UFPE – Universidade Federal de Pernambuco

CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Discente: Mário Pereira Gomes

Docente: Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Disciplina: Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro

Período: 5º

2016

Análise da novela Os Dez Mandamentos

Palavras-chave: RELIGIÃO, NOVELA, SOCIEDADE

Keywords: RELIGION, SOAP OPERA, SOCIETY

A novela Os Dez Mandamentos da Record fala sobre a saga de Moisés que é enviado por Deus para libertar os hebreus que, segundo a Bíblia, viviam como escravos dos egípcios. O presente artigo se propõe a demonstrar ao leitor a mensagem que a novela busca transmitir ao telespectador através da abordagem de três temas que são: uma comparação de como a religião dos hebreus e a dos egípcios aparece na novela, como os personagens dos dois povos (hebreus e egípcios) lidam com o ceticismo e quais são os caminhos simbolizados por Moisés e Ramsés.

A novela mostra a religião egípcia como desprovida de amor pelos mais necessitados, idólatra e que tem como centro dos cultos deuses que não passam de meras estátuas despossuídas de qualquer poder. Por falar em estátuas, há uma cena no início da novela na qual Simut, ajudante do sumo sacerdote Paser, derruba por descuido um ídolo e não diz nada por medo de uma possível represália do faraó Seti I. Quando Paser vai ao santuário e vê a estátua de um deus egípcio caída no chão ele se desespera, pois acredita que é um sinal de mau agouro e conta para o faraó e este ordena que um novo ídolo seja fabricado imediatamente pelos escravos. A crença egípcia está totalmente assentada em bases materiais, ou seja, a crença nos deuses se dá por causa do Egito ser uma nação próspera e não pelos egípcios terem fé em suas divindades, isto é tão verdadeiro na telenovela que muitas vezes eles questionam os hebreus sobre o que seria a fé.

A religião egípcia dá licença para grandes banquetes sem qualquer compaixão em ajudar os que passam fome; a crença egípcia também serve para legitimar a submissão dos hebreus ao Faraó, sendo este responsável por manter a ordem cósmica do universo que significa preservar o status quo da sociedade do Egito. Ele deve fazer tudo para sustentá-la, incluindo matar pessoas como ocorre na novela quando, nos primeiros capítulos, Seti I ordena que todos os bebês hebreus do sexo masculino sejam jogados no rio Nilo como forma de controle populacional dos escravos. A religião egípcia é uma crença exibida como autoritária que é seguida pelas pessoas mais por medo de serem severamente punidas pelo faraó do que por uma entrega sincera aos deuses. Estes são mudos e sua suposta vontade nada mais é do que uma projeção da vontade do faraó que, quando faz algo, diz que foi por ordem dos deuses como forma de legitimar a própria ação ou dos sacerdotes que diante de fenômenos naturais se dizem interpretadores da vontade dos deuses. Na novela, o medo que os antigos egípcios tinham da noite não é explicado, e fica claro que a mensagem que a telenovela tenta passar acerca da religião egípcia é de que os deuses cultuados não passam de criações humanas e que a chamada vontade divina apregoada pelos sacerdotes e o faraó é apenas um sinônimo dos desejos humanos. Outra coisa que se nota é que Paser descobre fatos ocultos, não por ter sido informado por um deus ou ter interpretado a vontade destes, mas sim por ele ter ouvido ou alguém ter contado para ele. Um exemplo disto é que Moisés mata um feitor para defender um escravo e depois ele oculta o cadáver. Então o faraó Seti I ordena que Paser descubra quem é o assassino e onde está localizado o cadáver. O sumo sacerdote usa a magia para tentar elucidar o problema, mas nada acontece até que sua esposa Yunet escuta uma conversa entre Ramsés e Moisés na qual este afirma que foi o responsável pela morte do feitor. Ela vai falar com Paser e o convence a contar toda verdade ao faraó, e ainda diz que o sumo sacerdote deveria dizer ao rei que foram os deuses que revelaram que Moisés era culpado pela morte do feitor, o que Paser faz depois de hesitar. Depois disso os crimes de Yunet são descobertos e ela é expulsa do palácio e fica perambulando pela cidade junto de seus ídolos aos quais ela pede que melhorem sua vida, mas como os deuses egípcios são apenas estátuas ela jamais consegue o que deseja através da vontade divina.

Um dos crimes de Yunet é que ela envenenou a princesa Henutmire para que esta abortasse toda vez que ficasse grávida, pois a vilã não queria que o general Disebek tivesse filhos da princesa visto que Yunet era apaixonada por ele chegando até ter tido uma filha chamada Nefertari e esta depois se transformou na grande esposa real do faraó Ramsés.

A religião egípcia é demonstrada na telenovela Os Dez Mandamentos como opressora, pois é através dela que se tenta justificar a escravidão. A magia usada pelos magos nada tem de miraculosa, pois é apenas um conhecimento aprofundado sobre as propriedades medicinais de certas plantas como se pode observar no episódio em que os magos Janes e Jambres contaminam a fonte de água dos hebreus depois de jogarem um pó que deixa a água com uma coloração avermelhada e imprópria para o consumo humano. A crença dos egípcios é individualista, pois seus seguidores não se preocupam com o bem estar do próximo, mas em desfrutar dos prazeres da vida sem se preocupar com os outros e, por último, é uma religião mostrada pela novela como falsa por ter deuses que na verdade não existem; e todas estas características são totalmente contrárias à religião professada pelo povo hebreu.

A religião dos hebreus é completamente oposta à dos governantes, pois o povo de Israel é cheio de compaixão para o outro mesmo que este seja um egípcio. É imensa a quantidade de cenas nas quais a maioria dos hebreus reparte o pão cotidiano com aqueles que nada têm para se alimentar, pois os hebreus ao contrário dos egípcios são solidários e sempre dispostos a ajudar o próximo independente de quem seja. A religião dos hebreus é baseada na fé em um deus que provê o que o povo dele precisa, ou seja, não importa quão difícil esteja a situação os hebreus continuarão acreditando que Deus irá lhes ajudar ao contrário dos egípcios que tendo uma crença fundamentada no mundo material qualquer crise pode destruir a crença nos deuses egípcios. O deus cultuado pelos descendentes de Abraão existe, apesar de não poder ser visto. A divindade adorada pelos hebreus não é só mais uma entre dezenas, mas a única. Deus cumpre a promessa que fez para os filhos de Jacó mesmo que demore décadas ou séculos e, segundo os personagens hebreus, os planos do Criador são perfeitos e seu tempo é diferente do que é seguido pelos mortais. Os hebreus conhecem as aplicações medicinais de certas plantas, mas ao contrário dos sacerdotes egípcios, não dizem que é magia, pois acreditam que o poder sobrenatural não é proveniente de plantas, mas de Deus. A fé dos hebreus faz com que eles sejam resilientes mesmo nas situações mais adversas, o que impressiona os egípcios, e estes não entendem como escravos podem ser tão confiantes quanto ao futuro. Mas nem todos hebreus são devotos da religião judaica e há alguns que duvidam das promessas feitas por Deus a Abraão, Isaac e Jacó e estas pessoas são vistas como párias pelos os outros da comunidade hebraica. Todavia, não penseis que entre os egípcios a relação com os céticos é diferente.

Os egípcios e hebreus apesar de terem religiões distintas possuem a mesma postura quanto ao ceticismo, ou seja, total ojeriza em relação aos que duvidam principalmente dos que duvidam do poder divino seja do faraó ou de Moisés. O rei do Egito é considerado um deus pelo povo e ele exige ser adorado como tal e que as ações que pratica não sejam contestadas, afinal o faraó, sendo tido como divino, sabe exatamente o que é melhor para seu povo; vê a si mesmo como um filho dos deuses e não aceita que as pessoas digam o que ele deve ou não fazer. Assim, as pessoas se submetem a vontade do faraó mesmo que seja uma ação deletéria para a sociedade egípcia. As decisões do governante nunca são contestadas, pois isto significaria uma afronta aos deuses o que é passível de morte. Deste modo, o faraó é absoluto em seu governo graças à legitimidade adquirida por causa da religião que afirma a autoridade divina do rei. Os egípcios, em certos casos, duvidam da divindade do governante, mas fazem isto de forma velada, pois caso sejam descobertos poderão receber do faraó a pena capital. Já entre os hebreus a descrença em Deus é malvista, mas não significa que se um hebreu duvidar da existência de Deus ele será apedrejado pelos outros integrantes da comunidade hebreia, pois se lembrem de que, na novela, os hebreus que seguem a fé judaica são solidários e cheios de compaixão. Todavia, há quatro hebreus que podem ser caracterizados como céticos, sendo o primeiro aquele que duvida por estar perdido espiritualmente mesmo tendo um bom caráter e os outros três são céticos quanto ao poder divino e são pessoas de mau caráter. O primeiro hebreu é Arão, pois durante grande parte da novela se mostra descrente das promessas feitas por Javé aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, chegando ao ponto de dizer que não acredita que Deus existe, sendo logo reprimido pelos familiares e amigos. Arão é um questionador que suscita a dúvida acerca das profecias hebraicas por todos aqueles que o cercam. Ele não segue as ordens divinas, mas a própria consciência. Sua revolta faz com que os outros hebreus acreditem que tudo de ruim que acontece em sua vida é por causa da incredulidade nas promessas de Deus, mas a família de Arão reitera várias vezes que, se ele se arrepender das dúvidas que teve e voltar a acreditar no que Javé prometeu, a vida irá mudar para melhor. Neste caso, o que a novela tenta passar é que, por maior que seja o pecado, este poderá ser perdoado, pois Deus é misericordioso ao contrário do faraó que mandaria matar qualquer um que dissesse abertamente não crer nos deuses.

