Anúncio de Natal não é anúncio natalino

dezembro 6th, 2021

Anúncio do Natal não é anúncio natalino

Severino Vicente da Silva

 A jornada de dezembro é sempre uma oportunidade que se tem para que demonstre o esvaziamento das festas singulares do mês, que, para muitos é carregado de tristeza por que lhes falta alguma pessoa amiga na Ceia de Natal. Historiadores céticos, nos lembram que junto com o Papai Noel vem sempre acompanhado por um monstro, Krampus, encarregado de cuidar das crianças pouco educadas e não bondosas. Assim, é o medo, e não o desejo de fazer o bem ou ser bom, o profundo motor do natal, sendo o Papai Noel apenas o obnubilador, o que esconde o mal, a tristeza e o medo.

Sabemos que esse mito do Papai Noel não faz parte do Natal festa que é bem mais remota que a existência do São Nicolau, bispo cristão católico que tinha preocupação com as crianças. Quando Francisco de Assis fez o seu primeiro presépio, ele o fez para adultos, uma vez que, em seu tempo, esses conceitos de criança, de tempo infantil, não existiam. Criança eram os soldados de frente em uma batalha aqueles que seriam os primeiros a morrer no “campo de honra”, como descrevem aqueles que, à distância” decidem os que vão morrer. Infância é outro termo que não existia, como aplicamos hoje, à época de Francisco. Tais conceitos são próprios dos tempos modernos, quando as condições alimentares melhoraram e a morte visitava menos as famílias, permitindo a sobrevivência maior dos filhos. É a partir do século XIV, do Renascimento que as crianças e a infância começam a ser consideradas. Ainda na Primeira Revolução Industrial é grande o número de crianças postas a trabalhar mais que dez horas por dia, não lhe permitindo ter a infância, como a vemos nos dias de hoje. Aliás, nas periferias de nossas cidades, essa sociedade que está sempre em processo de atualização e a realizando de de maneira desastrada, ainda temos desastrada, ainda temos milhares de crianças sem infância. Em verdade infância quer dizer “sem fala, sem fonte”. Então, o bispo Nicolau estava muito preocupado com as crianças que estavam sendo carregadas por Krampus, que as levava para o trabalho nas minas de carvão, nas fábricas de tecido, etc. Melhor não, caro historiador progressista e cético, não destruir tão facilmente as ações do bispo da cidade turca de Mira.

O Papai Noel como o conhecemos em seu traje vermelho e branco, é resultado de um poema sobre a visita de São Nicolau e um cartum com a figura posto por um cartunista, em 1823. No final daquele século veio também a popularização da Árvore de Natal, uma tradição religiosa pré-cristã, que foi ressignificada pelo trabalho missionário de São Bonifácio, ainda no século VIII. Essas tradições, aceitas pelos cristãos – católicos, protestantes e ortodoxos, foram assimiladas à sociedade industrial de consumo.

O Lixão são lugares que recebem as sobras do consumo, lixo que vem das casas e dos restaurantes, como o de Pinheiros, no Maranhão. João Paulo Guimarães estava ali fotografando, que é o seu trabalho quando observou uma criança que, junto com sua mãe, buscava o que comer, estava retirando do lixo uma árvore de natal, feita de plástico, e dizer: vou levar para casa, porque eu nunca tive uma árvore de natal, ela está torcida, mas a gente conserta. A cena comoveu o profissional que passou a ajudar Gabriel, a criança que passou a ser um ser humano, mais que uma matéria para algum jornal. João Paulo foi tomado pelo espírito de São Nicolau em pleno espaço criado pela sociedade do desperdício, o que parece ser o saco de maldade Krampus, mas é o resultado de ações de adultos que confundem o bispo Nicolau com a figura gorda, de falso riso com as cores de refrigerante.

A árvore de natal, feita de plástico, encontrada por Gabriel trouxe, em seu riso, todas as tradições de fertilidade que marcam a permanente busca da humanidade que ainda não conseguiu vencer Krampus, esse ser egoísta que não gosta da felicidade do outro, mas que se alimenta da produção de miséria. Mas o sorriso que brotou dos lábios e do peito de Gabriel, parece realizar o sonho Francisco, na sua pretensão de mostrar aos adultos que Jesus foi uma criança, que as crianças devem ser cuidadas e não mortas, como denuncia o relato das ações de Herodes, o Grande, o Krampus daquele momento.

