Análise crítica do texto: Da Formação do Sertão ao Reinado do Baião

Análise crítica do texto: Da Formação do Sertão ao Reinado do Baião, escrito pelo prof. Severino Vicente da Silva

                                           Bianca Cruz dos Anjos

*Graduanda do 6º período em História-Bacharelado pela Universidade Federal de Pernambuco

O texto analisado propõe inicialmente abarcar a visão dos europeus quando chegaram ao litoral brasileiro, nesse contexto é descrito as belezas naturais pela as embarcações de Pedro Álvares Cabral. Essa descrição das paisagens naturais do litoral nordestino pode ser associada ao programa Expedições no Nordeste do programa TV Brasil, em que o documentário exibido em sala de aula pretendeu dá um maior enfoque na imagem do Nordeste como uma região litorânea de belas paisagens como um atrativo turístico, com terras férteis e grande efervescência cultural como elo de diversos povos desde a colonização.

Após todo processo de descobrimento e exploração das novas terras, do litoral nordestino, origina-se as misturas das raças processo mais conhecido como mestiçagem, sincretismo de raças que não surgiu de uma relação pacífica entre os diversos povos, pois houve o choque de culturas e valores, mesmo assim essa mestiçagem contribuiu para a pluralidade racial e cultural que formou a tradição de cada sociedade no Nordeste.

Explorando as terras do litoral nordestino e convivendo com as condições climáticas diferentes das regiões européias, o colonizador se adapta e reconhece quais são as melhores plantas a serem cultivados para a geração de riqueza a partir da exploração dos recursos naturais. Inicia-se assim o cultivo da cana-de-açúcar adaptável ao clima do litoral, quente e úmido, o plantio se estendeu em vastas áreas e isso trouxe uma nova forma de cultivo e geração de renda no Nordeste, as conseqüências dessa ampliação foram: a devastação de matas nativas, como os cajueiros e coqueiros a serem substituídos pela cana, a fixação dos europeus que se tornaram senhores de engenho que deu origem a uma nova classe e dinamismo econômico na região.

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Além dessa extensão para o cultivo de cana contribuindo para a ampliação das fronteiras, muitos indígenas foram expulsos forçadamente dos seus locais naturais, do litoral para o interior do Nordeste.

Então, se aprofundado além 10 léguas para o interior, o colonizador atinge o “desertão”- terminologia dada para uma área seca e com grandes dificuldades para a sobrevivência da sociedade a partir do cultivo agrícola devido aos problemas trazidos pelas estiagens. Contudo, as condições adversas não assustaram os europeus em busca de riquezas, a riqueza do “desertão” era os cursos d’água como ponto de fixação para o povoamento e espaço de pastoreio do gado nos períodos de estiagem. Com o tempo, essas terras se consolidaram como um elemento de guerra entre diferentes classes sociais, pois essas terras foram ocupadas pela criação de gado, em que os bois eram usados para gerar força para as moendas dos engenhos.

A população no “desertão” era composta por pessoas que vivenciavam de forma arraigada a tradição e a religiosidade em cada ação social, sobretudo no que se refere às expressões artísticas, como na dança, na criação das esculturas dos santos, o caráter da experiência da vida alcançada pelo tempo, principalmente sobre o conhecimento dos recursos naturais vindos do cultivo da terra, como: o tempo da chuva pra saber a hora certa de cada plantação e o tempo da colheita.

Na medida em que os europeus adentraram para o interior do Nordeste, especialmente no Sertão, surgiram choques de interesses entre indígenas e colonizador que resultou na criação de fazendas da Casa da Torre. Essa forte relação mesmo conflituosa mostrou que a mestiçagem com o nativo não ocorreu só no litoral.

Ao longo dos anos o “desertão” se transformou em Sertão devido à formação de povoados que mais tarde dariam origem a cidades em torno dos cursos d’água, além de ser um importante ponto de passagem de diferentes pessoas, como mascates e tropeiros que trafegavam por lazer ou para visitar seus familiares para no interior. Desses encontros no interior, no Sertão nordestino a imagem do vaqueiro tão falado em Os Sertões de Euclides da Cunha traz consigo a força do sertanejo, a cultura como conhecimento local desde as tradições indígenas, dentro desse assunto posso utilizar o documentário No Sertão Eu Vi de Kátia Maciel como uma produção cinematográfica importante para representar as questões econômicas, políticas e culturais em torno do Sertão, que mostra influência de povos exteriores na cultura nordestina, sobretudo nas expressões artística como as danças de Guerreiro, de São Gonçalo, os Caboclos e o Maracatu que se misturam e formam um mosaico de valores artísticos no Nordeste.

