UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO – UFPE

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA – DHI

CENTRO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS – CFCH

O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. A Construção da Moral e o Processo Civilizador.

José Dário dos Santos

Trabalho apresentado para disciplina de Idade Moderna e Processos Civilizatórios, ministrada pelo professor Severino Vicente da Silva, referente ao 1º semestre de 2012

Recife,

2012

O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. A Construção da Moral e o Processo Civilizador.

José Dário dos Santos

Resumo: Este artigo tem por objetivo analisar o livro: O Processo Civilizador do Norbert Elias, esse livro que se constitui uma obra prima da Sociologia, uma obra importante para todos que queiram entender como os costumes tomam formas, assumem vários significados na Sociedade e de como esse processo foi difícil e demorado.                   Este livro que só veio ser descoberto pelo meio acadêmico muito tardiamente se mostra um belo guia para quem quer entender os Costumes e de como se deu a nossa maneira de se “Civilizar”, como a ética e as instituições se relacionavam e como se construíram essas ideias de Ética e Moral.

Palavras-chaves: Ética; Estado; Renascimento; Processo Civilizador; Norbert Elias.

O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. A Construção da Moral e o Processo Civilizador.

Nietzsche em seu livro Crepúsculo dos Ídolos diz: “Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor, isto é o que chamamos de moral.       Porém sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes.           A domesticação do animal humano e a criação duma espécie determinada de homens, são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote ignora e não sabe nada à respeito.     Chamar melhoramento à domesticação dum animal soa aos nossos ouvidos quase como uma brincadeira.         Quem sabe o que se sucede em zoologia? Contudo, duvido muito que o animal acabe melhorando. É debilitado, é feito menos perigoso; com o sentimento deprimente do medo, com a dor e as feridas faz-se dele um animal enfermo.         O mesmo sucede ao homem domesticado, a quem o sacerdote tornou melhor.”

Demonstrando certo pessimismo com relação a um processo de Civilização pelo qual o homem passou durante o século XVI muito ditado pelo controle das pulsões, dos instintos e também de um processo de exportação de Civilização de Ingleses e Franceses para os outros, os ditos “menos-civilizados”, o Nietzsche entende a moral da Sociedade Moderna como uma diminuição da “Vontade de Potência”, como um ataque aos sentidos plenos da vida, já o Norbert Elias entende essa moral não como uma atrocidade contra o homem (apesar de salientar que o processo civilizacional foi um processo doloroso), mas como um processo que teve influências da Sociedade de Corte Francesa, da Burguesia Alemã e com essa nova ideia de moralidade, de mudanças de hábitos e costumes, a Sociedade Europeia canalizou tensões, diminuiu violências e se higienizou, ou seja: Melhorou a vida em Sociedade, tornou-a possível.                   A vida em sociedade, e principalmente a vida na Idade Moderna foi passando por transformações e mudanças, essas mudanças foram lentas e demoradas.

O rompimento não total, mas gradual com o modo de vida da Idade Média e a “adoção” da nova visão de vida se constitui um processo doloroso, irregular e dissonante, sabedores de que as diferenças são um dos muitos ritmos da História e que a Uniformização é impossível, podemos evitar certas generalizações que costumam fazer parte de algumas tentativas de análises da História. Aliado aos códigos de honras da Nobreza e da tentativa de afirmação de seus próprios códigos pela Burguesia, a sociedade moderna começou a se educar, e essa educação dos hábitos era carregada de conjuntos de leis morais, de padrões de éticas, dos padrões ditos Civilizados, dos padrões Modernos, na qual se passa a nossa tentativa de análise.

1.1- As concepções Medievais de Ética.

A Ética medieval teve em dois filósofos da Igreja suas principais interpretações: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.  Santo Agostinho afirmava que o Ser Humano é uma alma que se serve de um corpo, para o Santo Agostinho a elevação ascética até Deus culmina no êxtase místico ou Felicidade, que não se encontra nesse mundo, algo que alguns estudiosos chamam de Neoplatonismo. Santo Agostinho acreditava que o ser humano era privilegiado na ordem das coisas, as três pessoas da trindade expressam também as três faculdades da alma: A memória se relacionaria com o Deus-Pai, a inteligência se relacionaria com o Deus-Filho e a Vontade com o Deus-Espírito. A vontade seria a mais decisiva das três faculdades, por ser em essência: livre e criadora, ela pode nos afastar de Deus, e o afastamento leva uma aproximação ao não-ser: O mal. A essência do Pecado reside exatamente nisso, no fenômeno do Livre-Arbítrio, através da inversão, onde: o corpo passa a dominar a alma, entregando-se a todo tipo de concupiscência. A graça na concepção agostiniana funciona como o guia do Livre-arbítrio, pois sem ela, o mesmo escolheria o mal.

O São Tomás de Aquino entende que Deus é o bem último ou o sim supremo e a sua posse causa gozo ou felicidade que é o bem subjetivo, para se alcançar essa felicidade, são necessárias certas virtudes, essas virtudes são: intelectuais, morais, cardeais e teologais. A graça divina entra em cena mais uma vez para guiar o homem, o ser humano age em sintonia ou em agradecimento com o divino quando faz o bom uso do livre-arbítrio.

