SERRA DO ORORUBÁ: AS NARRATIVAS HISTÓRICAS DO ÍNDIO XUCURU EM PESQUEIRA-PE

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO – UFPE

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS – CFCH

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Disciplina: Tópicos de História do Nordeste

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

GEOVANNA LUIZA PEREIRA DE SOUZA SANTOS

geovannaluiza.souzasantos@hotmail.com

SERRA DO ORORUBÁ: AS NARRATIVAS HISTÓRICAS DO ÍNDIO XUCURU EM PESQUEIRA-PE

RESUMO

      Este artigo tem por tema principal as narrativas históricas do povo Xucuru, seu processo de pertencimento nas serras ororubás e seus contextos históricos. A fim de entender a história dos Xucuru, busquei articular narrativas colhidas por meio de entrevistas realizadas por profissionais da área e o meu entendimento da história desse povo. Esclareço aqui que o meu objetivo é ressaltar a história dos índios Xucuru, que por muitas vezes foram apagados da historiografia. É importante que na historiografia atual haja o aparecimento de estudos voltados para povos que foram historicamente minimizados.

Palavras-chaves: Xucuru; História; Pesqueira.

INTRODUÇÃO

     À medida que os anos foram se passando, a historiografia foi se transformando – da história científica, com os estudos voltados para a hegemonia burguesa, ao aparecimento das narrativas dos minimizados histórica e socialmente –. Muito embora tenha havido esse aparecimento historiográfico, muitas sociedades ainda permanecem sem maiores olhares dos historiadores, e nesse sentido, a história dos índios Xucuru está submetida. Submetida a negligências históricas fundamentadas numa idealização de uma história linear, ocidentalizada e, sobretudo, europeizada. Assim como destaca Edson Silva, historiador e pesquisador da história dos índios do Nordeste e de Pernambuco:

“Mas, para a História que importância teve os indígenas? De Michelet (Histoire de France, 1833) a Varnhagen (Historia Geral do Brasil, 1854/1857), foi-se estruturando no século XIX, presidindo o seu enraizamento acadêmico, uma narrativa onde é secundária a importância dessas populações na marcha da humanidade. Os fatos, marcas e rupturas fundamentais da História podem ser encontradas tão somente na história do Ocidente, a partir daí repercutindo e espelhando-se por todo o planeta. O foco principal do historiador foi a “disseminação da nação” (um trocadilho feito por Homi Bhabha), sempre apoiado no modelo criado pela revolução francesa. Ou seja, uma narrativa associada ao capitalismo e a expansão de mercados, bem como ao poder de uma burocracia apoiada em uma tendência à secularização (a qual engendrou um novo pacto entre o Estado, o Cristianismo e a Ciência, este um saber laico). As populações autóctones na África, na Ásia e nas Américas não passavam de figurantes de uma História Universal, de base eurocêntrica, que celebrava a conquista e minimizava ou omitia os atos de genocídio, a tudo perdoando em nome do avanço da Civilização.” [1]

       E nesse sentido, concordo com o que destaca Edson, uma vez que em escalas nacionais, pouco se estudam a formação e desenvolvimento histórico das tribos indígenas pernambucanas. Diante disso, expresso aqui a minha vontade para com este artigo: juntamente aos grandes profissionais que se preocupam com a história e vivência desses povos marginalizados, desejo ressaltar e apresentar novos olhares à tribo Xucuru.

UM BREVE OLHAR PARA PESQUEIRA

        Para melhor entendermos o processo histórico desse povo, faz-se necessário aqui apresentar a cidade de Pesqueira, onde localiza-se o território Xucuru, e logo após esse breve esclarecimento da terra pesqueirense, proponho aqui uma contextualização geográfica do território Xucuru. Localizada entre o sertão e o agreste pernambucano, o município de Pesqueira tem suas origens no aldeamento do povo Xukuru com sua colonização iniciada no século XVIII, com a chegada de religiosos interessados na expansão do catolicismo e conversão dos índios xucurus e paratiós, que habitavam a extensa Serra do Arorubá ou Ororubá. Em 13 de maio de 1836, a sede foi transferida para a povoação de Santa Águeda de Pesqueira e no dia 20 de abril de 1880, Pesqueira foi elevada à condição de cidade pela Lei nº 1.484.

