Lambe-Sujo: um imaginário coletivo que rememora as interações entre índios e negros.

Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH

Departamento de História

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

“LAMBE-SUJO”: UM IMAGINÁRIO COLETIVO QUE REMEMORA AS INTERAÇÕES ENTRE INDÍGENAS E NEGROS.

Keli Mª Rodrigues da Silva

kelirodrigues.ufpe@gmail.com

RESUMO

Artigo referente à disciplina “Tópicos especiais do Nordeste Brasileiro”, ministrada pelo professor Severino Vicente da Silva, na Universidade Federal de Pernambuco. Este artigo tem como tema principal apresentar o folguedo “Lambe-Sujo” que acontece no município de Laranjeiras – Sergipe, afim de compreender, em certa medida, como se deu sua construção baseada no contexto histórico de uma relação dinâmica entre grupos indígenas e negros escravizados, e como acontece sua rememoração e recepção pelo olhar dos brincantes. Tem sua importância pois refere-se a um evento rico no que tange ao seu peso histórico carregado de culturalidade e tradição no Nordeste brasileiro. A metodologia utilizada foi a pesquisa teórica, (livros e artigos que estudam tanto o folguedo em si quanto o que permeia ele, ou seja, o seu contexto histórico, vinculado ao Nordeste Brasileiro) e também pesquisa realizada online, através de um questionário, com alguns brincantes desse evento.

Palavras-chave: lambe-sujo; indígenas; negros; nordeste; brincantes;

Recife/PE, 2019

  1. INTRODUÇÃO

Uma percepção sobre o Nordeste

“O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente, originada por uma tradição de pensamento, uma imagística e textos que lhe deram realidade e presença.”[1]

Em sua obra A invenção do Nordeste, Durval Muniz se propõe a apresentar não O Nordeste ou UM Nordeste, mas vários Nordestes, criados, recriados e ressignificados ao longo da História, ora atendendo tão somente aos interesses das classes dirigentes, ora “favorecendo” a população, como é o exemplo do Nordeste como ponto turístico. Nessa perspectiva, existe o nordeste geográfico, o Nordeste como território de revoltas, miséria e dor e um nordeste repleto de sentimentalidade, ancestralidade, cultura e história. E é sobre esse último que irei me debruçar.

Durval Muniz ao discorrer sobre o Nordeste, dentre tantas considerações, aponta-o como lugar de cultura e tradição, lugar esse construído ou como ele diz “inventado” com a finalidade de perpetuar privilégios e lugares sociais ameaçados. Utiliza-se do elemento folclórico para permitir a criação de novas formas de reverberar antigas maneiras de ver, dizer, agir, sentir, colaborando para a invenção de tradições.

Há um emaranhado de realidades pessoais que são também históricas, políticas e econômicas, costumes e práticas que compõem o que chamamos de Nordeste. É a obliteração dessa pluralidade que acaba por sistematizar a noção de um nordeste que nasce por vias de um processo linear e ascendente. O Nordeste é construído em cima de práticas que já se estabeleciam nesse espaço regional: o combate à seca, o combate violento ao messianismo e ao cangaço, e os conchavos políticos das classes dirigentes afim de manter privilégios. Outrossim, o Nordeste também surge como fruto de uma série de discursos que vão afirmando uma simpatia, e dando origem a um conjunto de saberes de caráter regional. Sobre essa escolha de discursos:

Aprendemos com Foucault que todo discurso pertence a uma dada ordem discursiva que deve ser analisada, isto é, todo discurso segue regras cultural e historicamente estabelecidas, obedece a modelos, está implicado em dadas relações sociais e de poder que o incitam a dizer algumas coisas e o proíbem ou o limitam de dizer outras.[2]

O movimento cultural que se inicia com o Congresso Regionalista de 1926, que marca o Nordeste como espaço de identidade, tendo Gilberto Freyre à frente e a geração de romancistas – José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos etc.,  produz um trabalho que objetiva legitimar o recorte Nordeste, instituindo uma origem para a região. Busca-se na retrospectiva histórica regional, dar à região um estatuto universal e histórico. Gilberto Freyre insere a existência do Nordeste como um dos fatores da formação da consciência nacional, para ele a região veio antes da nação. Antes de serem brasileiras, as pessoas se denominavam pernambucanas, paraibanas, baianas, etc. devido, segundo Freyre, às revoltas, a invasão holandesa, a insurreição pernambucana entre outros acontecimentos. A legitimação do recorte regional se dá com argumentos históricos em detrimento dos argumentos naturalistas.