Outros exemplos de hebreu cético e mal na novela é Corá, Datã e o irmão deste de nome Abirão. Corá e Datã são os chefes dos escravos e usam o cargo em benefício próprio, mas isto ocorre prejudicando os outros hebreus. Corá é uma pessoa falsa que não hesita em fazer coisas ilícitas se estas lhe beneficiarem. Um exemplo disto é que ele fala para o chefe dos feitores, Apuki, informações sobre os escravos e em troca ganha certas regalias como mais porções de alimento e consegue que os próprios filhos não trabalhem nas obras egípcias, como a construção de templos. Para os hebreus ele se mostra solícito, atencioso e crente na religião judaica, mas por trás Corá revela o que de fato é: uma pessoa mesquinha, que não acredita que um dia Deus irá libertar seu povo da escravidão e que deseja levar uma vida confortável à custa do sofrimento dos hebreus. Ao longo da novela Corá se mostra uma pessoa perversa, exemplo disto é que ele tenta beijar Safira, irmã de sua esposa Bina, à força. A esposa de Corá ao ver tal cena se desespera, então de repente entra na casa Datã, que é o esposo de Safira, e ele pergunta o que está acontecendo. Bina diz que a própria irmã tentou seduzir Corá e este confirma dizendo que resistiu o máximo que pode, mas que acabou cedendo por ser homem. Datã se enfurece e arrasta Safira para fora de casa onde ela segundo o costume dos hebreus seria apedrejada até a morte pelo adultério. No momento em que Datã iria atirar a primeira pedra, aparece Bina que pede que Safira não seja morta, mas expulsa de casa ao que o marido da acusada aceita tal pedido.

Outro exemplo de que Corá não é uma boa pessoa é quando Moisés aparece dizendo ser o libertador enviado por Deus para tirar os hebreus da condição de escravos, Corá é o primeiro a questionar a veracidade do que é contado pelo libertador. Para o chefe dos escravos, o antigo príncipe do Egito não passa de um mentiroso que se utiliza da crença dos hebreus para enganá-los. Há um episódio em que Moisés e Arão reúnem todos os habitantes da vila dos escravos para que saibam do plano divino de libertação dos hebreus. Corá, juntamente com Datã e Abirão, questiona os dois sobre como ocorrerá a libertação dos filhos de Israel, então Moisés para provar que é o libertador transforma o cajado que carrega nas mãos em serpente, a mão fica leprosa voltando ao normal logo em seguida, e a água se transforma em sangue. Mesmo assim Corá, Datã e Abirão não se convencem de que Moisés irá de fato libertar os hebreus e começam a criticar, durante vários capítulos, as ações de Moisés e Arão por estarem supostamente enganando o povo e trazendo a fúria do faraó Ramsés sobre os escravos. Nos capítulos em que ocorrem as pragas, Corá e Yunet se unem para acabar com Moisés e para isto o chefe dos escravos arquiteta o plano de roubar o cajado de Moisés, pois acredita que o poder causador das pragas está no objeto portado pelo libertador dos hebreus. Ele consegue o cajado fazendo com que os próprios filhos roubassem o objeto e entregassem ao pai, este depois entrega para Yunet que, por sua vez, dá para Ramsés. Ela pede para o faraó que a deixe ficar no palácio e ele atende ao pedido da mãe da rainha, mas esta se esquece de seu comparsa hebreu e não lhe dá uma casa nova como ele desejava. Corá é enfim descoberto e diz que está arrependido, mas quando confrontado por Abirão e Datã, fala que de nada se arrependeu mostrando o quão falso ele é. Corá é uma pessoa que continua cometendo pecados mesmo depois de ser castigado pelos erros que cometeu. Na verdade, há pessoas na novela que podem sofrer os mais dolorosos castigos pelos pecados cometidos, mas mesmo assim continuarão praticando os mesmos erros e ficarão com mais ódio das pessoas que dizem que elas devem parar de agir contra a vontade de Deus. Corá é o exemplo hebreu deste tipo de pessoa e há entre os egípcios uma pessoa que pode receber os maiores castigos por causa de seus pecados, mas que não se arrepende do que fez. Esta pessoa egípcia que segue apenas a própria vontade, e que não pede perdão para Deus é o faraó Ramsés.

Na novela há dois personagens que representam os extremos entre uma pessoa que segue a própria vontade e outra que segue apenas o que Deus lhe ordena. Estas pessoas são respectivamente Ramsés e Moisés. O primeiro é o faraó do Egito que assume o trono depois do assassinato de seu pai Seti I e que, ao se tornar o governante máximo, passa por uma grande mudança em sua personalidade. Ramsés desde pequeno foi educado para ser o futuro rei do Egito, por isso todos os seus desejos sempre foram satisfeitos tornando-o uma pessoa mimada e incapaz de receber um não. Quando cresce e se torna o faraó, Ramsés demonstra ser um governante mesquinho, vaidoso, que quando contrariado se vinga da pessoa que lhe ofendeu e que trata os escravos com mais ódio do que o pai. Ele não poupa esforços para que sejam erguidas estátuas de si mesmo e chega ao auge da vaidade quando manda que fabriquem um ídolo dele para ser colocado no santuário, lugar onde só poderia ter estátuas dos deuses egípcios. Paser tenta mostrar que tal ação é errônea, mas Ramsés o repreende por dizer o que o Hórus vivo deve fazer. Quando Moisés volta ao Egito e exige em nome de Deus a libertação dos hebreus, o faraó se torna mais cego por causa do poder. Ramsés afirma para Moisés que nunca deixará o povo hebreu partir, então começam as pragas que afligem o Egito e tem como propósito obrigar o faraó liberar os hebreus para que estes sigam até a terra de Canaã. As pragas só tornam o Senhor das duas coroas mais intransigente e evidencia que ele não se importa com o sofrimento do povo egípcio, sendo este tido pelo faraó como sua propriedade, além dos escravos e do gado. As chamadas dez pragas do Egito representam um dilema para o governante das duas coroas, pois se ele concordar em libertar os hebreus estará indo contra o objetivo de seu cargo que é a manutenção da ordem cósmica do universo que nada mais é do que, como já foi dito anteriormente, a conservação do status quo da sociedade egípcia. Todavia, ao não dar a liberdade aos escravos o faraó coloca em risco a segurança do Egito fazendo com que esta nação mergulhe no caos, algo que um faraó não deveria permitir que acontecesse. As pragas se sucedem até que se chega à derradeira punição de Deus sobre o Egito que é a morte de todos os primogênitos humanos e animais dos egípcios. Quando Ramsés percebe que o próprio filho Amenhotep não foi poupado pela praga, o rei expulsa os hebreus da terra tida por Heródoto como uma dádiva do Nilo, mas de repente Deus “endurece” o coração do faraó e faz com que este persiga os hebreus com seu exército até a beira do Mar Vermelho. Neste momento, Deus ordena que Moisés estenda seu cajado fazendo com que o mar seja aberto permitindo assim a passagem dos filhos de Israel pela parte seca. Mais uma vez Deus endurece o coração de Ramsés e este decide mandar seus soldados pela terra que apareceu depois da divisão do mar, mas neste momento as rodas dos carros de guerra começam a se partir por causa das pedras e os egípcios tentam voltar para a praia. Todavia, Deus manda Moisés erguer o cajado e ao fazer isto o mar retorna ao que era antes matando assim todos os egípcios que perseguiam os hebreus. Ramsés é um rei que não escuta os conselhos dos que estão ao seu redor como Paser, o amor próprio do rei é maior do que seu amor pelo país que governa. O faraó sempre tenta resolver os problemas na base da força e o diálogo é algo que ele raramente pratica. Quando as pragas afligem seu povo, Ramsés diz que tudo vai se resolver e que não será um deus desconhecido e sem rosto dos escravos que destruirá a nação mais poderosa da Terra. Isto muda com a morte de seu filho e na destruição do seu exército no Mar Vermelho, pois no primeiro desastre ele perde uma das poucas pessoas que realmente amava. No segundo evento, o faraó mostra ao telespectador até que ponto um governante dominado pelo ódio e cegado pelo poder pode levar seu povo a ruína e Ramsés que se achava senhor da própria vontade descobre da pior forma possível que não é ele que está no controle do mundo, mas Deus.

Já Moisés é um hebreu que foi colocado dentro de um cesto de junco pela sua mãe Joquebede para que pudesse fugir do decreto do pai de Ramsés que mandava matar os hebreus recém-nascidos do sexo masculino. O cesto que levava o bebê parou num lugar onde estava a princesa Henutmire que se banhava no rio Nilo juntamente com suas damas de companhia. Ela que não tinha nenhum filho por causa de Yunet resolveu adotar o garoto que recebeu o nome de Moisés por este ter sido salvo das águas do rio. Ele era muito amado por sua mãe adotiva, mas Seti I e Yunet o desprezavam pelo fato dele ser um hebreu o que na concepção geral dos egípcios era sinônimo de inferioridade. Moisés cresce e se torna um poderoso guerreiro, mas sua origem hebreia ainda é motivo de raiva por parte do faraó Seti I. Quando todos descobrem que foi Moisés que matou um feitor, ele foge do Egito sem rumo certo. Dias depois Seti I é assassinado por Yunet, mas as pessoas acham que ele morreu de causas naturais. Quando Ramsés assume, este revoga o decreto que punia Moisés com o exílio perpétuo. Moisés chega a Midiã e neste lugar conhece a mulher que viria a ser sua esposa chamada Zípora, num belo dia Moisés sobe uma montanha para buscar uma ovelha perdida quando de repente surge a sarça ardente e nesta planta Deus se revela para o pastor de ovelhas e diz que ele é o libertador aguardado pelos hebreus para libertá-los do jugo do faraó. Moisés hesita, mas acaba aceitando os desígnios divinos. Ele ruma em direção ao Egito e no meio do deserto se encontra com seu irmão Arão que tinha sido ordenado por Deus para encontrar o libertador de Israel no deserto. Deste lugar, o dois vão para o Egito munidos de seus cajados, com os quais irão operar milagres e pragas, sendo a primeira ação para convencer o povo hebreu de que eles foram enviados por Deus e o segundo ato é para obrigar Ramsés a deixar os escravizados partirem. Moisés durante a novela demonstra ser uma pessoa que tenta sempre resolver os problemas através do diálogo, pois ele vê nisto a melhor solução. Ele é uma pessoa racional e sabe que o melhor tanto para os egípcios quanto para os hebreus é fazer a vontade de Deus. O libertador de Israel tem compaixão pelos outros e fica aflito com o sofrimento que os egípcios passam durante as pragas por causa da teimosia do faraó. Moisés é o exemplo que todos os que creem em Deus devem seguir por ser uma pessoa boa, misericordiosa, racional e temente aos mandamentos divinos.