   O território pesqueirense contou com um período forte de atividade industrial que se iniciou no final do século XIX e chegou ao fim em meados do século XX, esse forte período é caracterizado pela instalação de fábricas de doces e a promissora colheita de tomates em seu território. As fábricas foram responsáveis por empregar direta e indiretamente, a população do município de Pesqueira, incluindo os Xucuru. Destaco aqui as duas grandes indústrias do período: Indústria Peixe e Fábrica Rosa. As influências da Fábrica Peixe não se restringiam somente a Pesqueira, uma vez que o seu fundador foi um grande influente comerciante local, a circulação de seus produtos se estendiam por toda região, e no início do século XX, segundo (Barbalho, 1997) também esteve presente pelo sudeste brasileiro.
    Devido a diversos fatores internos e externos, como o crescimento da concorrência com as indústrias do centro-sul do país, e o desgaste do solo pesqueirense por causa da grande produção, as indústrias locais começaram a cair em declínio progressivo. Após a segunda metade do século XX a maioria das indústrias já havia falido.
XUCURU: GEOGRAFIA E HISTÓRIAS
     O povo Xukuru habita a Serra do Ororubá e seus arredores, no Município de Pesqueira, à aproximadamente 216 km do Recife. Com 23 aldeias mais dois grupos dispersos fora das terras indígenas – devido a conflitos internos -, que compõe o grupo Xucuru totalizando sua população em nove mil pessoas, segundo dados da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).
“Do total de 27.555 hectares homologados em 30 de abril de 2001[3], os índios dispõem hoje da posse real de 90%, estando os outros 10% nas mãos de pequenos posseiros não índios[4]. A área é dividida, segundo os Xukuru, em três regiões, sendo a primeira a Ribeira, que engloba aldeias de uma área mais seca do território a exemplo da aldeia Pé de Serra; a Serra, onde existe maior umidade, e consequentemente melhor produção agrícola, como em Pedra D’água; e o agreste, mais seco e frio, polarizado pela Vila de Cimbres.” Guerreiros do Ororubá: (OLIVEIRA, Kelly E. de. Mandaru: O processo de organização política e elaboração simbólica do povo indígena Xukuru. 2013.)
      Com os devidos esclarecimentos geográficos realizados, começaremos então a entender quem são esses índios Xucuru e a suas narrativas históricas. No entanto, devemos estar atentos para o que João Pacheco de Oliveira chama de “armadilhas do estudo os índios do Nordeste”. De acordo com o autor, não é aconselhável que nos apossemos da listagem atual dos povos indígenas esperando retroceder para cada etnônimo específico, como em um processo biológico de evolução. Essa prática poderia facilmente acarretar erros históricos mesmo quando realizada com certa coerência (Oliveira; 1999: 106).
       Os primeiros indícios dos Xucuru consta em documentos históricos de concessões reais do período da colonização. A presença portuguesa, com intuitos de colonizar os povos indígenas, na região onde habitam os Xukuru ocorreu a partir de 1654, quando o Rei de Portugal fez doações de grandes sesmarias de terras a senhores de engenho do litoral para criação de gado. Com relação às terras de Ororubá, em 1661, atendendo uma solicitação oficial, os padres Oratorianos fundaram o Aldeamento do Ararobá de Nossa Senhora das Montanhas, onde os missionários possuíram fazendas de gado utilizando a mão-de-obra indígena. Devido ao Diretório do Marquês de Pombal de 1757, que expressa importantes aspectos da política indígena do período da história de Portugal e do Brasil, o antigo Aldeamento do Ararobá foi elevado em 1762 à categoria de Vila, com o nome de Cimbres e em 1880 a sede do município foi transferida para Pesqueira e Vila de Cimbres passou a condição de distrito. Ao longo do tempo, as terras ororubás foram invadidas por arrendatários que tinham interesses em deter poder e explorar as terras indígenas, utilizando seus recursos da natureza e sua força de trabalho, visto que num ambiente de clima predominant-e seco e com falta de chuvas, as disputas pelas regiões úmidas e pelas fontes de água se tornam intensas. É nesse momento também que há a criação da Igreja de Nossa Senhora das Montanhas, e nesse sentido, sabemos que a história da colonização portuguesa se dá na disseminação do catolicismo por meio de instalações de igrejas em comunidades para que haja a conversão de toda a população que ali habita. No Século XIX aumentaram as invasões das terras indígenas pelos antepassados das famílias tradicionais em Pesqueira. (Edson Silva H., 2007).[6] E com a Lei de Terras de 1850, os invasores das terras indígenas juntamente com a sociedade oligárquica local e as autoridades provinciais passaram a pedir ao Governo Imperial português a extinção do aldeamento Xukuru. A presença constante de fazendeiros nas terras ororubá ocasionaram um aumento da população do aldeamento Xukuru, e esse aumento decorreu principalmente de casamentos de índias com não índios. Com base nesses casamentos, o governo local encontrou o motivo final para conseguir a apropriação da terra, declarando que os índios lá residentes estariam em sua maioria “mestiçados”. Dessa forma, em 25 de janeiro de 1879, foi decretado extinto o aldeamento indígena na Vila de Cimbres, “ficando então uns duzentos índios, que restavam de posse das suas terras”.[7]
“A Câmara de Pesqueira em ofícios endereçados as autoridades provinciais, alegando que já não existiam mais índios Xukuru e sim caboclos e da necessidade de expansão do Município, requeria continuadamente as terras indígenas como patrimônio. Atendendo as insistentes solicitações, em 1879 o Governo Imperial decretou oficialmente a extinção do Aldeamento de Cimbres. Foram favorecidos os arrendatários, muitos deles vereadores e fazendeiros invasores das terras Xukuru, membros da elite local com consideráveis relações e influências na política provincial e nacional.” (SILVA, Edson H. op cit.)[8]
     Com todas essas questões afloradas e os crescentes conflitos entre indígenas e arrendatários, as perseguições ficaram cada vez mais evidentes e restaram-se poucas opções para os Xucuru. Dispersar-se pela região foi uma delas. Algumas outras famílias acabaram por optarem em morar em terras de outros ex-aldeamentos e nas periferias das cidades. Outras famílias que foram discriminadas ao serem chamadas de “caboclos do Orubá”, resistiram em pequenas glebas de terras, os sítios, em locais de difíceis acessos. Ou ficaram trabalhando em suas próprias terras, na condição de moradores, exploradas como mão-de-obra pelos fazendeiros.[9] A história por meio da narrativa nos faz caminhar ao lado da memória, seja ela individual ou coletiva. Nesse interim, através de relatos de memórias colhidos pelo historiador Edson Silva em seu estudo “História, memórias e identidade entre os Xukuru do Ororubá”, é possível perceber as várias situações que relatam o cotidiano indígena, suas relações sociais, de trabalho e suas tradicionalidades ambientadas na Serra do Ororubá. Destaco aqui Josefa Rodrigues da Silva:
“Meu pai também contava, meu avô também contava. Naquele tempo todo mundo tinha suas terras. E os brancos fazia o quê? Os brancos pegava dava uma garrafinha de cachaça para os índios, os índios inocente, não é? Dava uma garrafa de cachaça para os índios, os índios ficava bêbado, depois jurava de morte, os bichinhos fugia tudo, eles tomava conta das terras toda. Foi assim que aconteceu. Por isso que está tudo pelo meio do mundo, uns na cidade, outros longe, outros em São Paulo, meus irmãos mesmos estão tudo em São Paulo.”[10]
    Sobre as famílias Xucuru que resistiram as invasões, permanecendo nas terras, ainda que “oferecendo” sua mão-de-obra, o Pajé Xukuru “Seu Zequinha”, em entrevista com o historiador Edson Silva, destaca:
“Agora tinha um fazendeiro, um fazendeiro não, um capitão. Chamava-se Capitão Américo, que veio pedir uma queimadinha para plantar cabaço para fazer cuias para os escravos, que ele tinha uma senzala de negro. Para fazer cuia para os negros comerem dentro das cuias, dentro dos batedor. Ele disse, “olha caboclo, aonde eu queimar é meu, não é?”. Aí o caboclo pensou que era… chamava caboclo, para diminuir já, não chamava mais índio. Ele disse “é tá certo, onde queimar…”. Danou fogo, sem fazer acerto, sem fazer nada, o fogo veio sair perto de Cana Brava. Aí ele disse “aqui tudo é meu”, sabedoria! Ele ameaçou os índios, aí tomou tudo, tomou. Isso não dá nada, não dá nada, parece que dá uns 5 mil hectares por aí, oxente dá muito mais, dá uns 10 mil hectares! Aí ele passou a mão até tomar… Américo, Capitão Américo na época. Aí disse que hoje os familiares dele tomaram até Capim de Planta que chamavam… a Serra toda, para chegar em Cana Brava, tudo era dele! Agora eles venderam a outros proprietários, os tempos passaram eles venderam para outras pessoas.” [11]

