BONECOS GIGANTES – CARNAVAL DE OLINDA

Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH)

Departamento de História

Tópicos especiais da História do Nordeste

Ptof. Dr. Severino Vicente da Silva

Semestre 2019.2

A figura dos Bonecos Gigantes no carnaval de Olinda

Graduando: Victor Gabriel Soares de Lima Lacerda

3°período – História Licenciatura 

Recife, 2019

Sumário

I-Introdução………………………………………………………………………………………… Página 4

II- Os Gigantes……………………………………………………………………………………..Página 5

III- Os Bonecos Gigantes, sua tradicionalidade, e a sociedade carnavalesca olindense………………………………………………………………………………………………. Página 12

IV- Os Bonecos Gigantes e a Política em Olinda……………………………………… Página 17

V- A figura dos carregadores…………………………………………………………………..Página 18

VI- Conclusão…………………………………………………………………………………………. Página 20

Referências Bibliográficas……………………………………………………………………….. Página 20

I – Introdução

O presente trabalho busca evidenciar como foram constituídas e como são conduzidas atualmente as relações carnavalescas no que se refere aos Bonecos Gigantes, figuras que se tornaram símbolo do carnaval de Olinda. Primeiramente, é importante considerarmos que, atualmente, os bonecos, o carnaval e o frevo, tornaram-se componentes indissociáveis na conjectura da essência dos gigantes, é algo fundamental para que se haja tamanha proporcionalidade e reconhecimento dessa figura no meio cultural.

Sendo assim, também cabe aqui ser mencionado, a influência dos bonecos na construção indenitária da cidade de Olinda, não apenas no período momesco e sim, durante o ano inteiro, e que, mesmo com tanta magnificência atribuída, ainda assim, muitas vezes os indivíduos que estão conduzindo e os que conduziram esta identidade, não possuem seu devido reconhecimento.

Ademais, refletiremos como surgiram tais figuras, navegando por toda a história, buscando compreender as questões basilares e os moldes em que os bonecos se inserem nos dias atuais e como se deu a evolução destes, tanto fisicamente quanto organizacionalmente. É válido ressaltar desde já, que o estabelecimento dos bonecos gigantes para com a dança, tornou-se mais fácil devido principalmente as adaptações físicas, tendo em vista que tais questões sempre visavam a melhoria pelas mãos dos artistas plásticos para que o boneco entrasse em maior concordância com o ritmo, tornando-se mais “maleável” e facilitando sua manipulação.

É também objetivo pormos nos altos da discussão, as relações políticas que envolvem os bonecos e de como essa questão, influencia no cenário da sociedade carnavalesca olindense, tendo em vista a busca constante todos os anos por apoios financeiros que viabilizem a realização das festividades dos blocos.

Também é importante destacarmos, quem dá a “vida” aos bonecos gigantes, pondo em evidencia a figura dos carregadores, muitas vezes pobres e de periferias, que no carnaval apenas se divertem através do que amam, tendo em vista que muitas vezes as propostas financeiras não compensam, diante de todo o esforço que é feito por esta importante peça da identidade bonequeira de Olinda.     

II- Os Gigantes

Primeiramente, é importante mencionarmos que, a essência encantadora que os Bonecos Gigantes perpassam para os indivíduos é um mecanismo presente desde sua origem, não é algo que se adaptou, e sim que se manteve ao longo do tempo, possuindo um caráter sólido e imutável. Pois bem, dito isso, faz-se necessário compreendermos suas origens históricas.

            A Europa medieval é marcada em toda a história humana como sendo a época em que o cristianismo esteve no seu auge, e entre alguns mecanismos produzidos pela igreja católica para oprimir outras culturas e conquistar mais fies, foi justamente a produção de figuras santas de proporções gigantescas. Tal “inspiração”, se deu pelo fato de que, alguns costumes considerados “pagãos”, possuíam enormes totens como uma forma de culto.

