UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

CURSO DE GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Disciplina :A Idade Moderna e o Processo Civilizatório

Professor: Severino Vicente da Silva

O PROCESSO CIVILIZADOR E A INFLUÊNCIA DA IGREJA REFORMADA NA PROPAGAÇÃO DA CIVILIDADE ENTRE OS ÍNDIOS NO BRASIL HOLANDÊS[1]

Luiz Felipe Barbosa Abreu[2]

Resumo: o presente artigo busca analisar, de forma sintética, o processo civilizador teorizado por Norbert Elias e a participação da Igreja Reformada holandesa na propagação da civilidade entre os índios durante a conquista holandesa no nordeste brasileiro.

Palavras – chaves: Norbert Elias, Igreja, Civilidade, educação.

Summary: This paper analyzes, in summary form, the civilizing process theorized by Norbert Elias and the participation of the Dutch Reformed Church in the spread of civilization among the Indians during the Dutch conquest in northeastern Brazil.

Key – words: Norbert Elias Church, Civility, education.

INTRODUÇÃO

As reflexões que o sociólogo Norbert Elias fez sobre o Processo civilizador, o qual moldou e tem moldado a sociedade ocidental atual, trazem uma grande contribuição para a análise histórica das transformações socioculturais que ocorreram ao longo da Idade Moderna e que deram prosseguimento até chegar aos nossos dias. A partir das análises desse intelectual podemos inferir questionamentos e levantar novas reflexões acerca de como se deu essas mudanças em momentos peculiares dessa trajetória e em lugares distintos.

O presente artigo, portanto, tenta analisar a contribuição da evangelização entre os índios, por parte dos predicantes europeus que vieram ao Brasil com a invasão holandesa, na propagação não só da religião calvinista, mas também dos valores e costumes civis que orientavam a sociedade holandesa no século XVII.

Primeiro, no entanto, será necessário fazer algumas considerações gerais sobre Norbert Elias e a sua análise desse Processo civilizador.

NORBERT ELIAS E O PROCESSO CIVILIZADOR

Podemos enquadrar Norbert Elias, entre aqueles autores que tem uma perspectiva de “longa duração” do tempo histórico. Numa análise sobre o assunto, Jacques Le Goff afirma que

Na atual renovação da ciência histórica, que se acelera, quanto mais não seja ao menos a difusão (…), um papel importante é desempenhado por uma nova concepção do tempo histórico. (…) Em vez do estrato superficial, o tempo rápido dos eventos, mais importante seria o nível mais profundo das realidades que mudam devagar (geografia, cultura material, mentalidades: em linhas gerais, as estruturas) – trata-se do nível das “longas durações”. (Le Goff, Jacques. História e Memória, Ed. da UNICAMP, SP, 1990).

Elias foi um sociólogo, porém enveredou pela história, a fim de dar fundamentação em suas análises sociológicas. Usa o trabalho do historiador, que segundo ele não é nada mais do que um documentalista[3], para aplicar as teorias sociológicas. A sociologia, segundo Elias, busca as repetições enquanto o historiador se preocupa com o fato, que somente acontece uma vez[4]. Ele se apoia em historiadores que são representantes da História erudita e positivista de “antes dos Annales”[5]. A abordagem de Elias se dedica não aos indivíduos em si, mas o convívio deste em conjunto em uma abordagem global dessa relação.[6]

Porém, é notória a preocupação que Elias tem acerca das lentas mudanças sociais, culturais, psicológicas, políticas, econômicas que ocorrem ao longo desse processo civilizador, deixando transparecer a perspectiva de longa duração do tempo histórico. Segundo Elias[7]Esse movimento, por certo, não é retilíneo, mas através de todas as suas flutuações e curvas individuais, uma tendência global clara é apesar de tudo perceptível, se estas vozes dos séculos passados são ouvidas em conjunto.” (Elias, 1994, p.104). Ou seja, Norbert Elias não acredita e nem defende que esse movimento esteja se desenvolvendo numa perspectiva positivista retilínea e progressista e que um dia se finalizará. Mas é uma visão em que o “antigo” e o “novo”, na maioria das vezes, coexistem e que é um processo ainda em decurso.