Os Dez Mandamentos traz ao telespectador a mensagem de que a única maneira de se ter uma vida feliz é basear todos os atos na vontade de Deus, pois isto lhe dará uma vida bem-aventurada. Isto se alcança tendo uma atitude de confiança de que por mais difícil que seja a situação, tudo irá melhorar graças à vontade divina, mas a novela também lembra que Deus não luta pelos hebreus e sim com eles como fica evidente pela etimologia da própria palavra Israel que significa lutar ou prevalecer com Deus[1]. Se deve lembrar também de que Moisés e Arão só se tornaram os libertadores dos hebreus por terem se rebelado contra a condição humilhante de seu povo, ou seja, é preciso que o povo lute contra a opressão em que vive para que Deus comece a agir. Ele não quer fazer tudo pelo seu povo, mas ajudá-lo quando necessário. O faraó na novela representa o caminho de seguir somente a própria vontade ignorando o que Deus ordena, a pessoa faz o que quer e quando castigada ao invés de dobrar a cerviz para ser perdoada ela fica com mais raiva de Deus, fala mais blasfêmias e continua mais firme em suas más atitudes. Essa senda termina em tragédia por ir contra os desígnios divinos, já o libertador é o caminho do amor a Deus, a pessoa que anda por essa estrada pode passar por várias adversidades, mas depois será agraciada com muitas bênçãos. A busca pela justiça e a liberdade são características desse caminho, o amor ao próximo mostra ao telespectador que se ele for uma boa pessoa o caminho poderá até ser difícil, mas o destino será maravilhoso.

O que foi dito anteriormente é a mensagem da novela sobre como um cristão deve ser (Moisés) e quão deletério é o ateísmo (Ramsés), mas há também mensagens acerca das religiões de matriz africana e em menor quantidade o catolicismo. Sobre o ceticismo a visão da novela é de que se trata de algo praticado por pessoas que não têm fé em Javé mesmo com as evidências de ações divinas como Corá ou no caso de Arão de alguém que realmente gostaria de acreditar nas promessas feitas aos seus antepassados, mas que se mostra sem esperança por viver em tempos difíceis. Assim, a dúvida quanto ao deus hebreu existir ou ter mandado Moisés para libertar os escravizados se mostra como algo deletério e próprio de pessoas descrentes nas promessas divinas ou simplesmente más. Os céticos se convencem de que Javé é de fato o único deus, mas Corá, Datã e Abirão continuam céticos quanto a Moisés dizer que as leis que o povo deve seguir são provenientes de Deus, pois eles nunca viram uma conversa entre os dois e por isso acreditam que o libertador simplesmente mente ao dizer que fala com a divindade que se apresenta no Monte Sinai. Os diálogos de Simut com os deuses egípcios representados por estátuas num templo são reveladores quanto à visão que Os Dez Mandamentos busca passar sobre religiões de matriz africana e o catolicismo. Primeiro as estátuas não passam disto, são apenas produtos de mãos humanas que não possuem qualquer poder sobre a vida da humanidade. Segundo, os egípcios são vistos como pessoas que não adoram os deuses através de suas representações na forma de ídolos, mas de que eles seguem as próprias estátuas. Os sacerdotes egípcios nos rituais e vestimentas lembram tanto o catolicismo quanto os cultos de matriz africana e assim ao falar da crença religiosa do Egito Antigo como uma superstição a novela acaba criticando religiões contemporâneas da IURD, pois a sociedade apresentada não é a que de fato existiu milhares de anos atrás nas margens do rio Nilo, mas sim a visão de pessoas do século XXI sobre determinada população.

A novela Os Dez Mandamentos representa um marco na televisão brasileira, pois é a primeira novela bíblica que é recorde de audiência. A trama é sobre algo que todos no Brasil conhecem, mas que mesmo assim cativa o público. Percebe-se também a importância de assistir a novela de maior sucesso da Record para saber o que a IURD deseja que seus fiéis pensem sobre si mesmos e sobre os seguidores de outras crenças.

Na televisão já há propaganda da próxima novela intitulada A Terra Prometida que será sobre a conquista de Canaã pelos hebreus, então resta saber quais serão as novas mensagens que a Record passará para os telespectadores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Livros:

CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus: mitologia oriental. 6. ed. São Paulo: Palas Athena, 2008.

O Livro das Religiões. [tradução: Bruno Alexander]. São Paulo: Globo Livros, 2014.

SARAMAGO, José. Caim. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

TORÁ: a Lei de Moisés. São Paulo: Sêfer, 2001.

Sites:

Os Dez Mandamentos. Disponível em: <https://www.netflix.com/>

Bíblia online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>

Página oficial da novela Os Dez Mandamentos. Disponível em: http://entretenimento.r7.com/os-dez-mandamentos


[1] Gn 32:28.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 12 jul 2016 @ 02 20 PM

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AS CONTRIBUIÇÕES DAS OBRAS DE NORBERT ELIAS PARA ESTUDO DA SOCIEDADE MODERNA

*Bianca Cruz dos Anjos

RESUMO

Este artigo foi solicitado pelo professor Severino Vicente para a disciplina A Idade Moderna e O Processo Civilizador (Uma Leitura de Norbert Elias) e visa discutir as contribuições das obras de Norbert Elias para compreender a forma como as transformações sociais ocorrem ao longo da evolução humana, quais são os fatores internos e externos que constituem as relações entre o indivíduo e a esfera coletiva. Embora, as obras desse autor descrevam o processo de formação da sociedade moderna, observa-se que suas concepções transpõem a temporalidade que se aplica no seu estudo, os conceitos e ideias trabalhadas podem ser analisados na contemporaneidade, isso nos faz refletir a respeito de nossos próprios hábitos e costumes. Desse modo, as obras de Norbert Elias ressaltam que não há um projeto civilizador em cada nação, mas os atos singulares de cada indivíduo se somam a outras ações, resultando em uma rede relações, na qual se fazem presente os fatores psicológicos e sociais na construção da interindependência social.

PALAVRAS-CHAVE: Civilização, Comportamento, Norbert Elias, Psicogênese, Sociogênese.

INTRODUÇÃO

As obras de Norbert Elias apresentam como um material denso e rico que permite o surgimento de novas perspectivas e indagações acerca do processo e formação da sociedade ao longo da evolução humana, imprescindíveis para o conhecimento histórico e para concatenação de inúmeras reflexões acerca da sociedade em diferentes temporalidades.

Os aportes teóricos e metodológicos adotados pelo autor mostram a amplitude de fontes utilizadas em seus estudos, como também, ressalta a problematização dos dados colhidos em uma pesquisa, pois um estudo não se faz apenas com números, são pistas para trilhar as indagações acerca de uma concepção, os dados fundamentam e estruturam as ideias. Nessa linha de pensamento, observa-se o uso da interdisciplinaridade como uma ferramenta de amplitude dos horizontes de conhecimentos, não só do autor, como do leitor, o trabalho com abordagens Psicológicas sobre o desenvolvimento da civilização nos mostra que, embora pareça que os seres humanos sejam civilizados por natureza, nós possuímos uma disposição natural para nos adaptar, transformar e construir ao ambiente ao nosso redor, sobretudo, nossas relações em sociedade, de acordo com as circunstâncias externas e internas, logo, percebemos que a evolução humana trilhou o caminho da auto regulação individual de instintos do comportamento, frente às relações coletivas, o resultado disso será a interindependência social trabalhada pelo autor em suas obras, a sociedade é uma construção de laços coletivos, mas que se originam da singularidade de cada individuo na tentativa de construir um ambiente no qual todos exerçam uma função e siga determinadas regras de civilização.

Norbert Elias nos mostra que uma sociedade embora possua suas singularidades históricas e culturais, ela é fruto de uma rede relações com outras sociedades, além disso, a sua proposta de observar os processos de desenvolvimento e transformações sociais sob o ângulo da longa duração corrobora o fato de que não há rupturas bruscas no tempo, os valores e os hábitos não surgem e acabam do nada, a sociedade demonstra uma frenética dinâmica, mas a consolidação de valores e costumes é trilhada gradualmente sem que a gente perceba.

Dessa maneira, o conceito e o significado da palavra “civilização” não pressupõe sociedades modelos, com destinos sociais uniformes, com mentalidades comuns e específicas a um determinado período da história humana, Norbert Elias discute abertamente em suas obras que a sociedade se constrói na heterogeneidade de crenças e costumes, posto isso, a civilização se forma em termo de identidade, pertencimento a grupos ou a situações sociais concretas.

Dados biográficos

Norbert Elias nasceu em Breslau, 22 de junho de 1897, e veio a falecer em 1990, nos Países Baixos, onde passou a fase final da sua vida. Por ser de família judaica teve que fugir da Alemanha nazista exilando-se em 1933 na França, se estabeleceu na Inglaterra onde passou grande parte de sua carreira.

Quanto à vida acadêmica de Norbert Elias, posso dizer que foi árdua e preenchida de obstáculos, pois seus trabalhos foram reconhecidos tardiamente, para explicar esse fato irei utilizar as circunstâncias sociais da época e o pensamento teórico e científico vigente na sua época. Seus trabalhos em alemão tardaram a ser reconhecidos e sofreram muitas críticas. Sua formação teve base nas áreas da Medicina, Filosofia, Psicologia e Sociologia, lecionou na Universidade de Heidelberg (1924-29) e na Universidade de Frankfurt (1939-33), onde teve Karl Mannheim por colega, mas foi na Universidade de Leiocester (1954-1962) que obteve seu primeiro posto de professor, ganhou também o Prêmio Adorno e se tornou doutor honoris causa da Universidade de Bielefeld.

