A encruzilhada do Antropoceno

julho 2nd, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Acontecimentos estranhos ocorrem a cada momento na face da terra, como se fora dela haja ocorrências que não parecem comuns, pois o incomum sempre é percebido pelo humano e a partir de suas experiências. Talvez, no universo material estudado por Isaac Newton e, depois por Einstein, as ocorrências não se repitam, mas elas, talvez, não se percebam como extraordinárias. O mundo físico é muito ordinário. Nossa parte física é bastante ordinária e, até mesmo se pode prever o que ocorrerá com ela no seu processo em direção da degeneração. Claro que não é destruição, mas ocorrerão transformações na matéria que parece ter acabado. Mas se pensarmos no mundo que não natural, esse criado pelos homens e mulheres ao longo desse período hoje chamado de Antropoceno, podemos intuir que algo poderá mudar. Mas em que direção?

Em que direção caminharam os antigos egípcios para se tornarem uma potência, dominando alguns povos vizinhos? Quais caminhos foram criados pelos caldeus, assírios e tantos outros povos que procuraram entender de onde vieram, e para que existiam. Pelos testemunhos do que restou de suas culturas e sistemas de vida, podemos induzir que eles entendiam que aqui estavam porque alguma divindade os colocou com o intuito de que lhes prestassem homenagem, dominassem os seus vizinhos, sempre definidos como inimigos da humanidade, entendendo-se como humanidade o conjunto de normas e comportamentos que estabeleceram para suas vidas.

 Ao termo de algum tempo esses e outros povos deixaram de existir fisicamente, mas suas experiências ficaram guardadas, de modo inconsciente, por seus sucessores. Sim, seus sucessores fizeram com eles o que eles fizeram com seus vizinhos. Ocorreu o mesmo com povos de todos os continentes. Mas, como estavam muito isolados, não se conheciam e, para as mesmas perguntas encontraram respostas semelhantes, mas não iguais. Sim, também os povos pré colombianos. Mas todas essas culturas têm em comum o fato de serem animais, seguindo as normas da natureza em seu ciclo vital. Uns sucumbem para que outros continuem a existir. O que parece separar os homens dos demais animais é que, em sua organização parece existir uma norma que os levam a jamais estarem satisfeitos com suas realizações. Depois de dominar os animais diferentes de si, resolveram dominar os animais semelhantes a si. Dessa forma criaram as mais diferentes justificativas para explicar suas ações de domínio. Viviam tranquilos por estarem separados e intranquilos por temerem ser atacados pelos inimigos distantes. Sim, inventaram essa palavra justificativa e permissiva. Os homens permitiram a si mesmos a possibilidade de anular o inimigo, aquele que não reconheciam como igual. E Alexandre foi até à Índia em busca do inimigo. No Antropoceno tudo que diferente torna-se inimigo, portanto, próprio para o extermínio.

Essa situação de buscar o inimigo acentuou-se nos últimos séculos, exatamente os séculos de maior aproximação, pois nesses séculos a natureza foi “totalmente” dominada: na terra, onde milhares de animais já foram extintos para que o homem tivesse onde morar e espaço ´para arrancar do seio da terra as riquezas ali guardadas; nos mares, onde seus navios levam barulhos estranhos que impedem a comunicação entre os animais marinhos, e que também caçam para sua alimentação, e jogam o óleo gerado da morte de seres que viveram em tempo anterior ao Antropoceno, causando a morte de milhares de animais, mas isso também está concetado ao desejo de comunicar-se com o outro; no ar onde a fumaça gerada pela queima de material fóssil suja a atmosfera e a perfura com favorecendo a antecipação da morte da terra, a casa comum dos homens e mulheres, conforme a definição dada por Francisco, Papa dos cristãos católicos.

O século XXI tem sido a explicitação de que a vida se consome na produção da morte, não importa que as justificativas das ações humanas sejam religiosas ou não. Nesta fase do Antropoceno, as justificativas religiosas são dadas pelos que não frequentaram as escolas, nestas se ensina que os deuses e as religiões são desnecessários ou desnecessárias.

Há muitas guerras em andamento, neste instante. A mais famosa é entre a Federação Russa e a Ucrânia. Em verdade, está se travar uma guerra entre a concepção de humanidade que o Ocidente (União Europeia, Estados Unidos da América do Norte) e a concepção que o Oriente (Federação Russa, China). É a sempre presente ideia de que meu inimigo deve morrer. Estamos, no século XXI DC, com conceitos extremamente semelhante ao modo de Hamurabi que se proclamava Senhor dos Quatro Cantos da Terra.