“Para que possa ser considerada boa, a vontade deve conformar-se à norma moral que se encontra nos Seres humanos como reflexo da lei eterna da vontade divina. Esta, no entanto, não pode ser conhecida pelo Ser humano, de tal forma que ele deve limitar-se a obedecer aos ditames da lei natural, entendida como lei da consciência humana”[1].

1.2- A Influência do Renascimento no Processo Civilizador e na Construção de uma nova ideia de Ética.

O renascimento teve influências incisivas nesse processo de “Civilização” do homem e da vida em sociedade, achando os pontos principais podemos citar: A queda do preconceito contra o corpo, as regras de limpeza, a diminuição da ideia do profano, o culto aos valores estéticos da Grécia Antiga. A queda, ou melhor: uma aceitação inicial de todos esses tabus representou muito para a vida em sociedade, a vida nas grandes cortes.                   O Peter Burke comenta em seu livro O Renascimento, que a ideia do Renascimento como um movimento Original de retomadas dos valores helenísticos é por si enganadora, a idade média influenciou claramente os ditos renascentistas que tentavam se distanciar do mundo feudal em que viviam, mas utilizavam-se de valores do período vigente que por muitas vezes acreditavam serem de origem clássica e por vezes eram misturados, acontecendo algo parecido com um sincretismo cultural.   Sobre o renascimento, Peter Burke diz: “É mais exato pensar neste movimento como um desenvolvimento gradual no qual cada vez mais indivíduos se tornaram progressivamente insatisfeitos com os elementos da sua cultura em finais do período medieval e cada vez mais atraídos pelo passado clássico” (BURKE, 2008: p.41).  Essa mentalidade do cuidado com o corpo, da suavização de comportamentos considerados imundos e anti-higiênicos foi uma das bases do processo civilizador e através de novos ideais de limpeza, de bons modos à mesa e do controle rigoroso do outro é que a sociedade ocidental pôde ir gradativamente se civilizando, a importância do renascimento vem dessa nova ideia de cuidado com o corpo, da noção do indivíduo, e também do afastamento das zonas rurais e a chegada às zonas urbanas, esse ajuntamento em cidades teve influências claras no processo de civilização, a necessidade de se civilizar foi também uma exigência das novas configurações infra- estruturais da chegada da modernidade, sair do campo onde as casas e a vivência eram mais afastadas e chegar nas cidades onde a vivência do cotidiano são mais exigentes, mais concorridos.         E essa nova convivência representou novas construções de valores e de costumes, novas ideias do que seja “Certo” e “Errado”

1.3- A Construção da Ética na Igreja durante a Idade Média e O Estado como definidor da Ética na Modernidade.

A Idade Média tinha como base fundamental a influência da Igreja nas construções das ideias de política, economia, educação, valores dos indivíduos, ou seja: a Igreja em certo ponto determinava as cosmovisões da época e essa influência se leva também a construção dos valores morais e de ética.            Os costumes das pessoas estavam ligados como também as suas crenças e sua educação e construções de valores estavam ligados às visitações na Igreja e a participação no religioso. O Renascimento e o Processo Civilizador nos mostra que a partir desses dois acontecimentos históricos a Ética sai das mãos do clero e começa a flutuar entre a Cultura e o Estado. O Estado, principalmente o Francês assume o papel de fundamentador da ética a partir do reinado de Luís XIV, o rei com a construção do palácio de Versalhes e do recrutamento da Nobreza para junto de si passa uma mensagem clara de que o Estado legitimado em si próprio (“O Estado sou eu”) definiria a partir de então o que seria certo ou errado, o que se devia ou não fazer, assim a construção da Ética se afasta de junto do clero e começa a ser construída e influenciada pelo Rei e o Estado. A modernidade foi o período da saída da “Transcendentalidade” da Ética, das ideias religiosas hegemônicas, dos costumes medievais para a entrada das relações humanas como definidoras de códigos morais, da ideia de liberdade, das consolidações dos Estados Nacionais e o Norbert Elias ao escrever sobre a modernidade e o processo civilizatório demonstra como esse processo de definição, civilização dos “Costumes” foi também um processo que hegemonizou inicialmente o Estado como um dos definidores dos padrões éticos a serem seguidos.         O Renascimento anteriormente atribuiu o significado da Cultura como definidora dos padrões estéticos, das relações sociais e de uma menor hegemonia por parte da Igreja e do Clero nas definições do que seria o “Certo” e o “Errado”.

A Construção dos Valores Burgueses e a Antítese com a Sociedade de Corte.