Vale salientar também que a criação de gado no interior do Sertão serviu como fornecedor de alimentos para a região de Minas Gerais. Com a extinção das Capitanias Hereditárias no final do século XVIII, a terra se torna um meio de mercadoria e servindo de atrativo para os europeus em um período que os países internacionais, sobretudo Inglaterra, estavam dinamizando seus setores econômicos com o advento da Revolução Industrial. Isso fez com que houvesse a diminuição da idéia de que a terra era um fator de status social, se torna uma peça fundamental de troca comercial e um espaço para geração de renda a partir de cultivo agrícola de produtos que mais eram requisitados no mercado na época, como o algodão e o couro, com isso muito terras do Sertão serviram de aporte produtivo desses produtos, além de aumentar a cultura do couro.

Todas essas mudanças no plano internacional, como a Revolução Industrial e a imposição do fim do tráfico negreiro pela Inglaterra fez com que o Brasil com muita resistência implantasse a Lei Eusébio de Queiroz proibindo o tráfico negreiro que atinge as questões sobre a substituição da mão-de-obra escravista por trabalhadores assalariados e o sistema de posse da terra que antigamente era regido pelas doações conhecidas como o sistema de sesmarias, tudo isso muda e passa a ter um enquadramento das terras nas leis de posse e arrendamento aplicadas pelo Estado. Essa intervenção pública nas terras do Sertão gerou conflitos entre os grandes fazendeiros, agricultores e o Estado, porque grande parte dessa população vivia da posse da terra sempre relacionada a grandes latifundiários, por meio de doações como forma de recompensa por um serviço prestado, em consideração de apadrinhamento, a cultura e a tradição sempre estiveram presentes no modo de lidar com as condições econômicas, a terra era monopolizadas pelas elites locais refletindo nas desigualdades sociais.

Muitas tentativas foram feitas por órgãos públicos para intervir nas calamidades da seca sofridas pelos sertanejos, mas o sucesso desses projetos não foram alcançados, pois a existência de desvio de verbas e a monopolização dos recursos nas mãos das elites locais trouxe a má distribuição da renda e o insucesso da assistência econômica e política no Sertão.Destarte, posso fazer uma correlação do assunto com aulas ministradas sobre a criação da SUDENE por Celso Furtado, superintendência que não obteve êxito na implantação dos programas de assistência econômica que pretendia aumentar o dinamismo econômico  da exploração das atividades agrícolas e instaurar um sistema de crédito para os sertanejos,porém a elaboração desses programas de auxilio só visava as elites locais,pois quem tinha condições de dinamizar suas produções era essa classe de latifundiários.Então, muitos projetos assistencialistas criados pelo Governo intensificaram a indústria da seca,porque os recursos oferecidos deveriam atender a massa populacional e não serem movidos de acordo com os interesses da elite econômica local.

Esse estereótipo do Sertão definida como terra violenta, da fome gerada pela seca que assola o gado e as plantações fragilizou e ainda fragiliza o sonho de melhoria de vida dos sertanejos criando um forte sentimento religioso, pela intercessão dos santos e apoiados na fé o povo resiste às adversidades da vida, isso mostra um lado messiânico da vida dos sertanejos que também é debatido e lembrado até hoje sobre a Revolta de Canudos com o beato Antônio Conselheiro.

O Sertão também é lembrado como terra desolada e violenta, dos cangaceiros que se eternizou a imagem de Lampião, no imaginário do vaqueiro que é forte, obstinado e vive entre os pés de mandacaru lutando pela sobrevivência do seu gado nos períodos de estiagem.

Muitas personalidades importantes criaram a figura social do Sertão como essa terra seca e de difícil condição para se extrair riqueza das atividades agrícolas, mas se for bem analisado, a questão não pode se limitar ao clima, mas as questões sociais e econômicas de como viabilizar os recursos oferecidos pela terra do sertão, que é fértil, mas precisa ser bem trabalhada principalmente com métodos de irrigação. Visto como uma terra formada por retirantes compelidos pela seca, imagem memorizada pela tradição oral do sertanejo e nas músicas de Luiz Gonzaga, nas histórias contadas pelos candangos como força operária e fundamental na construção de Brasília, a ilustração do Sertão nas imagens reproduzidas pelo filme Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha. Assim, o Nordeste, particularmente o Sertão vai sendo criado em cada período histórico na visão de cada região brasileira a partir das grandes personalidades e representações artísticas que instiga o nordestino, o sertanejo a procurar conhecer mais a sua identidade regional.