Quando refletimos e estudamos essa situação com uma distância razoável, e modo que os misseis não nos alcancem, o fazemos racional e tranquilamente, mas se esse modo de pensar começa a ganhar espaço na sociedade em que vivemos, como está agora acontecendo no Brasil, o medo nos assalta. Nem percebemos que estão a destruir o que de melhor foi criado no Antropoceno, o esforço de, no meio da exploração constante do homem pelo homem, recriar a humanidade com os valores de respeito ao outro, de aceitação do outro, da compaixão tornada forma legal de comportamento. Desenvolvemos a compaixão pelas crianças nascidas com deficiências, não mais aceitamos como norma social abandoná-las ou vende-las; definimos que a tortura, ou seja, o uso de violência contra uma pessoa impossibilitada de defesa, como crime; estamos a criar um novo patamar nas relações entre os sexos; buscamos inibir a violência por motivações religiosas, regulamos as maneiras de estabelecer contrato de trabalho com o objetivo de diminuir a exploração do homem pelo homem; as nações celebram contratos de convivência e cooperação, e tantas outras conquistas e vitórias sobre os comportamentos que hoje consideramos barbárie. Mas falta muito para que superemos esse amanhecer da humanidade. E os estudiosos do Antropoceno nos apontam que esses comportamentos continuam a ser ideais a serem conquistados, enquanto isso, os inimigos da civilização continuam a nos amedrontar.

Até quando o Antropoceno será o causador do fracasso da vida?

ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO DO PADRE REGINALDO VELOSO

maio 21st, 2022

ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO VIVIDO PELO PADRE REGINALDO VELOSO.

Prof. Severino Vicente da Silva

Desde a Páscoa que o Padre Reginaldo Veloso foi hospitalizado e, na madrugada de ontem, realizou a sua Páscoa, Como escreveu a sua esposa, está com Papai do Céu.

Conheci Reginaldo quando ele era um dos padres que atendia a Paróquia da Macaxeira, juntamente com Padre Adriano. Esses dois padres são marcos de uma época, do envolvimento da Igreja com os operários. Por motivos diversos, dizem que os dois “deixaram de ser padres”, o que não é verdade. Adriano decidiu ser operário, tornou-se motorista de taxi, fez da rua o altar onde celebrava diariamente, comungando a vida do povo que escolheu para ser seu, pois não nasceu no Brasil, porém poucos foram tão brasileiros como ele. Como costumava dizer Dom Hélder, há estrangeiros que nasceram na Rua da Aurora e há brasileiros que fora dos limites geográficos brasileiros.

O padre Reginaldo Veloso foi afastado do altar por determinação do Arcebispo José Cardoso, escolhido por indicação de um bispo progressista que pretendia agradar a Pernambuco, apontando para substituir Dom Hélder, um bispo que nascera em Caruaru. Nem sempre o berço é um bom pressagio.

Reginaldo nasceu em família católica e veio a entrar em seminário no Recife, foi enviado para terminar os estudos em Roma, onde estudou História da Igreja, mas foi o serviço litúrgico que o conquistou. Depois de ordenado, passou algum tempo como professor em seminário, depois foi indicado para a Paróquia Santa Luzia, criada no início do século XX, para o atendimento religioso dos operários do Cotonifício Othon Bezerra de Mello, vulgo, Fábrica da Macaxeira. No meu tempo de menino, nós saímos de Nova Descoberta, passávamos pela mata de eucalipto plantada para diminuir os efeitos deletérios que a fumaça da fábrica produzia, para as festas natalinas que ocorriam na praça da igreja. A fábrica empregou muitos que desceram da Zona da Mata Norte e ocuparam os morros vizinhos.

No início do século XX a prática da Igreja foi de colaboração com os industriais católicos que trouxeram da Europa congregações para formar e manter o espírito cristão dos operários. A situação de cooperação foi sendo modificada no pós Segunda Guerra Mundial por diversas razões, entre elas algumas tentativas que a Igreja Católica estava permitindo serem realizadas na França, com os “padres operários”. Reginaldo estava na Europa quando ocorreu essa experiência, talvez tenha tomado notícias dela, especialmente quando foi suspensa por orientação romana após incidente diplomático, provocado pela prisão dos padres. Nunca perguntei a Reginaldo se esse acontecimento afetou a sua atuação, mas o fato é que quando ele foi trabalhar na paróquia da Macaxeira, a situação social pedia outro tipo de sacerdote. No início dos anos sessenta o arcebispo era Dom Carlos Gouveia Coelho, um bispo preocupado com os trabalhadores, como prova o seu empenho com a JOC e o incentivo que deu ao Padre Paulo Crespo para a organização do Serviço de Assistência Rural de Pernambuco – o SORPE.  Às vezes, quase sempre os leigos chegam primeiro, e havia um ativo grupo da Juventude Operária Católica, aplicando o famoso método VER – JULGAR – AGIR, criado pelo padre Joseph Cardjin, a quem deve ser atribuído a criação da Ação Católica, reconhecida pelo Papa Pio XI. Assim, havia um sentimento/ de crítica ao sistema capitalista, também praticado pelo Partido Comunista Brasileiro, também atuante na fábrica. Então veio o Golpe civil-militar de 1964, que desmantelou a atuação da Igreja e dos comunistas na Fábrica da Macaxeira. E é então quando Reginaldo e Adriano estão cuidando dos católicos da região. A disposição dos novos governantes em acabar com o “comunismo” na Fábrica, levou a Fábrica da Macaxeira à falência, como aconteceu com as outras fábricas de tecelagem e fiação em Pernambuco. Aliás esse é um dos benefícios que o Golpe de 1964 garantiu aos pernambucanos. Tem gente que ainda não consegue juntar essas letras.