Em linhas gerais, suas obras focam a relação entre poder, comportamento, emoção e conhecimento na História. Devido a circunstâncias históricas, Elias permaneceu durante um longo período como um autor à margem das regras epistemológicas de diversas ciências, tendo sido redescoberto por uma nova geração de teóricos nos anos 70, quando se tornou um dos mais influentes sociólogos de todos os tempos.

Reflexões sobre as obras de Norbert Elias vistas em sala

Quando nos indagamos à respeito da questão do termo civilização e seu significado[1], levamos em conta o caráter ocidental, isto é, uma sociedade permeada pelo avanço da tecnologia, desenvolvimento científicos, as ideias religiosas e os tipos de costumes. É muito comum analisarmos a cultura e os processos políticos que regem outras sociedades através de um ângulo europeu, encontramos isso no nosso cotidiano quando nos referimos  aos conceitos, “sociedade oriental”  e “sociedade oriental” essa ideia não deve ser pensada pela dualidade geográfica e histórica, pois devemos analisar também os aspectos psicológicos e funcionais que cada grupo social constrói, nesse bojo de observações críticas à respeito das divisões e funções sociais de cada grupo conseguimos adentrar nos primeiros princípios adotados por Norbert Elias para se estudar as sociedades européias, são eles: a Psicogênese e a Sociogênese, que se somam a demais aspectos encontrados no processo de civilização, como a importância da cultura para formação de uma identidade, o uso do poder proveniente do acúmulo de bens ou até mesmo de conhecimento, são fatores relevantes na construção da postura de grupo, discutindo também sobre o autocontrole delineado por funções conscientes e inconscientes na evolução humana.

Diante da explanação desses aspectos que permeiam as principais concepções de Norbert Elias, considero fundamental analisar a civilização como um processo, isso dá nome a uma das obras do autor estudado, O Processo Civilizador, uma obra com teor extremamente interdisciplinar que conjuga abordagens que podem ser utilizadas para as observações da sociedade contemporânea, isso mostra o quanto o autor é importante para ser estudado em disciplinas que visam entender como uma sociedade se articula, como e quais são as regras seguidas pelos indivíduos, o que permeou as expressões e experiências sociais que originam uma nação.

Essa obra contém profundas reflexões acerca da construção da sociedade, definindo o conceito “civilização”, Elias procura desvendar e investigar a formação de cada regra de conduta e comportamento dos grupos sociais, nesse panorama de pesquisa o autor vai aplicar seus métodos, um deles é o estudo particular de um caso, por meio da visão microssocial do fato, ele vai trilhar os meandros sociológicos, notificando os aspectos culturais, até chegar a uma totalidade, ou seja, uma visão macrossocial  formada por cada ponto particular do seu estudo, resultando em um novelo de conhecimentos e acontecimentos que se relacionam entre si.

Somado ao uso da longa duração para compreender a construção da sociedade, há a demarcação do tempo e do espaço, o autor tem um faro de historiador, pois problematiza e concatena os acontecimentos para uma melhor compreensão do leitor, deixando claro que a individualização não se isola do contexto coletivo, na verdade, Elias acredita na ideia de interindependência entre as relações sociais, como um fator primordial para o processo de civilização. Dessa maneira, analisando o método elisiano, a Sociologia trabalha com modelos de sociedade, procurando compreender melhor a dinâmica social, isso não implica dizer que não há transformações na ordem e na estrutura do desenvolvimento de cada sociedade, ela não está em repouso, mesmo  sob a perspectiva do tempo da longa duração.

Elias fez uso da Psicologia e da História, como ferramentas teóricas na sua concepção de enxergar as sociedades e os fenômenos sociais que estudou, pontos marcantes dessa interdisciplinaridade podem ser vistas nas entrelinhas de suas obras, como: o fator psicológico envolvido na ação de cada grupo, como se formam e dividem as funções entre si, a distinção entre um grupo dominador e um dominado e os pontos de convergência estabelecidos por acordos entre dois grupos distintos.

A Psicogênese inserida no método elisiano corresponde ao desenvolvimento da sociedade sob uma perspectiva da longa duração, visando compreender a evolução da personalidade humana e as transformações comportamentais, o indivíduo, ao longo da evolução humana, assumiu um autocontrole sob sua vida, orientado por fatores exteriores que são internalizados e levando até a disciplinização, essa regra de conduta, ou seja, a disciplina é um dos pontos que regem a civilidade, o autocontrole se alia também ao uso do poder, seja ele físico ou verbal.

Mas se fosse consciente ou inconsciente, a direção dessa transformação da conduta, sob a forma de uma regulação crescentemente diferenciada de impulsos, era determinada pela direção do processo de diferenciação social, pela progressiva divisão de funções e pelo crescimento de cadeia de interindependência nas quais, direta ou indiretamente cada impulso, cada ação do indivíduo tornavam-se integrados. (ELIAS, 1994. p.196)

A civilidade carrega consigo a disciplina e o processo de individualização frente a imposição de regras elaboradas por certo grupo social, esses dois aspectos estavam presentes na educação de Mozart, como vemos na obra Mozart,  Sociologia de um Gênio, essa produção traz consigo vários pontos abordados nas outras obras do autor, como a questão da etiqueta, comportamentos estabelecidos por um certo grupo, exclusão e reconhecimento de um indivíduo na sociedade e adaptação do indivíduo as convenções sociais, para que ele possa adentrar em algum grupo social. Ao longo da descrição biográfica de Mozart, Elias nos permite observar a dinâmica social de um grupo ao partir de indivíduo, contudo sem isolá-lo, tornando-o como uma figura única nos desdobramentos dos fenômenos, ressaltando como  Mozart se torna o produto das dependências entre os indivíduos que constituem uma sociedade, além disso, nos faz enxergar a importância de cada âmbito social no qual o indivíduo se insere, pois é nesse espaço que as pessoa constroem suas vidas, significados pessoais e coletivos.

A música, como já se disse, não existia primariamente para expressar ou evocar os sentimentos pessoais, as tristezas e as alegrias das pessoas individualmente. Sua função primária era agradar aos senhores e senhoras elegantes da classe dominante. O que não quer dizer que nela não estivessem presentes as qualidades a que nos referimos com termos como “seriedade” ou “profundidade”, mas, simplesmente, que ela tinha de se adaptar ao modo de vida dos grupos estabelecidos. (ELIAS, 1995, p.89)

A vida de Mozart ilustra nitidamente a situação de grupos burgueses, considerados outsiders em uma sociedade regida pelas ordens aristocratas, presentes na corte, uma época em que o equilíbrio de forças ainda era muito favorável a figura cortesã, mas não a ponto de consolidar todas as expressões de subversão as estruturas sociais consolidadas por esse grupo dominante, mas esses aspectos de se livrar das amarras aristocratas, poderiam ser vistas timidamente na esfera cultural. Como um burguês outsider a serviço da corte, Mozart lutou com uma coragem espantosa para se libertar dos aristocratas, seus patronos e senhores. Fez isto com seus próprios recursos, em prol de sua dignidade pessoal e de sua obra musical, mas acabou sofrendo com a decisão tomada, é nessa perspectiva que se centra a obra, mostrando o quanto a individualização sofre as interferências dos interesses coletivos, libertar-se das ordens de um grupo social em busca da realização pessoal, era muito mais complicado na época de Mozart, já que a escolha de se estabelecer como artista autônomo ocorreu numa época em que a estrutura social ainda não oferecia tal lugar para músicos ilustres.

A maior parte das pessoas que seguiam uma carreira musical não era de origem nobre e se quisessem ter sucesso na sociedade de corte, e encontrar oportunidade para desenvolver seus talentos como músicos ou compositores eram obrigados, por sua posição inferior, adotar os padrões cortesãos de comportamento e de sentimento, não apenas nos gosto musical, mas no vestuário e em toda a sua caracterização enquanto pessoas. Não havia, portanto, apenas uma nobreza de corte, mas também uma burguesia de corte é nesse cenário que Norbert Elias trabalha as maneiras pelas quais um indivíduo poderia sobressair as regras impostas por certos grupos sociais e quais as estratégias destes para submeter esses indivíduos inferiorizados.

Permanecendo nessa linha de pensamento sobre as relações sociais, nas quais o poder sempre se faz presente, ressalto que o poder, muitas vezes, é manipulado por certo grupo, e as principais estratégias do uso desse poder se relacionam com condicionantes psicológicos e sociológicos, como podemos observar na obra Os Estabelecidos e Outsiders que descreve e reflete sobre as condições sociais de dois grupos instalados em Winston Parva, Londres, os dois grupos pertenciam mesma classe social, eram operários e não se diferenciavam nem por cor e questão econômica, mas havia uma divisão entre eles, então qual o motivo da divisão social entre indivíduos que aparentemente viviam a mesma realidade ? A tradição se mostrou um como um elemento primordial para instalar essa distinção entre indivíduos que convivem em um mesmo ambiente, tornando-se um instrumento de poder, a tradição e os costumes dos grupos mais antigos não se articulavam com os moradores novatos que chegavam na área, de acordo com Elias, os estabelecidos são  considerados grupos com um caráter mais homogêneo e que apresentavam interesses em comum, como também possuem inúmeras maneiras de fazer uso do seu poder diante dos outsiders, que são definidos como aqueles indivíduos que não conseguem adentrar em certo grupo social, por não atender as regras impostas por tal grupo.

Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da “boa sociedade”, os que estão fora dela. Trata-se de um conjunto heterogêneo e difuso de pessoas unidas por laços sociais menos intensos do que aqueles que unem os eslablished. A identidade social destes últimos é a de um grupo. Eles possuem um substantivo abstrato que os define como um coletivo: são o establishment. Os outsiders, ao contrário, existem sempre no plural, não constituindo propriamente um grupo social.