Mas, o que consiste esse processo civilizador? Podemos afirmar que esse movimento consiste em uma evolução, não no sentido de uma transição do que é “mal” para o que é “bom” (Elias, 1994, p.73), mas sim em um refinamento da conduta e dos costumes dos indivíduos indo em direção ao autocontrole quase automático, fruto de mudanças sociais, políticas e econômicas ocorridas no fim da Idade Média. Essas transformações promoveram o monopólio da força e da justiça nas mãos de um homem, o monarca dos Estados Nacionais. Esse, por sua vez, conseguiu agregar em torno de si a classe nobre, antigos senhores feudais, uma vez que conseguiu ter o monopólio da violência e da justiça como também dos tributos arrecadados, fazendo com que aqueles dependessem dele. A partir desse momento, as relações entre os indivíduos se tornam mais complexas, promovendo uma interdependência entre eles. Aquele que conseguir conter as suas paixões terá melhor possibilidade de alcançar admiração e prestígio. Portanto, os indivíduos deveriam agir conforme as suas novas funções exigiam. Essas mudanças promoveram uma sociedade mais pacificada, uma vez que os indivíduos eram impelidos a controlar seus desejos e compulsões, que anteriormente, na sociedade medieval, exerciam livremente. Quanto a isso, diz Elias

À medida que mudava a estrutura das relações humanas, as organizações monopolistas de força física se desenvolviam e o indivíduo se resguardava do impacto das rixas e guerras constantes e passava a sofrer as compulsões mais permanentes de funções pacíficas baseadas na aquisição de dinheiro ou prestígio, a manifestação de sentimentos também foi gravitando, aos poucos, para uma linha intermediária. As oscilações no comportamento e nos sentimentos não desapareceram, mas se abrandaram. Os picos e vales se tornaram menores, e menos abrutas as mudanças (Elias, Norbert. O processo civilizador. Ed. Jorge Zahar, 1993, 2.v)

Vale destacar, porém, as peculiaridades em que essas mudanças sociais ocorreram em cada estado nacional que estava se formando na Europa a partir da Idade Moderna, de acordo com as condições sociopolíticas de cada um. Na França, por exemplo, vemos uma maior coexistência entre nobres e burgueses submetidos ao rei, um influenciando o outro; enquanto na Alemanha “(…) os intelectuais (essencialmente pastores e professores) são mantidos mais distantes dos meios áulicos, o que provoca uma tensão através da qual vai se definir o caráter nacional alemão (…)” (Salvadori, 2011, p.151). Na Holanda do século XVII, por exemplo, podemos perceber uma aproximação dos intelectuais, entre eles pastores da classe nobre.

Diante dessas mudanças, Norbert Elias analisa a importância dos manuais de civilidade como meio educativo de promover o refinamento da conduta dos indivíduos. Desde a antiguidade, já existiam manuais sobre boas maneiras. No século XIII, por exemplo, existiu uma manual sob autoria de Catão que inspirou outras obras sobre boas maneiras.[8] Tais instruções, já nessa época já eram usados para instruir noviços em mosteiros ou  jovens em colégios.

Segundo Elias, a importância de moldar a postura do indivíduo se dá porque “A postura, os gestos, o vestuário, as expressões faciais – este comportamento externo (…) é a manifestação do homem interior, inteiro” (Elias, 1994, v.1. p. 69). O manual de civilidade escrito por Erasmo de Roterdam intitulado de Civilidade Pueril, publicado em Basiléia em 1530, é um grande referencial, o qual é destinado ao ensino de crianças de todas as classes sobre as boas maneiras. Foi amplamente divulgado em toda a Europa sendo traduzido em diversas línguas. A partir dessa obra, o conceito de civilidade ganhou nova força, a partir da necessidade social da época em que foi escrito. Nele encontramos instruções sobre como comportar-se a mesa, no quarto etc. Elias faz uma interessante comparação, no volume um de O processo civilizador, entre as instruções medievais e as dos séculos posteriores, mostrando que com o passar do tempo foi sendo injetada nos indivíduos a ideia de pudor, de vergonha a determinados comportamentos. Esses manuais foram promovendo cada vez mais um autocontrole das compulsões, das paixões.