Enquanto a “redentora” impossibilitava a ação nas fábricas (elas estavam fechando para gáudio do colonialismo interno) o novo Arcebispo, agora Dom Hélder Câmara, animava novos meios de aproximação cristã na sociedade, os movimentos sociais passavam a substituir os sindicatos, agora entregue à pelegada. Entre os movimentos católicos, surgiu a Pastoral de Juventude no Meio Popular – PJMP, que recebia orientação do Padre Reginaldo, que nessa época começava também a exercitar mais os seus talentos de músico e poeta, voltados para compreender e alimentar os desejos do povo, como fazia o Padre Geraldo Leite, que foi vigário em Pontezinha e depois no Morro da Conceição. Reginaldo veio a ser grande amigo e colaborador do padre Romano Zufery que organizou a Ação Católica Operária – ACO, para manter a animação dos operários. Em 1985, quando ocorreu a morte do Padre Romano, Reginaldo assumiu a tarefa e a ACO tornou-se Movimento dos Trabalhadores Cristãos, uma visão ecumênica.

Em 1968, o padre Reginaldo e toda a arquidiocese envolveu-se no processo educacional para que os brasileiros soubessem que, em 1948, o Brasil havia se comprometido em desenvolver condições para que fosse garantido a todos os Direitos Humanos definidos na Organização das Nações Unidas. Foi esse o tempo de pensar nos Direitos da Criança, e o MAC começa ser gestado. Era o tempo do endurecimento da ditadura civil militar. Então Dom Hélder envia Reginaldo para ser o pároco do Morro da Conceição, Santuário de devoção das camadas mais pobres da sociedade recifense. Também foi escolhido para ser o Coordenador da pastoral de Casa Amarela. Nesse período, em diversas ocasiões fui chamado a refletir sobre as questões sociais, econômicas do Brasil e da região, colaborando para o VER. Foi essa a época em que ocorreu o fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base -CEBs, o Encontro de Irmãos, uma maior participação dos leigos na vida da Igreja, seguindo as resoluções do Concílio Vaticano II. A Igreja Católica do Brasil e da América Latina, refletia sobre os acontecimentos, os julgava a partir da leitura bíblica, e agia. E, dessa reflexão, foi sendo formada a Teologia da Libertação, surgia um pensamento teológico para além da experiência dos católicos europeus.

Vivia-se tal situação na Arquidiocese quando ocorreu o falecimento do papa Paulo VI e a nova janela de riso, aberta pelo papa João Paulo, que morreu trinta dias após a coroação. E então um novo Conclave escolheu o primeiro para não italiano em quinhentos anos, e nomeou-se João Paulo, o segundo com este nome.

O Cardeal Wojtyla cresceu na parte do mundo dominada pela União Soviética que não admitia a liberdade de religião, ou mesmo a religião. E claro que as perseguições que o jovem católico vivenciou a perseguição religiosa em sua nação, e isso influenciou a sua percepção de mundo. Em seu pontificado, um dos objetivos perseguidos era derrotar o comunismo, o que viria ocorrer, cedo ou tarde, por questões econômicas e não religiosas. Mas, mesmo os santos, às vezes não cultivam a paciência histórica e desejam o protagonismo. Este desejo de João Paulo II matou (?) os sonhos de católicos na América Latina. Foram desautorizados e perseguido pelas autoridades vaticanas os teólogos da Teologia da Libertação, chamados, constantemente a explicar-se no Discatério da Doutrina e Fé, nome fantasia para Tribunal do Santo Ofício. Não bastou a perseguição dos regimes locais. Padres foram mortos, bispos sequestrados, leigos aprisionados por praticar sua fé, acusados de comunistas. Quando o padre missionário Vito Miracapillo foi expulso do Brasil por não atender o desejo de um prefeito para que celebrasse para honrar um país que deixava seu povo morrer de fome, Reginaldo levanta sua arte e homenageia o padre expulso com a canção Vito, Vito, Vitória. Isso lhe vale a prisão, é preso por afirmar o que a história mostra que a vitória dos homens não é a vitória de Deus. Corria o ano de 1980. Dezenove anos depois, o arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara, retira o padre Reginaldo Veloso da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, e retira-lhe a condição de presbítero do Altar. Proibido de ser padre, de celebrar a Eucaristia, o povo do Recife, os jornais do Recife, os não católicos do Recife, os não crentes do Recife, todos continuaram a dizer Padre Reginaldo.  Desmantelava-se Igreja Povo de Deus, proclamada pelo Vaticano II, dominava a Igreja clerical, definida no Concílio de Trento, no século XVI. Parecia que se fechava a janela aberta por João XXIII.