O Norbert Elias no Capítulo primeiro do seu livro O Processo Civilizador analisa a importância e a sociogênese de duas palavras peculiares que representam muito para Franceses, Ingleses e Alemães. Para os Franceses Zivilisation e para os Alemães Kultur, o processo civilizacional dos franceses e ingleses fora terminado primeiro que o dos alemães, e as cortes (especialmente a francesa) exportavam seus hábitos e costumes para a Alemanha.           Na França, os cortesãos já admitiam a presença da Burguesia e dos intelectuais burgueses em suas reuniões e círculos, na Alemanha que passa por esse processo muito que tardiamente essa admissão dos intelectuais (que em sua maioria eram burgueses) não existia. Os burgueses alemães tentando se afirmar e tentando afirmar também a ideia de uma nação alemã começam a exaltar qualidades que são típicas dos modelos de vivência burgueses e de qualidades intelectuais que só existem na Alemanha: A vida sem a repressão dos instintos das sociedades de cortes, a vivência de uma classe intelectual, a admiração pela língua alemã, que era considerada pelos cortesãos como bárbara e sem nenhuma especialidade, tanto que os cortesãos conversavam em Francês por acharem que o falar Alemão era de propriedade das classes subalternas. Nos trabalhos dessa classe intelectual começa-se a notar críticas aos valores morais e éticos da Nobreza, a imoralidade das cortes, a indisposição intelectual, o ódio aos príncipes, em contraponto a isso se exalta uma vida de liberdade dos sentimentos, de valorização dos impulsos do homem, de uma vida “Natural”, em claro contraste com a vida “antinatural” das sociedades de cortes. A literatura passou a ser o principal meio de divulgação dessas ideias, tanto que na segunda metade do século XVIII e início do século XIX a literatura alemã estava em efervescência, lembrando que esse desenvolvimento da Literatura e de um conjunto de valores burgueses ainda não constituía uma tentativa de afirmação política, mas algo parecido com uma vanguarda, sobre isso o Norbert Elias diz: “… O movimento literário da segunda metade do século XVIII não tem caráter político, embora, no sentido o mais amplo possível, constitua manifestação de um movimento social, uma transformação da sociedade” (ELIAS, 1994: p.35).

Nas sociedades de cortes os valores eram diferenciados, sendo que nas cortes eram valorizados: os bons modos, a civilidade, a potencialização dos sentimentos, dos modos de se falar, e uma supervalorização do nascimento.     Esses valores começam a serem questionados na Alemanha do século XIX, na França do século XVII, e o questionamento desses valores irá levar a Burguesia ao poder e ao esfacelamento das Cortes, com o advento das revoluções burguesas e com unificação alemã.

Referências Bibliográficas

BURKE, Peter. O Renascimento. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2008.

COSTA, Jurandir Freire. A Ética e o Espelho da Cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes Vol.1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1994.

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos: Ou a filosofia a golpes de martelo. São Paulo: Hemus, 1976.

TOMÁS DE AQUINO. Vida e Obra. Em: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


[1] TOMÁS DE AQUINO. Vida e Obra. Em: Os Pensadores. Abril Cultural, São Paulo, 1979, p. XII.

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Posted By: Biu Vicente
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

CURSO DE HISTÓRIA

Discussão do livro: A Solidão dos Moribundos, de Norbert Elias.

Recife, 2012.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CURSO DE HISTÓRIA

CYBELLE LUCIANA DE OLIVEIRA

Discussão do livro: A Solidão dos Moribundos, de Norbert Elias.

Prof. : Severino Vicente.

Disciplina: Idade Moderna e o Processo Civilizador.

Recife, 2012.

INTRODUÇÃO

Através de todo seu conhecimento adquirido nos estudos referentes no Processo Civilizador, Norbert Elias traz uma nova visão para o assunto mais temido da contemporaneidade: a morte, mais, sobretudo, o pensamento ligado a ela e suas consequências. Em A Solidão dos Moribundos, o autor mostra como a internalização de determinados costumes, ao longo da história, modifica o modo de tratamento das pessoas com relação à morte e aos que estão prestes a fazer a “passagem”.

Para grandiosa tarefa, despende estudos que visualizam as divergências de tratamento do tema a partir da comparação feita entre as sociedades passadas e o atual estágio civilizacional. Desenvolve-se, então, uma profunda discussão acerca de vários aspectos presentes na temática, como o não questionamento da morte; o medo pessoal que a envolve e, consequentemente, a não aceitação dela; a individualização do ser, gerando o abandono dos necessitados, além do desconforto em sua presença; e, sobretudo, a saída da morte do ambiente público, onde era analisada sem precauções, para o interior do indivíduo que vive no profundo isolamento de sentimentos.

No entanto, o mais compreensível desta obra, com certeza, é o entendimento sobre como os modos de comportamento diferem de uma sociedade para outra, sendo nítida a apreensão de algum determinado costume dito correto, civilizado pela maioria, em detrimento do poder estabelecido por poucos no instante em que conseguem incutir tais idéias.

Falar de um tema como a morte, há tempos atrás, seria um aspecto público tratado com naturalidade por todos. Atualmente, a realidade é outra. Tratar de um assunto destes significa gerar certo embaraço nos ouvidos presentes em uma reunião. É perceptível o evitar do objeto considerado obscuro e atrativo de desgraças alheias. Mas, esta relação conflituosa, como dita anteriormente, não é vista assim desde o começo da história. O cessar da vida, além de outras questões referentes à convivência social, está relacionado ao conjunto de regras e modos que permeiam a época envolvida. Os questionamentos envolvendo a morte, o modo como a população age ao se deparar com ela e a relação dos familiares com os doentes são as principais características encerradas no livro de Norbert Elias: A Solidão dos Moribundos. Para tal desígnio, o autor demonstra as diferenças, ao longo da história e evolução do nível social, na vida dos moribundos e no tratamento dado por seus descendentes. Sendo assim, é de extrema relevância dar vazão aos pontos característicos de sua obra.