Crianças precisam de serem reconhecidos infância, não devem ser tratadas como força de trabalho, nem devem ser treinadas para serem consumistas. Não encantou Gabriel os plásticos que foram brinquedos dos ricos e da classe média que julga sê-lo, encantou o menino que ajudava sua mãe em busca de o que vender para comprar comida, foi a Árvore, o símbolo da vida; a árvore que lhe fez sorrir e que derreteu o coração de João Paulo Guimarães, que, parece estar vivendo e, como o riso de Gabriel, um Novo Tempo, o tempo do Natal.     

Uma ajuda a um historiador que deseja “desnaturalizar” uma visão sobre Dom Hélder

novembro 27th, 2021

Em junho deste ano escrevi um texto a respeito de artigo publicado em livro organizado pela professara Marcília Gama e por Thiago Nunes, no qual o autor dizia: “no decorrer deste capítulo, dedicaremos nossos esforços desnaturalizar uma visão de que Dom Hélder Câmara sempre esteve na oposição do regime ditatorial no Brasil, 1964 a 1985”. Para ler o que disse, à época, demonstrando a falácia do historiador, envio para o link  http://www.biuvicente.com/blog/?p=3300

Pois bem, volto ao tema para citar Chico Assis, militante do PCB, relatando a sua experiência e a de seus companheiros. publicado por Pedro Eurico em seu interessantíssimo O DOM QUE VIVE EM NÓS, publicado esta semana pela CEPE. Transcrevo: Mesmo nesse período de militância havia uma vinculação, e dom Hélder funcionava sempre como aquele que na hora do aperreio sempre a gente podia contar – era o porto seguro -, e por mais que existissem os preconceitos ideológicos tudo mundo reconhecia nele um cara de coragem. Desde o início, né?! Desde o Rio de Janeiro o cara já veio com uma história. Essa coisa de preconceito ideológico inda mais porque no início da vida ele tinha sido integralista (risos), aí havia toda uma resistência. [118]

A pressa de escrever, olhando apenas documentos, e utilizando apenas o óculos social que lhe foi dado por algum interesse, faz surgir Torquemada em cada linha. Dom Hélder foi bastante perseguido em sua vida, os que com ele convivemos sabemos o quanto sofreu e como foi capaz de viver o processo histórico. Aliás, Pedro Eurico publica a entrevista que tirou o Dom do silêncio, entrevista que concedeu a Divane Carvalho Fraticelli, o nosso historiador, quando a ler, entenderá que ele precisa ser mais cuidadoso nas suas conclusões.

Dia da Consciência Negra, consciência de nossa humanidade

novembro 18th, 2021

Severino Vicente da Silva

Sabemos pouco de nosso corpo, quase não o vemos. Estamos nele, somos ele, com facilidade, nossos olhos só percebem as extremidades. É necessário que haja uma pancada, um desassossego exterior para que o percebamos. Um tropeço que provoca dor me faz lembrar que tenho pés, embora antes do tropeço, nem sentisse que todo o meu corpo caia sobre ele. Nem prestamos atenção ao nosso corpo, exceto quando o utilizamos em demasia, e, cansado, ele reclama, responde devagar ao que desejamos. Na maior parte do tempo nem pensamos que somos o corpo que carregamos e nos carrega. Parece estranho, mas pode ser que seja assim.

Também sabemos pouco de nossos vizinhos, de nossa rua. Passamos por eles e não sabemos que ele mora no outro lado da parede. Às vezes o percebemos quando ele reclama do som que produzimos em excesso porque estamos excitados com alguma música, ou qualquer outra coisa. Como o atingimos sem o ver, nosso vizinho vem reclamar. Como aquela dor que nos lembrou da existência do dedão do pé direito. Talvez tenha sido pelo barulho que nosso vizinho veio a saber de nossa presença ou existência. São as situações de desconforto que nos oferecem a possibilidade de saber que existimos, que a rua na qual andamos tem uma existência e que nosso vizinho existe. O comum parece ser a inconsciência. As situações vexatórias é que nos provocam a tomar ciência, conhecimento do que nos rodeia.