Observando tais questões, a igreja decidiu incluir nas suas procissões, figuras enormes feitas de madeira, semelhantes aos santos de roca, tendo apenas as mãos e o rosto esculpido, e o “corpo” com uma armação de madeira. O objetivo era representar a grandeza dos santos católicos e consequentemente sua supremacia, causando medo e admiração, induzindo o imaginário dos indivíduos a aceitarem a partir dessas figuras, as doutrinas da igreja católica. O boneco mais antigo que se tem registro é do final do século XV, mais especificamente na Bélgica em 1481.

Dados os fatos, curiosamente, um padre vindo deste mesmo país, chamado Norberto Phalempin, primeiro vigário da cidade de Belém de São Francisco, no interior de Pernambuco, tratava de narrar os costumes religiosos da Bélgica para os habitantes da cidade e, ouvindo atentamente as histórias, um homem chamado Gumercindo Pires de Carvalho, resolve resinificar a função dessas figuras e utiliza-las no carnaval belemita. Posto isso, foi assim que em 1919, surge Zé Pereira, o primeiro Boneco Gigante do Brasil, inspirado nos moldes Europeus para o Carnaval. Os materiais utilizados por Gumercindo eram rudimentares, o mesmo, utilizou papel machê para fazer a cabeça e a armação do corpo com a madeira, deixando os braços soltos e leves, facilitando a manipulação.

Dessa maneira, aproximadamente dez anos depois, em 1929, Gumercindo realiza um feito que encaminhará a paços lentos a ascensão da figura dos Bonecos Gigantes ao criar a “companheira” de Zé Pereira, a quem batizou de “vitalina”, feita pelos mesmos materiais deste primeiro, ainda em 1929, foi realizada em Belém do São Francisco uma grande festa para “selar a união” de ambos os Bonecos. Fica claro, portanto, afirmarmos que desde que foram concebidos, os Bonecos Gigantes se caracterizaram principalmente por serem uma figura mirífica e que mexe com o sentimental e o imaginário da sociedade, sendo esta característica imutável, como já dito, mas que se encaixou e atendeu as necessidades religiosas no final do século XV e sendo compatível principalmente no que se refere ao âmbito carnavalesco.

O pensamento de Gumercindo em promover tal inserção dessas figuras no período do carnaval, ajudou na manutenção e desenvolvimento cultural, tendo em vista que a cultura se molda e se adapta frente as novas propostas e exigências sociais. Trazendo tal contexto para o carnaval da cidade de Olinda, busquemos entender, brevemente, uma espécie de “árvore genealógica” dos gigantes olindenses. Após um desentendimento na diretoria do Clube Cariri Olindense onde parte dos componentes se dissociaram da troça por não terem sido convidados para a chapa que formava a diretoria, os dissidentes desse desentendimento fundaram o Clube de Alegoria e Crítica Homem da Meia Noite, que passou a ir as ruas antes do Cariri, e reivindicou o papel de abertura do Carnaval.

Fundado no ano de 1932, o Homem da Meia Noite possui algumas versões sobre sua idealização. Apesar de possuir originalmente seis fundadores oficiais, dois recebem mais destaque: Benedito Bernardino da Silva e Luciano Anacleto de Queiroz, sendo um músico e carpinteiro e o outro pintor de paredes, sendo estes que criaram o primeiro boneco do Homem da Meia Noite, feito de madeira e papel. Seguindo a lógica de Gumercindo Pires, cerca de 35 anos depois, foi fundada a Mulher do Dia, fazendo a companhia antagônica ao Homem da Meia Noite, ambos enfrentaram dificuldades econômicas no começo de suas trajetórias e no caso do Homem da Meia Noite, foi entre os anos de 1950 e 1953, ficando sem desfilar e retornando apenas em 1954.O Homem da Meia Noite, recebeu o título de patrimônio vivo de Pernambuco em 2006.