Dentro dessa discussão sobre criação cultural e transmissão de valores pela tradição, é importante esclarecer a noção dicotômica entre folclore e cultura e até mesmo cultura popular e cultura regional. Se pensarmos pelo lado da criação artística e expressiva do homem, toda construção de expressão pode ser traduzida como cultura e valores, então o termo folclore faz parte da criação social, da tradição popular, porque não considerá-lo algo diferente da cultura?.Sempre um conto de fadas, que na verdade também não passa de uma ficção criada pelos ditos populares e se assemelha ao folclore, é tomada como uma criação literária produzida fora da nossa cultura nacional, mas que é incorporada e considerada uma verdadeira forma de leitura que traz conhecimento que forma a cultura da criança, diferentemente das condições dada ao estudo do folclore, considerado como algo à parte para a construção da cultura.

Creio que a definição de cultura e a ramificação dela como nos seguintes tipos de expressões sociais: folclore, cultura popular e cultura regional, é causada por quem produz e veicula a cultura, tornando essa cultura como um ponto central a reger as demais formas de expressões em outras partes do país, tornando uma expressão artística como uma cultura popular, mas que só apresenta um interesse e gosto restrito de uma classe social.Cada região é lembrada e construída culturalmente por importantes nomes, no Sertão e em todo Nordeste, quem escuta e vê a imagem de Gonzaga realiza a associação entre a personalidade e a região.

Fazendo um breve comentário sobre a carreira de Luiz Gonzaga e sua influência para a construção artística do Sertão, percebi que a participação em uma gravação fonográfica na famosa gravadora Victor, no Rio de Janeiro, mesmo na condição de substituto de um sanfoneiro ausente, essa foi a oportunidade de Gonzaga explanar seu talento no Sudeste, depois de tantas peregrinações pelos programas de calouros nas rádios. Grande parte das obras de Luiz Gonzaga era direcionada ao consumidor do Nordeste, embora algumas de suas músicas e arranjos sonoros da sanfona têm boa repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Com a sua participação nos rádios e programas televisivos, os refletores estavam direcionados para o Rei do Baião, como era chamado pelos seus amigos músicos e admiradores da vertente proveniente da Bossa Nova e do Tropicalismo, como: Caetano Veloso e Gilberto Gil. Luiz Gonzaga foi uma personalidade importante na região Sudeste, levando seu gênero musical principalmente para o Rio de Janeiro e São Paulo, cantou para sua terra natal a nostalgias em seus versos, denunciou as calamidades e as proezas que também havia no Sertão.

A escola de samba Unidos da Tijuca não busca entender apenas a musicalidade e história do Sertão através de Luiz Gonzaga, a escola também procura apreender as influências desse cantor em sua região, influências dentro da Bossa Nova e no Tropicalismo, estilos musicais que o tornaram uma unidade nacional para o gênero do Baião. Então, a explicação para a escola de samba ter colocado em seu enredo a figura de Luiz Gonzaga está na busca do conhecimento sobre a influência dessa personalidade em sua região como construção de uma identidade musical a partir do sincretismo cultural entre a tradição do Sertão vinda do Xote e do Xaxado com relação ao samba.

Gonzaga surge, por um lado, na tensão entre uma região Nordeste em que persistia uma economia de grande fragilidade e insistiam em perdurar as relações tradicionais de poder comandadas pelas elites, de outro lado estava o desenvolvimento tecnológico do rádio e da indústria do disco no plano nacional brasileiro. Gonzaga cantou a seca, cantou a triste partida do povo nordestino para as terras do Sul, cantou a chuva, grande alegria do pobre agricultor sertanejo, cantou o verde da mata, a aridez do Agreste e as asperezas da caatinga, cantou também os rios, a fauna e a flora, cantou a geografia nordestina e homenageou as cidades.

Portanto, é preciso ver a cultura regional por uma visão interna das tradições vividas sem que haja o imaginário do Nordeste em torno da visão geral composta por outras regiões, é importante revelar os grandes nomes como: Lampião, Antônio Conselheiro, o vaqueiro e a cultura do couro, mas vale salientar que a região não resume a dois aspectos, como a visão de um Nordeste assolado e sofrido pela seca, e a outra visão de uma região de grande atração turística pelas belezas naturais como atração dos turistas, além de ter uma cultura autêntica e sincrética ao mesmo tempo, que chama atenção para as festas e gastronomia. Os problemas da seca não são apenas conseqüências do descaso público, essas questões também envolvem os poderes locais corruptos que aumentam a disparidade econômica social, então é importante olhar para as condições internas, entendê-las e procurar melhorá-las para que as ligações entre Nordeste e interesse do Estado brasileiro possam caminhar para o progresso juntos.