DESENVOLVIMENTO

     O povo Xucuru, em todo seu arcabouço histórico, configurou-se num cenário de muitos conflitos e disputas territoriais que resultaram em massacres indígenas, perseguições e expulsões, tudo em nome do desenvolvimento dessas terras por parte dos fazendeiros, que passaram a deter poder sobre o território que pertence unicamente aos índios. A partir desses relatos de memória expostos aqui, e com base em minhas pesquisas, procuro trazer as vivências do índio Xucuru, como esse povo lidou com os percalços do “ser índio”, os assombramentos da presença branca, a seca de 1950, a presença do SPI (Serviço de Proteção aos Índios), as tradicionalidades, os conflitos enfrentados e suas mobilizações por direitos a liberdade e as suas terras.

   “As memórias, os relatos orais indígenas, no caso aqui dos Xukuru do Ororubá, são, portanto, importantes fontes de pesquisa, possibilitando compreender as visões que os próprios indígenas têm da história, as leituras que eles fazem de acontecimentos e da dinâmica das relações sociais, em que estiveram e estão inseridos. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que, um/a entrevistado/a em seu depoimento “nos revela pedaços do passado, encadeados em um sentido no momento em que são contados e em que perguntamos a respeito”, ocorrendo uma “recuperação do vivido conforme concebido por quem viveu” [12] (SILVA, Edson H. 2008).

     O ser índio está intrinsicamente ligado ao ato de luta e resistência. Em toda a história indígena do mundo podemos perceber o quão forte foram as lutas desses povos em busca de seus direitos. Direitos esses que, nada mais justo, uma vez que são todos em nome da liberdade e pertencimento de suas terras e religiosidades. Com os xucuru não poderia ser diferente. Resistiram ao seu modo a todo assombramento da presença branca em seus territórios e aos percalços que apareceram ao longo de sua história. Nesse sentido, trago aqui a presença do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) que fora fundamental para a retomada dos direitos dos Xucuru às terras do ororobá.

A PRESENÇA DO SPI

“Da data de extinção do aldeamento até o início do século XX, o que se observa é um silêncio oficial quanto ao grupo, o mesmo imposto aos outros povos indígenas do Nordeste. De acordo com Oliveira (1998) é apenas no século XX que os índios têm a possibilidade de novamente recorrer ao Governo para ter seus direitos garantidos, com o Serviço de Proteção ao Índio, criado em 1910. Este tinha o objetivo da implantação da continuidade de uma política voltada a uma integração dos indígenas à sociedade nacional, mas isso através de uma definição mais precisa dos povos ainda existentes.” (OLIVEIRA, Kelly E. de. Mandaru. Guerreiros do Ororubá: O processo de organização política e elaboração simbólica do povo indígena Xukuru. 2013).

       Como dito por Oliveira, Kelly, em 1910, sabendo-se da existência do Serviço de Proteção ao Índio, fundado pelo Marechal Rondon para dar assistência aos índios do Mato Grosso e da Amazônia, os índios de Pernambuco se mobilizaram para serem reconhecidos pelo Governo. Mediante a presença do SPI e a instalação de Postos Indígenas (PI), os xucurus viram aí uma possibilidade de serem novamente oficializados enquanto etnia indígena (OLIVEIRA, Kelly E. de. Mandaru. 2013). E com essa possibilidade em questão, alguns povos tomaram a iniciativa de se mobilizarem para buscar a solicitação de reconhecimento por parte do Governo. Ainda segundo Kelly Oliveira, através da memória coletiva dos xucuru, houve uma caminhada pelo reconhecimento, datando de 1953, quando três índios da família Nascimento, do sítio do Brejinho, foram até a 4º Inspetoria Regional (IR) do SPI, em Recife, pedir a instalação de um posto indígena. Apesar dos esforços, os xucurus não obtiveram o que pediram devido a grande pressão das oligarquias locais. Os índios decidiram ir até o Rio de Janeiro a pé, com a pretensão de conversar com o diretor geral do SPI e com então presidente da República, Getúlio Vargas. O representante do SPI atendeu ao chamado da população, que retratou o momento vivido nas terras indígenas (situação de precariedade). Logo após foram levados de volta para Recife de navio e de lá retornaram à Serra do Ororubá, e foi então liberada a verba para o posto indígena, construído no ano seguinte no sítio São José.