No ano de 1974, o carnavalesco Ernani Lopes, deu o pontapé fundamental para que os Bonecos ganhassem proporções incomensuráveis ao desejar que existisse um descendente das duas principais figuras de Olinda. Procurou então a pessoa que já possuía um determinado arcabouço em meio as artes plásticas, conhecido por Julião das “mascaras”. Depois de terminado, o resultado não teria sido o que Ernani esperava, tendo em vista que o tamanho do boneco não era de proporções gigantes. O carnavalesco buscou então um jovem rapaz que também confeccionava máscaras de brinquedos em papel machê. Silvio Botelho, recebeu a tarefa de reconstruir um boneco que seria filho do Homem da Meia Noite com a Mulher do Dia, que, convenientemente, foi batizado de Menino da Tarde.

Dotado de muito talento, sendo revelado após a inovação na construção do Menino da Tarde, Silvio Botelho passou a se tornar o principal nome no que concerne a produção bonequeira de Olinda, e proporcionando a disseminação de seus conhecimentos e técnicas para outas pessoas que estavam interessadas em participar da produção dessas figuras, a exemplo do mestre Camarão, que diferente de  Silvio, buscou aplicar essas novas técnicas voltadas a um público de crianças com a produção dos Bonecos Mirins de Olinda. Ora! Temos aqui, então, uma espécie de “escola” dentro da cidade, além de propiciar uma maior abrangência na produção desses bonecos, é possível garantir o apreço cultural desde a infância, tendo em vista que o lúdico é também uma das principais características dos Bonecos.   

Desta maneira, se tem uma evolução dentre os carregadores, sendo muitos deles, atualmente, advindos de vários anos de participação do desfile do mestre Camarão, desde a infância. E talvez, esteja nesse fator a maior prova do sentimento de quem participa dessa tradição, mesmo já adultos, os carregadores não perdem o prazer de ano a ano, estarem movendo, com um gosto imensurável essa importante identidade do carnaval olindense. A empolgação e entusiasmos continuam sendo os mesmos de quando crianças, e o resultado é de satisfação e felicidade, falo como um exímio carregador de bonecos desde a minha infância, sendo um prazer enorme, ver a alegria no rosto das pessoas ao serem cumprimentadas.

Pois bem, dados os fatos, abordemos um pouco da nova técnica implantada por Botelho e que passou a ser referencial, a partir de 1974. Primeiro, era feita uma espécie de forma do corpo, inteiramente de barro, e quando pronta, era toda coberta por papel, semelhante aos papeis de cimento misturados com uma cola especial, chamada de “goma”, assim que esse material secava, realizava-se um corte para retirar a forma de papel rígida, esse processo possuía um caráter lento e demorado, tendo em vista a maior dependência direta do clima. O processo para a construção de apenas um boneco normalmente durava em torno de 20 a 30 dias. Em entrevista, Silvio afirmou:

“ Nos anos 70, quando comecei a entrar no mundo dos bonecos gigantes, era tudo muito rudimentar e não tinha tanta facilidade como hoje eu tenho. Nos anos idos, era tudo levantado em barro, e tinha-se todo um processo de catar e levantar com argila de boa qualidade, e eu tentava fazer o máximo que pudesse para poder ter o barro sem rachaduras e levantava a peça, levantava para corpo de boneca e corpo de boneco, e ali era um padrão, e pegava uma “maçaroca” grande de barro e levantava aquela cabeça para faze-las(…) Quando a gente começava a fazer o empastelamento, o isolamento da forma, papel por papel, camada sobre camada, levava-se mais ou menos oito dias para fazer uma  espessura de cinco milímetros, em papel, e levava quase quinze a vinte dias para secar, depois tirar, emendar, abrir, pontear, dar acabamento, depois a costura acabamento para estar ponta aquela peça.”