(NEIBURG, 2000, p.7)

Nesse caso de Winston Parva, o panorama cultural e social visto por Elias em sua pesquisa de campo, um dos métodos da Sociologia, nos mostra de perto e de maneira direta como a sociedade se comporta diante de algumas circunstâncias, pois se percebe que a comunidade de Winston Parva mantém suas interconexões e interdependências na medida em que a força da tradição prevalece, isto é, quanto mais antigo fosse o grupo instalado mais privilégios ele teria.

Embora, a Sociologia esteja sob os pilares da pesquisa estatística, Norbert Elias não descreve apenas fatos e números, a estatística não suplanta as características qualitativas, isto é, a análise dos interesses e das ações tomadas por cada grupo, que formam a sociedade. Elias descreve que a noção de antigo e novo transita no encadeamento de fenômenos sociais presentes em Winston Parva e isso afeta diretamente o modo pela qual cada grupo vai e comportar diante do outro.

O papel desempenhado neste estudo pela “antigüidade” e “novidade” relativas dos bairros é um exemplo disso. Ele deixa claro que os fenômenos examinados tinham uma dimensão histórica e que a descoberta de índices quantitativos, mesmo que se incluísse o “tempo de residência”, não seria suficiente para dar acesso às diferenças configurativas, estruturais, a que se referiam os rótulos de “antigo” e “novo”. (ELIAS, 2000, p.59)

Diante desses questionamentos, Elias transgrede o próprio campo de formação, a Sociologia, e adentra na História, observa-se que a linha que divide as duas ciências se apaga, para entrar em cena a interdisciplinaridade, integrando-se aos aportes teóricos-metodológicos da História, o autor situa no tempo e no espaço os fenômenos concernentes a Winston Parva, para descrever o bairro operário, ele faz uso de uma retrospectiva histórica para delinear os principais desdobramentos dos dois grupos que lá viviam, desse modo, Elias procura refletir sobre as principais estratégias de interiorização da imagem que cada grupo faz de si, já que o grupo dominante não faz uso da violência e da força para subjugar o grupo inferiorizado, o uso do poder se mantém intrínseco aos costumes e as tradições presentes no cotidiano do bairro, além disso,fica claro a relação de interindependência entre os dois grupos, porque quem tinha uma visão externa da comunidade acreditava que ela era homogênea, mas não era, a percepção de quem vivia no bairro era outra.

Nessa linha de pensamento, a pesquisa de Elias e John Scotson nos mostrou que nenhuma comunidade é tão integrada ao ponto de haver uma equidade total, mesmo sendo uma pesquisa local, podemos levar os questionamentos para uma esfera macrossocial, trazendo para nossa realidade, como disse o professor em sua aula  alunos de uma mesma sala em uma universidade pertencem a uma mesma realidade naquele espaço que se constitui o seu cotidiano de estudo, mas fora da instituição de estudo,eles são diferentes entre si, ou pela classe social ou pelos interesses políticos,todos os aspectos que formam a sociedade são delineadores das disparidades entre grupos sociais.

Os Estabelecidos e Outsiders pode até ser um reflexo da vida de Norbert Elias, mas, os conceitos presentes em suas obras não se limitam a descrever a sociedade do seu tempo, suas reflexões transitam em diferentes temporalidades, é esse um dos pontos mais importantes da leitura de suas obras. Os questionamentos e descrições encontrados nessa obra, nos mostram como nossa sociedade está em movimento e o quanto somos presos a uma só explicação para os fenômenos, a interdisciplinaridade de Norbert Elias demonstra que a historia de uma nação não é unívoca, devemos estar atentos as raízes históricas e os processos de formação da sociedade. Winston Parva traz em seu bojo social as atualidades do nosso cotidiano, como a superioridade de um grupo se consolida, onde o reconhecimento e a exclusão não se constroem apenas pelo uso da força, os fatores psicológicos são fundamentais para essa lógica de poder entre dominadores e subordinados, nenhum grupo social se subordina facilmente, o grupo deve se sentir em uma condição de inferioridade e estigma, pois, se não houvesse essa condição de “aceitação de imagem” sempre haveria conflitos permanentes em uma sociedade.

A concepção de ser civilizado sempre esteve muito presa à noção ocidentalizada de ver os comportamentos do indivíduo, logo, para ser um indivíduo civilizado era necessário seguir os padrões europeus determinados pelas nações mais desenvolvidas, esse desenvolvimento era referente, sobretudo, aos aspectos políticos e intelectuais, não é por acaso que a França por muitos anos foi a nação modelo para as expectativas dos outros países, exemplo disso está formação das classes sociais na Alemanha no século XVIII, é óbvio que outros fatores acentuaram a demora pela formação de uma identidade nacional entre os alemães, e na busca pela construção de uma cultura própria, seguindo, muitas vezes, os aspecto intelectuais difundidos pela França.

Norbert Elias discorre sobre os contrastes entre as classes sociais, como também, menciona as atitudes da corte para com a classe media em ascensão. O termo que mais se aplica a essa situação é o conceito intelligentsia, que se refere às realizações intelectuais e artísticas, no entanto havia um estrato social que embora tivesse poder, não costuma “realizar” nada, e dependia de uma classe inferior que tinha muitos dotes intelectuais. Comparando muitas estruturas sociais da Alemanha com a França e Inglaterra, podemos perceber que de início não havia um valorização da cultura alemã, devido à fragmentação territorial que resultava na existência de vários dialetos, considerados semibárbaros, a língua francesa era padrão para o uso do corte, pois transparecia algo mais “civilizado”. Isso também acarretava contrastes sociais, pois as tarefas que eram realizadas pela classe média na Alemanha, quem realizava na França eram os aristocratas, desse modo, percebemos que quem vai criar uma esfera intelectual na Alemanha é a classe média.

Se o indivíduo fala alemão, é considerado de bom tom incluir tantas palavras francesas quanto possível. (ELIAS, 1994, p.30)

Atualmente, em pequenos detalhes do nosso cotidiano podemos observar reminiscências da influência européia para a construção da civilidade brasileira, isso se verifica na historia da indumentária e da moda desde a colônia ate o Império, a roupa era um elemento de distinção social, cada tipo de roupa exigia certas regras de etiqueta, comportamentos orientados pelos costumes europeus, de origem francesa e inglesa que se faziam presente no Brasil desde o uso do chapéu ate a forma do penteado das senhoritas.

Foi importado para o Brasil o sistema europeu em que se estabeleciam regras rígidas de como cada grupo social se apresentar em publico. Naquele continente, a alta e a pequena nobreza, o clero, os negociantes, os cortesãos, os trabalhadores braçais, as prostitutas, os servos, os judeus, todos tinham obrigações e restrições quanto ao uso de determinados tecidos e outros pequenos luxos. É interessante observar não apenas a moda da aristocracia, mas, sobretudo, os esforços da população em geral em imitar poderosos. O estudo da indumentária também pode nos ensinar muito sobre as relações sociais e raciais desde os primeiros tempos de colonização. (RASPANTI, 2011, p.185)

Considerações finais

Anteriormente a esta disciplina não tinha lido nenhuma obra de Norbert Elias, e a disciplina atendeu justamente minhas perspectivas, que eram: conhecer o autor, visando compreender seus métodos de pesquisa, se era possível aplicar suas teorias na realidade, sua importância para os meus estudos e como profissional na área de pesquisa em História.

Sendo assim, achei enriquecedor os debates em sala de aula, pois mostraram o quanto as obras e as concepções de Norbert Elias se aproximam da nossa realidade, mesmo que ele fosse um homem do seu tempo e procurasse entender a sociedade moderna. São as indagações do presente que se voltam para o passado, as épocas passadas se refletem no nosso cotidiano, as suas obras nos permitem compreender a importância da História, como também, da Sociologia e Psicologia como ferramentas teóricas para investigar os fenômenos sociais inseridos em uma rede dinâmica de relações pessoais e coletivas.

Recomendo a todo estudante e profissional das Ciências Humanas a ler as obras de Norbert Elias e ver a dimensão de conhecimentos contidos em suas reflexões e teorias, além de escrever muito bem, o autor problematiza as temáticas relevantes do nosso cotidiano, pois ainda temos costumes e valores frutos da sociedade moderna, observando a construção da civilização e da identidade nacional na Alemanha e na França.

Referências

DEL PRIORE, Mary; AMANTINO, Márcia (Orgs.) História do corpo no Brasil.São Paulo: Ed. UNESP, 2011.

ELIAS, N. O processo civilizador: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1994, v I e II.

ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

ELIAS, Norbert; e SCOTSON, John. L.; Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.


* ANJOS, B. C. Graduanda em História-Bacharelado pela Universidade Federal de Pernambuco.

[1] Na sua obra O processo Civilizador, volume 1, Norbert Elias procura refletir sobre o conceito e significados dados ao termo civilização.

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Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Thayana de Oliveira Santos

O RECIFE SANGRENTO”:

Sociabilidade e violência na Capital pernambucana

Recife

2012

O RECIFE SANGRENTO”:

Sociabilidade e violência na Capital pernambucana

Thayana de Oliveira Santos[1]

Resumo:

O Recife do século XX, inserido em um contexto maior, onde dialoga com as mudanças ocorridas em Pernambuco durante o mesmo período, foi o ponto de discussão muito importante ao longo da disciplina. A discussão sobre a capital pernambucana, inserida em um contexto amplo, seja ele cultural, político, econômico e social, nos possibilitou uma leitura ampliada e sob diversos pontos de vista. Neste trabalho, procuraremos discorrer nossas análises sobre o Recife e seus pólos de sociabilidade, bem como sobre a violência na cidade.

De acordo com Raimundo Arrais, já durante o século XIX estava indicado o delineamento espacial que tomou forma o espaço urbano do Recife durante o século XX. Em tal delineamento, as divisões das classes sociais eram reproduzidas no espaço, sendo assim, a geografia do espaço é entendida como a materialização das relações sociais. Logo, as áreas habitadas do Recife deixavam transparecer seu lugar de honra (ou desonra) na cidade. Se aproximando da análise de Arrais, Dênis Bernardes enxerga o Recife como uma cidade polarizada, dividida de tal forma que “vive-se sem conviver”. Para ele a primeira grande divisão dos espaços sociais é representada pela moradia, onde já se apresenta a diferenciação sócio-espacial.