Logo no começo do texto, o leitor consegue distinguir três formas principais de lidar com a morte, utilizadas pelos indivíduos. Primeiramente, é comum ouvir a idéia da existência de uma outra vida após a morte, caracterizada sempre por ser melhor do que a vida terrena, sendo esta cheia de problemas, aflições. Alguns tentam evitar o assunto, transformando-o em um tema-tabu na sociedade e mesmo dentro dos lares, acreditando na atração maléfica de tal questionamento ou até satisfazendo a crença na imortalidade. Já outros simplesmente encaram a morte como algo inevitável a todos. Porém, diante de tantos obstáculos, divergências no pensamento, onde se enquadra a preocupação de tornar a morte um tema amplamente debatido, abordado? Principalmente, como lidar com aqueles que, por algum motivo, estão à espera do “derradeiro final”? Como trazer-lhes a paz e demonstrar o quanto são importantes para o círculo de amizade envolvido? É também no intuito de fazer da morte um objeto de estudo mais palpável que Elias fez o livro. Desta forma, com uma discussão maior, as pessoas podem tratar melhor de seus moribundos.

Mas, o que necessariamente faz afligir o homem é o fato de que só ele tem consciência plena do seu fim. Por causa deste medo do extermínio, a proteção contra o aniquilamento foi uma ação colocada em prática desde os tempos mais remotos, sendo a convivência em grupo a melhor forma de proteção. Porém, relações tão profundas necessitavam da alteração de certos comportamentos que pudessem provocar o rechaçamento do indivíduo e a divisão do grupo.

“(…) Também em outras espécies a importância da sobrevivência das sociedades encontrou expressão na formação de grupos e na adaptação dos indivíduos à vida comum como uma característica de sua existência. Mas, nesse caso, a adaptação à vida do grupo se baseia em formas geneticamente predeterminadas de conduta ou, na melhor das hipóteses, limita-se a pequenas variações aprendidas que alteram o comportamento inato. (…)” (pág.10)[1]

É aí que entram aspectos auxiliadores do relacionamento entre as pessoas, seja no aprendizado de uma língua (para que haja a comunicação e o entendimento); ou na repreensão de certos comportamentos, como o instinto de briga; ou ainda no uso de regras específicas. Através da instrução, o homem aprende a viver em grupo, pois por meio da educação, certos instintos que podem acabar com a sociabilidade humana são inibidos. A experiência da morte, por exemplo, pode diferir de agrupamento para agrupamento e por mais que pareça natural, foi aprendida desde a mais tenra idade e interiorizada socialmente.

Tem-se, a partir daí, outra vertente inclusa em todas as obras de Norbert Elias. O Processo Civilizador rege as pesquisas do autor desde que este manteve amplo contato com os manuais europeus de boas maneiras. Através de inúmeras dinâmicas mostra os costumes da corte e como certos “rituais” simbolizavam o status e o poder desta camada social, além de distinguir as diferenças ocorrentes no decorrer do tempo e contexto histórico, quando falado desses protocolos, e o modo de divulgação dessas idéias.

Com o aumento populacional, a vida nas cidades e o advento do Renascimento, o indivíduo tenta cessar, ou pelo menos diminuir, a violência tão necessária à sobrevivência nos tempos antigos, no intuito de viver em grupo mais facilmente. Por si só, este fato já demonstra uma certa mudança nas regras estabelecidas como necessárias anteriormente, mas dispensáveis naquele momento. O papel da educação torna-se obrigatório, porque são propagadas as regras imprescindíveis para a manutenção de um bom cidadão, segundo aqueles do topo hierárquico. A corte francesa, especialidade de Elias, é um bom exemplo a ser discutido deste processo.

O governo de Luís XIV ficou marcado na história pelo luxo e ostentação do próprio rei. Com o tempo, Luís XIV percebeu que para ser identificado como uma peça fundamental na França deveria se impor como tal, demonstrando, para os que estivessem abaixo de si, hábitos ditos importantes no caminhar da classe na qual se identificava. A partir daí, a riqueza esbanjada e as roupas exuberantes, por exemplo, tornaram-se a marca designativa do poder.

“O consumo de prestígio diferencia-se desse cânone burguês de comportamento (poupar para ganhos futuros). Em sociedades nas quais predomina o outro ethos, o do consumo em função do status (status-consuption ethos), o mero asseguramento da posição social de uma família – assim como uma melhora da aparência e do êxito na sociedade – dependem da capacidade de tornar os custos domésticos, o consumo, as despesas em geral, dependentes em primeira instância do nível social, do status ou prestígio possuído ou almejado. Alguém que não pode mostrar-se de acordo com seu nível perde o respeito da sociedade. Permanece atrás de seus concorrentes numa disputa incessante por status e prestígio, correndo o risco de ficar arruinado e ter de abandonar a esfera de convivência do grupo de pessoas de seu nível e status (…).” (pág.86)[2]

Acontece, então, que certos hábitos tidos como necessários no grupo em questão são perpassados à população pobre como diretrizes da civilidade, do homem culto, que devem ser imediatamente incorporados ao dia-a-dia. Aos poucos, este processo severo acaba por se tornar padrão, natural. Ser educado é sinônimo de refrear os instintos. São exatamente nestes aspectos que o tema da morte entra, pois através da educação, muitas vezes dada pelas famílias, são difundidas certas regras para as crianças do que é certo ou errado. Modos de comportamento ( não poder rir dentro de cemitérios), até de expressar os sentimentos íntimos( não poder demonstrar tanto desespero), tudo é passado para a geração subseqüente.