Ao longo dos anos, Silvio foi buscando novos meios de melhorar esse processo, e com a popularização dessas figuras, a procura de carnavalescos aumentou enormemente, o que o obrigou a otimizar o tempo de construção, com relação a isso, afirmou Botelho:

“ Em 1986, devido a grande procura por bonecos e aquela loucura toda, eu não sabia como atender, porque se para fazer um boneco eu levava trinta dias, como eu poderia entregar seis, oito bonecos? Aí deu aquele estalo, isopor se faz bonecos para festa de aniversário, então é questão só de escala, eu vou fazer boneco em isopor, então achei a fábrica, comprei os blocos, e meti broca a cortar isopor, e o isopor foi substituindo por completo aquela coisa de barro e camada de papel, foi substituindo de uma maneira fácil, então enquanto eu levava um mês para fazer um boneco, em uma semana eu fazia um boneco. ”

Na década de 90, o processo de construção se tornou ainda mais eficaz, quando sugerido por um amigo de Silvio que ele passasse a produzir em fibra de vidro, o corpo dos bonecos, através de formas onde possibilitasse a junção da parte anterior e posterior do corpo, além de garantir rapidez na construção, a fibra de vidro possibilitou uma maior durabilidade dos bonecos, principalmente no que se refere ao contato com a chuva em dias de folia, bem como, garantiu a leveza destes, o que antes normalmente pesavam de 25-30 quilos, passaram a pesar até os dias atuais, 16-20 quilos. Além de possibilitar a produção em larga escala, hoje, Silvio Botelho consegue produzir cerca de 3 bonecos por dia.

                Guardando as devidas proporções, brevemente, é possível se fazer uma analogia com a obra “ guerra e paz” do romancista russo Liev Tolstói, buscando trazer a noção expressa em sua obra para o âmbito cultural, e comparando diretamente com os caminhos que concomitantemente proporcionaram a inserção e prosperidade dos Bonecos Gigantes em meio a cultura popular brasileira. Tólstoi, busca refletir em seu livro, os acontecimentos históricos, e proporciona uma reflexão que se encontra presente na trajetória dos Bonecos Gigantes, “a marcha inevitável que conduz a história”, sendo este o principal fator impulsionador da humanidade e que possibilita a realização dos acontecimentos tendo em vista os embates não propositais dos fatos no tempo e no espaço, gerando a consequência, e nesse caso, dentro do contexto deste trabalho, os Bonecos Gigantes.

            Essa característica se acentua principalmente no que se refere a cultura, tendo em vista que a maioria das manifestações são concebidas em consequência de acontecimentos que possuíam uma finalidade distinta ou que, serviram de inspiração e ressignificaram o sentido e/ou finalidade dessas questões.

III – Os Bonecos Gigantes, sua tradicionalidade e a sociedade carnavalesca olindense

            Nesse tópico, busca-se compreender algumas particularidades e especificidades que os Bonecos Gigantes foram adquirindo ao longo do tempo, algumas mais tangentes a maioria e algumas próprias de cada um, que se moldam e passam a fazer parte da sua tradição. Também é possível refletir acerca de como esses bonecos passaram a mover e influenciar a “sociedade carnavalesca” de Olinda, tendo em vista que a posse dessas figuras, fornece um espaço aos indivíduos no que se refere ao reconhecimento e influencia dentro do carnaval, sendo esta última, atualmente, atrelada mais a questão de poderio econômico.

            Posto isso, se observarmos atentamente aos Bonecos no carnaval, é comum que no seu primeiro contato com a multidão, seja entoado pela orquestra de frevo um alongado “parabéns para você”, tendo em vista que não necessariamente seja aniversario da agremiação, mas que, passou a se tornar um símbolo de boas-vindas ao desfile que está prestes a se iniciar, sendo assim, tornando-se uma ferramenta agregada a tradicionalidade dessas figuras, englobando sem exceção todos os Bonecos. Indubitavelmente, cada bloco possui suas peculiaridades, tendo em vista, obviamente, as diferentes idealizações. Os bonecos também agradaram ao carnaval olindense no que se refere a possibilidade de materialização física e a imagem humana de determinada brincadeira.