Durante muitos anos a sociedade brasileira não sabia da existência de negros, no seu interior e no seu entorno. Como se dizia, com a simplicidade de uma avó, na cadeira de balanço de sua varanda: eles sabiam o seu lugar. Não incomodavam. É o mesmo sobre os pobres, eles moravam longe, não incomodavam, não criavam situações vexatórias. Houve um tempo que todos sabiam qual era o seu lugar. Havia os lugares que mandavam e os lugares que obedeciam, ninguém criava problemas. Teve até um médico muito famoso que fazia letras para as músicas que compunha, que escreveu: eu sei ser pobre sem raiva e só sem tristeza. Afinal, sentir raiva de situações vexatórias é admitir que a situação não é normal, e o normal é a situação de inconsciência. Mas, disse outro poeta, que havia uma pedra no caminho. A pedra no caminho provoca desconforto e o desconforto pode levar à ciência, pôr fim à não consciência.

Faz algum tempo que ficou muito difícil não perceber que há negros e pobres no entorno, pois de tanto afastá-los eles chegaram até àqueles que não percebiam que, por ser redondo o mundo, quando se vai sempre em frente volta-se ao lugar da partida. Durante três séculos negros chegaram da África, contra a sua vontade, para ficar nesta terra plantando, colhendo, guardando, carregando sempre para quem nem os viam. Não se perguntava nada a eles, apenas se dizia: faça isso, faça aquilo. Eles se moviam, faziam tudo sem reclamar. Melhor dizer que não havia interesse em saber se eles tinham algo a dizer. Agora, como dizia outra avó, esta indignada: a gente dá o pé e eles já querem as mãos. A pedra no caminho, lembra outro poeta, parece dizer que não dá prá ser feliz, e começa a incomodar, obriga a tomar consciência, tomar ciência de que existem pobres, que existem negros.

Ao longo da nossa história os negros e pobres sempre disseram que existem, mas quem controlava a sociedade jamais interessaram-se por sua existência, exceto para toma-las, como foi feito a Zumbi, a Junduí, a Aimberê, a Antônio Conselheiro, a João Cândido, a Xicão Xucuru, a Manoel Fiel, e a milhares sem nome, fazedores de nossa história, que estes citados representam. Tomar consciência de que há negros no Brasil, tomar consciência de que há pobres no Brasil; tomar consciência de que pobres e negros são sinônimos na realidade brasileira; tomar consciência de que nada neste país existe sem o toque de um negro, sem o toque de um pobre; tomar consciência de que os brasileiros são, em sua maioria negros, mulatos, mestiços; tomar consciência de que somos negros é o objetivo maior da Semana/Dia da Consciência Negra.

O dia da Consciência Negra não é um dia para os negros, é um dia para que todos percebamos e aceitemos que somos negros; o Dia da Consciência Negra não pode ser um dia segregacionista, não pode ser entendido como uma festa na qual só negros são convidados a falar, só negros são convidados a dançar. O Dia da Consciência Negra é o dia para que todos nos tornemos seres humanos, ultrapassemos os limites que as sociedades passadas criaram e herdamos. Não queremos a herança racista, segregacionista; o Dia da Consciência Negra é para nos vermos, para tomarmos consciência de nossa humanidade, a humanidade que nós construímos a cada dia, nos esforçando para tornamo-nos conscientes de nós mesmos, e deixarmos de ser estranhos a nós.

República

novembro 15th, 2021

Então, a manhã do Quinze de Novembro muitos foram os movimentos que não estavam sendo plenamente conhecidos por aqueles que os realizavam. Corria o ano da graça de 1889. Exceto pelo barulho que os cavalos faziam, a praça parecia vazia, e estava, de homens comuns, mas haviam um bom número de silenciosos de soldados. Sobre um cavalo, o velho soldado, dizem que tirado às pressas de um sono que podia reparar uma febre, agitava-se, com a alma perturbada: comandava uma ação que poria fim ao governo do Barão de Ouro Preto, mas que arrastaria o sistema monárquico, gerido por um amigo seu, que era seu superior. O velho alagoano estava iniciando uma república sem entender bem o que significava a prática de uma democracia.  Outro que não entendia bem o que estava acontecendo era o ministro Ouro Preto, ao lado de Floriano Peixoto, general famoso pela bravura na guerra contra o Paraguai, mas que se recusava a apontar armas contra a soldadesca que se aproximava do Palácio. Rendido pelos fatos envia mensagem ao monarca que passava um tempo de descanso em seu palácio na aprazível região serrana. Talvez com enfado toma o trem que o leva ao Rio de Janeiro, já refletindo sobre quem indicará para ser o novo ministro, alguém capaz de acalmar os militares, insatisfeitos com as restrições que lhes foram dadas, limitando a sua participação na política. Militares não devem governar, mas garantir a governança, princípio que vinha sendo posto de lado por esse grupamento, o Exército, que veio fortalecido com o término da Guerra. A Marinha foi definida, desde então, coadjuvante das ações políticas, embora jamais abandonasse a maneira aristocrática em sua relação com o que se chama povo brasileiro.  