      Com a instalação do PI no território Ororubá, verificou-se uma nova relação entre os índios e a agência governamental. Nessa mesma época o Ministério da Agricultura era o órgão responsável pelo SPI, tendo dito isso, o objetivo que se tinha era no sentido de auxílio. Auxiliar nas produções agrícolas, com estímulos para a produção e desenvolvimento dessa terra e dos povos que lá habitam, através da venda desses produtos que promoveriam o sustento das famílias xucuru. De acordo com Edson Silva, historiador já citado neste artigo, a presença do SPI e dos PI foram uma conquista dos Xukuru, mas que não solucionou os conflitos com os fazendeiros invasores de suas terras. Isso porque a política do órgão indigenista oficial para o Nordeste foi baseada no discurso da falta de comprovação documental/jurídica de territórios indígenas, compensada pela redução de áreas pretendidas ou a aquisição de pequenas glebas de terras. Ou seja, em um modelo de ação de “insularização” das populações indígenas em “ilhas” geridas pelo SPI, cercadas por não índios, como no caso dos Xukuru. (Peres, 1992, p.126-127)[13]. A partir dos anos 1990 os Xukuru passaram a se autodenominarem Xukuru do Ororubá. (Silva E, 2007).

   A GUERRA DO PARAGUAI

      A Guerra do Paraguai[14] foi um conflito armado datado dos anos (1864-1870) que envolveu países como Uruguai, Paraguai e Brasil. Ao longo dos anos a historiografia buscou diferentes formas de estudar esses conflitos, do olhar da linearidade (que não deve ocorrer na História), ao entendimento de que o conflito foi regional, uma disputa entre os países envolvidos pela hegemonia na região do Prata.[15] Nesse sentido, no Brasil, diversas fontes apontam para presença de mulheres, negros, populações pobres e indígenas no confronto, desse modo, mostrarei aqui a presença Xucuru na Guerra do Paraguai.

     Ainda que o Governo Imperial contasse com a libertação dos escravos para utilização na guerra, não foi o suficiente para suprir as necessidades de combatentes. Diante disso, foi preciso recorrer então às populações marginalizadas através de um decreto que criou os Voluntários da Pátria. Não suficiente, utilizaram da convocação forçada, recrutando os considerados desordeiros, perigosos, os presos e condenados por crimes, e principalmente a população pobre, os habitantes das cidades do interior, das zonas rurais, a exemplo dos índios no Nordeste. (SILVA, E. 2005)

     Com base em documentações encontradas da Diretoria dos Índios em Pernambuco, foi possível perceber que os Diretores das Aldeias usaram de suas posições para lubridiar e forçar os índios a irem à guerra como Voluntários da Pátria. As justificativas são sempre as manutenções da ordem e da paz nas aldeias. (SILVA, E. 2005). Ainda nos documentos encontrados, percebe-se que há uma ideia de passividade nos recrutamentos, mas que logo é quebrada com um ofício datado de 1866, onde o Diretor Geral dos Índios apresenta uma queixa de uma família indígena que pediu a dispensa de seus dois filhos.

“Os aldeados em Cimbres por diversos meios procuraram se livrar do recrutamento obrigatório. A exemplo do índio José Carneiro da Cunha, que em 1865 solicitou e conseguiu de 6 moradores de Olho d’Água, atestados reconhecidos em cartório, confirmando ser o seu filho Laurentino José Carneiro portador de gôta, doença que o impedia de ser recrutado. Posteriormente, Laurentino através de um Requerimento, pediu e recebeu do Tenente Joaquim Almeida de Carvalho, Diretor do Aldeamento de Cimbres, um “Atestado” também reconhecido em cartório, confirmando a condição de índio do solicitante, informando ainda o documento que os índios não eram “sujeitos a recrutamento”.”[16]  SILVA, E. Memórias Xucuru e Funi-ô da Guerra do Paraguai.

     Os índios Xukuru do Ororubá, dentre os vários relatos de memória acerca da Guerra, apontam com orgulho para os diversos personagens que estiveram presentes no combate, “os 30 do Ororubá”, como mostra Edson Silva no texto “Memórias Xucuru e Funi-ô da Guerra do Paraguai”:

“Eu ouvi falar assim, é uma história nossa que nós temos dizendo que os Xukuru foram para a GP brigarem. Foram 30, morreram 12, voltaram 18. Então eu ouvi falar, então foi os índios do Brejinho, não lembro nem aonde mora, nem o nome deles. Eles são da família dos Nascimento, lá na Aldeia Brejinho. E foi mais uns outros de outras aldeias Xukuru, e foi uma índia chamada Maria Coragem[17] também.” [18]

    Ainda sob essa perspectiva, o povo xucuru afirma que muitos dos seus ancestrais, após a guerra, trouxeram muitas condecorações. Relatos apontam para espadas, medalhas, ternos de reis e até mesmos pequenos hectares de terras.

  A SECA E OS XUCURU

   Diante de todos os desafios enfrentados pelos Xucuru, o que não se poderia imaginar é que mais um percalço apareceria para ser vivenciado, a seca dos anos 50. O Nordeste brasileiro, como sabemos, vivenciou grandes períodos de estiagem prolongadas em seu território, nesse viés, o agreste da região pernambucana, onde os xucuru residem, sofreu com a seca. Assim como aponta Edmundo Monte, Especialista em Ensino de História e Mestrando em História do Norte/Nordeste:

“Na abordagem do conteúdo sobre processos migratórios durante o século XX, temos os nordestinos, ora castigados pela seca, ora esquecidos ou “maquiados” de preocupações pela República Federativa do Brasil, aparecendo como principais atores/vítimas nessas jornadas repletas de incertezas.” MONTE, Edmundo. Migrações Xukuru do Ororubá: São Paulo e o “Sul” (1950-1990).