            Um exemplo bastante evidente e que fundamenta essa perspectiva, é a “Troça Carnavalesca Mista John Travolta”, uma das troças mais populares do carnaval de Olinda e que no âmbito dos bonecos gigantes, ocupa a quarta posição de importância histórica dentro do carnaval de Olinda, o que é uma posição bastante relevante, tendo em vista que fica atrás apenas dos três primeiros ( O Homem da Meia noite, A Mulher do Dia e o Menino da Trade), porém no que tange a popularidade, fica atrás apenas do próprio Homem da Meia Noite. Pois bem, tornando a questão da “materialização da brincadeira”, a essência da troça seria reavivar os anos 70, tendo como principal referência o filme “ Nos embalos de sábado à noite” protagonizado pelo aclamado ator de Hollywood John Travolta. Desta forma, que melhor figura representaria a essência da troça do que um Boneco Gigante?

            É sem dúvidas o Homem da Meia Noite, a figura que mais carrega peculiaridades no carnaval de Olinda e que, sem temor de equívoco, estas, compões uma parte quase que primordial que garantiram a popularização imensurável do calunga mais famoso do Brasil. E temos aqui, a primeira delas, segundo o presidente do Clube, Luiz Adolpho, o Homem da Meia Noite não é um boneco, e sim um Calunga, isso se dá, devido a fundação ter acontecido no dia 2 de fevereiro, que segundo as crenças do candomblé, é considerado o dia de Iemanjá, a rainha das águas, e consequentemente, o Homem da Meia Noite adquire o status de figura mítica do candomblé.

            Além dessa particularidade, também surgiram algumas exigências diante de todo o misticismo que circunda o Clube, ainda que não seja de conhecimento geral, para alguns “leigos” do carnaval olindense, e em certa medida, até para uma parcela dos próprios olindenses, que existe uma réplica do calunga original, que realiza os “afazeres” fora do período de Momo, guardando a sede oficial e participando de eventos ao qual o clube é convidado. Somente é possível deslumbrar o calunga original, apenas no sábado de Zé Pereira, sendo tal quesito, um fator que também compõe a tradição. Um outro aspecto ainda em relação ao Homem da Meia Noite, está atrelado ao seu peso.

No período de 2014 até o presente momento, Silvio buscou remodelar os corpos dos bonecos mais antigos através da fibra de vidro, a exemplo do Menino da Tarde, que ao completar 40 anos, deu adeus ao seu corpo original feito de papel e aos seus braços estofados, porém pesados e as mãos rígidas, ganhando mais leveza e manuseio, facilitando a evolução pelas ruas e a consonância com o frevo. Silvio então, contatou o presidente do Homem da Meia Noite e propôs que o mesmo fosse feito com o calunga, tendo em vista que este, ainda mantem alguns aspectos dos materiais originais, como as mãos de madeira, pesadas, que se prendem no braço estofado através de parafusos, e o corpo, que apesar de ter passado por uma remodelação, ainda é de papel, esses aspectos, fazem com que o calunga pese, aproximadamente 50 quilos, sendo o mais pesado de Olinda. Em resposta a Silvio Botelho, o presidente Luiz Adolpho afirmou que essa questão dependia diretamente de Sr. Pedro “mangabeira”, o carregador que conduziu o Homem da Meia Noite por cerca de 30 anos e que se aposentou recentemente no ano de 2019. Em resposta a proposta de Silvio, na época, Pedro afirmou que se isso ocorresse, ele jamais carregaria o Homem da Meia Noite novamente.

É observável aqui, portanto, como pequenos detalhes peculiares, constroem a essência dos Bonecos Gigantes, ao longo dos seus 87 anos, o calunga sempre foi extremamente pesado, e remover esse fator, significaria, para Pedro e para o clube, a perca dessa camada que compõe e fundamenta a essência do Homem da Meia Noite enquanto Boneco Gigante (calunga). Dentro da perspectiva cultural de Olinda, esses aspectos são importantes, já que confabulam indissociavelmente com a identidade da cidade, como já mencionado. Cada cultura, cada comunidade, possuem cada qual suas características e questões específicas, sendo assim, garantindo suas respectivas manutenções, originalidades e tradicionalidades.