O PROCESSO QUE LEVOU O MONOPÓLIO DA EDUCAÇÃO PELO ESTADO E O PAPEL DA IGREJA

O tema até aqui discutido, portanto, nos leva a outro assunto que versa sobre o processo que levou o monopólio da educação por parte do Estado. Tal assunto será de fundamental importância para entendermos melhor o trabalho catequético entre os índios pelos predicantes europeus durante a invasão holandesa em Pernambuco.

Esse processo também deve ser entendido também em uma perspectiva de longa duração. Segundo Cyhthia Greiv Veiga, em seu artigo Monopolização do ensino pelo Estado e a produção da infância escolarizada, a monopolização da educação por parte do Estado está, também, estreitamente relacionada à formação dos estados nacionais. No período anterior a essa formação, a Igreja, mais especificamente a igreja local, conseguiu ter o controle sobre a educação até o século XII, sendo forçada a dividir esse espaço com as corporações universitárias que, lentamente, começavam a ganhar espaço nesse setor, apesar de que para fundação de uma universidade era necessário à autorização papal. Porém, com a reforma protestante as igrejas, tanto a católica como a romana, voltaram a ter a hegemonia nos espaços educacionais. Segundo Veiga

Os colégios católicos e protestantes surgiram como espaços privilegiados de homogeneização da sua cultura religiosa e dos saberes demandados pela pequena nobreza e burguesia para a sua ordenação social. (…) A interferência da Igreja foi decisiva para a difusão da escolarização, principalmente dos jovens, na medida em que ela centralizava a administração e os funcionamentos das instituições escolares. (Veiga, 2007, p.2).

Vale destacar também, que nesse período as universidades, diferentemente no século XII, passaram a ser um grande veículo de difusão das novas crenças religiosas e de seus valores. Por isso, foram sendo administrada pelas igrejas[9].

Com a formação dos estados absolutistas, porém, vemos que para se fundar uma universidade não já era necessária a tal autorização papal, dando, assim, início ao monopólio da educação pelo Estado. Segundo Veiga

Antes de tudo, faz-se necessário ressaltar que a monopolização do ensino pelo Estado é evidentemente, decorrente da própria formação do Estado. A monopolização dos tributos é pré-condição para o financiamento da escola e para a sua universalização. Por sua vez, a monopolização da violência engendrou profundas alterações nas condutas, alterou a relação com o conhecimento, produziu demandas de novos saberes. O acúmulo destas experiências associada à consolidação do Estado como forma monopolista de governo, foram fatores que produziram manifestações da necessidade de redimensionar a organização da educação na direção de sua monopolização pelo Estado. (Veiga, 2007, p.7).

A igreja, tanto a católica como a protestante, tinha grande influência nos colégios, ensinando filhos dos nobres e burgueses – não levando em consideração as diferenças desse processo em diferentes locais – onde aprenderiam regras de civilidade, dança e esgrima[10]. Os saberes elementares, no entanto, ficavam para segundo plano[11]. De acordo com Veiga, poucas instituições eram especializadas nesses saberes. Vemos até aqui, portanto, que o papel das igrejas foi de fundamental importância para divulgação dos valores das religiões católica e protestantes.

A partir do século XVIII, a laicização do ensino ganhou um novo e significante impulso, principalmente com a emergência do iluminismo. Nesse momento, a importância da Igreja na educação é questionada. Segundo Veiga, “De fins do século XVIII em diante, a crescente divisão do trabalho e o estabelecimento de novas relações de interdependência criam as condições para a monopolização da escola elementar pelo Estado” (Veiga, 2007, p.4). A partir desse momento, portanto, o monopólio da educação por parte do Estado fica mais forte. Só para exemplificar, temos o caso aqui no Brasil no século XVIII, quando o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas, os quais tinham o grande papel na educação, substituindo-os por professores seculares.

