A REVOLUÇÃO INGLESA

Universidade Federal de Pernambuco

CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Disciplina: História Moderna

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

A Revolução Inglesa no séc. XVII

Giovanna Gabrielle S. F. L. Spindola

Isadora A. de Araújo

Kamila B. S. Vasconcelos

Larissa C. B. dos Anjos

  1. INTRODUÇÃO

Em primeira análise, sabe-se que a Revolução Inglesa, ocorrida no século XVII, é considerada umas das revoluções protagonizadas pela burguesia. Nesse sentido, antes de adentrar no processo histórico dessa revolução, faz-se necessário ilustrar alguns conceitos importantes, como o conceito de “revolução” e “burguesia”. O primeiro conceito, ocorreu concomitantemente ao surgimento da concepção moderna de História na Europa, no decorrer da segunda metade do século XVIII. Durante tal período, a História sofreu um processo de secularização, o qual deixou de seguir uma concepção religiosa acerca da compreensão do passado, para conceber um processo linear e contínuo de realização das ações humanas nas quais o futuro se encarregaria como o pacto de solidificação de um novo mundo, um dever da revolução. Desse modo, com relação ao conceito de revolução, Florestan Fernandes afirma no seu livro “O que é Revolução”, publicado pela primeira vez em 1981, que revolução é um processo de transformação profunda nas estruturas políticas e sociais de uma nação.

O segundo conceito, consiste na classe dominante dentro no sistema capitalista. Trata-se, do grupo de pessoas que detém os bens de produção ou o capital. Primordialmente, o termo burguesia está relacionado ao vocábulo “burgos”, como eram chamadas as pequenas cidades que surgiram com o renascimento da atividade comercial no fim da Idade Média. Dessa forma, a palavra burguesia surge para denominar a classe social comerciante que ascendia com o enfraquecimento do feudalismo. Além disso, é importante salutar que esta não é uma classe social homogênea. Ela pode ser dividida em: alta burguesia (aquela que de fato detém os meios de produção), média burguesia (comerciantes e profissionais liberais) e pequena burguesia (pequenos comerciantes e artesãos).

Em segunda análise, devido à ascensão da classe burguesa, o sistema feudal (poder descentralizado, dividido entre rei e senhores feudais), fora visto como ineficaz para responder aos anseios dessa classe em ascensão, pois os senhores feudais cobravam pesados tributos para o trabalho na terra e não ofereciam boas condições para o desenvolvimento da atividade mercantil. Dessa maneira, a classe burguesa em ascensão, apoiou a centralização do poder na figura de um rei absolutista. Surgindo, assim, os Estados Nação, por meio de uma aliança entre burguesia e rei. A partir de então, os tributos passaram a ser pagos diretamente ao Estado, que deveria proporcionar um ambiente favorável para o desenvolvimento do comércio.

Entretanto, tal relação favorável entre Burguesia e Absolutismo, começava-se a apresentar, aos poucos, os seus limites. Boa parte dos ganhos da classe burguesa eram destinados ao sustento da nobreza e do clero. Além disso, a monarquia absolutista colocava empecilhos ao desenvolvimento capitalista, pois estabelecia limites ao livre comércio e priorizava a atividade agrícola. Além dessas questões econômicas, a classe burguesa também não desfrutava de liberdades individuais, como liberdade religiosa, por exemplo. Devido a tais questões, surgiram na França (século XVIII) e na Inglaterra (século XVII), revoluções “lideradas” pela burguesia e apoiadas pelos camponeses contra o poder absolutista, denominadas de Revoluções burguesas.

A Revolução Inglesa do século XVII, fora um dos principais processos históricos da Idade Moderna. Ela pode ser dividida em cinco fases principais: 1) A Grande Rebelião (1640-1642) que designa a revolta do Parlamento contra a Monarquia Absolutista, após uma prolongada disputa pela soberania política, 2) A Guerra Civil (1642-1648), que diz respeito aos confrontos vividos em Inglaterra, com objetivo de implantação do capitalismo e derrubada de Carlos I que possuía fortes tendências feudalistas, frente a sua atitude monarquista absolutista; 3) A República de Oliver Cromwell (1649-1658), aponta para o desdobramento lógico do processo, fruto da criação de um exército revolucionário, e do aparecimento da ideologia política radical dos Niveladores, que conduziu ao julgamento e execução do rei e à proclamação da República; 4) A Restauração da Dinastia dos Stuart (1660-1688) e 5) Revolução Gloriosa (1688). Ambas, apontam para o encerramento e os limites da Revolução Inglesa.