A identidade regional tendo sido construída, entre outras coisas, em cima da invenção de tradições, permite conectar memórias individuais e coletivas encontrando uma origem que religue os homens do presente a um passado carregado de significado, e que dá sentido a existências cada vez mais tidas como insignificantes. Uma região que se constrói pela memória provoca o aparecimento de um passado com toda sua alegria de redescoberta, e a consciência de um tempo perdido, uma vez que se rememora infâncias ressaltando as relações sociais e suas complexidades. E que em certos momentos é a causa de saudosismo de tempos generosos, causando um sentimento de superação, de ser o que o passado não foi, de dar visibilidade a quem não tinha ou até de observar o movimento contrário ao enxergar grupos que eram senhores de sua história serem apagados.

Nordeste onde a mistura de sangue confundiu espíritos e papéis sociais [3]:

“Há no meu sangue:

três moças fugidas, dois cangaceiros

um pai de terreiro, dois malandros, um maquinista

dois estourados.

Nasceu uma índia,

uma brasileira,

uma de olhos azuis

uma primeira comunhão.”[4]

Definir o Nordeste é algo complexo que deve estar submetido ao momento histórico e a quem está falando. Muitos romancistas, historiadores e sociólogos falaram e definiram o Nordeste, alguns divergindo entre si outros convergindo, não se pode afirmar quem está certo ou errado, são visões, ideias de pessoas diferentes em momentos históricos diferentes, com suas próprias vivências e subjetividades e que falam de lugares distintos. “Os discursos e pronunciamentos ganham um novo estatuto, não só como fonte histórica, mas como material que requer sofisticados procedimentos de análise e de crítica historiográfica[5]”, para entendermos as concepções de Nordeste devemos submeter a análises críticas, as falas e as escritas sobre ele

A sociedade brasileira foi caracterizada por Gilberto Freyre pela miscigenação racial [6] e pela cultural como consequência. É no campo cultural que ele buscará compreender nossa identidade como nação e a contribuição do que é de caráter regional na formação dessa identidade nacional.

Sou a mistura de raças e de homens, sou um mulato, um brasileiro. Amanhã será conforme o senhor diz e deseja, certamente será, o homem anda para a frente. Nesse dia tudo já terá se misturado por completo e o que hoje é mistério e luta de gente pobre, roda de negros e mestiços, música proibida, dança ilegal, candomblé, samba, capoeira, tudo isso será festa do povo brasileiro, música, balé, nossa côr, nosso riso, compreende? […] Ouça, meu bom, um dia os orixás dançarão nos palcos dos teatros. [7]

Assim afirma o personagem Pedro Arcanjo na obra de Jorge Amado, e diante da proporção que a cultura tomou no Brasil, no Nordeste e especificamente em Sergipe, sua fala está muito condizente com a realidade. O Nordeste foi inventado assim, como lugar cultural, de peso histórico e repleto de tradições e costumes que nós carregamos sem nos dar conta. Está tudo arraigado e sendo reproduzido por nós, o folguedo Lambe-Sujo é um bom exemplo disso.

  • Sergipe em breves palavras

As terras que hoje são conhecidas como sergipanas, antes da chegada dos colonizadores, eram habitadas por várias tribos indígenas. Além dos Tupinambás e caetés havia, Xocós (única tribo sobrevivente, que vive na Ilha de São Pedro, no município de Porto da Folha), Aramurus e Kiriris, nas margens do rio São Francisco e Jacaré; Aramaris, Abacatiaras e Ramaris, no interior, além dos Boimés, Karapatós e os Natus, sobre isso vale evitar a visão ingênua de que índio é uma coisa só, essas tribos eram diferentes no espaço, nos costumes, nas crenças e principalmente nas suas relações com os europeus: portugueses, franceses, holandeses; e com os africanos que chegaram. A colonização começou a partir da segunda metade do século XVI. Os primeiros a chegarem foram franceses em busca de pau-brasil, especiarias e algodão.

