Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Thayana de Oliveira Santos

O RECIFE SANGRENTO”:

Sociabilidade e violência na Capital pernambucana

Recife

2012

O RECIFE SANGRENTO”:

Sociabilidade e violência na Capital pernambucana

Thayana de Oliveira Santos[1]

Resumo:

O Recife do século XX, inserido em um contexto maior, onde dialoga com as mudanças ocorridas em Pernambuco durante o mesmo período, foi o ponto de discussão muito importante ao longo da disciplina. A discussão sobre a capital pernambucana, inserida em um contexto amplo, seja ele cultural, político, econômico e social, nos possibilitou uma leitura ampliada e sob diversos pontos de vista. Neste trabalho, procuraremos discorrer nossas análises sobre o Recife e seus pólos de sociabilidade, bem como sobre a violência na cidade.

De acordo com Raimundo Arrais, já durante o século XIX estava indicado o delineamento espacial que tomou forma o espaço urbano do Recife durante o século XX. Em tal delineamento, as divisões das classes sociais eram reproduzidas no espaço, sendo assim, a geografia do espaço é entendida como a materialização das relações sociais. Logo, as áreas habitadas do Recife deixavam transparecer seu lugar de honra (ou desonra) na cidade. Se aproximando da análise de Arrais, Dênis Bernardes enxerga o Recife como uma cidade polarizada, dividida de tal forma que “vive-se sem conviver”. Para ele a primeira grande divisão dos espaços sociais é representada pela moradia, onde já se apresenta a diferenciação sócio-espacial.

Já Silvia Couceiro, busca mostrar como se dava a sociabilidade no Recife segregado, como as elites se relacionavam com as “classes baixas”. Assim, contrapondo-se a Levine (1975), que afirma que no início do século XX Pernambuco vivia um período de decadência econômica e política, Couceiro (2009) defende que durante a segunda década do século passado a cidade do Recife despontava como um dos mais importantes centros políticos e econômicos do país. Para ela, no auge da influência cultural européia, a cidade que se pretendia moderna e civilizada, tinha nos Cafés, considerados refinados e elegantes, um centro de sociabilidade onde, à noite, as distâncias sociais diminuíam e os rapazes da elite local conviviam “harmonicamente” com a classe baixa e envoltos à prostituição e jogatina. Sobre as prostitutas, Oliveira afirma que estas eram as responsáveis por satisfazer os “instintos naturais” dos jovens das classes mais abastadas. Assim, tais ambientes de prostituição, exerciam “um fascínio sobre a rapaziada de seus 16 a 20 anos”.

Os Cafés, como vimos, podem ser considerados o grande pólo de sociabilidade da capital pernambucana, já que neles, as “figuras respeitáveis” da cidade diminuíam as “distancias sociais” e, sob a sombra da noite, relacionavam-se com os “malandros” e prostitutas, considerados à margem da sociedade de então.

Entretanto tais ambientes, por diversas vezes, eram palco de ocorrências policiais, seja em virtude do consumo dos considerados “tóxicos chic”, onde as prostitutas quase sempre eram as responsabilizadas pela entrada dos moços no “mundo do vício”; seja por serem locais para realização de crimes passionais, de que nos fala Filgueira (2008). Porém, de acordo com a autora, “os escândalos duravam até o sol raiar. Ao amanhecer, a vida da cidade ia, aos poucos, voltando à rotina do trabalho”. E as distâncias sociais eram restabelecidas.

Outra forma de “aproveitar” a noite na cidade é apresentada por Filgueira (2008). Este autor, ao estudar os crimes passionais no Recife na década de 20 do século passado, enxerga a criminalidade não apenas como um desvio de conduta, mas busca no estudo os valores sociais correntes entre a população. Logo, fica claro que, dependendo de quem cometia o crime, não havia punição por parte da justiça, ademais, a justiça transformava o crime em um instrumento pedagógico, expondo, através da punição, o que esperava da conduta dos cidadãos.

Embora Filgueira (2008) não justifique a violência tendo como base a divisão das classes, seja do ponto de vista meramente econômico, seja do ponto de vista do “delineamento espacial”, como faz Arrais (2004) ao defender que o espaço geográfico é a materialização das relações sociais, o seu estudo mostra outro aspecto da noite na capital, onde 64,7% dos crimes passionais estudados eram cometidos durante a noite.

Ao ter a oportunidade de trabalhar com a documentação referente aos Prontuários individuais dos detentos da Casa de Detenção do Recife, que integram o Fundo CDR, sob a guarda do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (APEJE), pude observar a violência no “Recife sangrento”, de que fala Levine (1975), durante o século XX. Este autor chama a atenção para os serviços da milícia, bem como da polícia urbana, utilizadas pelas máquinas políticas para impor sua dominação e dos capangas contratados pelos líderes oposicionistas. De acordo com ele, “a história de Pernambuco foi tão violenta durante a República que a sua capital mereceu o nome de ‘Recife sangrento’ por volta de 1911.