   Esse povo guerreiro procurou saídas pra enfrentar a seca, a fome e os excessos dos não-índios, tradicionais invasores das terras do antigo Aldeamento de Cimbres, desde a segunda metade do século passado. A seca e a escassez de trabalho no campo foram os principais motivos para as famílias xucuru deixarem seus lares de origem, e migrarem para outras regiões, como o Sul e o Sudeste do país e até mesmo a Zona da Mata Sul pernambucana. A migração expressava também a ineficácia da ação indigenista do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) durante a década de 1950, que não sanou os conflitos agrários entre índios e não-índios na região. (PERES, 2004:87)[19].

    A fim de exemplificar essas mudanças de moradia, destaco aqui “Seu Antônio Pequeno”, morador da Aldeia Cajueiro, Serra do Ororubá, que concedeu entrevista ao historiador Edmundo Montes.

“[…] 75 anos, morador da Aldeia Cajueiro, contou que foi para lá logo que completou 18 anos, porque “nesse tempo aqui num tinha um trabalho nem pra ganhar cinco mirrei, naquele tempo era cinco mirrei né… num tinha ganho e nada, acabou tudo era tristeza, num tinha trabalho… tinha trabalho, mas não tinha dinheiro né, aí fui me embora pra lá”.” MONTES, Edmundo. Migrações Xukuru do Ororubá: São Paulo e o “Sul” (1950-1990)” p. 3.

 LIGAS CAMPONESAS

     As Ligas Camponesas surgiram em 1946 e foram importantes defensores da reforma agrária no país antes da Ditadura Militar. Através dos movimentos rurais iniciados pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), a chamada Liga dos camponeses foi articulada em prol da defesa da terra e dos trabalhadores do campo. Diante disso, a presença dessas ligas em Pesqueira se deu nos anos de 1960, a partir de uma greve de trabalhadores das potências da época, Fábrica Peixe e Rosa. Essas fábricas eram comandadas por componentes da sociedade oligárquica pesqueirense, os Britos e os Didier. “O ambiente foi de muita agitação social nos primeiros meses de 1961 na cidade de Pesqueira, localizada a 208 km de Recife. O assunto mais comentado: as Ligas Camponesas.” (SILVA, Edson H, 2010).

   Perante toda essa movimentação, a situação ficara cada vez mais estreita entre a sociedade vigente de Pesqueira e os integrantes das Ligas, uma vez que houveram expulsões dos camponeses de suas terras, atos de fortes violências, etc. Ciente disso, a Indústria Peixe firmou uma proposta, em 1960, de melhoria nas formas de trabalho dos proletariados rurais, e ao mesmo tempo, o trabalhador deveria cooperar com a Fábrica. Essa proposta nada mais era do que uma forma da elite econômica pesqueirense atenuar os conflitos sociais que decorriam da concentração de terras e as relações exploratórias de trabalho.  

   Apesar de todos os esforços feitos para manter uma hegemonia dos Britos e Didier, a elite econômica não conseguiu sustentar a deterioração das fábricas de doce de Pesqueira.

“A Fábrica Peixe e as demais indústrias de doces instaladas em Pesqueira entraram em decadência em fins dos anos 1960 e acentuadamente na década seguinte, segundo estudos em conseqüência das mudanças econômicas onde os capitais passaram a ser investidos no Sudeste do país, em fábricas concorrentes. Ocorreu a desagregação do clã dos Britos, a venda da empresa a um grupo canadense e posteriormente a falência.” [20]

   Anos após, em 1981, o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pesqueira tentava contornar a situação para as mais de 600 famílias que foram prejudicadas com o fechamento da Indústria Peixe, uma vez que os terrenos que pertenciam à fábrica foram repassados para o BNDE por causa de dívidas públicas. Nesse sentido, os trabalhadores decidiram resistir à expulsão e afirmaram que não abandonariam as terras. E quando falo de trabalhadores, falo do povo Xucuru, que eram maioria entre os “operários” das fábricas de doce em Pesqueira.

   Numa perspectiva de opressão, as Ligas Camponesas surgem e se assentam em Pesqueira com a participação dos índios. Segundo (SILVA, E. 2010),

“Em 1959 foi denunciada a Secretaria de Segurança Pública no Recife, a Liga Camponesa “a 12 km da cidade”, ou seja o que corresponde à zona rural de Pesqueira. Segundo o manuscrito, o então candidato a Prefeito daquele município Luiz Neves, afirmou que “se eleito estaria ao lado dos camponeses e resolveria a situação de divisão de terra”. Afirmava o denunciante que o local estava recebendo visitas de “Dr. Julião” (Francisco Julião), que organizara a sede e a diretoria da Liga naquele lugar.”[21]

     A inspetoria do SPI recifense possuía conhecimento da existência e atuação da Liga Camponesa entre os índios, e a organização da Liga Camponesa prosperou e era observada de perto pelas autoridades.  Ainda segundo Edson Silva,

“Em 1961 o Delegado de Pesqueira informava que recentemente, “camponeses construíram uma palhoça, sendo a primeira feita pela Liga. Ameaçaram os proprietários com armas, gestos e palavras”.[22]  Em um trecho de um relatório datado do mesmo ano[23], consta que em Pesqueira a sede da Liga estava na área urbana da cidade. E a sede das Ligas “fora da cidade”, encontrava-se no Posto do SPI onde o chefe era “o agitador Arnaldo Tenório”.”

   Os Xucuru relatam bem essas memórias a respeito das Ligas Camponesas, esses relatos atrelados aos diversos documentos oficiais que registraram essa participação indígena nos apresenta uma série de curiosidades que dizem respeito a esse povo de grandioso carregamento histórico. Nesse interim, destacarei relatos de memória de participantes da Liga, registrado pelo historiador, professor e também pesquisador, Edson Silva – aqui já citado em muitos momentos – em seu artigo “Os Xucuru e as Ligas Camponesas”. Durante os anos que se seguiram, houve uma ocupação em Pedra D’agua, ocupação essa feita pelos participantes da Liga Camponesa, inclusive os xucuru. O território ocupado estava sob posse da União, e por isso houve retaliações.