O território sergipano foi conquistado em 1590 por Cristóvão de Barros e, desde essa época, ficou sob a tutela da Bahia. Cristóvão de Barros conseguiu dominar a terra por meio do pior massacre de indígenas em terras sergipanas e dividiu as terras em sesmarias. Sergipe, durante quase dois séculos e meio, foi de capitania subalterna, dedicada a abastecer a Bahia com sua produção agropecuária. Dela, recebia as famílias dos dominantes, os encargos, autoridades e os produtos de seu comércio. Sergipe emancipa-se da Bahia em 8 de julho de 1820.  No século XVIII, o cultivo da cana-de-açúcar começa a se desenvolver em Sergipe, atividade econômica que logo enriqueceu e destacou o Vale de Cotinguiba, superando o comércio de gado, inicialmente base da economia da capitania. Chegaram também os primeiros escravos da África para trabalharem na lavoura.

A presença indígena é muito marcante na história do Estado de Sergipe, o Cacique Serigy (o primeiro herói nacional)[8] é um dos exemplos. Uma vez que o índio se mostrava muito arredio no contato com o europeu, provocando resistência à dominação e por consequência tendo suas terras expropriadas. Sergipe guarda em sua história e tradição muito das culturas indígena e negra e um dos mais ricos folclores do Brasil. São inúmeras as manifestações culturais que nos remetem ao passado e garantem, no presente, uma permanente interação entre as mais diversas comunidades responsáveis pela fundação do nosso país e continuidade de uma cultura que por muito tempo vem sido apagada. Compreender a realidade sergipana não é possível através de uma só pessoa ou grupo.

  • Laranjeiras, um município histórico e cultural

Depois que as tropas de Cristóvão de Barros arrasaram nações indígenas da região, por volta de 1530, muitos colonos se fixaram às margens do rio Cotinguiba, em terras que pertenciam à Freguesia de Socorro. A presença marcante dos jesuítas, que ergueram a primeira igreja e uma residência conhecida como Retiro às margens do riacho São Pedro – no Vale do Cotinguiba – foi decisiva para fixar definitivamente o povoado, inicialmente denominado Vila de Nossa Senhora do Socorro. Fundada em 1605, Laranjeiras é a segunda cidade mais antiga de Sergipe.

A partir de 1637, o pequeno povoado das Laranjeiras sofreu domínio holandês, durante o qual muitas casas foram destruídas. Entretanto, o porto – um ponto estratégico – foi preservado. Apenas por volta de 1645, os holandeses saíram de Sergipe.

Em Laranjeiras, além do vasto complexo religioso, que inclui 16 igrejas, o patrimônio cultural é preservado e apresentado ao público como forma de manutenção da história do estado. A cidade é conhecida como o berço da cultura negra de Sergipe e reúne um grande número de manifestações folclóricas, por diversas vezes divulgadas em nível nacional. A chegança, as taieiras, os lambe-sujos e os caboclinhos são algumas das expressões que atraem diversos curiosos e simpatizantes do folclore regional todos os anos para as festas realizadas na cidade. Segundo historiadores, o município só não se tornou a capital de Sergipe por conta de uma manobra política do Barão de Maruim, que transferiu a sede de São Cristóvão para Aracaju. As terras pertenciam a Freguesia de Socorro e naquela região foi construído um pequeno porto às margens do Cotinguiba, que ficou conhecido como Porto de Laranjeiras, onde escoava parte da produção da promissora região do Vale do Contiguiba. A movimentação pelo rio era intensa e, logo, o porto passou a ser parada obrigatória. Em torno dele, o comércio ganhava espaço, principalmente a troca de escravos.

O conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Laranjeiras foi tombado pelo Iphan, em 1996, devido ao valor arquitetônico e histórico atribuído ao conjunto. O tombamento ocorreu devido à sua importância no desenvolvimento da região, identificado pela presença do primeiro porto, além da expressividade e da força da arquitetura antiga, representada pelo casario do século XIX e pelo cenário monumental religioso do século XVIII. O município é um dos poucos onde ainda se pode ver a força da arquitetura colonial, onde se destacam ruas, igrejas e outras edificações. Na área tombada estão, aproximadamente, 500 edificações.