Assim, identifiquei, na documentação do APEJE, aspectos da violência atestada por Levine e Filgueira. São muito freqüentes os crimes de lesão corporal e homicídio. Há, também, casos de “crime de honra”. A documentação nos revela, ainda, a possibilidade de tratamento diferenciado entre presos com melhores condições econômicas e os em situação “precária”, como constam nos prontuários. Pois, o pequeno número de “abastados” presos, em geral, permaneceu pouco tempo na prisão, sendo favorecido por pagamento de fiança ou habeas corpus. Tal situação converge com a análise de Filgueira (2008), ao afirmar que

“para os julgadores, o tratamento que se dava ao crime pode ser um indício do que se desejava em relação a certos comportamentos. Como por exemplo, dependendo de quem cometesse o crime, fica claro – de acordo com a historiografia consultada – que muitas vezes não havia a punição por parte da justiça”.[2]

O que, para este autor, caracteriza-se como “conivência do aparelho repressivo em relação a esses crimes em certas circunstâncias”.

Ainda sobre a “geografia social”, Bernardes chama atenção para a implementação do poder nos espaços urbanos da capital pernambucana. Segundo este autor, “a cada momento da história da capital e das classes sociais, corresponde um momento da fisionomia urbana nas suas mais variadas e complexas manifestações”. Assim, a imponente construção que servia de presídio, funcionando no centro da cidade, servia para advertir os ‘de fora’. Tento iniciado suas atividade em 1855, a Casa de Detenção do Recife inaugura uma “nova fase da história prisional da capital pernambucana, fase marcada pelo discurso correcional, que estava ligado è necessidade de novos aparatos de controle social”[3]. Tal necessidade continuou vigorando durante a República, até o encerramento das funções prisionais da CDR, em 1973. Ao ser fechada, a Casa de Detenção transformou-se em “Casa da Cultura”, para Bernardes, “esse é sem dúvida um exemplo de significativa mudança”, na geografia social da cidade.

A Instituição se propunha a aplicar penas correcionais, de prisão com trabalho, “objetivando a correção moral do criminoso e sua conseqüente devolução ao convívio social”, como destaca SÁ NETO (In: MAIA et. al. 2009, p. 76). Contudo, ao analisarmos a documentação percebemos um ambiente de grande tensão, com registros de brigas, assassinatos e suicídios entre as grades da C.D.R, o que evidência que a violência na cidade não se anulava nos espaços onde os mesmo deviam ser “corrigidos” e os seu praticantes devolvidos à sociedade de forma a conviver em um ambiente de mais “harmonia” social.

Refletindo sobre as concepções dos autores, concluo que a harmonia nas relações entre as classes, defendida por Couceiro (2009), que durante a noite esquecia a rígida separação proclamada pelas elites econômicas e aproximava seus habitantes, na verdade era mais um momento de subserviência de uma classe para com a outra, disposta a prestar todo tipo de serviço, desde o sexual ao acesso às drogas. Ademais, a violência de que trata Filgueira e Levine, serve para concluir que a “boêmica e harmoniosa” noite recifense, não era partilhada por todos os cidadãos.

Ademais, as divisões das classes sociais, eram reproduzidas no território, como afirma Arrais, e apesar de conviverem juntas, durante à noite, nos mesmos espaços, os espaços urbanos não foram alterados e continuaram evidenciando o prestígio, ou não, na ocupação dos territórios. Assim, o Recife dos pobres, continuou a ser uma cidade dentro de outra.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

ARRAIS, Raimundo. O pântano e o riacho: a formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2004.

BERNARDES, Dênis. Recife: o caranguejo e o viaduto. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 1996.

COUCEIRO, Sylvia Costa. Recife brilha à noite. Artigos, Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/recife-brilha-a-noite. Acesso em: 20/03/2012.

FILGUEIRA, Carlos Eduardo de Albuquerque. Crimes passionais no Recife na década de vinte: cortes e regularidades. Documentação e Memória. TJ/PE, v. 1, n. 1. 2008.

LEVINE, Robert. Pernambuco e a Federação Brasileira, 1889-1937. In: FAUSTO, Boris. (org.) História Geral da Civilização Brasileira. 2ª Edição. São Paulo: Difel, 1977. Tomo III, 1º vol., p. 122-151.

MAIA, Clarissa Nunes [el al.] (Org.). História das Prisões no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, vol. 2

OLIVEIRA, Reinaldo de. A Zona. Artigo publicado na página virtual do Jornal Folha de Pernambuco. Recife, 2012. Disponível em: http://www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/edicaoimpressa/arquivos/2012/09/19_09_2012/0076.html. Acessado em 19 de setembro de 2012.

SILVA, Severino Vicente da História de Pernambuco Contemporâneo. Recife, 2011.


[1] Trabalho apresentado à disciplina “História de Pernambuco 2”, do Curso de Bacharelado em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ministrada pelo Professor Dr. Severino Vicente da Silva, como um dos requisitos básicos para cumprir o componente curricular obrigatório da referida disciplina, no semestre letivo de 2012.1.

[2] FILGUEIRA, Carlos Eduardo de Albuquerque. Crimes passionais no Recife na década de vinte: cortes e regularidades. Documentação e Memória. TJ/PE, v. 1, n. 1. 2008, p. 37.

[3] SÁ NETO, Flávio de. In: MAIA et. al. 2009, p. 76.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 15 out 2012 @ 07 07 AM

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02 de dezembro de 1870



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