Partindo para o âmbito dessa dita “sociedade carnavalesca olindense”, é importante compreender que, é composta pelas pessoas que fazem o carnaval, e está atribuída a todos os indivíduos que prestam sua contribuição para o acontecimento da festa, e nesse ponto, não se restringe apenas a figura dos Bonecos Gigantes, mas sim a todos os blocos, troças, clubes, entre outros, os bonecos são só uma das ferramentas que conferem “legitimidade” ao carnaval de Olinda. Pois bem, dito isso, a idealização e materialização de um novo boneco, garantem ao indivíduo, que este faça parte dessa sociedade, porém, apesar da contribuição, assim como as sociedades em condições normais, existem graus de importância, influencia e popularidade.

Pois bem, façamos aqui um questionamento: como esses novos componentes podem “ascender” dentro dessa sociedade? Tendo em vista que os bonecos mais antigos já possuem “nome” e próprios públicos dentro de Olinda. Para contemplarmos esta pergunta faz-se necessário uma reflexão acerca de como se dá o andamento da cultura. Com a globalização, o surgimento de novas tecnologias e a influência do capital na sociedade como um todo, as exigências dos indivíduos se moldaram e foram se adequando e com isso, a cultura também veio sofrendo constantes alterações. É necessário afirmar que a cultura é um elemento humano que se caracteriza pela sua maleabilidade, não é algo estático e se adapta as exigências e necessidades, tendo um caráter acumulador e evolutivo. Diante dessa característica, a cultura constrói novos valores e tradições diante da modernidade.

Trazendo esse contexto para o âmbito da sociedade carnavalesca, é indubitável que a presença do capital é essencial para garantir uma “popularidade” e atrair o público, com a apresentação de bandas e artistas que fazem sucesso no âmbito regional, bem como a presença de bebidas. Essa seria, talvez, a única forma de garantir uma “ascensão” dento do âmbito carnavalesco, algo que acontece, principalmente dos anos 2000 até os dias atuais. Prova disso, é a queda de popularidade evidente de bonecos que se tornaram famosos por conta dessas modalidades de afirmação, como O Franciscão, o Chorão de Olinda e a Menina da Tarde que em meados de 2006-2008, arrastavam multidões dentro da cidade, e que, com o passar do tempo, devido a fatores financeiros, deixaram de ir as ruas aos poucos, se tornando nos dias de hoje, figuras que caíram em um enorme ostracismo. A questão financeira, seria então o principal motivo da não estabilidade de uma tradição dos demais bonecos em comparação com os mais antigos.

Juntamente com essa problemática da tradicionalidade, a maiorarte dos bonecos também não possuem um apoio efetivo de algum órgão público para a realização de suas festividades, e os que tem registro na prefeitura, não recebem verba durante o período do carnaval e em alguns casos, esse pagamento chega a se dar com bastante atraso, tornando inviável a quitação de débitos, e produzindo um terreno nada favorável para os blocos, que se não obtiverem sucesso de patrocínio por parte de instituições privadas, são obrigados a não desfilarem. É até certo ponto estranho que Silvio Botelho tenha produzido mais de 1000 bonecos e no seu desfile oficial na terça-feira de carnaval, tenham pouco mais de 50, devido a falta de apoio financeiro.

Urge, portanto, a necessidade quase que imediata que se articulem todos os Bonecos Gigantes de Olinda em prol de uma associação ou liga, que falem por todos e defendam seus interesses, tendo em vista que a disseminação dessas figuras pela cidade, é enorme. É importante que se construa uma unidade coesa e responsável, que se dedique a defender essas figuras fundamentais que fazem parte da construção de Olinda no seu seio cultural, e com isso, valorizando não só Silvio, mas os demais artistas que contribuem com a festa, como Camarão, Alex, Leandro da embaixada dos bonecos (recife), Tam, Paulinho (filho do saudoso mestre Amauri, o “general da banda”) Paulo Axé e entre outros.