Permeando o texto de A Solidão dos Moribundos, está a idéia da existência de níveis sociais, do desenvolvimento populacional. Neste âmbito, ficam claras as divergências nos rituais propícios à morte quando levadas em consideração as sociedades mais e menos avançadas. Em épocas remotas, tais artifícios costumavam ser mais usados, pois os indivíduos necessitavam garantir sua existência e bem estar, já que estavam grandemente propensos à morte repentina. Porém, não havia apenas rituais de proteção contra a morte, mas também de outros tipos, como aqueles que, ao serem feitos, garantiriam uma boa vida “do outro lado”. O Livro dos Mortos do Antigo Egito é um ótimo exemplo a ser demonstrado. Os egípcios acreditavam que, seguindo os conselhos escritos em papiros e levando-os para os túmulos, poderiam chegar no Julgamento Final e, diante de Osíris, tornarem-se um Deus, vivendo com seus irmãos por toda a eternidade.

Salve, oh! Tum, que pairas acima dos Abismos cósmicos! É grande, em verdade, o teu esplendor! Diante de mim surges sob a forma de um Leão de duas cabeças… Deixa-me entende tua Palavra de Potência! Concede tua Força aos que, de pé, a ouvem! Aqui me tens que chego e me junto à multidão de deuses que te rodeiam, oh Ra! Executei as ordens que deste, às últimas horas do dia, a teus servidores. Oh! Ra! Em verdade, igual a Ra, vivo na Morte, dia após dia, e como todos os dias Ra renasce da véspera, eu renasço da Morte. Todas as divindades do Céu se alegram vendo-me viver, assim, como se alegram vendo Path viver no momento em que, no grande templo de Heliópolis, ele se mostra em todo o deu esplendor.[3]( pág.26)

Entretanto, nos países mais desenvolvidos, as crenças preventivas entraram em desuso. Isto acontece porque, através dos avanços médicos e higiênicos, a expectativa de vida de certos lugares aumentou consideravelmente, retardando cada vez mais a morte precoce. Até mesmo doenças, antes, incuráveis obtiveram tratamento adequado. A violência, se comparada a da Idade Média, foi refreada, dando lugar a regras que têm por conseqüência o aprimoramento do lado humano mais paciente. Por estas características, a morte passou a ser imaginada como algo longínquo, ocorrendo apenas com os mais velhos e devendo ser pensada por eles. Seu questionamento foi para o segundo plano e com ele os rituais pré-morte.

Outra expressão bastante utilizada por Norbert parece ser a que denomina o ideário da morte de recalcado. No plano individual, tem o mesmo sentido expresso nas idéias freudianas, ou seja, o que foi vivido de forma brutal e dolorosa na infância pode provocar o afastamento da idéia de morte e até mesmo a negação dela. As experiências ruins podem existir durante toda a vida do indivíduo, influenciando o seu modo de agir perante a morte e os familiares adoentados, o que provocaria um olhar distorcido do final da vida, até mesmo receio do inevitável.

Uma das formas de tentar lidar com a finitude da vida, encontrada por quem adquiriu este pavor, é acreditar na imortalidade. Ao se acharem imortais, os indivíduos guardam para si o medo que tem da morte, pois acham que esta nunca irá atingi-los ou virá depois de um longo tempo. O próprio questionamento do tema se torna bastante raro, já que as pessoas preferem não falar de algo tão obscuro. Mas, a negação da morte traz conseqüências desagradáveis e incômodas. Um exemplo drástico é a falta de sensibilidade visível no que diz respeito às pessoas mais próximas. Quando entram em contato com os moribundos, aqueles que sonham com a imortalidade vêem seu ideário se desfalecer, porque percebem o término da vida. A ligação com as pessoas que estejam prestes a fazer a passagem, os faria lembrar da inconstância e imprevisibilidade de tudo. Está envolvida também a idéia de punição dos pecados, do castigo por seus feitos errados na hora do julgamento, levando a um medo terrível do fim.

“(…)Conheço pessoas que não são capazes de envolver-se com moribundos porque suas fantasias compensatórias de imortalidade, que mantêm sob controle seus terríveis medos infantis, seriam perigosamente abaladas pela proximidade delas. Esse abalo poderia permitir que seu grande medo da morte – da punição – penetrasse sua consciência, o que seria insuportável. (pág.16)[4]

O recalcamento da idéia de morte possui uma ampla influência social, ou seja, das regras impostas pelo “bom comportamento”. Certos procedimentos acabam sendo inibidos por serem taxados de incivilizados e incompreensíveis pela sociedade vigente. É visto de maus olhos, por exemplo, o sentimento excessivo de carinho no leito de morte do ente querido. Nestas horas, é pregado que as pessoas se mantenham fortes e sem muitos abalos aparentes. A partir daí, certas características humanas taxadas de impróprias, selvagens, ocasionam o recharçamento dos que os praticam. Desta forma, é criado um sentimento de culpa, vergonha. O próprio tema, a morte, fica de lado, já que pode indicar o fim do grupo social. Assim, torna-se melhor o não-questionamento.