  1. TRANSFORMAÇÕES SOCIOECONÔMICAS

Com relação à vida no campo, “apesar de quase todos trabalharem na terra, o alimento era escasso e bastante caro, o que submetia as pessoas à fome constante que – não poupando campos e cidades – fazia das poucas pessoas ricas as exceções alimentadas em meio a um mundo de privações” (MICELI, 1950, p.06). Enquanto as cidades, embora também sofressem com a fome, elas obtinham armazéns onde estocavam suas reservas. Já o campo, era atingido mais severamente.

Nesse sentido, devido a tais condições miseráveis de vida, muitas pessoas – principalmente camponeses -, recorriam às bebidas alcoólicas para esquecer das dificuldades da vida cotidiana, além de completar a dieta insuficiente.

Além disso, a habitação e o vestuário representavam mais duas grandes problemáticas enfrentadas pela população europeia que atingia, principalmente, os camponeses. Desse modo, podia-se notar que a maioria, vivia em precárias construções de madeira, cobertas de palha. Com relação aos móveis e utensílios,

desenhos e documentos da época mostram que raramente ultrapassavam a mesa rústica, o banco de madeira, uma vasilha de ferro para as refeições, um caldeirão, algumas tábuas e sacos de palha que serviam de cama, pratos de madeira ou argila e uns instrumentos para trabalhar a terra” (MICELI, 1950, p.10).

O vestuário era bastante precário. “Bonita, era apenas a roupa “de festa”, muitas vezes transmitida como herança, de geração a geração” (MICELI, 1950, p.10). Diariamente, “o que se usava eram roupas grosseiras, quase sempre tecidas em casa e tingidas de negro, com o uso da casca do carvalho” (MICELI, 1950, p.10).

Nessa conjuntura, vislumbrando um pouco acerca da realidade crítica sob as quais sobreviviam aquelas pessoas, torna-se mais entendível porque as promessas de libertação poderiam ter efeito sobre elas, a ponto de transformá-las no principal e efetivo sustentáculo dos movimentos revolucionários.

A partir do final do século XV, puderam-se perceber os primeiros sinais de mudanças na Inglaterra que atingiram o campo. Outrora, dificilmente a terra trocava de mãos. Era comum, nesse caso, a terra passar hereditariamente de pai para filho. Vale notar que, “a quase totalidade dos camponeses gozava de um direito de propriedade sobre as terras, independentemente do título jurídico em que estivesse baseado esse direito” (MICELI, 1950, p.17). Além disso, é importante ilustrar que todos utilizavam as terras comuns para pastagem de gado e para a extração de lenha.

As mudanças ocorridas no setor agrário da Inglaterra a partir do final do século XV, estavam relacionadas com à busca da dissolução das relações feudais que serviam de entrave para o crescimento da atividade mercantil. Dessa maneira, procurava-se eliminar os rendeiros hereditários, limitar os arrendamentos, acabar com a utilização das terras comunais por parte dos camponeses mais carentes, entre outras questões. Consequentemente, houve um grande lançamento de pessoas sem direitos para as cidades.

Em se tratando do contexto e quais os interesses essas mudanças vinham a atender, têm-se, em primeira análise, o interesse do rei em manter e ampliar seu poder absolutista. Para isso, utilizava da sua força política, para tentar dissolver as relações de vassalagem. Em segunda análise, no final do século XVI, a posse das terras passava das mãos da alta aristocracia à gentry (considerada a “nobreza da terra”, com ideias progressistas) e dos arrendatários e jornaleiros aos yeomen (“classe média” rural que se situava entre a gentry e os camponeses mais carentes). Em terceira análise, a Lei de Cercamentos (Enclosure Acts) das antigas terras comunais, possibilitou à gentry (principalmente) e aos yeomen, arrendar as terras cercadas como pastagens para a criação de ovinos. A lã dos ovinos, por sua vez, servia de matéria-prima para a indústria têxtil em formação, na Inglaterra.

Quanto aos camponeses expulsos, alguns foram usados como mão de obra assalariada nas manufaturas das cidades. Outros, não tiveram o mesmo êxito e passaram a ser mendigos e/ou delinquentes. Tal situação fora vista como um problema público. Nesse aspecto, para tentar solucionar/minimizar essa situação, algumas medidas foram tomadas: os mais velhos e incapazes deveriam pedir uma licença para ter o direito de mendigar. Os mais novos e robustos, eram orientados a arrumar alguma ocupação. Se esses fossem pegos sem trabalho, recebiam alguns castigos (chicotadas, prisão, entre outros). Nesse sentido, em caso de persistência, cortava-se meia orelha. Em uma nova reincidência, eram considerados “inimigos da sociedade” (produtiva) e enforcados.