Já Silvia Couceiro, busca mostrar como se dava a sociabilidade no Recife segregado, como as elites se relacionavam com as “classes baixas”. Assim, contrapondo-se a Levine (1975), que afirma que no início do século XX Pernambuco vivia um período de decadência econômica e política, Couceiro (2009) defende que durante a segunda década do século passado a cidade do Recife despontava como um dos mais importantes centros políticos e econômicos do país. Para ela, no auge da influência cultural européia, a cidade que se pretendia moderna e civilizada, tinha nos Cafés, considerados refinados e elegantes, um centro de sociabilidade onde, à noite, as distâncias sociais diminuíam e os rapazes da elite local conviviam “harmonicamente” com a classe baixa e envoltos à prostituição e jogatina. Sobre as prostitutas, Oliveira afirma que estas eram as responsáveis por satisfazer os “instintos naturais” dos jovens das classes mais abastadas. Assim, tais ambientes de prostituição, exerciam “um fascínio sobre a rapaziada de seus 16 a 20 anos”.

Os Cafés, como vimos, podem ser considerados o grande pólo de sociabilidade da capital pernambucana, já que neles, as “figuras respeitáveis” da cidade diminuíam as “distancias sociais” e, sob a sombra da noite, relacionavam-se com os “malandros” e prostitutas, considerados à margem da sociedade de então.

Entretanto tais ambientes, por diversas vezes, eram palco de ocorrências policiais, seja em virtude do consumo dos considerados “tóxicos chic”, onde as prostitutas quase sempre eram as responsabilizadas pela entrada dos moços no “mundo do vício”; seja por serem locais para realização de crimes passionais, de que nos fala Filgueira (2008). Porém, de acordo com a autora, “os escândalos duravam até o sol raiar. Ao amanhecer, a vida da cidade ia, aos poucos, voltando à rotina do trabalho”. E as distâncias sociais eram restabelecidas.

Outra forma de “aproveitar” a noite na cidade é apresentada por Filgueira (2008). Este autor, ao estudar os crimes passionais no Recife na década de 20 do século passado, enxerga a criminalidade não apenas como um desvio de conduta, mas busca no estudo os valores sociais correntes entre a população. Logo, fica claro que, dependendo de quem cometia o crime, não havia punição por parte da justiça, ademais, a justiça transformava o crime em um instrumento pedagógico, expondo, através da punição, o que esperava da conduta dos cidadãos.

Embora Filgueira (2008) não justifique a violência tendo como base a divisão das classes, seja do ponto de vista meramente econômico, seja do ponto de vista do “delineamento espacial”, como faz Arrais (2004) ao defender que o espaço geográfico é a materialização das relações sociais, o seu estudo mostra outro aspecto da noite na capital, onde 64,7% dos crimes passionais estudados eram cometidos durante a noite.

Ao ter a oportunidade de trabalhar com a documentação referente aos Prontuários individuais dos detentos da Casa de Detenção do Recife, que integram o Fundo CDR, sob a guarda do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (APEJE), pude observar a violência no “Recife sangrento”, de que fala Levine (1975), durante o século XX. Este autor chama a atenção para os serviços da milícia, bem como da polícia urbana, utilizadas pelas máquinas políticas para impor sua dominação e dos capangas contratados pelos líderes oposicionistas. De acordo com ele, “a história de Pernambuco foi tão violenta durante a República que a sua capital mereceu o nome de ‘Recife sangrento’ por volta de 1911.

Assim, identifiquei, na documentação do APEJE, aspectos da violência atestada por Levine e Filgueira. São muito freqüentes os crimes de lesão corporal e homicídio. Há, também, casos de “crime de honra”. A documentação nos revela, ainda, a possibilidade de tratamento diferenciado entre presos com melhores condições econômicas e os em situação “precária”, como constam nos prontuários. Pois, o pequeno número de “abastados” presos, em geral, permaneceu pouco tempo na prisão, sendo favorecido por pagamento de fiança ou habeas corpus. Tal situação converge com a análise de Filgueira (2008), ao afirmar que

“para os julgadores, o tratamento que se dava ao crime pode ser um indício do que se desejava em relação a certos comportamentos. Como por exemplo, dependendo de quem cometesse o crime, fica claro – de acordo com a historiografia consultada – que muitas vezes não havia a punição por parte da justiça”.[2]

O que, para este autor, caracteriza-se como “conivência do aparelho repressivo em relação a esses crimes em certas circunstâncias”.

Ainda sobre a “geografia social”, Bernardes chama atenção para a implementação do poder nos espaços urbanos da capital pernambucana. Segundo este autor, “a cada momento da história da capital e das classes sociais, corresponde um momento da fisionomia urbana nas suas mais variadas e complexas manifestações”. Assim, a imponente construção que servia de presídio, funcionando no centro da cidade, servia para advertir os ‘de fora’. Tento iniciado suas atividade em 1855, a Casa de Detenção do Recife inaugura uma “nova fase da história prisional da capital pernambucana, fase marcada pelo discurso correcional, que estava ligado è necessidade de novos aparatos de controle social”[3]. Tal necessidade continuou vigorando durante a República, até o encerramento das funções prisionais da CDR, em 1973. Ao ser fechada, a Casa de Detenção transformou-se em “Casa da Cultura”, para Bernardes, “esse é sem dúvida um exemplo de significativa mudança”, na geografia social da cidade.

A Instituição se propunha a aplicar penas correcionais, de prisão com trabalho, “objetivando a correção moral do criminoso e sua conseqüente devolução ao convívio social”, como destaca SÁ NETO (In: MAIA et. al. 2009, p. 76). Contudo, ao analisarmos a documentação percebemos um ambiente de grande tensão, com registros de brigas, assassinatos e suicídios entre as grades da C.D.R, o que evidência que a violência na cidade não se anulava nos espaços onde os mesmo deviam ser “corrigidos” e os seu praticantes devolvidos à sociedade de forma a conviver em um ambiente de mais “harmonia” social.

Refletindo sobre as concepções dos autores, concluo que a harmonia nas relações entre as classes, defendida por Couceiro (2009), que durante a noite esquecia a rígida separação proclamada pelas elites econômicas e aproximava seus habitantes, na verdade era mais um momento de subserviência de uma classe para com a outra, disposta a prestar todo tipo de serviço, desde o sexual ao acesso às drogas. Ademais, a violência de que trata Filgueira e Levine, serve para concluir que a “boêmica e harmoniosa” noite recifense, não era partilhada por todos os cidadãos.

Ademais, as divisões das classes sociais, eram reproduzidas no território, como afirma Arrais, e apesar de conviverem juntas, durante à noite, nos mesmos espaços, os espaços urbanos não foram alterados e continuaram evidenciando o prestígio, ou não, na ocupação dos territórios. Assim, o Recife dos pobres, continuou a ser uma cidade dentro de outra.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

ARRAIS, Raimundo. O pântano e o riacho: a formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2004.

BERNARDES, Dênis. Recife: o caranguejo e o viaduto. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 1996.

COUCEIRO, Sylvia Costa. Recife brilha à noite. Artigos, Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/recife-brilha-a-noite. Acesso em: 20/03/2012.

FILGUEIRA, Carlos Eduardo de Albuquerque. Crimes passionais no Recife na década de vinte: cortes e regularidades. Documentação e Memória. TJ/PE, v. 1, n. 1. 2008.

LEVINE, Robert. Pernambuco e a Federação Brasileira, 1889-1937. In: FAUSTO, Boris. (org.) História Geral da Civilização Brasileira. 2ª Edição. São Paulo: Difel, 1977. Tomo III, 1º vol., p. 122-151.

MAIA, Clarissa Nunes [el al.] (Org.). História das Prisões no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, vol. 2

OLIVEIRA, Reinaldo de. A Zona. Artigo publicado na página virtual do Jornal Folha de Pernambuco. Recife, 2012. Disponível em: http://www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/edicaoimpressa/arquivos/2012/09/19_09_2012/0076.html. Acessado em 19 de setembro de 2012.

SILVA, Severino Vicente da História de Pernambuco Contemporâneo. Recife, 2011.


[1] Trabalho apresentado à disciplina “História de Pernambuco 2”, do Curso de Bacharelado em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ministrada pelo Professor Dr. Severino Vicente da Silva, como um dos requisitos básicos para cumprir o componente curricular obrigatório da referida disciplina, no semestre letivo de 2012.1.

[2] FILGUEIRA, Carlos Eduardo de Albuquerque. Crimes passionais no Recife na década de vinte: cortes e regularidades. Documentação e Memória. TJ/PE, v. 1, n. 1. 2008, p. 37.

[3] SÁ NETO, Flávio de. In: MAIA et. al. 2009, p. 76.

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 13 out 2012 @ 7:53 AM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CURSO DE HISTÓRIA

Deíllio Moreira da Silva Souza

Norbert Elias em: A sociedade dos indivíduos

Prof. : Severino Vicente da Silva.

Disciplina: Idade Moderna e o Processo Civilizador.

Recife, 2012.

Norbert Elias em: A sociedade dos indivíduos[1]

Deíllio Moreira da Silva Souza[2]

Resumo

No texto Sociedade dos Indivíduos, Norbert Elias se propõe a resolver uma questão que começou a ser pensada durante a escrita de O Processo Civilizador. Trata-se da definição de indivíduo e de sociedade, de como se procede a relação entre os dois e, principalmente, do fato que um não pode existir sem o outro. Do ser individual procede a sociedade que por sua vez molda o indivíduo por meio das diversas regras de comportamento mediadas pela vergonha e pelo constrangimento. Para Elias, portanto, individuo e sociedade não podem ser compreendidos como simples opostos e “libertar o pensamento da compulsão de compreender os dois termos dessa maneira é um dos objetivos deste livro.”