Laranjeiras localiza-se na região do Grande Aracaju:

  • DESENVOLVIMENTO

Antes de me debruçar propriamente sobre o folguedo, reconheço sua grandiosidade e saliento que não me proponho a fazer uma análise detalhada que engloba-o em sua totalidade. Proponho-me a contar um pouco do que aprendi lendo a respeito do lambe sujo e de aspectos históricos anteriores a ele, que em certos casos fogem, e em outros confrontam a realidade dos próprios brincantes contemporâneos (observaremos isso ao relacionar o evento às respostas obtidas através do questionário aplicado online), relacionando-os à temática do Nordeste apresentada na disciplina “Tópicos especiais do Nordeste Brasileiro.”

Compreendo a festa do Lambe Sujo como ação coletiva que implica, necessariamente, a ênfase dos sentimentos e emoções experimentados pelos participantes na representação de si e sobre sua cultura. Dessa forma, convivem de um lado o exagero, o grotesco, os insultos verbais e a comicidade, de outro, a rigidez, a disciplina e a austeridade na performance dos brincantes. [9]

  • O Folguedo e seu contexto histórico

A cidade de Laranjeiras protagoniza um teatro a céu aberto em alusão aos conflitos do século XIX entre negros trazidos da África ou fugidos da Bahia e indígenas, no Brasil escravocrata. O evento rememora as fugas dos negros escravizados e suas estratégias e artifícios para confundir os capitães do mato. A expressão “Lambe-Sujo” vem da camuflagem que os escravizados aplicavam sobre o corpo para facilitar sua fuga.

Lambe-Sujos e Caboclinhos é uma festa que existe há mais de cem anos, tendo se iniciado por volta de 1860, e que faz parte da história de Laranjeiras. Trata-se de dois grupos folclóricos unidos num folguedo ligados pelas manifestações guerreiras rítmicas. A manifestação popular engloba a rivalidade herdada dos elementos constituintes da sociedade brasileira: o índio, o negro e o branco. A produção bibliográfica a respeito de Laranjeiras como fonte da cultura sergipana está intrinsecamente ligada aos conflitos das três raças, na disputa por terras e na vasta produção açucareira baseada na servidão. Sobre essa disputa por terras em SE com os índios Xocó, José Maurício Andion Arruti [10] faz considerações:

O processo de partilha da fazenda de São Francisco coincide com o período de maior intensidade da luta Xocó, o que faz com que os novos proprietários, sentindo-se ameaçados pelo avanço da mobilização indígena e indiferentes aos antigos laços de patronagem e compadrio com as famílias do Mocambo, paralisassem, no ano de 1990, toda atividade que dependia de trabalhadores locais, principalmente a plantação de arroz na lagoa. Aparentemente, os proprietários reconheciam o perigo representado pelas relações de parentesco e aliança entre os Xocó e seus vizinhos, que criam não exatamente uma linha, mas uma larga zona de fronteiras entre dois grupos, permanente fonte de conflito e alianças entre eles. [11]

Sob essa ótica e levando em consideração a multiplicidade étnica dos indígenas já mencionada nesse trabalho, podemos observar uma interação complexa e diversificada entre negros e indígenas, que ora é de aliança e ajuda mútua, ora de conflitos por terras e interferência branca. Nesse sentido, o Folguedo Lambe-Sujo, realizado todos os anos no segundo domingo de outubro em forma de teatro, é encenado de forma a evocar o processo histórico e social contido nessa interação. A narrativa do festejo é descrita à luz das histórias da colonização portuguesa junto com suas ressonâncias e o encontro dos povos indígenas com a população africana cativa, com a intenção de transmitir saber social, memória e noção de identidade.

Ao se representar os lambe-sujos como irreverentes, em suas linguagens corporais e atitudes durante o evento pode-se relacionar uma analogia ao conceito do escravo rebelde, malandro:

A afirmação do negro preguiçoso e indolente era muito comum, caracterizando-se como uma prática rotineira de resistência ao trabalho compulsório e desumano nas lavouras, sempre que tinham oportunidade de escapar à vigilância, diminuíam o ritmo e até mesmo paralisavam a produção.[12]

No festejo simula-se nas ruas da cidade um combate, cujo motivo seria a invasão das terras indígenas pelos negros fugidos. O combate se desenrola em três atos durante todo o dia: 1. Alvorada festiva, 2. Saída do cortejo, 3. O combate final. Esses três momentos possuem especificidades que dramatizam seu enredo. Como já mencionado, o folguedo traz em sua essência essas relações entre os antepassados construtores da identidade regional e nacional, fato bem sugestivo cantado pelos Lambe-Sujos e caboclinhos no decorrer de sua performance:

“Tava capinando, a princesa me chamou

Alevanta nêgo, cativeiro se acabou:

Samba nêgo, branco não vem cá,

Se vier, pau há de levar!”