Feita essa síntese do processo civilizador defendido por Norbert Elias, e discutido de forma sintética o processo que levou o monopólio da educação pelo Estado, pretendo agora analisar as práticas de evangelização por parte dos predicantes neerlandeses que de alguma forma tentaram injetar, através da educação, na vida dos índios não só a religião calvinista, mas também os valores civis que orientavam a vida social holandesa no século XVII. Será interessante analisarmos como a Companhia das Índias Ocidentais e o governo do Brasil Holandês se beneficiou desse trabalho para conseguirem a submissão indígena aos holandeses.

O corte cronológico desse trabalho catequético, portanto, está inserido no momento em que a igreja protestante neerlandesa tinha certa hegemonia no setor educacional, período este já discutido nesse último tópico.

A EVANGELIZAÇÃO NO BRASIL HOLANDÊS

Figura 2 – dança tapuia – Albert Eckhout – http://funaialagoas.blogspot.com.br/

Nesta parte do presente artigo pretendo analisar como o trabalho catequético entre os índios foi benéfico para o governo do Brasil Holandês, uma vez que este procurava transformar aqueles em seus súditos. Para isso, delegaram tal responsabilidade á Igreja Reformada em contraposição ao trabalho dispensado anteriormente pelos jesuítas, os quais nesse período foram expulsos. Nesse trabalho evangelístico será interessante verificar a “injeção” dos valores civis que acompanhavam a pregação, promovendo entre os índios a civilidade, conceito que, segundo Elias, estava ganhando força nesse período, a partir do conceito que intitulava o trabalho de Erasmo de Roterdã.

Os holandeses sempre procuraram tratar amistosamente os índios, tentando criar laços de amizade que favorecessem seus interesses na América portuguesa. Após o fracasso da invasão e conquista da Bahia em 1624, os holandeses foram obrigados a retornar a Holanda em 1625. Uma das frotas que chegaram para reforçar o contra ataque na Bahia, comandada pelo comandante Boudewyn Hendricksz[12], chegou tarde demais para o confronto e teve que regressar indo para o norte aportando na Baía da Traição. Ali, os holandeses ficaram durante seis semanas mantendo relações amistosas com os índios locais, os potiguaras. Após esse curto período, ao perceberem que os navios holandeses estavam deixando a Baía, seis índios jovens conseguiram penetrar nos navios e embarcar para a Holanda, onde aprenderam a língua holandesa e se tornaram cristãos reformados[13], a custo da Companhia. Entre esses que conseguiram entrar nos navios e se tornaram cristãos reformados encontra-se Pedro Poty e Antonio Paraupaba. Tornaram-se, posteriormente funcionários da Companhia das Índias Ocidentais servindo como intérprete.

Após capturar uma frota em 1628 que saía da Ilha de Cuba com destino à Espanha, cujos lucros foram fundamentais para os cofres da Companhia, os holandeses decidem invadir novamente o Brasil, agora atacando o centro econômico da colônia portuguesa: a capitania de Pernambuco. Em 1630, os holandeses aportam em Recife dando início a um período peculiar da história brasileira.

Para conseguirem o apoio e a amizade dos índios – mais especificamente os tupis e os tapuias (tidos como os mais violentos) – os holandeses desde o início da invasão a Pernambuco, isentaram os índios de qualquer tipo de sujeição, isto sendo decretado por lei.

Com o invasor, porém, veio também a Igreja reformada que era tida como a igreja do Estado. Segundo o historiador Frans Leonard, especialista sobre a fé reformada no Brasil holandês

Com a invasão dos holandeses chegou a Igreja Reformada. Ela não nasceu da semeadura da pregação, mas foi transplantada como uma muda. À semelhança de todos os aspectos da vida holandesa, também a igreja foi transplantada para o Brasil. (Schalwijk, 2004, p.93).

Entretanto, apesar dessa relativa efemeridade da presença da igreja reformada no nordeste brasileiro – uma vez que a Igreja foi expulsa juntamente com o invasor – não podemos negligenciar o seu trabalho catequético entre a população local, principalmente entre os indígenas.