 “Foi essa Liga Camponesa. Foi começo da invasão, que invadiram lá a Pedra D’Água. Foi com a Liga Camponesa, isso mesmo.. Diziam que ‘esse terreno daqui não é de governo mais não. Isso aqui é nosso! Isso é da gente!’”[24]. O depoente recordou que foram presos, “Porque eles invadiram terreno do governo. Eles invadiram para trabalhar lá. Que foi como um bocado de ciganos, aquela empanada, lá”[25]. Com o Golpe Militar de 1964, a repressão foi grande, com prisões e expulsão dos ocupantes, “Saíram correndo. Foi um pau, que não foi moleza! Dessa vez que eles vieram foi o Exército! Prendeu muita gente. Sofreu lá comunistas e homem que não era comunista”.”

     Vinte e seis anos (1990) após o Golpe Militar de 1964, que repreendeu fortemente a atuação das Ligas Camponesas, os Xucuru voltaram a ocupar o território de Pedra D’Água que estava em posse de 15 fazendeiros não-índios. Como ainda destaca Edson Silva, essa reocupação fora um marco na organização e mobilização dos Xukuru, que retomaram outras áreas em mãos de fazendeiros o que provocou perseguições, violências e assassinatos de lideranças indígenas a exemplo do Cacique Xicão em 1998.

   XICÃO E A CRESCENTE BUSCA POR DIREITOS

         Após discernir sobre tantas questões históricas do povo Xucuru, não poderia deixar de trazer aqui a participação do cacique Xicão.

       “Batizado como Francisco de Assis Araújo, Xicão nasceu no sítio Cana Brava em 1950. O local fica no meio do atual território Xukuru, que está inserido nos municípios de Pesqueira e Poção, em Pernambuco, a 216 km de Recife. A terra indígena, atualmente homologada em 27.555 hectares, na época em que Xicão nasceu estava em sua maior parte ocupada por não indígenas. Filho de Cícero Pereira de Araújo e Quitéria Maria de Araújo, Xicão cresceu na área em um pequeno pedaço de terra que o pai possuía. Casou-se em 1970 com Zenilda Maria de Araújo, com quem teve oito filhos. Segundo Zenilda Araújo, cinco anos depois do casamento o marido foi trabalhar como caminhoneiro e viajou para São Paulo, de onde retornou três anos mais tarde para o início de sua história de luta nos Xukuru. A entrada de Xicão como liderança é rodeada por histórias que indicam o misticismo presente desde antes do seu envolvimento com a luta indígena.”[26]

   Francisco de Assis (Xicão) foi e é até os dias de hoje um símbolo da luta indígena por seus direitos. Lembrado em muitos relatos orais dos índios, é sempre notado o sentimento de orgulho que parte dos mesmos, uma espécie de devoção por aquele que tanto fez pelo seu povo. Xicão começou a escrever seu caminho de luta após ter se recuperado de uma doença, onde prometera que se ficasse curado, lutaria pelo seu povo. E em 1986, convencido pelo Pajé da época, Seu Zequinha, entrou na luta iniciando assim o seu caminho de bravura. Segundo (Oliveira, 2018), “A situação era difícil para os Xukuru. As aldeias, na  época,  eram conhecidas apenas como sítios e não havia efetivamente um movimento de organização interna enquanto grupo étnico”[27].

 “Quando eu comecei na luta eu não tinha consciência da luta do índio pela terra, pela educação, pela saúde e pela subsistência, até porque era muito jovem, tinha outras influências, mas sempre sabia que a minha mãe era uma cabocla índia, meu pai era índio e meus avós também, tudo nascido em cima da serra.” Francisco de Assis Araújo, 1997. [28]

    Foi a partir dos anos de 1986 que se iniciou uma mudança política dentro da aldeia da Serra do Ororubá. Com apoio do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), Xicão passou a atuar como vice-cacique, com objetivo de conscientização política e social, a fim de trazer à tona um sentimento étnico do ser índio.

“A partir de 1987 as lideranças Xukuru passaram a participar de manifestações e cursos dados pelo CIMI e outras ongs que objetivavam esclarecer direitos indígenas, principalmente em relação a terra, em função da mobilização pela nova Constituição que estava sendo gestada.”

      Em 1988, com a Assembleia Nacional Constituinte, o movimento indígena iniciou o seu marco revolucionário. Ambientado no Estado de Brasília, lideranças de todo o Brasil reuniram-se em prol de negociação dos artigos que garantiriam os direitos dos índios brasileiros. E foi exatamente nesse evento que o povo Xucuru passou a ser notado, ao conseguirem entrar no Congresso Nacional mesmo quando a maioria das lideranças estiveram sido barradas. Essa entrada para participação trouxe benefícios para os povos indígenas, visto que juntos, conseguiram derrubar uma Lei que repassaria aos estados e municípios as terras dos aldeamentos extintos. Para além dessa derrubada, os índios conseguiram a vitória da escritura dos artigos 231 e 232 que hoje representam a defesa dos direitos indígenas.

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarca-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

Art. 232. Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressas em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo.

“Diante da conquista que foi a Constituição Federal de 1988, as lideranças Xukuru voltaram para a área munidos da esperança de conseguir fazer cumprir o que estava na lei. Eram várias reuniões semanalmente, sempre seguidas do ritual do Toré, onde eram explicados para os índios os direitos que a nova Constituição garantia, inclusive com relação a maior de suas lutas, que era a terra. A vontade de lutar dos Xukuru foi crescendo e com ela as discussões sobre estratégias de como se utilizar da lei.”