“Preto correu, caboclo pegou.”

[13]

  • O Folguedo e sua relação com os brincantes

Para compreender como se dá a relação e a recepção dos brincantes com o folguedo foi aplicado um questionário online, no qual obtive vinte respostas, que não objetiva generalizar as relações mas suscitar discussões a partir delas. Tais respostas iluminaram um pouco meu entendimento, agregando informações relevantes para essa temática.

85% das respostas (corresponde a 17 pessoas) afirmam participar do evento há muito tempo, vale destacar também a variedade etária dessas pessoas, constituindo o evento como algo múltiplo também nesse quesito. É importante apontar a participação assídua de crianças nesse festejo, ainda que os dados etários sejam restritos a adultos devido a limitação no alcance do questionário:

Gráfico 1

Destaca-se que a participação dos espectadores não fica apenas no campo da observação, mesmo que a grande maioria tenha se identificado como participante indireto (gráfico 2) isso não diminui o grau de envolvimento com o folguedo. Uma vez que os personagens o tempo todo estão interagindo com os brincantes através de brincadeiras irreverentes e etc.

Gráfico 2

Outra discussão relevante é a respeito da autodeclaração racial:

Gráfico 3

Esse tipo de pergunta tem uma importância muito grande pois:

O jogo entre os rótulos de índio e negro, não é a simples e direta manifestação de uma ancestralidade, mas resultado de um trabalho dialógico entre memória social, a análise de contexto e a capacidade de instituir-se como ator coletivo, tendo em vista o enfrentamento das estruturas de poder, que também são sempre estruturas de classificação.[14]

Ao fazer esse questionamento parti do pressuposto de que, levando em consideração a temática do folguedo, haveria uma quantidade significativa de negros e indígenas participando direta ou indiretamente, surpreendentemente das 20 pessoas que responderam nenhuma se identifica enquanto indígena. Uma explicação para isso pode se dar pelo contexto histórico de políticas de apagamento e inserção na categoria de subalternidade dos povos indígenas, ou até mesmo fruto da miscigenação e do genocídio acentuado já citados aqui, ocorrido em Sergipe. Sobre a perda dessa identidade, Maria do Rosário Carvalho [15] faz algumas considerações:

Parto do pressuposto de que, não obstante a singularidade de que se reveste cada caso particular, é possível pensar em um processo de reconstrução da indianidade concernente ao Nordeste, à área etnográfica do Nordeste, resultante não só dos constrangimentos históricos experimentados mas, sobretudo, do processo político contemporâneo, complexo e rico. [16]

Para os índios, por outro lado, a miscigenação e suas consequências fenotípicas, sociais e culturais parecem ter acarretado, em larga medida, um forte sentimento de redução da indianidade comparativamente aos chamados troncos antigos, dos quais seriam descendentes. [17]

Essa última também pode ser aplicada à quantidade significativa de pessoas se identificando enquanto pardas, pois têm-se uma minimização da negritude a partir da perda de traços fortes e marcados consequentes da miscigenação.

Outra questão levantada foi como se tomou conhecimento a respeito do folguedo, onde se pode observar a importância que é dada a ele, uma vez que se tem uma preocupação de perpassá-lo através das gerações, observa-se também a importância dele para a cidade, haja vista que as maiores respostas são de “relatos dos mais antigos e/ou desde a infância” e “conhecer por morar em Laranjeiras”:

Gráfico 4

Outras perguntas, relacionadas a origem do folguedo e seu significado para os brincantes, também foram feitas no questionário, afim de colher formas de pensamento do povo Sergipano em relação ao Lambe-Sujo, todas trazem o significado e a importância que o folguedo adquiriu, sendo reproduzido pelos brincantes, no decorrer desses anos em que é comemorado, materializando esse imaginário coletivo perpassado desde a infância. Alguns relatos: “é uma batalha entre os negros e os índios”, “é algo cultural”, “teatro a céu aberto que une a cidade inteira”, “algo folclórico”, “história na época da escravidão e os índios no tempo da colonização portuguesa”, “significa a herança deixada pelos ancestrais”, “identidade e memória”, “história do Estado.” Entre outros.