Como já dissemos anteriormente, a Igreja nesse período tinha um domínio no setor educacional em vários estados nacionais que estavam se formando na Europa. Não foi diferente nos Países Baixos, especificamente na Holanda. Segundo Frans Leonard,

O ensino básico foi generalizado, e o número de analfabetos nos Países Baixos diminuiu. Não havia família evangélica que não lesse a Bíblia na língua vernácula e cantasse os salmos de Davi. Muitos estudavam o Catecismo de Heidelberg com seus filhos. Nas cidades maiores existiam as “escolas latinas” e todas as províncias procuravam ter sua própria universidade. (…) As universidades haviam sido fundadas primariamente para a formação de pastores, e a maioria dos ministros que serviram no Brasil Holandês (1624 – 1625 e 1630 – 1654) havia recebido sua formação em uma dessas faculdades teológicas. (Schalwijk, 2004, p.38).

Diante disso, percebemos também que esse predomínio eclesiástico no setor educacional não servia só para a difusão da religião reformada, mas também um meio de difundir valores éticos, uma vez que a crença reformada nos Países Baixos estava calcada aos moldes do puritanismo holandês que por sua vez recebeu grande influência do puritanismo inglês. Essa doutrina, segundo Frans Leonard, “Era uma renovação do impulso da reforma ética, iniciada pela Reforma Protestante, uma aplicação da velha regra cristã que reconhece a Bíblia como norma credendi et agendi, a norma para fé e comportamento”. (Schalwijk, 2004, 42). Vários ministros da Igreja Reformada Neerlandesa receberam grande influência da teologia puritana ensinada em Cambridge[14].  Essa influência, portanto, atingiu gerações posteriores de ministros neerlandeses, como o pastor Petrus Gribius, que trouxe para o Brasil Holandês esse puritanismo[15]. Aliás,

A influência puritana já era patente nos pregadores da baía de Todos os Santos, sendo um dos mais destacados entre eles o rev. Jacobus Dapper, que posteriormente trabalhou no Recife. A meditação do professor Voetius sobra a verdadeira “prática da piedade” deve ter influenciado muitos pastores no Nordeste: na vida diária deve-se “andar com Deus”, com o Deus da “Aliança da Graça revelado em Jesus Cristo. Na realidade, isso representava também o próprio pensamento do conde de Nassau. Domingos Ribeiro tem razão ao afirmar que a Igreja Reformada no Nordeste era de linha puritana. (Schalwijk, 2004, p.141 e 142).

Portanto, analisar o trabalho de catequese entre os índios por parte dos predicantes que aqui vieram deve ser analisada sob essa perspectiva de uma conversão não só religiosa, mas também no comportamento ético. Para isso, um grande número de livros que foi elaborado a fim de propagar essa religião civil. Podemos citar, por exemplo, Piedade a Ser Combinada com ciência e Prática da Piedade do pastor Giusbertius Voetius. Obras como essas, que relacionam a religião com a civilidade deveriam estar entre os livros da Companhia com destino ao Brasil para fundamentar a catequese entre os índios. Destaca-se também a tentativa de se elaborar um possível catecismo trilíngue (em tupi, holandês e português) o qual não foi publicado por questões políticas e teológicas[16].

Portanto, era interessante para o governo do Brasil Holandês usar esses métodos catequéticos para pacificar os índios e controlar o suas atitudes violentas, principalmente as dos tapuias. Segundo Frans Leonard, “Quanto ao governo, não há dúvida de que, em si, procurava a evangelização dos índios, para tê-los também como súditos” (Schalkwijk, 2004, p.214). Não é por menos que o próprio Nassau, perto do seu palácio, mantinha uma aldeia de índios tupis que se localizava perto do atual templo católico das Graças (Schalkwijk, 2004, p.210). Segundo esse mesmo historiador, o governo tinha uma dupla motivação para tal evangelização que seria ao mesmo tempo política e religiosa (Schalkwijk, 2004, p.214), apesar de que esses dois aspectos carregavam outros também, como o linguístico, o social, o econômico, o estético, o jurídico, o ético (Schalkwijk, 2004, p.216). A catequese, portanto, era vista como uma forma de moldar o índio aos padrões sociais exigidos pela sociedade holandesa.