Participei do velório, da queima de velas para iluminar o caminho para a casa do Pai, lembrar a Vela do Batismo, a Vela da Páscoa. As exéquias foram realizadas no Morro da Conceição, mas não foram celebradas na nave do Santuário que o padre Reginaldo cuidou entre 1988 e 1998. Os leigos decidiram fazer esse ritual em uma escola próxima ao Santuário. Vieram muitos padres com vestes litúrgicas para dirigir e celebrar, mas a comunidade decidiu que tudo seria feito pelos leigos, não pelo clero. Três mulheres dirigiram a cerimônia, a Celebração. Um padre representante do arcebispo foi convidado a dizer algumas palavras, e as disse ressaltando as qualidades do padre Reginaldo. O beneditino, padre Marcelo Barros, foi convidado a refletir o Evangelho e, entre muitas palavras, lembrou o Sínodo da Amazônia e a palavra do papa Francisco sobre a necessidade de ampliar a compreensão do sacramento da Ordem. O clima foi de alegria, apesar das lágrimas de saudade. Nenhum dos presentes parecia duvidar que estava acompanhando um presbítero da humanidade, um cristão que não reduz a sua Igreja às determinações clericais. O padre, lembrava Dom Hélder as palavras de pai, o padre é para servir, não para ser servido.    

maio 14th, 2022

REVISÃO DA HISTÓRIA – De Fátima à Praça do Carmo, da Princesa a Zumbi.

Prof. Severino Vicente da Silva

Ontem foi 13 de maio, terminei mais um semestre debatendo alguns aspectos da trajetória europeia, aquele período que os historiadores brasileiros deram a chamar de Moderno. Fui surpreendido com umas palmas, e com o sorriso alegre dos alunos, até recebi uns abraços. Foi uma turma interessante. Nem deu tempo para conversar sobre o Treze de Maio, data polissêmica em minha formação de cidadão, de professor de história e, segundo dizem, de historiador.

Incialmente, foi-me ensinado sobre o Treze de Maio de 1917, foi o dia em que três crianças, duas meninas e um menino, afirmavam que viram e conversavam com a mãe de Jesus, a Nossa Senhora. O caso ocorreu no lugarejo Fátima, e deu muito o que falar, juntou muita gente, veio o prefeito, o padre, o bispo. Inicialmente as crianças foram mal vistas, tidas como mentirosas, mas aos poucos a comunidade foi aceitando que algo extraordinário ocorria no seu lugarejo. Ontem, o noticiário afirmava que mais de duzentas mil pessoas estavam em Fátima, louvando e venerando a Virgem que apareceu aos Três pastorzinhos.

São muitas as explicações, e maior ainda o número de consequências daquele fato, dadas e vividas na Europa e nas outras partes do mundo desde então. Na sociedade europeia que se tornava cada vez menos religiosa e afastada dos tradicionais instrumentos de educação, como a religião, a visita de Nossa Senhora, era como uma reação da fé ao mundo moderno, às ideias que cresciam de uma possível vitória dos comunistas, em Portugal e no mundo. Os católicos retomaram a reza do Rosário e a veneração expandia-se pelo mundo católico. Cresci praticando a fé com o Terço nas mãos, declinando as Ave Maria necessárias para afastar o perigo do comunismo e trazer a paz para o mundo.  Em minhas andanças na Zona da Mata, à cata da minha história e do meu povo, pude observar que nas portas das casas estava colocada um retrato de Virgem de Fátima, com uma ave maria e o pedido para afastar o comunismo do Brasil. Estavam nas casas mais pobres, mas nas portas das casas do Senhor de engenho, dos donos de fazenda de gado, nas portas dos quartos, nas sacristias das capelas dos engenhos. A veneração a Nossa Senhora de Fátima foi trazida para o Brasil por jesuítas portugueses, perseguidos em Portugal no início do século XX, e, coisa notável, a as mesmas pessoas que sempre desgostaram dos jesuítas nos séculos anteriores, os acolheram e à devoção que traziam.

Mas o Treze de Maio tem outro sentido também aprendido na infância, não nas conversas familiares, mas na escola. O Treze de maio de 1888. Foi na escola que aprendi sobre a Princesa Isabel, a filha do Imperador Pedro II, assinou uma lei que ficou conhecida como Lei Áurea, de ouro. João Alfredo, ministro do Império, pernambucano, casado com uma filha do Barão de Goiana, é que redigiu a lei, simples como milagre. Por ela ficou decretado o fim da escravidão de seres humanos no Brasil, seres humanos que, eles ou seus avós, vieram da África. Aqui chegaram para fazer funcionar os engenhos de moedores da cana para fazer o açúcar, a cachaça, o vinagre, mas as pessoas só lembram do açúcar que vinha do caldo da cana espremida, esmagada, como foram esmagadas vidas daqueles africanos aprisionados em sua terra de origem, e trazidos para os engenhos de Pernambuco e das outras regiões do Brasil. Houve festa em todo o Brasil após a Lei Áurea, até o papa Leão XIII mandou um presente para a Princesa. O fim da escravidão no Brasil parecia um presente que dona Isabel deu ao moradores do Brasil que ainda eram escravos naquele ano. Algum tempo depois é que eu soube de José do Patrocínio, de Cruz de Rebouças, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, e fui compreendendo que houve muita luta para que se chegasse a esse fim, e também que havia muita gente não negra, gente que enriquecera comprando africanos e vendendo escravos, interessada no fim dessa prática de transformar seres humanos em animais de carga. Esses conhecimentos foram chegando aos poucos, pois é aos poucos que se conhece a história da família nuclear e da família nacional. Aprendi que meu avô paterno, que não conheci, era preto, e sua esposa, a Vó Florinda, que ainda vi antes que morresse, era uma cafuza de cor negra e cabelo índio. Ainda tenho um retrato dela, ao lado de minha outra avó, quase branca, mas com traços indígenas. Dei-me conta, ouvindo e repensando as conversas mantidas com meu pai, que a história de minha família, como milhares de milhares de outras, é a história do Brasil.

