-ultima-pena-de-morte-executada-no-brasil
  2. SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Pilarenses ilustres. Maceió, 2010.