Comparando o livro de Philippe Áries, História da Morte no Ocidente, com seus estudos, Norbert percebeu que este autor acreditava na morte sem medo das populações medievais, como se tudo ocorresse muito calmamente e houvesse a resignação com o destino aparente. O idealizador de A Solidão dos Moribundos critica a “morte serena” da Idade Média, pois adverte para o fato de que o cotidiano era bem mais violento em confrontação com os dias atuais, já que não havia tanto apego a vida humana e repreensão social. Outro fator, provável estimulador das angústias pessoais diante da finitude, era a dor física, resultado da doença, e que hoje, na maior parte dos casos, foi aliviada com o avanço da medicina. Em tempos de guerras e pestes, também deviam ser terríveis as visões de corpos ensangüentados, em decomposição, espalhados nas ruas, ajudando na proliferação de agentes infecciosos e no temor da morte. Porém, a grande divergência realmente encontrada na comparação entre o Medievo e os dias atuais é a ausência freqüente do conforto, carinho, empregados na recuperação dos doentes, ou no final da vida, situações bem presentes em épocas mais longíquas. Até porque não prestar solidariedade para com o doente e a família pesaria na hora do julgamento final, pensavam. Com isso, existia, talvez, o atenuamento do sofrimento do pobre moribundo, pois, mais tarde, os outros também morreriam.

“Em resumo, a vida na sociedade medieval era mais curta; os perigos, menos controláveis; a morte, muitas vezes mais dolorosa; o sentido da culpa e o medo da punição depois da morte, a doutrina oficial. Porém, em todos os casos, a participação dos outros na morte de um indivíduo era muito mais comum. Hoje sabemos como aliviar as dores da morte em alguns casos; angústias de culpa são mais plenamente recalcadas e talvez dominadas. Grupos religiosos são menos capazes de assegurar sua dominação pelo medo do inferno. Mas o envolvimento dos outros na morte de um indivíduo diminuiu. (…)”(pág.23 e 24)[5]

Com o Processo Civilizador, no entanto, houve uma mudança no que diz respeito à maneira como as pessoas passaram a encarar a morte. Era comum, antes, a pessoa morrer com vários parentes, amigos, vizinhos à volta, logo, a morte tornava-se pública, ligada a enormes cortejos fúnebres e centenas de indivíduos. Como contraste, hoje, além das pessoas não quererem estar presentes nesta hora, recusam-se a pensar, a falar no assunto e a prestar solidariedade. Tal procedimento recorrente após as normas educacionais pregadas a partir do Renascimento contribui para a não aceitabilidade temática dos adultos e, consequentemente, influencia a educação dada aos jovens.

Por causa do recharçamento de algo tão presente, a morte em sua totalidade acaba sendo ocultada das crianças por seus pais. Antigamente, os mais jovens estavam presentes no momento da morte. Crianças eram disputadas para irem à frente dos cortejos, como em um ritual de purificação do morto. Porém, agora, é difícil até de falar com elas sobre o assunto. Os pais têm medo por acharem a morte algo muito doloroso. Acham que o receio pode lhes atormentar, mas não percebem que, ao desviar-lhes da verdade e tentarem amenizar a possível dor causada, estão fabricando adultos atormentados com a finitude do mundo, e seguidores de técnicas que pretendem buscar o elixir da vida, a imortalidade.

A partir da existência de todas estas divergências temporais, é possível encontrar um elo entre o Processo Civilizador e o modo de pensar ou conviver com a morte e com quem esteja neste âmbito. Antes, existia menos censura ao se tratar do comportamento social, dos modos de falar, agir. Na própria literatura européia eram comuns alusões referentes ao apodrecimento do cadáver, até comparações envolvendo o amor platônico e o fim da vida. A repressão social contra o tema era improvável, tanto que crianças tinham a plena consciência do ocorrido nos corpos após a morte, já que frequentemente podiam ser vistas nos cortejos fúnebres. Nos atuais estágios do desenvolvimento, porém, os mortos são banidos do conhecimento público e os doentes são abandonados porque nem se quer têm seus familiares por perto. Os parentes e amigos não ficam mais confortáveis do lado de pessoas prestes a fazer a passagem; também convivem com os próprios temores.

Por causa do profundo acanhamento visto em situações extremadas, fruto do recalcamento da idéia de morte, foram colocadas em uso certas expressões e comportamentos que deveriam demonstrar amabilidade para quem sofre, mas que na verdade são palavras e modos vazios de agir, pois, segundo o autor, já foram pronunciadas tantas vezes que causam um certo embaraço e uma falta de sensibilidade. Por isso, muitas vezes, as pessoas tentam, cada um ao seu modo, mostrar o que sentem, mas acabam esbarrando na timidez. Os rituais religiosos na hora da morte poderiam ser uma maneira de demonstrar carinho pelo ente querido, mas são pouco vistos por causa da falta de credibilidade humana. Também passou a ser proibida demonstrações emocionais fortes, mesmo que sejam por um parente de grande estima. Exatamente por esse afloramento espontâneo dos sentimentos ter sido reduzido, criou-se uma barreira entre os familiares e os doentes, onde os primeiros não conseguem se quer ficar ao lado dos segundos sem sentir pânico. Os vivos costumam comparar a morte à doenças contagiosas.