Em 1988, estava trabalhando na Coordenação de Projetos Especiais da Secretaria de Educação da Prefeitura da Cidade do Recife, e a secretária de Educação, professora Edla Soares, orientou para termos atividades em torno do fim da escravidão no Brasil, não no sentido de homenagear a Princesa Isabel, mas de refletir sobre como era a situação das crianças e jovens que frequentavam as escolas do município. Promovemos um seminário que envolveu vários municípios pernambucanos com palestras ditas por professores locais, mas com o a presença de Décio Freitas, que não pode vir; então a secretária convidou um professor, que já recebia um jeton para assessorar a secretaria de Educação, mas ele pediu uma alta soma de dinheiro para substituir o professor Décio. Como coordenador do projeto, recusei pagar ao professor, fiz gratuitamente a palestra. Usamos o dinheiro para coisa mais útil. Também realizamos uma passeata com os estudantes das escolas, ocupamos o as ruas com as crianças e jovens pobres e negros, das escolas municipais e das Escolas da Comunidade, para lembrar aos vereadores que os descendentes dos homens e mulheres escravizados careciam de mais escolas e que oferecessem uma educação de boa qualidade.

O projeto previa uma revista da secretaria de educação, saiu apenas o primeiro número, cuja capa era a representação de uma criança negra com um lápis na boca. A professora Edla Soares escreveu uma apresentação com o título Negro, desbotado não. Vários professores de diversos municípios colaboraram com artigos.  E foi criada a Medalha da Abolição, entregues a pessoas dedicadas às tradições afro-originárias, como a Badia, que a recebeu em cerimônia pública na Praça do Carmo, local da exibição da cabeça de Zumbi dos Palmares e hoje tem a estátua em sua memória; também entregamos a medalha a estudiosos da vida dos negros no Brasil, como a professora Kátia Mattoso.  Plínio Victor e eu sonhávamos com um memorial Zumbi dos Palmares.

Alguns anos depois, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, 1997) assinou decretou que pôs Zumbi dos Palmares no Panteão dos Heróis brasileiros; em 1911, 20 de novembro passou a ser considerado dia da Consciência Negra.

Sim, continuo rezando e pedindo a proteção de Nossa Senhora de Fátima, e tenho respeito à dona Isabel que agiu nas condições de seu tempo e nas suas possibilidades.

O Cardeal, o Cristo e o Exú no Carnaval

abril 26th, 2022

O Cardeal, o Cristo, e o Exú no Carnaval

Prof. Severino Vicente da Silva

Era Carnaval, esse mundo da alegria quase revolução, quando o mundo fica quase de “ponta cabeça”, todo invertido. Ninguém leva sério o rei de plantão, e a chave da cidade fica confiada ao Rei Momo, quase sempre gordo, sempre sorridente, com a pureza de um semiembriagado. Antigamente não tinha Rainha do Carnaval, agora inventaram essa, uma pequena satisfação à família. Antes era Pomba Gira, mulher sedutora, de riso enigmático, promessa de paraíso em três dias. Eram muitas e todas perdidas na multidão, prontas para serem achadas. Cantava-se “durante os três dias não sou de ninguém, até quarta-feira, meu bem”. Mas arrumaram uma rainha que ninguém leva a sério, nem o rei. Nos dias de hoje o carnaval é oficial, no sentido de que, se não precisa mais a licença da Igreja, tem a licença do prefeito, aquele que entrega a chave e vai se divertir, mas antes ele já havia definido os locais liberados para a liberdade que o carnaval promete. Melhor, os locais onde os cidadãos podem ser foliões, ficar doidos de alegria. Sim, tem ruas marcadas para isso. Mas o carnaval se faz a partir da alma do folião que nem se importa do que dizem dele; o folião é um ator de si mesmo e, dança, canta, grita, para si mesmo. Ele é sua plateia, é uma alegria para si. E também para quem não é folião, para quem não quer ser folião, para quem só quer ver folião, para quem deseja ser folião, mas fica pensando no que o vizinho vai dizer. Como é cidadão, o prefeito organizou um jeito de separar os foliões dos que gostariam de ser foliões. E então mandou construir passarelas e bancos para aqueles assistirem o carnaval, separados dos que são foliões. Nas bancadas fez-se outra divisão, criaram-se camarotes, mais isolados, de forma que ninguém saiba as folias que acontecem naquele espaço separado para os separados. Uma alegria para quem não se alegram no carnaval das ruas. “Não fiz, mas vejo”.