    Após as conquistas da Constituição Federal e a não aprovação do Projeto Vale, um projeto que previa a expropriação da terra Xukuru, o Xicão passou de vice à Cacique da tribo que habita a Serra do Ororubá. Segundo (OLIVEIRA Kelly. E. de. Mandaru, 2018), “Foi logo após esses eventos que Xicão tornou-se Cacique. O seu posicionamento em Brasília, o apoio que havia conseguido com o CIMI e as atitudes enérgicas diante da resolução dos problemas só legitimaram ainda mais essa escolha.”

“Ele – meu pai – sempre contava pra gente que um dia viria essa oportunidade, esse momento de que alguém ia se levantar e ia dizer que essa terra tinha dono antes dos fazendeiros chegar, não importava o tempo que eles já tavam aqui dentro, importava que já existia os donos quando eles chegaram. Ele até contava a história “desde que meu escanchavô conversava com o pai dele”. Ele não sabia de quando era. Sabia que os tataravós e os escanchavós contava pra eles que algum dia ia chegar o momento. Não sabiam de que maneira e talvez alguns deles não alcançasse, mas ia ter alguém que ia se levantar, ia gritar e ia dizer ao mundo inteiro que essa terra é do índio. Ia acontecer assim.”

      A presença de Xicão como cacique aumentou os trabalhos na aldeia xucuru, passando a unificar todos os povos, muitos dos quais viviam isoladamente de qualquer informação sobre os seus direitos enquanto indígenas.

 “Quando ele começou a ser Cacique começamos fazer reunião nas aldeias, que muitos índios nem entendia dos seus direitos, não sabia que era índio, do direito que tinha lá fora. E a partir do momento que ele entrou como Cacique ele começou a descobrir os caminhos dos direitos dos índios. Meio difícil, mas ele foi conseguindo, aos poucos. Ele tinha uma mente muito aberta. Então ele deu início, andar nas aldeias, conversar com o povo, de aldeia em aldeia. Isso a gente ia a pés, com muito sacrifício. Aí a luta foi indo. Eu ia junto com ele e os índios que já tava se aconchegando na luta. Aí tinha as reuniões e ia nas aldeias. O povo ficava meio espantado porque nunca tinha visto falar dos seus direitos, mas aos poucos iam se chegando. Todo final de semana nós ia nas aldeias fazer essas reuniões, aí continuou e o povo foram se unindo.” (Zé de Santa – Vice- Cacique Xukuru)

     Esse caminho trilhado por Xicão de lutas foi momentaneamente interrompido após o seu assassinato, no dia 20 de maio de 1998 na cidade de Pesqueira. Após sair da casa de sua irmã, Xicão foi baleado à queima roupa por um homem que até os dias de hoje não foi identificado. Quando enfatizo que momentaneamente fora interrompida as lutas por direitos indígenas, quero dizer que essa busca foi retomada pelos índios xucuru, que não permitiram que o legado de Francisco de Assis, Xicão, fosse morto. Para os xucuru, Xicão não foi enterrado, “Ele não vai ser enterrado, ele não vai ser sepultado. Ele vai ser plantado, para que dele nasçam novos guerreiros.”[29] Hoje, quando os xucuru celebram seus ritos, gritam por “Tamain[30]”, “Tupã” e “Cacique Xicão”.

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

      A história dos índios Xucuru não é apenas o que relato aqui, é muito mais do que podemos imaginar. Isso não desqualifica meus escritos, mas retrata exatamente o que penso: A diversidade cultural, social e histórica desse povo é gigante e deve ser estudada e ampliada. Procurei trazer neste artigo um pouco do que pude aprender sobre esse povo guerreiro juntamente ao conhecimento de especialistas da área e os seus colhimentos de relatos orais dos índios xucuru.

       Os Xucuru da Serra do Ororubá é um povo que é marcado pelas lutas e conquistas de seus antepassados, participantes de grandes conflitos e guerras como aqui destacados: Guerra do Paraguai, Ligas Camponesas. Além disso, são marcados por buscarem fortemente os seus direitos à terra, ao culto e a liberdade descritos na Constituição Federal brasileira. Os Xucuru são hoje líderes do ranking nacional dos municípios com mais populações autodeclaradas indígenas no Nordeste, como consta no IBGE de 2010, e isso retrata o que o cacique Xicão buscava, o reconhecimento do ser índio, xucuru. Essa população tão mascarada historiograficamente representa a luta dos índios pelas suas vidas e por seus direitos e mais uma vez, devem ser estudas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBALHO, Nelson. Caboclos do Urubá. Biblioteca Pernambucana de História Municipal, v.2. Recife, 1997, 26ip.

OLIVEIRA, Kelly E. de. Mandaru: O processo de organização política e elaboração simbólica do povo indígena Xukuru. 2013

OLIVEIRA, João P. de. (Org.). A viagem de volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria, 2004.

SILVA, Edson H. História, memórias e identidade entre os Xukuru do Ororubá. In Revista Tellus. Campo Grande, UCDB, nº 12, 2007.

SILVA, Edson H. Xucuru: memórias e história dos índios da Serra do Ororubá (Pesqueira/PE), 1959-1988. Tese de Doutorado em História Social. Campinas, UNICAMP, 2008.

PERES, Sidnei. Arrendamento e terras indígenas: análise de alguns modelos de ação indigenista no Nordeste (1910-1960). 1972. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – PPGAS-MN/UFRJ, Rio de Janeiro, 1992.

DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo, Cia. das Letras, 2002, p.19. Citado por SILVA, E. Memórias Xucuru e Funi-ô da Guerra do Paraguai. In Ciências Humanas em Revista v.3, nº2, 2005, UFMA, São Luís, p.51-58.

SILVA, Edson H. Memórias Xucuru e Fulni-ô da Guerra do Paraguai. Publicado in Ciências Humanas em Revista v.3, nº2, 2005, UFMA, São Luís, p.51-58).