Mesmo após a hora derradeira, o distanciamento dos vivos com relação aos mortos ainda é intenso. Não importa o quanto significante ele tenha sido, ou o quanto as lembranças foram boas, o corpo sem vida deve ser esquecido. A sepultura é abandonada à chuva, às plantas, ou entregue a alguém que irá ganhar pelos serviços/cuidados prestados. Com a repugnância no tocante à decomposição do corpo, nem os jardineiros conseguem discutir a morte e quando o fazem abertamente são chamados de insensíveis. O cemitério, então, é esvaziado do campo de junção dos familiares em torno do ente querido para servir de lucro aos trabalhadores fora da família, além de servir como depósito de cadáveres. Por meio do comércio envolvendo o ambiente, foram abertos enormes vazios entre o morto (com tudo o que ele representa – a transitoriedade) e o indivíduo. E, silenciosamente, todo este trauma, medo, incapacidade de auto-expressão, vão sendo passados para as futuras gerações através dos costumes certos/errados pregados.

“ (…) Crianças que tentam brincar alegremente entre os túmulos serão advertidas pelos guardiães da grama bem aparada e dos canteiros por sua falta de reverência e respeito aos mortos. Mas quando as pessoas morrem, nada sabem da reverência com que são ou não tratadas. E a solenidade com que funerais e túmulos são cercados, a idéia de que deve haver silêncio em torno deles, de que se deve falar em voz abafada nos cemitérios para evitar perturbar a paz dos mortos – tudo isso são realmente formas de distanciar os vivos dos mortos, meios de manter à distância uma sensação de ameaça. (…)” (pág.40)[6]

Ao crescerem um dia e terem os mesmos medos dos adultos de hoje, as crianças não aprenderam a lidar com a transitoriedade da vida e nem ajudarão os entes queridos.

O modo de ocultação do fim da vida, entre os jovens e adultos, também foi analisado por Norbert. Os indivíduos costumavam crer com mais fidelidade no que o autor chama de “fantasias coletivas”. É o caso da idéia de paraíso, onde a felicidade duraria por toda a eternidade. Mas, dentre outros devaneios, frequentemente ocorre a aproximação da morte com o ideário de culpa, angústia. Portanto, o fim seria a punição dos pecados, ainda que a transgressão fosse o mau pensamento sobre alguém. Mais uma vez o envolvimento das crianças serve de bom exemplo. Ao sentirem ódio dos pais durante o desentendimento de família, podem pensar em desejar a morte dos progenitores, algo normal no momento de raiva. Depois da fúria, no entanto, vê-se o sentimento de culpa, porque acham que o pensamento pode influenciar a realidade. Para os adultos e crianças, então, pensar na morte provocaria desgraças. Logo, da mesma forma que, ao se depararem com um doente ou estando nos cemitérios, as pessoas têm a percepção da finitude, pensam que, de algum modo, podem provocar a morte de outros pelo fato de odiá-los.

Com todos estes empecilhos envolvendo a morte, fica difícil de imaginar a maior abertura do tema para diálogo, mas não impossível. O próprio livro de Elias é uma pequena ilha solitária diante de um grande oceano, mas dentro dele podemos encontrar exemplos de temas abordados com mais abrangência nos estágios sociais recentes. As discussões sobre o sexo ainda hoje sofrem com as barreiras impostas, no entanto, não se deve negar o grande avanço sentido nos últimos anos. Tudo o que era proibido, assim como nos dias atuais, servia como uma espécie de dominação das instituições públicas no intuito de coibir as classes ditas inferiores e seus tão temidos impulsos contaminadores da classe rica, “superior”.

“(…) Mas já está claro que uma série inteira de regras sexuais tradicionais, que se formaram durante o avanço não planejado do processo civilizador, tinha função apenas para certos grupos hegemônicos, para relações de poder específicas, como aqueles entre monarca e súdito, homens e mulheres, ou pais e filhos.(…)” ( pág.49 e 50)[7]

Essas normas que abarcavam diversos assuntos, dentre eles o sexo, regiam o poder da elite em relação aos pobres, já que buscavam demonstrar o grupo dominante como o mais educado, sensato, superior àqueles subordinados. A partir do momento em que o poder se estabeleceu com uma nova classe, outras formas de repressão foram estabelecidas. No caso de temas sexuais, a queda das velhas normas comportamentais gerou uma expansão no que diz respeito à abordagem sexual entre pais e filhos e a nova educação recebida pelos últimos. Em profunda contraposição, a morte com o passar do tempo, foi banida do ambiente público, sendo hoje pouco discutida e provocadora de um enorme mal-estar.

Em sociedades mais desenvolvidas e industrializadas, o pensamento referente a morte é tratado com o passar dos anos, mais especificamente na velhice, pois a expectativa de vida se tornou bem maior que nos tempos antigos (menos violência, aumento da higienização, avanço da medicina, etc.). Ocorre, em parte, o esquecimento da morte. Do lado oposto, sociedades pouco desenvolvidas temem bastante a finitude, porque pode ocorrer a qualquer momento e com a grande probabilidade de ser violenta. Para a salvação do indivíduo e de sua alma, então, surgem as crenças mágicas, prometendo boa vida além-túmulo e redenção. Essas práticas não são tão usadas nos estágios mais elevados socialmente pelo fato da morte ser bem mais negada, ou simplesmente deixada de lado.

Mas, diante de tais aspectos, é possível notar que a causa determinante da relação dos indivíduos com a morte na contemporaneidade se deve a visão tida do fim. O medo de perder tudo que foi conquistado e de ainda ter de pagar pelos pecados ainda está bem presente nas mentes alheias. A peculiaridade da sociedade atual, com a negação da morte e o distanciamento dos moribundos, acaba levando ao modo como as pessoas agem diante do tema (a criação dada aos mais novos, o comportamento entre si e perante os doentes.).