Em suma, há de ser melhorado muita coisa no Carnaval de Olinda, tendo em vista que a própria cidade vende a imagem dos Bonecos Gigantes como sendo parte também das atrações turísticas, havendo ainda descaso com essas figuras. Possuindo um melhoramento exponencial desses pontos, tanto a cidade quanto os blocos saem em benefício, visto que provocaria uma maior “rotação” econômica na cidade e não apenas no âmbito dos Gigantes, mas também dos blocos em geral, deveriam ser construídos mais pontos de interações com nossa cultura, oficinas, bem como a construção de experiências únicas através de apresentações e mais manifestações artísticas.

IV- Os Bonecos Gigantes e a política em Olinda

Em consequência das problemáticas apresentadas no tópico anterior, é interessante ressaltar a participação de pessoas que compõem o âmbito político da cidade. Não é surpresa afirmar que a política assim como a cultura, tem uma característica bastante adaptativa, e esta, encontrou nos blocos uma “oportunidade de negócio”. Tendo em vista todas as dificuldades encontradas pelas agremiações, que tentam se inserir no carnaval, alguns políticos investem massivamente para que os blocos desfilem normalmente, o que aparentemente é muito positivo, muitas vezes, maquiado por um discurso de incentivo e apoio cultural, principalmente no que se refere aos anos próximos de eleições.

Claramente, estes se vangloriam por “fazerem a cultura”, o que em certa parte, está de acordo, porem a partir do momento que se espera ganhar em troca e em função de algo tão deslumbrante como os Blocos, Bonecos Gigantes, Clubes e Troças, esses feitos caem por terra, pois se aproveitam de uma fragilidade para se sobressaírem, e quando alcançam seus objetivos, deixam relegados não só os que o “ajudaram” com votos, mas todos os outros. Sem contar que a ajuda por parte dos indivíduos ligados aos blocos, torna-se quase que uma “obrigação” incutida na mente destes, tendo em vista a “devolução do favor”. Deixando claro que o objetivo deste trabalho não se caracteriza por deturpar a imagem política da cidade, e que essas questões não cabem a generalização, acredita-se que também hajam aqueles que de forma veemente, apoiam e amam o carnaval olindense.

A representação gigante de políticos também fazem parte do cotidiano carnavalesco de Olinda, é uma maneira destes se manterem, guardando as devidas proporções, “onipresentes” nas festividades e outros locais, alguns políticos, chegam a ter até dois ou três Bonecos Gigantes. Especificamente nos tempos em que começam as atividades carnavalescas, alguns contratam bonequeiros para ficarem andando pela cidade, indo atrás de outros blocos, fazendo propaganda de sua imagem e deixar registrado na mente da população, “quem é o responsável” pelo acontecimento da festa.

V-A figura dos carregadores

O que seria dos Bonecos sem o seu principal componente? É extremamente árduo o trabalho destes carregadores que em um clima tropical, e no verão, levam em suas cabeças vários quilos, contornando as íngremes ladeiras e as estreitas ruas da cidade repletas de foliões, enfrentando aproximadamente 40 graus dentro das entranhas dos “filhos de Olinda”. Como mencionado no início, a maiorias dos indivíduos são pobres e das regiões periféricas da cidade alta de Olinda (é na parte alta da cidade que se concentram aproximadamente 90 % dos blocos).

Esses indivíduos normalmente encontram-se inseridos nesse meio desde a sua infância, o que se torna um processo de aprendizado e acumulo de experiências até alcançar idade suficiente para elevar o nível e passar a carregar os gigantões, o que, normalmente acontece entre os 14-16 anos e em alguns casos, a partir dos 12 anos de idade. Essa questão é muito relativa e diz respeito a altura e principalmente a capacidade de dançar com uma outra proporcionalidade e um peso muito maior na cabeça.