Faz alguns anos, quando os católicos do Rio de Janeiro estavam sob a responsabilidade do Cardeal Arcebispo Eugênio Sales, ocorreu memorável acontecimento, quase “esquecido pelas novas gerações” e, também pelas menos novas. Imaginem que um “carnavalesco”, que é uma categoria diferente de folião, pois o carnavalesco diz como alguns foliões devem ficar loucos, na alegria contida de 90 minutos. Uma loucura concentrada, organizada, um espetáculo para que a turma das bancadas possa divertir-se. Pois bem esse carnavalesco, Joãozinho Trinta, que já inovara pondo os seios das mulheres à mostra na passarela, resolveu levar O Cristo Redentor para a passarela. O carro dessa alegoria estaria acompanhado de mendigos. A liberdade do carnaval pretendia fazer uma crítica, uma denúncia da maneira como a cidade estava tratando parte de sua população. Afinal, houve um tempo, quando havia o Estado da Guanabara, falava-se, à voz de surdina e em alguns jornais, que estaria em curso uma política para que a cidade ficasse livre dos mendigos. Esse costume vem da Europa do século XVI, quando se ensaiava a ideia de “o trabalho dignifica o homem”. Pois bem, nos anos 1962-1963, o Estado da Guanabara radicalizou e apareceram muitos corpos de mendigos boiando no rio Mundau. Era a ‘operação mata mendigos”.[1] Foi um escândalo, mas o Cardeal Arcebispo da época, se disse alguma coisa, foi na surdina. Consta que os moradores de Copacabana aprovaram a política do governador Carlos Lacerda. o qual foi um dos líderes civis do golpe de 1964.

Em 1989, quando o Brasil ainda começava a sacudir as dores da ditadura iniciada 1964, é que ocorreu a cena do Cristo e os Mendigos da Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis. O cardeal arcebispo usou todo o seu prestígio para evitar que viesse a ocorrer o desfile do Cristo Redentor em uma escola de samba. Muitos editoriais foram escritos e, possivelmente, muitas conversas de pé de ouvido com os novos paladinos da democracia e defensores do Cristo, esquecendo que ele foi criticado por andar em má companhia antes de ser preso e ser morto entre dois ladrões. Mas o cristo saiu no desfile coberto por lona de plástico preto, com uma grande faixa dizendo bem forte: “mesmo proibido, rogai por nós, cercado de mendigos por todos os lados. Agarrado com os poderes, bem semelhantes aos que mataram nos rios e nos quartéis, o cardeal arcebispo perdeu seu rebanho, pois não abriu caminho para os que denunciavam as injustiças, naquele carnaval.

Este ano, como no ano passado não houve carnaval, esse comum que dá início ao Calendário Lunar, o calendário religioso. Esta semana, contudo, ocorreu o carnaval, totalmente fora de época, na semana seguinte aos festejos de Páscoa, quando os seguidores de Cristo lembram a sua morte e celebram a sua ressurreição. Algumas autoridades religiosas reclamaram, tentaram evitar tal celebração. Não conseguiram e, trinta e três anos depois do Cristo Proibido no carnaval, a escola de Samba Grande Rio, levou Exu para a avenida. Exu é Orixá das religiões originadas na África, que foi atravessado com os escravizados, é o orixá da comunicação, aquele que abre as possibilidades, que aponta os caminhos a serem escolhidos. Os mendigos mortos e encontrados boiando na Guanabara dos anos sessenta, quase todos tinham a pele preta, como preta é a pele de Exu. Não houve debate sobre o passeio de Exu na passarela do samba. Ainda hoje não se sabe como estava representado o Cristo escondido na lona de plástico, que era preta. Nunca saberemos como os carnavalescos imaginaram o Redentor dos Mendigos. Será que tinha a cor do Benedito? Seria o Exu? O cardeal que proibiu sem saber, morreu sem saber. E Marcelo Alencar também não sabe. É não se sabe como era o Cristo.


[1]https://www.researchgate.net/profile/Mariana-Dias-Antonio/publication/334605471_A_Operacao_mata-mendigos_e_o_jornal_Ultima_Hora_Rio_de_Janeiro_1961-1969/links/5d35a1d3a6fdcc370a54d4f2/A-Operacao-mata-mendigos-e-o-jornal-Ultima-Hora-Rio-de-Janeiro-1961-1969.pdf

AS GUERRAS , AS RELIGIÕES E AS PERDAS

abril 19th, 2022

As guerras, as religiões e as perdas.