Abstract

In the text Society of Individuals, Norbert Elias proposes to solve an issue that began to be thought of during the writing of The Civilizing Process. This is the definition of individual and society, as is done the relationship between the two, and especially the fact that one can not exist without the other. Individual shall be the society which in turn shapes the individual through the various rules of behavior mediated by shame and embarrassment. For Elias, therefore, individual and society can not be understood as mere opposites and “free thought compulsion to understand the two terms in this way is one of the goals of this book.”

Publicado originalmente sob o titulo Die esellschaft der Individuen na Alemanha no ano de 1987, o livro A Sociedade dos Indivíduos na verdade é uma compilação de três ensaios escritos por Norbert Elias em diferentes épocas de sua vida. Contudo, aqui, irá nos interessar o primeiro deles, cujo título é emprestado à obra acima citada, com o intuito de analisarmos as teorias apresentadas por Norbert Elias a respeito dos aspectos que envolvem a conceituação de indivíduo e sociedade. Inicialmente é bastante comum a compreensão de que, de uma forma geral, todo indivíduo que vive em sociedade é capaz de conceituar estes termos. Contudo, qual o significado real de sociedade? Como ela se estrutura? E de onde surgiu? Ou ainda, como as pessoas a percebem em seu viver diário e o qual quais as implicações para a vida cotidiana? Neste pequeno ensaio, Elias pretende clarear nossa compreensão a respeito das diversas respostas a estas perguntas, apontando soluções às contradições decorrentes da tentativa frustrada do homem em explicar o mundo à sua volta como se não fosse parte do mesmo. Ademais, o texto em questão foi escrito em 1939 e teria sido fruto das reflexões geradas durante a escrita de O Processo Civilizador, no qual, o autor intencionava inserir a discussão sobre a problemática conceitual a respeito da construção de individuo e sociedade, no entanto, e nas palavras do autor: “O livro sobre a civilização, de qualquer modo, já estava bastante longo. Assim, tratei de concluí-lo, retirando dele as partes em que tentava esclarecer a relação entre sociedade e indivíduo”.

Genericamente, pode-se conceber a sociedade como a junção de um grupo de indivíduos que, de certa forma, se relacionam entre si. Contudo, a priori, Norbert Elias nos aponta para o fato irrefutável de que as sociedades, assim como os indivíduos se diferem entre si no tempo e no espaço. Em outras palavras, as sociedades e os indivíduos orientais são sobremodo diferentes dos ocidentais, por exemplo, nas suas mais variadas formas e em todas as épocas nas quais existiram. A exemplo disso ainda poderíamos dizer que o Brasil atual é sobremaneira diferente do Brasil imperial ou mesmo do período inicial da república. Essa diferença, sobretudo temporal, acontece porque as sociedades e, principalmente, os indivíduos tem uma característica peculiar, que os distingue dos demais grupos animais, trata-se da maleabilidade, da capacidade de adaptação às várias mudanças de seu habitat provocadas pelos mais diversos fatores. E ainda, no que diz respeito à diferenciação dos indivíduos humanos dos outros grupos animais, o fato de que nos primeiros esta mobilidade é psicológica; é consciente e voluntária, externada no modo como o indivíduo humano é capaz de, ele próprio, controlar seus instintos pelo anseio do bem viver social.

A partir da perspectiva exposta acima, é possível ampliar um pouco mais a nossa compreensão a sobre a problemática proposta. Começa-se a constatar um entrelaçamento entre os termos que, de uma forma inexoravelmente cíclica, como num anel infinito, sociedade e indivíduo partem um do outro por meio de uma reciprocidade em que ambos se afetam. Já é possível apontar a concepção de sociedade como sendo o resultado das decisões de indivíduos – do autocontrole, por exemplo – cujo objetivo é o pertencimento social. Isto se deve ao fato de que para Norbert Elias a sociedade é uma sociedade de indivíduos, contudo estes mesmos indivíduos são fortemente modelados por esta mesma sociedade. Surge aqui uma questão nevrálgica à concepção de Elias, trata-se da indissociação entre indivíduo e sociedade na formação social, admitindo que não existe um abismo entre o entre os dois, como se propõem algumas teorias. “Ninguém duvida de que os indivíduos formam a sociedade ou de que toda sociedade é uma sociedade de indivíduos”. Aqui, há uma forte crítica a uma tendência da psicologia da época de estudar o ser humano de forma isolada e não coalescente ao todo social. É possível que essa crítica seja direcionada, mesmo que indiretamente, ao beheviorismo, que se propunha a estudar o comportamento humano levando em conta apenas o quantificável, ignorando assim a subjetividade do pensamento humano e principalmente as redes de relações a que este indivíduo estava submetido, este ultimo deveras importante na concepção de Elias. Sobre esta crítica à psicologia ainda nos fala Philippe Salvadori[3]:

Partindo de casos individuais e remetendo a supostas invariantes psíquicas, a psicanálise não propunha modelo diretamente operatório para pensar a longa duração e as agregações sociais. Ao contrário, Elias oferecia de imediato um laço dinâmico entre o processo histórico e configurações sociais que de passagem pretendia explicar a formação psicológica dos indivíduos. (SALES, 2011)

O lado oposto a esta ação de individualização do humano, e não menos criticado por Elias, configura-se numa psicologia social na qual a sociedade é vista não mais que uma somatória de indivíduos e portando deve ser pensada como um todo e não em suas individualidades, “a sociedade se afigura, nesse caso, simplesmente como uma acumulação aditiva de muitos indivíduos”.

A despeito destas teorias, para Elias é preciso romper com essa forma compartimentada de se pensar; e ter em mente que só é possível compreender indivíduo e sociedade com um olhar no todo social. Neste ponto a teoria da Gestalt é louvada por Elias por nos ensinar, primeiramente, “que o todo é diferente da soma de suas partes, que ele incorpora leis de um tipo especial, as quais não podem ser elucidadas pelo exame de seus elementos isolados”. A ideia central da teoria consta que “a estrutura organizadora do todo não se reduz (mas transcende) à coleção ou soma das partes desse todo”. (MAMEDE-NEVES, )  Ainda mais importante que isso, na teoria gestáltica “as partes componentes do todo são definidas pelas relações que mantêm com o sistema a que pertencem”. (IDEM) Eis aqui uma palavra definidora nas reflexões de Norbert Elias: RELAÇÕES. A sociedade no olhar de Elias é o resultado da soma não do quantitativo dos indivíduos, mas das relações que eles mantém entre si. E são estas relações que provocam as mudanças temporais e espaciais na sociedade. Para o autor o que nos falta na realidade são exemplos práticos para a compreensão dessa relação. Elias então evoca uma alegoria de Aristóteles sobre a construção da casa:

Na tentativa de superar uma dificuldade análoga, Aristóteles certa vez apontou um exemplo singelo: a relação entre as pedras e a casa. Esta realmente nos proporciona um modelo simples para mostrar como a junção de muitos elementos individuais forma uma unidade cuja estrutura não pode ser inferida de seus componentes isolados. É que certamente não se pode compreender a estrutura da casa inteira pela contemplação isolada de cada uma das pedras que a compõem. Tampouco se pode compreendê-la pensando na casa como uma unidade somatória, uma acumulação de pedras; (ELIAS, 1994)

Por esta concepção, é importante salientar que as transformações sociais não são fruto da vontade de uma pessoa e muito menos de um grupo delas, por mais articulada que seja. Esta compreensão se faz importante visto que há os que na busca de uma explicação plausível à constituição de suas sociedades, tendem a pensar de forma concreta, a buscar formulas sistematizadas de construção social. E nesta concepção há sempre a busca do responsável, do criador de todas as coisas, do princípio ou base fundante – do Estado, das corporações, das relações, por exemplo. Para Elias, as pessoas que pensam assim “ao serem confrontadas com fenômenos sociais que obviamente não podem ser explicados por esse modelo,… seu pensamento estanca. Param de formular perguntas”.

Outra alternativa para compreensão do problema, consta de um movimento oposto ao anterior, mas não menos contraditório, que exclui a atuação humana da construção social. Por esta razão seu olhar ao problema aproxima-se em muitas das vezes das ciências – sobretudo biológicas, para Elias – e das religiões. Esse modelo aproxima-se da teoria spengleriana, na qual as civilizações passam por ciclos de vida cujo fim é a decadência. A sociedade seria então “concebida, por exemplo, como uma entidade orgânica supra-individual que avança inelutavelmente para a morte, atravessando etapas de juventude, maturidade e velhice”.

Ainda no bojo das respostas generalizadas há ainda os que acreditam que a sociedade na verdade somente existe para promover o bem-estar do indivíduo. Dessa maneira todas as suas instituições sejam elas publicas ou particulares tornam as práticas sociais num meio para aquele fim. Contrapondo-se a isto estão os que pensam que o bem-estar dos indivíduos é menos importante que a manutenção da sociedade na qual o mesmo se insere. Elias nos apresenta uma resposta a esta antinomia que, ao que observa, é teoricamente simples mas aparentemente impraticável:

Ao pensarmos calmamente no assunto, logo se evidencia que as duas coisas só são possíveis juntas: só pode haver uma vida comunitária mais livre de perturbações e tensões se todos os indivíduos dentro dela gozarem de satisfação suficiente; e só pode haver uma existência individual mais satisfatória se a estrutura social pertinente for mais livre de tensão, perturbação e conflito. A dificuldade parece estar em que, nas ordens sociais que se nos apresentam, uma das duas coisas sempre leva a pior. (ELIAS, 1994)

Norbert Elias nos convoca então a uma reflexão imprescindível para responder as questões iniciais deste trabalho. E isto se faz por meio de uma pergunta digna de uma leitura ipses-literis:

Como é possível – esta passa a ser a pergunta – que a existência simultânea de muitas pessoas, sua vida em comum, seus atos recíprocos, a totalidade de suas relações mútuas deem origem a algo que nenhum dos indivíduos, considerado isoladamente, tencionou ou promoveu, algo de que ele faz parte, querendo ou não, uma estrutura de indivíduos interdependentes, uma sociedade? (ELIAS, 1994)