O Imperador surpreendeu-se quando lhe informaram que seus serviços já não eram mais do interesse daquele grupo, o qual afirmava representar a vontade dos brasileiros. Aprendera, desde criança, que sem os militares não se governa. Foi assim que se tornou imperador ainda criança, quando seu pai, que não respeitara os anseios dos grupos que já estavam organizados, compreendeu que as espadas o abandonaram à sanha popular, e, então renunciado abdicou. Começava, sem o povo, o governo da coisa pública: um grupo de civis exortando militares a tomar o poder, julgando poder controlá-los. No dia de celebração da Proclamação da República, o tenente-presidente está em Dubai. A República, sem o povo, celebra-se sem o governante.

Marília Mendonça: Uma mulher e a história da humanidade

novembro 7th, 2021

Uma mulher e a história da humanidade

Severino Vicente da Silva

Não, não vivemos a vida em saltos, a fazemos diariamente, sem a sentir. Viver é como respirar, o fazemos sem sentir, sem nos aperceber. E este pode ser o motivo de nossa surpresa quando ela nos informa o seu fim. Não o nosso fim, pois quando ele acontecer não poderemos falar dele, refletir sobre ele. A vida nos informa do seu fim nos outros. É a morte dos outros que está sempre a nos informar sobre a brevidade da vida. Nesses últimos meses soubemos da morte de seiscentos mil brasileiros, e, pode ser que um desses tenha sido conhecido nosso, uma pessoa que dividiu um pouco de sua vida conosco, nos olhares, nos gestos de afeição ou rejeição, nos risos irônicos ou nos sorrisos abertos de alegria e contentamento. Foram tantas as vidas terminadas que quase nos entorpecemos de tanta dor, em um sofrimento coletivo, que foi singular para os atingidos mais diretamente pela ação do vírus. Nesse processo percebemos entre nós algumas hienas, predadoras dos mortos, mas esses animais são parte do ecossistema, preguiçosos que vivem do que resta da vida, riem do trabalho dos que lutam pela sua alimentação; riem porque sempre consomem o que jamais produziram. As hienas jamais choram, estão sempre a sorrir e a reclamar que só lhes restam os restos. Mas deixemos as hienas, por enquanto.

As muitas mortes que assistimos diariamente parece que não nos incomodam, são como as vidas e as mortes ocorridas no passado ou em lugares muito distantes de nós. Professores, especialmente os de história, estão sempre conversando sobre alguém que já morreu. Os professores somos íntimos dos mortos, falamos de suas realizações, dos textos que escreveram e nos chegaram, guardados pelo tempo que não destrói a tudo, como se pensa. Os professores queremos saber o que pensaram esses homens e mulheres que nos antecederam, querem saber a contribuição que nos deram para sermos o que somos. Quando soube que o governante Kadafi foi linchado, empalados e arrastado nas ruas em outubro de 2011, penso em suas dores e nas dores dos que foram empalados por ordem de Assurbanipal, rei assírio que viveu a mais de quatro mil anos. Comportamento que nos aproxima daquela civilização. Multidões de revoltados ou exércitos organizados são bem parecidos em sua bravura ou descompostura, seja em 2011 dC seja em 2700 aC.  Bem, sabemos que o rei assírio fez construir o que se chama a primeira biblioteca, na qual foi encontrado tabuinhas que nos contam a aventura de Gilgamesh. Estranhos esses humanos em seus atos. Mas o que surpreende é que a prática do empalamento continue a ocorrer, como nos mostram os jornais e os relatos da prática de tortura nos porões das muitas ditaduras, inclusive a que ocorreu recentemente no Brasil.

Os professores convivem com as angústias geradas pelas endemias e pandemias. As pestes estão sempre presentes nas aulas de literatura, matemática, física, filosofia, biologia, história, geografia e qualquer outra disciplina, seja relatando, contando os mortos, denunciando o micróbio ou bacilo, localizando os espaços de sua ocorrência, nos falando dos protagonistas. etc. A recente pandemia, da qual ainda não nos safamos, fez alguns lembrarem das Pragas do Egito; outros viram-se isolados como os personagens do Decameron e, não poucos lembraram de algumas distopias apresentadas nas telas dos grandes cinemas ou nos seus computadores. O Covid 19 nos ofereceu oportunidade para refletirmos sobre a normalidade da vida e a chegada do seu fim. Mas o que aprendemos?