Em outra análise, outro fator que acelerou esse processo de transformação foi o enorme saque das terras da Igreja Católica (1536-1540), no período em que a Reforma atingiu a Inglaterra. Dessa forma, a supressão dos conventos e das propriedades eclesiásticas, acabou lançando ao mercado outras imensas extensões de terras.

Nota-se, que surgia então, uma nova ordem no campo, pois se as mudanças fossem resumidas à expulsão dos camponeses, só haveria uma formação de grandes proprietários de terras. Pelo contrário, houve a formação de uma nova ordem social, o qual não apenas a terra, mas também as pessoas foram transformadas em uma espécie de mercadoria (através da força de trabalho).

O surgimento desses investidores na Inglaterra está relacionado ao aparecimento do arrendatário capitalista. Esse, por sua vez, manifestou-se através de uma lenta evolução: a partir do bailiff (um tipo de servo), passando pelo colono (que recebia sementes, gado, instrumentos de trabalho e que já utilizava trabalho assalariado), depois sucedeu no parceiro (que já entrava no negócio com uma parte do capital, dividindo o produto final com o senhor) e finalmente, chegou-se ao arrendatário. Esse, para amplificar seu próprio capital, empregava basicamente trabalhadores assalariados. Pagando ao senhor, por sua vez, como renda da terra, uma fração do resultado (em dinheiro ou em produtos).

Nesse aspecto, nota-se que a formação da nova ordem social sucedeu de um processo lento, com a tentativa de entraves da Coroa, por exemplo, através da concessão de monopólios (venda a um indivíduo particular dos direitos de produzir e/ou vender determinada mercadoria ou o direito exclusivo de fazer comércio em algum mercado ultramarino). Entretanto, tal tentativa fracassou. Dessa maneira, a maioria das pessoas de forma espontânea ou não, teve que assimilar os valores ideológicos de um pequeno número de indivíduos. Muitos camponeses e trabalhadores urbanos (importantíssimos, posteriormente, na concretização da Revolução Inglesa) aderiram à construção do mundo burguês, pois viam nele uma esperança na melhoria das condições de vida.

  1. MONARQUIA, PARLAMENTO E REFORMA

A situação da Inglaterra no momento da chegada dos Stuarts ao poder resultou dos acontecimentos envolta da Dinastia Tudor, que esteve no trono inglês de 1485 até 1603, a qual foi representada por Henrique VII, Henrique VIII, Eduardo VI, Maria Tudor e Elizabeth I. A dinastia Tudor foi a responsável pelo início do absolutismo monárquico inglês, a partir da ascensão de Henrique VII ao trono. De acordo Perry Anderson, a monarquia feudal inglesa foi mais forte do que a empreendida na França: um vislumbre possível de perceber isto é com a Guerra de Cem Anos, empreendida entre Inglaterra e França, a qual demonstrou um feito militar sem limites pelo Estado insular, mostrando um sinal agressivo da superioridade organizacional inglês. No entanto, no que se refere ao poder monárquico no período moderno, a Inglaterra apresentou um modelo mais fraco, em comparação com a França. Isto decorreu devido diversos fatores, principalmente aqueles presentes nos reinados de Henrique VIII e Elizabeth I. Alguns fatores fortes, trazidos tanto por Anderson quanto Modesto Florenzano, é a falta de um exército militar permanente no território inglês, a ausência de uma autonomia financeira e de um corpo burocrático.