Indubitavelmente, a resposta a esta proposição passa pelas relações sociais isto por que, “uma sociedade não é uma realidade espiritual ou natural, nem uma simples agregação de indivíduos e o resultado de suas ações privadas; ela é essencialmente, o conjunto incessantemente renovável da interdependência entre os indivíduos”. (ANSART, 2005) Entretanto cabe aqui salientar que esta interdependência é, sobretudo, invisível mas perceptível. Evocando aqui a teoria da Gestalt, compreendendo percepção como “a estrutura básica do ato de aprender, entendendo perceber como conhecer para, com base nos dados recolhidos, promover‐se a coordenação da conduta”. (MAMEDE-NEVES,) Assim sendo, o indivíduo é capaz de perceber todas as relações que o cerca, ainda que involuntariamente e mesmo que de forma oculta, sendo provocado a se adaptar a ela como forma de sobrevivência e reconhecimento no meio social. Surge mais uma vez o componente exclusivamente humano de sobrevivência, o autocontrole. Que pode ser pensado como a capacidade do indivíduo de, voluntariamente, recriminar suas pulsões, o que, inevitavelmente, provoca alguns tipos de tensões dentro das relações sociais fruto das “contradições entre os desejos do indivíduo parcialmente controlados pelo inconsciente e as exigências sociais representadas por seu superego”. Dessa forma afigura-se uma concepção a qual não podemos perder de vista, a de que a sociedade “é essencialmente, o conjunto incessantemente renovável da interdependência entre os indivíduos, relações que não cessam de se modificar e evoluir, e que são atravessados por tensões e conflitos que conduzem a desequilíbrios e a formas provisórias de integração”. (ANSART, 2005)

A vida social, portanto, não se constitui num convívio harmonioso entre os seres que a compõem. Pelo contrário, ela é na verdade “repleta de contradições, tensões e explosões. O declínio alterna-se com a ascensão, a guerra com a paz, as crises com os surtos de crescimento. A vida dos seres humanos em comunidade certamente não é harmoniosa”. E no centro dessa desarmonia encontram-se os desejos, sejam eles naturais – como comer, ou se proteger do frio -, sejam não naturais. No que toca aos não naturais estes figuram-se no lócus invisível ao qual cada indivíduo se coloca, como as “pedras da casa” de Aristóteles. Este local de pertencimento nos é apresentado por Norbert Elias a partir do papel, ou função, social pelo qual cada sujeito humano participa e promove as diversas relações dentro da dita sociedade. Elias a então nos apresenta um conceito que ela julga capaz de sustentar exemplarmente o exposto, para o autor as pessoas ligam-se umas às outras num tipo de “fenômeno reticular”, uma rede de relações à qual, inexoravelmente, não consegue fugir. De uma forma particular, no entanto, na concepção de Elias, no que se relaciona aos indivíduos humanos, estas relações são marcadas por sua capacidade única de mobilidade, de criar teias em outras extremidades do sistema por meio ta transição do indivíduo nesta rede social, formando uma trama de outras redes. Sobre isso vale transcrever aqui o que nos diz Marcos Leandro Mondardo:

Norbert Elias considera que a sociedade é formada por indivíduos que são singulares em cada tempo e em cada espaço. Contudo, é através dessas diferenças que, em cada tempo e em cada espaço, se formam e/ou são construídas diferentes sociedades. Sociedades, portanto, “projetadas” por tramas de relações sociais, de funções, de cadeias de atos (ações) que Norbert Elias chama de “fenômenos reticulares”, e que são produzidos no interior de uma rede móvel humana de relações de interdependência composta por estruturas, por cadeias, por limites e por possibilidades. (MONDARDO, 2009)

Na base desses mecanismos sociais encontram-se novamente as tensões, e estas começam a surgir quando algumas pessoas conquistam o monopólio de setores dessa rede social ou quando elas ameaçam o equilíbrio de redes às quais não pertence. Este ultimo se deve ao fato de que, para Elias, os fatores naturais não são responsáveis pelas funções sociais dos indivíduos. Estes na verdade, nascem com uma espécie de pretensão a determinada função por estar desde criança em contato com um universo de situações, objetos e conceitos apresentados pela rede social à qual pertence e por ser preparado para isso, diretamente por meio da família e indiretamente na juventude por meio da escola. Como bem pontua  Pierre Ansart: “cada ser humano recebe uma longa educação, que faz dele depositário de uma cultura, onde ele adquire um habitus próprio de seu grupo do qual ele é resultante e que lhe permite agir nos seio das relações de interdependência” (ANSART, 20050) E na tentativa de evitar este tipo de tensão surge a busca pelo controle das decisões nas redes sociais a que Elias denomina de monopólio. Este pode assumir essencialmente duas formas, a primeira no que se relaciona ao controle dos bens essenciais à sobrevivência e a segunda no que se refere ao controle dos meios de repressão, o monopólio da força:

Todo monopólio “econômico”, seja qual for a sua natureza, direta ou indiretamente se liga a outro, sem o qual não consegue existir: a um monopólio da força física e de seus instrumentos. Este pode assumir, como no período feudal, a forma de um monopólio das armas, não organizado e descentralizado, exercido por grande número de pessoas, ou ainda, como na época do absolutismo, a de um monopólio da violência física controlado por um indivíduo. (ELIAS, 1994)

O que se segue então, como consequência do que foi exposto acima é a luta por uma colocação social, ou mesmo por um bem, que dá origem ao que, segundo Elias, nenhum dos interessados se pretendeu. Trata-se aqui da tão aclamada – pelo menos nas sociedades capitalistas – concorrência. Na verdade, concorre-se não mais não menos do que pelos interesses particulares dentro da teia social. Aqui evoca-se o primeiro conceito descrito neste texto, o de que a sociedade nada mais é do que o resultado das decisões de indivíduos cujo objetivo é o pertencimento social. Traz-se novamente à baila esta concepção com vistas a compreender que as mudanças sociais se fazem por meio das decisões que os indivíduos fazem dentro do “sistema reticular”, mas também, e principalmente, para atentar para o fato de que por mais que estas decisões sejam conscientes, suas consequências nunca poderão ser controladas. Esta asserção vem firmar a concepção de Elias de que não há como se pensar no indivíduo o isolando da sociedade assim como não se pode conceber sociedade sem indivíduos. Posto que é esse descontrole das consequências de seus atos que provoca o indivíduo a moldar suas ações de maneira a se adaptar à nova trama que então se configura.

Importa também aqui tornar a afirmação de que nenhuma pessoa seria capaz de, por sua própria vontade, ordenar sistematicamente esse dito “fenômeno reticular”. O que ocorre, na verdade é que, a depender da posição à qual o indivíduo se insere, ele se vê dotado de maior ou menor prestígio dentro de sua rede, o que lhe afere maior capacidade de decisão frente ao grupo. Decidir, portanto, é uma ação inerente a todas as pessoas em todas as esferas sociais, contudo, a decisão de alguns se incorpora de maior aceitação do que a de outros.

Toda sociedade grande e complexa tem, na verdade, as duas qualidades: é muito firme e muito elástica. Em seu interior, constantemente se abre um espaço para as decisões individuais. Apresentam-se oportunidades que podem ser aproveitadas ou perdidas. Aparecem encruzilhadas em que as pessoas têm de fazer escolhas, e de suas escolhas, conforme sua posição social, pode depender seu destino pessoal imediato, ou o de uma família inteira, ou ainda, em certas situações, de nações inteira, ou de grupos dentro delas. Pode depender de suas escolhas que a resolução completa das tensões existentes ocorra na geração atual ou somente na seguinte. (ELIAS, 1994)

De todo o exposto acima, apreende-se a fundamental importância de se mudar a maneira de olhar para o conjunto social. De certo que nos acostumamos a observar o meio em que estamos inseridos como que algo externo a nós e por isso mesmo é que romper as barreiras a dualidade de significados às quais forjamos os conceitos de sociedade e indivíduo configura-se sobremodo difícil. Essa dificuldade se dá, na concepção de Norbert Elias, “pelo menos em parte, dos tipos de modelo de pensamento usados para refletirmos sobre essas relações”. Por fazermos parte desta teia imensurável de relações muitas das vezes não nos apercebemos das entremeadas redes de relações de força e de poder às quais estamos submersos. Importa então um novo olhar, uma nova compreensão deste “fenômeno reticular”, mesmo alertado pelo próprio autor de que “o esforço de reorientação necessário para romper com esses modelos não é menor, com certeza, do que o que se fez necessário quando os físicos começaram a raciocinar em termos das relações entre os corpos, em vez de partirem de corpos isolados, como o sol ou a lua”. Conceituar, portanto, indivíduo e sociedade, na visão de Norbert Elias é ter evidente que não é possível compreender um isolado do outro.

BIBLIOGRAFIA:

Ansart, Pierre. Tradução domestica: Sonia Bahia. Norbert Elias – uma síntese de pensamento, Abril de 2005. Disponível em: http://www.psicologiasocial.com.br/Norbert%20Elias.pdf – Acessado em 27 de setembro de 2012.

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1994.

MAMEDE‐NEVES, Maria Aparecida. A Teoria de Campo Gestalt. Curso de especialização em Tecnologias em educação. Disponível em: http://josecicero.wikispaces.com/file/view/CA_UNID4_TEORIA_CAMPO_GESTALT.pdf – Acessado em 29 de setembro de 2012.

MONDARDO, Marcos Leandro. Globalização e Sociedade dos Indivíduos: Redes Sociais, Interdependência e Autocontrole. Biblioteca online de Ciências da Comunicação, 2009. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/_esp/autor.php?codautor=1616 – acessado em 26 de setembro de 2012.

SALES, Veronique (org.) Os historiadores. São Paulo, Editora da UNESP, 2011.


[1] Texto escrito com o objetivo de avaliação da matéria eletiva “A idade moderna e o processo civilizatório”.

[2] Graduando em História pela Universidade Federal de Pernambuco.

[3] In SALES, Veronique (org.) Os historiadores. São Paulo, Editora da UNESP, 2011.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 13 out 2012 @ 07 53 AM

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02 de dezembro de 1870



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