Agora que se aproxima o momento do controle sobre a transmissão da doença podemos retornar às mortes comuns, essas que se nos apresentam de maneira isolada, que nos permitem pensar na pessoa e na sua trajetória no tempo. Eis que essa morte normal também pode vir de maneira tão brusca que aparenta um espetáculo. É tem aquele pensador francês a nos lembrar que tudo pode ser, ou é, um espetáculo nesse tempo. Um tempo que nos permite relacionamento pessoal com gente que nós não tocamos, mas que nos tocam. Poetas e professores sabem disso. Uma mulher morre em desastre de avião e comove parte da humanidade. A sociologia nos diz que nossa bolha está em torno de duas centenas de pessoas, mas, não mais. A morte de Marília Mendonça atingiu toda uma geração de mulheres e surpreendeu grande parte dos grupos masculinos. A mulher que rompeu o domínio do macho das vaquejadas, dos cantores sertanejos, da desvalorização dos sentimentos femininos, especialmente das mulheres das áreas rurais, surpreendeu com a sua morte, vista quase como roteiro para uma apresentação, desde a refeição antes da viagem, à descontração à bordo, ao desastre e ao caminho do cemitério. Repentinamente muitos começaram a entender – ou não entender – porque a moça de 26 anos tornou-se tão importante com suas poesias simples sobre a complexidade dos comportamentos femininos que se afirmam protagonistas em meio tão insólito quanto as poesias cantadas pelos famosos sertanejos, degradantes dos sentimentos das mulheres. Em um mundo que vê a mulher como um corpo a ser empalado, Marília Mendonça telefona ao porteiro do prédio para informar que esse tipo não tem mais espaço em sua vida, que as mulheres não mais desejam esse tipo de homem que desejam as mulheres tipo as “Amélias, as Emílias”.

Uma das piores reações dos homens apegados ao passado ocorreu nas palavras de um jornalista, um profissional escalado para escrever sobre a mulher que todos estavam a lamentar sua morte súbita. Eis que ele, com sua visão embaçada pelos conceitos e pré-conceitos, resolveu lembrar que a cantora, que a poeta, a compositora era gorda. Assim ele demonstrou que possui olhos toscos, orelhas entupidas pela cera cultural do passado e, com a gordura envolvendo o seu coração, é impedido de ter sentimento solidário, e, mais ainda, demonstra que jamais leu as poesias de Marília Mendonça, que jamais refletiu sobre os sentimentos de pessoa alguma, seja homem ou mulher. Ele faz parte da multidão que apenas vocifera, linha e mutila. Hiena. Diplomado, com educação superior, deve ter visto alguma biblioteca, manuseado alguns livros, mas não entendeu o espírito do tempo e das palavras.

O sol e os preconceitos

outubro 23rd, 2021

O SOL QUE É PARA TODOS E OS PRECONCEITOS

Severino Vicente da Silva

O sol começou forte neste dia 23 de outubro, e já tem a sensação que o meio dia chegou com antecedência de seis horas, na praia alguns pescadores conversam enquanto a maré faz o seu refluxo. Encontro pessoas que, com balde na mão saíram em busca de arrastões, onde possam catar os peixes desprezados pelos pescadores. Mas parece que deixaram suas casas em horário desfavorável, pois não há sinais de arrastões nem sobra de peixes. Embora seja uma praia bastante frequentada por quem nela tem casa de veraneio, esses ainda não saíram para a caminhada que os médicos indicam aos urbanoides sedentários. Contudo, os donos de bares, como todos os comerciantes, exercitam a virtude da esperança, estão organizar as barracas e cuidarem para que o fogão comece a preparar os petiscos que acompanharão as cervejas. Cedo ou tarde virão os visitantes, os que buscam o barulho das ondas do mar como calmante para o dia. Sorrio ao pensar que logo alguém ligará “o som” e a praia ficará barulhenta, o que dará, aos praieiros de fim de semana, a sensação que estão em casa. Canções bregas alegrarão algumas orelhas. No meu tempo mais jovem, escutávamos, com a mesma sofreguidão, as canções de bossa nova e protestos. O sol começa a incomodar mais que oferecer prazer e caio n’água em busca de refresco para o corpo e alma.