Havia, portanto, um grande interesse da Companhia em enviar missionários com intuito de educar os índios na ética defendida pelo estado holandês. Seria uma tentativa de criar, no Nordeste brasileiro, um espaço comum entre holandeses e índios, cuja religião reformada era o elemento unificador. A partir de uma afirmação de Durval Muniz de Albuquerque Jr., citada no artigo A Igreja potiguara: a saga dos índios protestantes no Brasil holandês da professora Francisca Jaquelini de Souza Viração, entendemos esse espaço como

A prática que se dá ao sentido de um lugar, segundo Michel de Certau e que nascem da adoção de posturas, desde corporais até políticas e estéticas. Os espaços são posturas, são posições que imobilizam por dado tempo, mas que se desfazem num outro momento de cambaleio e de vacilação de forças que sustentaram estas posturas. (Viração, 2010, p.11)

Portanto, deduzimos que a intenção da Companhia era incluir os índios nesse espaço comum, por meio dos eclesiásticos reformados que trabalhavam pela Companhia, uma vez que a Igreja e o Estado estavam unidos nessa tarefa – apesar de que este tinha, no caso holandês, a supremacia sobre aquela[17].

Porém, só foi em 1638 que medidas foram adotadas visando à criação e a implementação de métodos educacionais para a instrução religiosa e civil aos índios. Segundo o grande historiador sobre o Brasil holandês, José Antonio de Gonçalves de Mello,

(…) o Conselho dos XIX lembrava o meio mais fácil para a catequese: que os predicantes estudassem o tupi para então instruírem os índios na sua própria língua, devendo, também, ensinar aos jovens brasilianos a língua holandesa e “as nossas maneiras civis”. (Mello, José Antonio Gonçalves de. Tempos dos flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e cultura do Norte do Brasil. Ed. Massangana, 1987, p.211)

Figura 3 – aldeia missionária no século XVII, por Zacarias Wagner

Já havia, no entanto, projetos catequéticos que foram anteriormente analisados. Um deles, apresentado pelo Conselho político em 1635, propunha “o envio de 25 meninos índios a estudar na Holanda e sugeriu que igual número de órfãos holandeses fossem remetidos para o Brasil para aqui se aperfeiçoarem no estudo da língua portuguesa, difundindo por intermédio deles a religião reformada” (Mello, 1987, p.211). Outro, proposto pelos Conselheiros políticos de Pernambuco[18] em 1636, visava canalizar a ênfase evangelizadora entre crianças e jovens indígenas, internando-os em colégios[19], longe do convívio dos pais, uma vez que os adultos eram, segundo a análise dos predicantes, mais propensos a retornarem as suas antigas práticas religiosas. Para supervisionarem tais escolas, o projeto defendia a idéia da vinda de famílias holandesas que tivesse a responsabilidade de ensinar os jovens índios. O objetivo desse método seria, segundo Mello “(…) um ensino leigo durante um certo período, no qual os meninos aprenderiam a ler e a escrever, aprendendo, também, os chamados ‘costumes civis. (Mello, 1987, p.213). Porém, o projeto nunca foi colocado em prática.

Para os predicantes, a melhor maneira para se evangelizar os indígenas era trazê-los para a cidade. Porém, o governo não aceitou tal proposta, enviando mestres-escolas para as aldeias. Um dos grandes personagens[20] que se destacou durante a missão indígena foi o missionário David Van Doorenslaer, cujos resultados animavam tanto a igreja como ao governo. Esse missionário trabalhou na aldeia Maurícia, na Paraíba. O desenvolvimento da missão proporcionou o “brasiliamento” do ensino entre os índios, ou seja, os próprios índios passariam a ensinar os seus pares. Os resultados da missão naquela aldeia da Paraíba entusiasmaram tanto Doorenslaer, que este pensou em fazer dessa aldeia um seminário e os índios que viviam ali, em teólogos (Mello, 1987, p.219).

Porém, os resultados não foram tão favoráveis assim, uma vez que os índios retornavam facilmente para as suas antigas práticas religiosas. Para isso o governo pensou em modificar a orientação da catequese. Essa mudança consistiria

(…) em vez de levarem a palavra de Deus e a instrução aos índios já adultos pareceu-lhes mais acertado instruir os jovens desde cedo: o espírito seria formado dentro dos preceitos da religião cristã e a aceitação dos “costumes civis” (“borgerlycke manieren”) mais facilmente seria realizada. (Mello, 1987, p.220).