A questão da dança é fundamental e é uma das formas de avaliar o carregador, e que, ao mesmo tempo, lhe confere uma espécie de status em meio a comunidade, atrelado a isso, está o fato do carregador saber “incorporar” a proposta do boneco que está manipulando, por exemplo, o Homem da Meia Noite, bem como o Menino da Tarde, são “lordes” e representam um espírito mais culto e luxuoso em suas essências, e exige que o indivíduo que esteja lhe controlando-o tenha passos mais contidos e simples, não girando muito seus imensos braços e aproveitando com mais “classe” o frevo. Já outros bonecos possuem um estilo mais livre e desprendido de paradigmas dançantes a exemplo do boneco “Dez de Xarque e uma latinha”, entre os mais populares de Olinda, representa a figura de um indivíduo boêmio e festeiro e bastante desligado de qualquer nobreza, imaginando o típico “folião olindense” no meio do dia de domingo carnavalesco.

Pelo fato da falta de recursos como já mencionado, esses carregadores muitas vezes são desvalorizados e muito mal remunerados, o que aparentemente parece não interferir muito na vontade de fazer a festa, é algo fascinante e ao mesmo tempo peculiar, visto que é um esforço de proporções Homéricas e o valor pago não compensa. Muitas vezes, o trabalho sequer é remunerado, mas que fique claro que isso não é um problema muitas vezes, o que, ao mesmo tempo, não pode servir como base para legitimar a falta de apoio para com estes.

Olinda é uma cidade que jorra cultura e sentimento de pertencimento, as pessoas que trabalham por ela, apesar das dificuldades, sentem-se parte deste lugar. Como traduz o hino do bloco Elefante de Olinda composto por Clídio Nigro em parceria com Clóvis Vieira:

“(…)Olinda, este meu canto

Foi inspirado em teu louvor

Entre confetes, serpentinas, venho te oferecer

Com alegria o meu amor

Olinda, quero cantar

A ti, esta canção

Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar

Faz vibrar meu coração

De amor a sonhar, minha Olinda sem igual

Salve o teu carnaval! ”

VI- Conclusão

            Conclui-se, portanto, a tremenda e indissociável importância da figura dos Bonecos Gigantes para o carnaval de Olinda. Ficou nítido o tamanho empenho por parte das pessoas que buscam com muito afinco fertilizar o terreno para uma melhor constituição desses bonecos. Como já dito, essas figuras compões parte da identidade de Olinda, devido a grande proporção que a cidade toma durante o carnaval.

            Essa questão se configura de tamanha importância para a cidade, que esses sentimentos perpassam o período do carnaval e se tem início muito antes. Informalmente, as prévias carnavalescas têm início no feriado do dia 7 de setembro, com o tradicional desfile da troça “Pitombeira dos Quatro Cantos”. No que se refere aos Bonecos Gigantes, suas aparições começam a se tornar efetivas no início do mês de janeiro, e tradicionalmente tem-se uma ordem a cada domingo. Tradicionalmente, o primeiro domingo de janeiro é do Menino da Tarde, o segundo domingo nos últimos anos tem alguns outros blocos, o terceiro domingo pertence ao boneco John Travolta e o quarto a Troça Ceroula ou ao boneco do Garoto de Vassoura.

            É nítida a vontade que os olindenses possuem em festejar, os Bonecos chegaram para contemplar ainda mais essa questão, consequentemente se tornando símbolo de alegria e também de resistência.

Referências bibliográficas:

BONALD, Olímpio. Os Gigantes Foliões em Pernambuco. Olinda 1992

TOLSTÓI, Liév. Guerra e paz.

Reportagem “ Fazendo troça-1985”

Entrevista com Sílvio Botelho. 26/11/2019