A alma, essa força que anima os corpos que dizemos vivos, está conturbada por ter escutado que tem aumentado o número de assassinatos com arma de fogo desde a facilitação para porte e posse de armas no Brasil. Considerando que assassinatos desse tipo ocorrem na Europa em proporção mínima, surpreende que, entre 2019 e 2020, a taxa de homicídio por armas de fogo cresceu em 72%.[1]  E os mortos são principalmente jovens e, em sua maioria, jovens negros, habitantes das periferias das cidades, pois que há uma relação, quase fatal, entre ser pobre e pretos neste país. Claro que, desde o tempo do império escravocrata, houve negros ricos, alguns enriquecidos com comércio de escravos após terem conseguido a carta de alforria, mas, o comum é que os pretos sejam pobres no Brasil, embora não sejam eles os únicos pobres, pois há brancos, índios, mulatos, pardos, curibocas. Sim também há mulatinhos que escaparam da pobreza e miséria. É que, em determinados momentos de nossa história, com relatos de muita pobreza, tivemos e temos bolsões de miséria. Tal realidade é vista? Há quem não consiga ver, perceber o sofrimento, a fome, o desemparo social de parte dos brasileiros, pois que naturalizaram esse fenômeno, só conhecem, quando o conhecem, em leituras rápidas no tempo de estudante. Depois, entram na bolha de seu grupo social que passa a ser o seu mundo, o mundo que ele vê. Assim, escutamos algumas dessas pessoas, vez por outra, virem a público dizer que no Brasil não há preconceito de raça, não racismo. Alguns estão começando a dizer que se há racismo e preconceito, é dos negros contra os brancos. Que vista social embaçada pela educação centrada em si mesmo.

Talvez essas pessoas, ainda que bastante escolarizadas, portadoras de diplomas, comendas e honrarias, jamais pararam para refletir sobre o significado da palavra Preconceito, não perceberam que sua atuação na sociedade está marcada por conceitos que elas internalizaram antes de experimentarem a situação social e, quando entraram em contato com algum negro, ou pobre, agiram a partir do que lhe disseram e não a partir de sua experiência. Não tendo refletido sobre suas experiências, passam a viver com os conceitos que lhe conferiram anteriormente às suas experiências. É assim que somos orientados por preconceitos, sendo um deles, a perversa ideia de que há grupos humanos social e naturalmente superiores aos demais, e, para confirmar essa diferença, definiram grupos humanos em raça, e daí cultivaram o preconceito racial que, com outros fatores, passou a justificar a dominância de um grupo sobre o outro.

Mas se esse comportamento foi adquirido sem esforço, superar os preconceitos de raça, religião, social, exige enorme esforça individual e social. Os preconceitos não podem ser superados individualmente, sempre é uma tarefa social e dolorosa. Social, pois os indivíduos não vivem isolados, mas em grupos, coletivamente; doloroso, pois a retirada de um tumor, por menor que seja, envolve todo o organismo social.

O mês de outubro é, para os católicos, dedicado à Senhora do Rosário que, por injunções históricas diversas, foi escolhida para acolher os africanos que chegavam à Portugal como escravos e, por medo de serem confundidos com os africanos, os portugueses “brancos” preferiram deixar o edifício da igreja para os negros. Assim nasceram as Irmandades de Nossa Senhora dos Homens Pretos, resultado de uma ação negativa dos portugueses católicos brancos que continuaram a rezar o Rosário em outro edifício igreja e, de uma ação positiva dos africanos que se tornaram católicos, assumindo os compromissos necessários para viver na sociedade católica lusitana. Mas, o que começou como esforço de integração, por causa do medo e dos preconceitos geradores de novos medos, fortaleceu-se a divisão, o sofrimento. 

NOSSA SENHOR DO ROSÁRIO

AUTOR: Roberto Malvezzi

Nossa Senhora do Rosário
Remanso se reúne prá cantar
E canta em cada conta do rosário
O rio de suas dores
Esperanças e louvores

Acolhe o povo que é migrante
Eterno retirante
Das secas, das enchentes
Doentes e penitentes
Ave, ave, ave, Maria
Ave, ave, Maria
Ave, ave, Maria
Maria do Rosário

Acolhe a terra e os lavradores
O rio e os pescadores
O povo que agradece
Acolhe a praça em prece
Ave, ave, ave, Maria
Ave, ave, Maria
Ave, ave, Maria
Maria do Rosário

Fonte: LyricFind


[1] https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/07/15/aumenta-o-numero-de-mortes-por-armas-de-fogo-no-brasil-em-2020-diz-relatorio.ghtml