A partir da leitura dessas respostas pode-se observar o quanto está enraizado nesses brincantes os conceitos de cultura, cultura regional, ancestralidade, tradições e etc. Concluo que há uma influência da concepção de Nordeste apresentada no início desse trabalho, em eventos como o Lambe-Sujo. Trazendo esse sentimento de orgulho e admiração por parte de quem presencia.

Por fim uma última pergunta foi feita nos agregando ainda mais a respeito dessa relação dos brincantes com o folguedo. “Se você participa há muito tempo, houve mudança na forma como ele acontecia antes e agora? Quais?” Apesar de haver respostas que negam uma mudança no Lambe-Sujo, a maioria afirma que sim, o evento mudou, mudanças nas vestimentas, no envolvimento das mulheres, pois antes só os homens se caracterizavam como lambe-sujo, pequenas mudanças nos instrumentos e acessórios. Há também quem afirme que não se dá o devido espaço a esse evento como antes e que por causa dessas mudanças foi se perdendo a essência do evento.

Parto do pressuposto de que a cultura não é algo estático, mas dinâmico, aponto então que as chances de mudanças são muito grandes, principalmente em um evento centenário que alcançou muitas gerações distintas. Afirmo também que essas mudanças não necessariamente representam algo negativo, se mesmo diante de mudanças técnicas o objetivo seja o mesmo ainda carregado de simbolismos

Como prova do contínuo processo de construção cultural, a manifestação vem sucessivamente se repaginando em alguns aspectos, adequando a temporalidade da manifestação às demandas contemporâneas. Seja na abertura do grupo na dramatização no duelo entre caboclinhos e lambe-sujos, quanto na feitura das roupas que a cada ano vão tomando estruturas diversas. Gradualmente, a festa vai modificando seu sentido.[18]

  • CONSIDERAÇÕES FINAIS

A construção do Nordeste é voltada para a ênfase na memória construindo continuidades e tentando evitar rupturas. O Nordeste precisa de novas definições e novas imagens, as artes e a cultura podem e devem ajudar nesse processo de reformulação do imaginário pejorativo, e que reserva para o nordestino um lugar de segunda categoria. O folguedo aqui discutido nos leva a pensar a história de uma Região e de um Estado por outras perspectivas, nos permite enxergar a participação direta e efetiva de grupos que por muito tempo foram invisibilizados social e historicamente.

Não tratei do Lambe-Sujo enquanto peça teatral apenas, mas como fruto da ideia de um Nordeste cultural, histórico, carregado de ancestralidades e tradições. Busquei nas respostas de alguns brincantes encontrar como se dá a recepção desse evento e o que ele representa. Não me propus a estudar o folguedo em suas minúcias, há muito sobre ele a ser estudado e analisado, pois trata-se de um evento rico em simbologias e história.

Saliento a importância de estudar esse tipo de temática, afim de dar maior visibilidade ao folguedo, bem como ampliar as discussões sobre ele e sobre o Nordeste.

  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  • ALBUQUERQUE JR, Durval M. A invenção do Nordeste e outras artes. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2009
  • Org.CARVALHO, Maria Rosário. REESINK, Edwin. CAVIGNAC, Julie. Negros no mundo dos índios: imagens, reflexos, alteridades. Natal, RN: EDUFRN, 2011.
  • SILVA, Wagner G. Polifonia e Dialogismos Bakhtiniano na festa dos Lambe Sujos e caboclinhos de Laranjeiras/SE. São Cristóvão, 2012.
  • ANJOS, Alinny Ayalla. COLUCCI, Maria Beatriz. Lambe-sujos x caboclinhos: Teatro a céu aberto em Laranjeiras. 2012.
  • IBGE. Sergipe. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/se/historico. Acesso em: 3 dez. 2019.
  • REVISTA FÓRUM. Cacique Serigy: Primeiro Herói Nacional Indígena no Livro de Heróis da Pátria. Disponível em: https://revistaforum.com.br/blogs/mariafro/bmariafro-cacique-serigy-primeiro-heroi-nacional-indigena-no-livro-de-herois-da-patria/. Acesso em: 3 dez. 2019.
  • EXPRESSÃO SERGIPANA. Um pouco de Laranjeiras (SE). Disponível em: https://expressaosergipana.wordpress.com/2016/06/20/um-pouco-de-laranjeiras-se/. Acesso em: 3 dez. 2019.
  • IPHAN. Laranjeiras (SE). Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/357/. Acesso em: 3 dez. 2019.
  • SANTOS, Mesalas Ferreira. Performance e escárnio na festa do Lambe Sujo de Laranjeiras/SE. São Cristóvão, 2009.