Prof. Severino Vicente da Silva

Desde fevereiro os meios de comunicação estão a nos fornecer informações e comentários sobre o conflito que, no final daquele mês, tornou explícito o conflito entre a Federação Russa e o Ucrânia. Buscam explicações próximas e distantes para o conflito. Então muitos souberam que Kiev é anterior à Moscou, mas desde então os tártaros e outros povos dominaram a região, e entre um massacre e outro das populações, foi sendo formado o Império Russo e, depois, a União das Repúblicas Soviéticas que, dissolvida antes do século XXI começar, deu origem à Federação Russa. Ao mesmo tempo, várias repúblicas que formavam a URSS, recuperaram, ou conseguiram a independência. Entretanto, a nostalgia da unidade na diversidade socialista que parecia existir no tempo ‘centralismo democrático’, filho que se rebelara contra o Pai Czar, permaneceu. E tem a contenda cultural permanente entre o Ocidente e o Oriente, militarizada na Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN e o finado Pacto de Varsóvia, enterrado com os tijolos do Muro de Berlim. Continuando Viva, a OTAN é um pesadelo permanente para Vladmir Putin, agente da KGB e atual centro do poder na Federação Russa. Putin teme que seus vizinhos, antigos membros da URSS no tempo em que ele era um agente secreto que assistiu a queda do Muro. Aproveitando a inapetência democrática dos que governavam a Rússia nos anos subsequente à dissolução da segunda potência mundial, Eis que Putin aparece como o restaurador da Rússia e, sem surpresa é aceito como líder permanente, aquiescendo às múltiplas modificações no corpo da Constituição da Federação Russa. Putin tem contrato até 2036. Bem tendo iniciado a invasão da Ucrânia, apelidada de Operação Especial, desapareceram dos noticiários: a permanente imigração de povos africanos e árabes para a Europa; o conflito entre palestinos e israelenses; a guerra no Yemen; o governo do Taliban no Afeganistão; e outros ‘pequenos’ conflitos como a ação dos Jihadistas em Moçambique, a crise humanitária da Venezuela, os assassinatos de mulheres no mundo inteiro, etc. 

Não tem sido fácil a vida dos líderes religiosos que se levantam contra guerras nos dias atuais. Atualmente os líderes do catolicismo romano têm assumido posturas claras contra a guerra, e isso está causando tanto reboliço quanto a simpatia de Pio XII pela Alemanha hitlerista. Um bispo da Igreja Ortodoxa Católica admoestou o papa Francisco dizendo que não se pode colocar na via sacra russos e ucranianos para rezar juntos. O Patriarca Kiril da Igreja Ortodoxa Russa tornou apoio claro seu apoio às ações de Putin e, como ele, põe a responsabilidade no Ocidente. O Conselho Mundial das Igrejas deverá decidir até o final do ano se a Igreja Ortodoxa Russa continuará a fazer parte desse Conselho. As relações históricas que as religiões mantiveram com os governantes tornou um vício essa aproximação, de tal forma que os líderes devem trabalhar muito para que os seguidores de sua fé entendam o que realmente significa paz. O nacionalismo religioso é um caminho largo e asfaltado para as guerras, hoje como foram no passado. Mas é preciso estarmos atentos, vigilantes para não seguirmos pela fácil estrada das guerras como solução, pois elas são criadoras de novos problemas. Um deles é o vício de sangue para aplacar o medo provocando terror.

Outro debate que desapareceu desde fevereiro é a questão da natureza. Cuidar do clima, dizem os senhores da guerra, só depois de destruirmos o inimigo. Eles são o inimigo, mas não precisam ser destruídos, vamos tentar educa-los, mesmo que eles continuem matando.

Só para lembrar os cristãos: seu conceito melhora muito quando cuidam dos pobres, das viúvas, dos órfãos, dos desamparados, dos perseguidos. Perdem sempre quando se envolvem com guerras, ainda que ganhem.         

Frei Henrique Soares, de Cabrália ao Corcovado

abril 7th, 2022

FREI HENRIQUE SOARES, DE CABRÁLIA AO CORCOVADO

Prof. Severino Vicente da Silva.

Dedicado ao Padre Tiago Torlby

E então ficamos surpreendidos por acontecimento aparentemente comum, no Brasil, desde que Frei Henrique Soares, em rápida passagem nessas terras, então, recentemente descobertas, celebrou a missa na Páscoa do ano 1500, na presença do representante do rei de Portugal. Ali estava exposta a aliança que se formara desde a vitória de Afonso Henriques sobre as pretensões dos outros iberos. Tão antiga quanto a Sé de Braga, é essa união entre a Coroa e a Mitra. Essa união tem sido mantida através dos séculos lusitanos e, por extensão aos brasileiros que, neste ano deveriam estar celebrando a separação política de Portugal. Mas, tendo ocorrido a separação dos reinos de Brasil e Portugal, não existiu a separação do Trono e a Mitra. Coroado por um bispo, no espaço de uma igreja, o novel imperador manteve o Padroado e, dessa forma o seu poder sobre o bispo que abençoava e punha a coroa em sua cabeça. Como Pedro Álvares Cabral, o imperador participou da missa e do Te Deum. Nada disso impediu que fosse expulso do trono, pelos súditos, em Sete de Abril de 1831. A historiografia serviçal iniciada pelo Visconde de Porto Seguro nos fez aprender e decorar a expressão “abdicação em favor de seu filho”.

Outro Te Deum e outra missa foi assistida pelo adolescente que passa a ser o segundo imperador do Brasil em 1840. Assim começava o Segundo Império, de Pedro Álvares a Pedro de Alcântara Orleans e Bragança. E seguiu até o golpe que inaugurou a República e com ela, a separação da Estado com a Mitra. Entretanto, logo foram entabuladas conversações entre a República, representada por Rui Barbosa que traduzira um livro adverso à Igreja, e Dom Macedo Costa, bispo que amargara a prisão por ordem do Imperador. Ambos entendiam que a República não poderia dispensar os serviços da Igreja, doutrina que embasou a construção de uma neo-cristandade que buscou a cristalização nos anos de 1930. Escolhendo um evento para marcar esta nova cristandade, podemos tomar o 12 de outubro de 1931, quando foi inaugurado o Cristo Redentor, no morro do Corcovado, com a presença do Ditador Getúlio Vargas ao lado do Cardeal Sebastião Leme. Não houve o Te Deum naquele dia, mas se manteve a tradição que atravessou o Atlântico, os séculos e os regimes: a cooperação do Estado e a Igreja para manter a união estabelecida nos acordos de 1822.