Mesmo com toda esta discussão envolvendo o modo como as pessoas vêem a morte através dos diversos estágios sociais e a naturalização de costumes pregados por uma determinada classe, as pesquisas relacionadas ao assunto estão começando a engatinhar, já que a morte não é encarada satisfatoriamente por todos do grupo, principalmente na experiência de “estar doente” e das necessidades que isto impõe. É preciso estar ciente de que o homem como um ser social não pode ser privado do carinho e do respeito dos entes mais queridos na hora em que mais precisa e que mais temeu na sua vida. Temeu e negou porque foi educado para esquecer o assunto, tornando a morte incompreensível. Os doentes ficam, assim, diante de um grandioso empasse: permanecer solitários sem nunca terem dado vazão aos sentimentos, ou, perante a temível hora, falar e agir sem medo da repressão social. Porém, esse último aspecto só pode dar certo se aqueles a sua volta mostrarem a devida relevância deles.

É preciso entender que a importância dada aos mais velhos e doentes se faz necessária porque através dela os indivíduos percebem que têm significado para os conhecidos. Desta forma, não se sentem abandonados, sozinhos. Isto ocorre, por exemplo, com os mais pobres, com os que são isolados por possuírem características consideradas irreparáveis para o restante do grupo. Quem foge às regras geridas pela sociedade vive em profundo isolamento imposto na hierarquia e é tido como uma vida sem sentido algum para os demais.

Portanto, ao longo de seu texto, Norbert Elias procura demonstrar as variações no tocante à visão de morte e dos moribundos, tão fomentados pelos rituais de cada estágio social. Na verdade, é possível perceber que o recalcamento da morte e, consequentemente, a solidão dos moribundos devem-se a crescente negação de um assunto popularizado na Idade Média, por exemplo, mas que nos atuais estágios civilizacionais é banido do meio público: a finitude da vida. O recalcamento da morte, abarcado pelo ideal de imortalidade, acaba por transformar o homem em um ser solitário, cheio de angústias existenciais e preso às regras que envolvem o seu contexto. Mais uma vez, Elias consegue deixar clara a influência do Processo Civilizador no cotidiano das pessoas, permitindo entrever que os costumes, tidos como naturais, são produzidos numa trama de poderes que apenas contribui para o aprisionamento do homem, de seus sentimentos e de seus instintos em si próprio. A grande proposta do livro é, nesta ocasião, consumada: sendo a morte discutida, espera-se agora que outros estudiosos sigam o exemplo do autor e vençam as barreiras construídas, legando à posteridade novas abordagens sobre o tema, ajudando na aproximação social deste, além de garantir um novo olhar sobre os moribundos.

CONCLUSÃO

Sendo assim, Norbert consegue uma proeza que durante anos muitos perseguem: se desvencilhar do costume da própria época em que vive para abordar um tema tão abandonado e pouco discutido na contemporaneidade, a morte, conseguindo refletir e compreender que a finitude, em si, não é o empecilho para o assunto, mas sim a visão atual que se tem dela. As nuances negativas compartilhadas coletivamente, então, passam a ser vistas pelos leitores do livro como um reflexo do embaraço causado pela temática e sua não aceitação.

Outro fator bastante interessante ligado A Solidão dos Moribundos é seu caráter cada vez mais efetivo, já que no próprio cotidiano pode-se perceber o isolamento do indivíduo, criado para sempre obedecer a determinados comportamentos no intuito de permanecer no grupo do qual almeja. A partir daí, assuntos que muitas vezes despertam o interesse da sociedade, são banidos da discussão, sendo taxados de impróprios e desnecessários.

Mas, como um meio de persuadir o restante dos indivíduos, fica extremamente visualizada a importância dada a educação, instrumento utilizado pelos mais ricos no intuito de coibir certas práticas ditas inaceitáveis, ou mesmo de estabelecer seu poder e influência sobre os de menores riquezas. Desta forma, como um método de ajudar nestes impasses sobre a morte, Norbert traz ainda uma possível solução para a abertura da temática: o questionamento e análise do assunto, procurando um modo de acabar, ou diminuir, com o medo relativo ao objeto e, consequentemente, ajudar os moribundos a se sentirem confortáveis no último lampejo de vida.

REFERÊNCIAS

ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de “Envelhecer e Morrer”.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. Lisboa: Editorial Estampa, 1986.

Para sair à luz do dia e viver depois da Morte. In: O Livro dos Mortos do Antigo Egito. Hemus, São Paulo, 1982.

http: // www.institutohypnos.org.br/?p=958

http: //www.efdeportes.com/efd75/elias.htm

http: //www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312004000100009


[1] ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de “Envelhecer e Morrer”.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

[2] ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. Lisboa: Editorial Estampa, 1986.

[3]Para sair à luz do dia e viver depois da Morte. In: O Livro dos Mortos do Antigo Egito. Hemus, São Paulo, 1982.

[4] ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de “Envelhecer e Morrer”.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

[5] ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de “Envelhecer e Morrer”.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

[6] ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de “Envelhecer e Morrer”.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

[7] ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de “Envelhecer e Morrer”.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

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02 de dezembro de 1870



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