SILVA, Edson H. Os índios Xucuru e as Ligas Camponesas (Pesqueira-PE, 1961). In Revista Crítica Histórica Ano I, Nº 2, Dezembro/2010 -101.

CAVALCANTI, Célia Maria de Lira. Acumulação de capital e a industrialização em Pesqueira (Pernambuco). Recife: UFPE, Mestrado em Economia/PIMES, 1979. Citada por SILVA, Edson. Os Xucuru e as Ligas Camponesas. Revista Crítica Histórica Ano I, Nº 2, Dezembro/2010.

MONTE, Edmundo. Migrações Xukuru do Ororubá: São Paulo e o “Sul” (1950-1990).

Biografia realizada por Kelly Oliveira E. de. Mandaru, Professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB. 2018. Disponível em: https://osbrasisesuasmemorias.com.br/xicao-xukuru/

OLIVEIRA, Kelly E. de. Mandaru. Xicão Xukuru. Em: Memórias do Povo Xukuru – CCLF – 1997.


[1] SILVA, Edson. Xucuru: memórias e história dos índios da Serra do Ororubá (Pesqueira/PE), 1959-1988. Tese de Doutorado em História Social. Campinas, UNICAMP, 2008.

[2] Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/pesqueira/historico

[3] Disponível em: Diário Oficial nº 84, seção 1 – 2 de maio de 2001.

[4] Informação apreendida com lideranças Xukuru.

[5] Mapa pertencente ao Jornal Folha de São Paulo datada dos anos 1996. Ressalto aqui que foi retirado do site https://osbrasisesuasmemorias.com.br/povo-xukuru-do-ororuba/.

[6] SILVA, Edson H. História, memórias e identidade entre os Xukuru do Ororubá. In Revista Tellus. Campo Grande, UCDB, nº 12, 2007.

[7] Relatório do chefe da 4ª Inspetoria Regional do SPI, Raimundo Dantas Carneiro, em julho de 1957.

[8] SILVA, Edson H. op cit.

[9] SILVA, Edson H. Op cit.

[10] Josefa Rodrigues da Silva. (Aldeia Gitó, em 30/03/02. Serra do Ororubá, Pesqueira/PE.)

[11] Pedro Rodrigues Bispo, “Seu Zequinha”, 72 anos, Pajé Xukuru. Bairro Portal, em 29/03/02. Pesqueira/PE.

[12] SILVA, Edson H. Povo Xucuru do Ororubá: História a partir das memórias de “Seu” Gercino. SAECULUN, Revista de história [18]; João Pessoa, jan/ jun. 2008.

[13] PERES, Sidnei. Arrendamento e terras indígenas: análise de alguns modelos de ação indigenista no Nordeste (1910-1960). 1972. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – PPGAS-MN/UFRJ, Rio de Janeiro, 1992. Citado por Edson Silva no artigo História, memórias e identidade entre os Xukuru do Ororubá. Revista Tellus. Campo Grande, UCDB, nº 12, 2007.

[14] A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul no século XIX.

[15] DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo, Cia. das Letras, 2002, p.19. Citado por SILVA, E. Memórias Xucuru e Funi-ô da Guerra do Paraguai. In Ciências Humanas em Revista v.3, nº2, 2005, UFMA, São Luís, p.51-58.

[16] SILVA, E. Memórias Xucuru e Funi-ô da Guerra do Paraguai. In Ciências Humanas em Revista v.3, nº2, 2005, UFMA, São Luís, p.51-58.

[17] “Maria Coragem”, uma índia que se destacou nos campos de batalha. Ela não possuía este nome, mas passou a ser chamada após o feito na Guerra do Paraguai.

[18] João Jorge de Melo, 65 anos. Aldeia Sucupira, Terra Indígena Xukuru do Ororubá, Pesqueira, em 30/03/2002.

[19] PERES, Sidnei. Arrendamento e terras indígenas: análise de alguns modelos de ação indigenista no Nordeste (1910-1960). 1972. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – PPGAS-MN/UFRJ, Rio de Janeiro, 1992. Trecho citado por Edmundo Montes no artigo “Migrações Xukuru do Ororubá: São Paulo e o “Sul” (1950-1990)” p. 3.

[20] CAVALCANTI, Célia Maria de Lira. Acumulação de capital e a industrialização em Pesqueira (Pernambuco). Recife: UFPE, Mestrado em Economia/PIMES, 1979. Citada por SILVA, Edson. Os Xucuru e as Ligas Camponesas. Revista Crítica Histórica Ano I, Nº 2, Dezembro/2010.

[21]“Parte”. De Eliel T. Vasconcelos, em Recife 8/12/1959, para o Comissário Auxiliar (Secretaria de Segurança Pública/SSP). APE, Fundo SSP 1083. (Documentação do DOPS).

[22]Telegrama. De Modesto Oliveira, Sargento-Delegado, em Pesqueira 27/05/1961, para o Delegado Secretário de Segurança Pública no Recife. APE, Fundo SSP 1083. (Documentação do DOPS).

[23]Cópia de um trecho de relatório datado de 25 de setembro de 1961. Relatório das sindicâncias relativas às Ligas Camponesas. Da SSP/Delegacia Auxiliar, para o Comissário Supervisor. APE, Fundo SSP 29285. (Documentação do DOPS).

[24]Idem.

[25]Idem.

[26] Biografia realizada por Kelly Oliveira, Professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB.2018.

Disponível em: https://osbrasisesuasmemorias.com.br/xicao-xukuru/

[27] Ibidem.

[28] OLIVEIRA, K. Xicão Xukuru. Em: Memórias do Povo Xukuru – CCLF – 1997.

[29] Fala relatada no documentário: O outro mundo do cacique Xicão – Mundo Livre S/A.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FI8qov6L2Bo

[30] Também conhecida como Nossa Senhora das Montanhas, que é a principal santa de devoção desse povo.