Em boa parte do século XX, os cardeais e os bispos julgaram que poderiam manter a aliança com o Estado, silenciando sobre os excessos das ditaduras, e os pequenos espaços temporais de liberdades democráticas; e poucos se deram conta que o povo brasileiro estava mudando, como o mundo, pois a sociedade viu-se obrigada a considerar a chegada da parte invisível do povo, um povo mais preto, mais mulato, mais pardo, mais indígena, explicitando outras crenças, outras formas de falar de Deus, outros deuses. Era um Povo Novo, como ensinava Darcy Ribeiro; um Povo Novo traz consigo problemas diferentes e novos, e este Povo Novo chega desejando outras soluções que não fosse a submissão aos tradicionais Donos do Poder, no linguajar de Raimundo Faoro.

Os novos problemas e possíveis soluções são percebidos apenas por uma minoria, mas essa percepção racha a sociedade, como ocorreu na tentativa de evitar a emergência do novo, em 1964, e que estabeleceu uma nova ditadura até 1985. E entre as muitas ações realizadas e vistas no período, assistimos a corrida de líderes religiosos das múltiplas religiões para alcançar o prêmio de ser protagonista da novíssima cristandade. E foi grande a concorrência entre algumas lideranças das ditas igrejas cristãs. Apenas uma minoria dos religiosos não mais queria a apoiar-se ou sentar-se na cadeira ao lado da do “ditador de plantão”, como bem definiu Carlos Imperial. Os ditadores gostam dos obedientes, deixam que levem algumas vantagens, desde que colaborem efetivamente a manter a unidade do Estado. Os mais cooperativos receberam maiores prebendas, mais espaço nas ondas de rádio, de televisão, ampliando os púlpitos e arrecadação de dízimo. Afinal o crescimento populacional também ampliou o número dos “sempre os tereis”, esses que precisam da constante caridade para que o mundo não se renove.  

No mundo plural, a novíssima cristandade não se faz apenas com uma igreja ou religião. A pluralidade religiosa exige múltiplos acordos, aqueles que primeiro se aproximam do Trono e colaboram com maior eficácia com o poder, são melhor aquinhoados com os nacos de poder que sobram. Os que continuaram a sentir-se imprescindíveis ao poderoso do momento, ficaram esperando serem chamados para agir. Depois perceberam que estavam fora do jogo por “serem mornos”. A série apresentada na NETFLIX, com o título SINTONIA, mostra a vida de três jovens no mundo da droga violência e religião, os evangélicos estão presenes mas não há menção ao catolicismo. Embora a série apresente jovens paulistas, pode ser que tenha ocorrido caso semelhante no Rio de Janeiro. A Igreja Católica perdeu espaços peela aderência de uma prática bem sucedida no passado, uma adesão ao mundo que não quer mudar. Pode ser que os cardeais recentes pensassem que poderiam imitar Dom Leme. Na ‘Revolução de 1930’, o presidente Washington Luiz recusava entregar o governo e ameaçava matar-se, então os generais mandaram chamar o cardeal Leme que conversou com o presidente, e este aceitou a saída honrosa do exílio. Esse movimento resultou na inauguração do Cristo Redentor do Corcovado, um sonho da princesa Isabel.

Parece que o atual cardeal não percebeu que os tempo mudaram e o Estado tem mais escolhas para fazer alianças com aqueles que desejem. O militares de pijamas que governam o país atualmente jamais perdoaram as ações de Bispos como Dom Hipólito, Dom Valdyr Calheiros, Dom Arns, Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldaglia, Dom José Maria Pires, e outros que se direcionaram ao novo, ao novo tempo, ao Povo Novo que desejava e deseja uma nova sociedade na qual não sejam tratados como lixo. Por não perdoarem essa novo mudo de ser Igreja, os apijamados deixaram, de maneira geral, os cristãos católicos fora dos acordos para manter as antigas e carcomidas estruturas que mantém a maior parte do povo escravizado pela impossibilidade de atender suas necessidades básicas e procuram reanimação nos templos que vendem ‘os céus’ enquanto lhe tomam as terras. Talvez tenha sido a solidão vivida no palácio de São Joaquim, longe do poder e distane do povo, que levou o cardeal Dom Orani Tempesta a celebrar uma missa – Te Deum seria um exagero maior – para o atual presidente, família, agregados e ministros, aos pés do Cristo Redentor do Corcovado, na esperança de ser redimido pelo ‘ditador’, ou melhor, pelo plantonista servidor da elite herdeira dos escravocratas. Talvez Frei Henrique de Soares seja desses personagens permanentes da história do Brasil.