Um prefácio para Pretinhas do Congo

Punha nesta página o que escreveu o professor José Bento sobre o meu livro Pretinhas do Congo, uma Nação Africana na Jurema da Mata Norte , a ser lançado no dia 5 de setembro

“Africanidades brasileiras” em Goiana – à guisa de apresentação.

Estava eu no aconchego do carinho da casa materna, no interior de Minas Gerais (cidade
de Lavras), em janeiro de 2011, quando recebi uma mensagem via e-mail, do meu companheiro
de ofício Severino Vicente da Silva, Biu Vicente, convidando-me a fazer a apresentação da obra
que o leitor terá o prazer de saborear. Aceitei de imediato. Degustei-a na varanda da residência
onde nasci, enquanto lá fora persistia uma chuva de verão típica do sudeste do Brasil.
Ao término da leitura, não saía da minha cabeça uma categoria cunhada por Petronilha
Beatriz Gonçalves e Silva: “africanidades brasileiras”. Pensei: “africanidades brasileiras em
Goiana”. Mas, afinal, por que africanidades brasileiras? Ora, porque a obra contém os elementos
que, segundo Petronilha, caracterizam esta categoria. Diz ela:

“Ao dizer africanidades brasileiras, estamos nos referindo às raízes da cultura brasileira
que têm origem africana. Dizendo de outra forma, estamos, de um lado, nos
referindo aos modos de ser, de viver, de organizar suas próprias lutas, próprias dos
negros brasileiros, e de outro lado, às marcas da cultura africana que, independentemente
da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia a dia”.

Através da abordagem da história sociocultural, o autor investiga a construção de uma
manifestação cultural que, por um longo período da história contemporânea de Pernambuco,
esteve na invisibilidade. O fato de estar invisível não signifi ca a inexistência. Neste sentido,
Biu nos remete à obra clássica, ‘O homem invisível’, da década de quarenta, onde Ralph Linton
investigou a presença dos negros norte-americanos naquela sociedade. Eles estavam também
na condição de invisibilidade, embora sujeitos reais.

Para empreender esta tarefa, Biu trilhou uma perspectiva metodológica que lembra
Sherlock Holmes, o detetive que desvendava os mistérios e crimes do “longo século XIX”; o
historiador italiano Carlo Guinzburg, que nos adverte a observar os emblemas, sinais e pormenores
deixados pelas pegadas humanas; ou ainda Ítalo Calvino, que nos fala que dentro da
cidade visível pode haver uma cidade invisível.

Severino Vicente, ao pesquisar a trajetória histórica das Pretinhas do Congo na cidade
de Goiana, nos apresenta outra cidade. Cidade forjada pelas mãos dos trabalhadores a partir
da década de trinta do século XX, a grande maioria anônima na perspectiva da história tradicional, tanto é que pouco aparece como referência de logradouros públicos e/ou em monumentos
públicos; no entanto, sem eles, Goiana não teria sido o que é.

Severino Vicente da Silva, em minha opinião, faz uma advertência a nós historiadores: as manifestações
culturais populares, tais como as das Pretinhas do Congo, se analisadas apressadamente,
proporcionarão análises com aparências de verdades, mas sem fundamentações
suficientes no campo da história e da historiografi a. Neste sentido, ele dialoga com algumas
interpretações acerca da relação das Pretinhas do Congo com a coroação dos reis e rainhas do
maracatu. Digo mais, Biu Vicente busca outros possíveis significados para as interpretações
advindas das manifestações populares, como as das Pretinhas do Congo de Goiana; o faz na
perspectiva de “invenção de tradição”, talvez querendo dizer: “nem todas as tradições vêm
de um passado remoto”, elas são construídas dentro de determinadas condições históricas.
O autor busca o significado de termos que nomeiam as localidades a partir do sentido
popular em homenagem a algum “homem ilustre, embora haja o nome ofi cial. Neste sentido,
nos lembra de Michel Foucault, que nos sugere uma “arqueologia das palavras”, dos conceitos.
Foi assim que Biu fez com as informações obtidas acerca de Antonio Manuel dos Santos, o
Pirrixiu. Para isso, além das fontes escritas, recorreu às fontes orais, um dos recursos usados
para investigar a história dos “excluídos da história”, segundo uma expressão da historiadora
francesa Michelle Perrot, ou dos “de baixo”, como sugeriu E. P. Thompson. Dessa forma, cabe
ao historiador metamorfosear a memória em história, privilegiando as experiências vividas
pelos sujeitos históricos envolvidos na trama, como o fez Severino Vicente ao longo de sua
pesquisa sobre as Pretinhas do Congo e suas várias representações ao longo do movimento
da história. Afinal, a cultura é dinâmica, um processo histórico, carregado de rupturas e permanências.
Daí a importância da contextualização, como fez Severino, ao investigar cada uma
das Pretinhas de Goiana.