[1] Durval Muniz de Albuquerque Jr. A invenção do Nordeste e outras artes. 2009. p. 79

[2] Michel Foucault, A ordem do discurso, apud; Durval Muniz de Albuquerque Júnior, História: a arte de inventar o passado, São Paulo, Edusc, 2007.

[3] op.cit. p. 97

[4] Jorge de Lima. Poemas Negros: Passarinho cantando. (trecho)

[5] op.cit. p. 243

[6] Ressalto que tenho conhecimento a respeito da complexidade e a problemática em torno desse conceito, uma vez que não me deterei a discuti-lo diretamente, compreendo que se deve observar com crivo a forma como Freyre o aborda.

[7] Jorge Amado. Tenda dos Milagres. p. 318

[8] O Cacique Serigy se destacou por ter liderado uma forte tropa indígena contra os invasores portugueses, por mais de 30 anos. Em 1590, após um mês de batalha contra uma esquadra de guerra, os portugueses conquistaram a cidade de Aracaju e dizimaram a tribo do Cacique Serigy. A inscrição do Cacique Serigy no livro dos Heróis da Pátria é um marco decisivo, não só rumo ao reconhecimento da contribuição dos povos indígenas para a história do Brasil, mas, principalmente, ao reconhecimento da vergonhosa negligência estatal em relação aos direitos dos povos indígenas.

[9] Mesalas Ferreira Santos. Performance e escárnio na festa do Lambe Sujo de Laranjeiras/SE. 2009. p. 15

[10] Historiador (UFF), doutor em Antropologia Social (Museu Nacional – UFRJ). Professor Dr. do Dep. de Antropologia, credenciado nos Programas de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) e em Ciências Sociais (PPGCS) da UNICAMP. Desenvolve pesquisas com comunidades quilombolas e povos indígenas, em especial sobre Políticas de Reconhecimento, Território, Memória e Educação. Recentemente tem desenvolvido pesquisas sobre povos indígenas em contextos urbanos.

[11] Negros no mundo dos índios: imagens, reflexos, alteridades – Agenciamentos classificatórios: identificação étnica e segmentação negro-indígena entre os pankaru (PE) e os xocó (SE). José Maurício Andion. p. 320

[12] Polifonia e Dialogismos Bakhtiniano na festa dos Lambe Sujos e caboclinhos de Laranjeiras/SE. Wagner Guimarães Silva. 2012. p. 33

[13] Escultura do Largo da Gente Sergipana, representando os Lambe-Sujo e Caboclinhos. Foto retirada da página do Instagram @focoaju.

[14] Negros no mundo dos índios: imagens, reflexos, alteridades – Agenciamentos classificatórios: identificação étnica e segmentação negro-indígena entre os pankaru (PE) e os xocó (SE). José Maurício Andion. p. 332

[15] Professora do Departamento de Antropologia e dos Programas de Pós-Graduação em Antropologia e Estudos étnicos e Africanos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA.

[16] Negros no mundo dos índios: imagens, reflexos, alteridades – De índios “misturados” a índios “regimados”. Maria Rosário de Carvalho. pp. 337-338

[17] Negros no mundo dos índios: imagens, reflexos, alteridades – De índios “misturados” a índios “regimados”. Maria Rosário de Carvalho. p. 340

[18] ANJOS e COLUCCI. Lambe-sujos x caboclinhos: Teatro a céu aberto em Laranjeiras. 2012.p. 2. Questiono se realmente há uma modificação de sentido, e em que medida ela se aplica.