Seria uma reavaliação daquela proposta de 1636. Para, isso seria necessário separar os filhos dos pais para serem instruídos em escolas, onde aprenderiam a religião cristã, artes úteis, trabalhos manuais e arte de guerra praticada pelos holandeses (Mello, 1987, p.220). Para serem usados como escolas, antigos conventos seriam utilizados para esse fim. O convento de Maurícia foi o escolhido.

Porém, esse método educacional provocou a insatisfação dos pais indígenas que não queriam a separação dos seus filhos. Segundo Mello, isso “(…) foi a gota d’água que fez transbordar a paciência e a resignação dos índios aos maus tratos e à exploração dos flamengos com relação a eles.” (Mello, 1987, p.222), as quais ainda existiam, mesmo sendo ilegal. Devido a isso, o trabalho catequético foi, aos poucos, sendo abandonado[21], sendo ameaçada e entrada em declínio no período que começou com a saída de Nassau culminando na restauração pernambucana.

Podemos levantar alguns questionamentos se o trabalho evangelístico dos missionários entre os índios produziram de certa forma um maior refinamento em seus comportamentos. De acordo Frans Leonard, a avaliação difere segundo cada observador ou pesquisador. Podemos citar, entre outros, um exemplo citado por Leonard, a de

(…) José Carlos Rodrigues, diretor do Jornal do Comercio, com uma opinião positiva: “inteligentes, bem educados e de uma dedicação sem limites, o governo era devedor dos pastores, que prestaram grande auxílio na consolidação da colônia, sobretudo pelo zelo missionário entre os índios, que sabemos ficaram muito afeiçoados aos holandeses”. (Schalkwijk, 2004, p.276)

E outro, citado pelo próprio Leonard foi

Gama, em suas memórias, afirma que “alguns missionários holandeses se esforçaram em inspirar-lhes a crença luterana, mas essas fadigas apostólicas poucos resultados felizes tiveram. A ímpia teologia de Lutero não podia suprir as cerimônias sacrossantas do catolicismo, que ligam e cativam o povo”. (Schalwijk, 2004, p.276).

Quanto ao apoio dos índios podemos deduzir, de acordo com a bibliografia usada, que os holandeses foram em parte felizes. Para exemplificar isso, basta citar o índio reformado Pedro Poty que foi capturado e morto pelo lado dos insurretos, mantendo-se fiel ao lado holandês; e Antonio Paraupaba, que com o encaminhamento da vitória dos insurretos, refugiou-se no sertão do Ceará, onde se formou uma espécie de “Quilombos dos índios” (Schalwijk, 2004, p. 258), e onde enviou cartas (“remonstrancias”) à Holanda pedindo que daí fossem enviadas tropas de auxílio aos índios fiés ao lado holandês. Porém, quanto à tentativa de injetarem nos indígenas o comportamento ético inerente ao puritanismo holandês, podemos deduzir que os missionários não foram completamente contemplados. Como exemplo disso, temos o próprio Pedro Poty, que ao absorver maus hábitos, fruto de um contato com holandeses que não tinham um comportamento desejável, caia frequentemente na bebedeira.

CONCLUSÃO

Podemos concluir, portanto, que a igreja, tanto a católica como a protestante, na fase anterior ao surgimento do iluminismo no século XVIII, teve um papel fundamental na propagação da civilidade – conceito que ganhou seu significado com a obra de Erasmo de Roterdã, intitulado Civilidade Pueril – através da educação. Como foi discutido, anteriormente, vemos que a Igreja reformada teve um papel fundamental na tentativa de injetar esses valores civis nos índios do nordeste brasileiro durante o período da invasão holandesa ao Brasil no século XVII, em uma época em que ela tinha uma grande influência no setor educacional.