A partir de fontes orais, Biu Vicente contextualizou a cidade de Goiana na década de
trinta, quarenta, cinquenta, setenta, etc., mostrando os possíveis locais onde estariam inseridos
os personagens das Pretinhas, sobretudo, os responsáveis pela perpetuação dessa prática
cultural, que teima em resistir em meio aos conturbados tempos de neoliberalismo e globalização,
onde, mais do que nunca, “tudo que é sólido desmancha no ar”. Mas, para além do sólido,
parece haver algo mais que não deixa que as Pretinhas, em suas várias versões, sucumbam:
na versão de alguns, a espiritualidade; para outros, o sentimento de pertencimento ao grupo,
a preservação da memória dos antepassados. Enfi m, há algo além do sólido. Por isso, elas se
sustentam no tempo com suas resignificações.
Poderia tecer muitos outros comentários apresentando a pesquisa de meu amigo e
companheiro de ofício Severino Vicente da Silva, mas prefiro deixar que o leitor sorva com
sofreguidão as delícias da narrativa do professor Biu Vicente. E mais, preciso dizer que estou
no dia seis de janeiro de 2011, momento em que uma “embaixada de Santos Reis” adentra
a residência de minha genitora, como acontece em todos os janeiros, como indica a minha
memória da infância, que remonta o tempo em que meu genitor estava presente fisicamente
entre nós. A acolhida é uma forma de revisitar a memória dele; assim como os personagens
que compõe a manifestação do presente são descendentes dos ancestrais, os narrados por Biu
aceitaram os desafios de manter a memória dos antepassados, através da cultura popular,
seja no norte, nordeste, sul, sudeste ou centro-oeste do Brasil.

Desejo uma boa leitura a todos(as), enquanto vou beijar a Bandeira dos Santos Reis,
que só retornará no próximo janeiro para aqueles que permanecerem sólidos e para os que já
estiverem na invisibilidade das memórias.

Lavras (MG), em seis de janeiro de 2011.
José Bento Rosa da Silva – Prof. de História da África e Afro-brasileira na Universidade
Federal de Pernambuco

SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves. Aprendizagem e ensino das Africanidades Brasileiras. In: MUNANGA,
Kabengele. (org.). Superando o racismo na escola. Brasília: Ministério da Educação/SECAD, 2008. p. 151-167.

  1. Geovanni Cabral disse:

    Parabéns Prof. Biu Vicente nessa caminhanda de historiador em não deixar no esquecimento “As pretinhas do Congo”, que tomam um novo rumo com esse seu livro. Com cita José Bento, Biu agiu como um detevive para compor em suas páginas histórias de pessoas e localidades que são reais, mas esquecidos ou excluídos, no cenário da cultura e da historiografia. Essa ‘operação historiográfica” utilizando uma expressão de Certeau, é recebida com muito carinho, são olhares, narrativas e histórias que se apresentam não como novo, mas visível dentro de sua forma e especificidade. O trabaho do Biu Vicente é uma “representancia” termo utilizado por Ricceur para mostrar a relação do passado no presente, da memória na história. Que venham outros olhares e histórias, livros e artigos e que nossa história e memória não caia no esquecimento.
    Parabéns e um abraço.

Deixe um comentário