BIBLIOGRAFIA

Elias, Norbert. O processo civilizador, volume 1: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994;

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Zimmermmann, Tânia Regina. Apontamentos sobre civilização e violência em Norbert Elias. Artigo publicado pela Revista História em Reflexão: Vol. 2, n. 4 –Dourados Jul – Dez 2008


[1] Trabalho realizado para disciplina O processo civilizador na Idade Moderna.

[2] Aluno da graduação de História da UFPE, 6º Período.

[3] Salvadori, Philippe; Sales, Veronique (Org.). Norbert Elias, in. Os historiadores. Ed. UNESP, SP, 2011. P.146.

[4] Idem. P. 145

[5] Idem. P. 146

[6] Zimmermann, Tânia Regina. Apontamentos sobre civilização e violência em Norbert Elias. Artigo editado pela Revista História em Reflexão: V.2 n. 4. P.2

[7] Elias, Norbert. O Processo civilizador, Ed. Jorge Zahar, RJ, 1994, V.1

[8] PILLA, Maria Cecília B. A. Manuais de Civilidade, Modelos de civilização. História em Revista. v. 9, n. 2. Pelotas: UFPel, 2003

[9] Veiga, Cyhthia Greive. Monopolização do ensino pelo Estado e a produção da infância escolarizada. Artigo, p.3.

[10] Idem, p.4

[11] Idem, p. 4

[12] Schalwijk, Frans Leonard. Igreja e Estado no Brasil holandês (1630 – 1654). 3º Edição, São Paulo. Ed. Cultura Cristã, 2004. P.57.

[13] Idem, p.57

[14] Idem, p.42 e 43

[15] Idem, p.43

[16] Idem, p.265- 277

[17] A Igreja Reformada da Holanda estava submetida ao Estado. Isso quer dizer que a Igreja tinha uma liberdade moderada. Para ilustrar isso, tomemos alguns exemplos. Pastores que elaborassem sermões que feriam o Estado não recebiam salários e poderiam ser depostos, uma vez que os pastores eram considerados uma autoridade não só religiosa, mas também civil; e a disciplina eclesiástica não poderia interferir na política. A doutrina religiosa e civil defendida pelo estado era aquela defendida pelos gomaristas em contraposição ao arminianismo que defendia a submissão da Igreja pelo Estado. Mas isso não quer dizer que o Estado exercia sua autoridade livremente sobre a Igreja. Para um melhor entendimento sobre esse assunto, ver o já referido livro do historiador Frans Leonard Schalkwijk, p. 39 – 42; 282e 283.

[18] Mello, José Antônio Gonçalves de. 2004, p.214.

[19] (…) nessas escolas eles teriam alimentação e aí dormiriam, proibidas as saídas, exceto aos domingos, quando, iriam a igreja, salvo se houvesse possibilidade de, no mesmo local, realizarem as suas práticas religiosas. Aos pais seria consentido visitar os filhos na escola uma vez por semana ou uma vez cada 14 dias. Todos os filhos dos brasilianos estariam obrigados a frequentar essas escolas, sem exceções, e nelas às esposas e aos filhos dos mestres não seria permitido o uso de outra língua senão a holandesa, para que os educados a aprendessem; (…) Ainda aí os meninos estudariam as letras do alfabeto, a soletrar e finalmente aprenderiam a ler e escrever; as orações ser-lhes-iam ensinadas desde o começo em holandês, a saber, agradecer a Deus, a profissão de fé e os dez mandamentos, as rezas da manhã e da noite e a cantar salmos antes e depois das refeições. (Mello, 1987, p. 212). É interessante também, observarmos que havia uma preocupação no ensino do decálogo, que contem um conteúdo que visa um autocontrole.

[20] Vale destacar alguns nomes de missionários. Além de David Van Doorenslaer, participaram da missão indígena: Johannes Eduardus; Thomas Kemp; Dionísio Biscareto; Gilberto de Vau; Johannes Apricius. Sobre o trabalho de cada um desses missionários, ver o capítulo 8 do livro já referido de Schalkwijk, especificamente a parte Pastores Missionários.

[21] Mello, José Antônio Gonçalves de. 2004, p.223

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 16 out 2012 @ 07 26 PM

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02 de dezembro de 1870



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