A Inglaterra durante o medievo se destacou como uma grande potência europeia. Porém, com os primórdios da modernidade, visualizasse uma monarquia inglesa que perde sua força e, de certa maneira, seu status entre as outras potências europeias. No cenário das Guerras Renascentistas, o continente europeu se mobilizou em torno da necessidade de exércitos, contratações, abastecimento de materiais, manutenções, aspectos que exigiam altos custos e investimentos por parte das nações. Enquanto Espanha e França, por exemplo, precisavam de um grande exército como condição para sobrevivência, a Inglaterra detinha um diferencial: a sua posição geográfica insular fazia não tão necessário um exército permanente (em contraste das monarquias continentais) – e, até então, não existiam riscos de ataques marítimos. Ademais, também não era possível pela falta de recursos financeiros. Durante seu reinado, Henrique VIII tentou de diferentes maneiras manter a antiga posição inglesa no continente pois, no medievo, tanto França quanto Espanha sofreram invasões inglesas. Mas, neste período, resultou alguns desastres militares e um recuo diplomático na posição de grande potência que adquiriu durante a Idade Média. No início do período moderno, a disputa hegemônica da Europa, isto é, a conquista da Itália, estava entre França e Espanha. Diante disso, Henrique VIII chegou a se envolver nas disputas entre as dinastias de Espanha – Valois, e França – Habbsburgo, mas foi derrotado em todos os momentos o qual interferiu (1512-14, 1522-25, 1543-46). Com isso, gradativamente perdeu poder de interferência nos assuntos acerca de Itália e da Igreja – o que, em determinado momento, refletiu na Reforma Anglicana. Para manter a participação militar ativa, Henrique VIII empreendeu alguns esforços de guerra num sentido econômico, que acabaram por refletir em consequências para a Inglaterra tardia, recorrendo a empréstimos forçados ao Parlamento, ações que desvalorizaram a moeda, além de um dos principais fatores que causaram a sua perda de base econômica sólida: o lançamento das terras confiscadas pela Igreja no período de Reforma ao mercado – essas terras representavam ¼ das terras do reino. Esse ato gerou o fortalecimento da classe aristocrata rural inglesa: os gentry, fortalecendo-os e diminuindo o poder na nobreza. Com o reinado de Elizabeth I, a situação não se alterou muito. Embora ela tenha diminuído os gastos com o exército, a construção da marinha, iniciada durante o seu mandato, demandava recursos. Seu governo, tal como do seu pai, continuou recorrendo a venda dos bens da Coroa e aos empréstimos ao parlamento. Outra alternativa encontrada foi a concessão e venda de monopólios de comércio e indústria. No entanto, esta ação favorecia mais aos grupos encastelados da Coroa do que a própria monarquia. Durante o período de reinado dos Tudor, a Inglaterra não detinha e não desenvolveu fontes alternativas e permanentes de recursos, como o fizeram as demais potências europeias, como por exemplo, estabelecimento de um monopólio sobre algum minério essencial, como ocorria com a Espanha e o ouro e prata.

Além das questões de viés econômico, o corpo burocrático inglês era bastante reduzido. Por conta da interferência na escolha dos juízes de paz – que eram escolhidos em cada condado pelos proprietários locais, o que acabava gerando uma espécie de concentração da aristocracia rural na administração local, gerou uma falta de funcionários remunerados próprios da monarquia. Os juízes de paz expressavam mais as intenções dos homens do campo do que da própria Coroa. Por isso a revolução político administrativa idealizada pelos Tudor, com a criação de uma administração central e unificada, através do estabelecimento de tribunais judiciários e órgãos políticos, não se efetivou pela ausência de um corpo burocrático remunerado e vinculado ao Estado. O plano interno inglês se diferenciava em alguns aspectos do continente europeu: por conta de uma monarquia poderosa e centralizada na Idade Média e a sua dimensão territorial reduzida, impediu o surgimento de potentados locais semi independentes e de autonomias regionais. Diferente da França, Itália e Alemanha, a Inglaterra não sofria com os perigos das cidades e da Igreja que ameaçava esses soberanos feudais – nem os nobres eclesiásticos, nem as cidades tinham na Inglaterra autonomia e independência como nos outros locais da Europa. Não existiam tantas ameaças as forças políticas, por isso não foi necessária uma máquina burocrática e militar. Segundo Florenzano, um dos poucos perigos protagonizou a Guerra das Duas Rosas (1455-1485), um conflito que ocorreu entre as famílias York e Lancaster, que levou Henrique VII ao trono, de extrema importância para o entendimento do processo de formação da monarquia inglesa. O período em que Elizabeth I esteve no poder foi caracterizado por uma política externa menos ambiciosa e mais defensiva. Seus principais objetivos estavam em impedir a Espanha de reconquistas as Províncias Unidas, impediu os franceses de se instalarem nos Países Baixos e impediu a vitória da Liga Católica na Guerra Civil francesa, além de impedir a invasão francesa a Ilha. A atenção do seu governo foi direcionada a construção de uma grande esquadra naval que pudesse enfrentar o perigo espanhol. É durante o seu governo que a Invencível Armada espanhola foi destruída durante um ataque ao território inglês e ocorreu a Conquista da Irlanda. A desmilitarização também reforçava a tendência no sentido do comércio, pois também poderia dirigir seus interesses para a marinha.

Outro ponto essencial no que se refere a história inglesa é a existência do Parlamento. O Parlamento inglês nasce a partir do reinado de João Sem-Terra (1199-1216), quando, após derrotas em conflitos contra a França, foi obrigado a assinar um tratado: A Magna Carta, nela o rei era restringido de uma série de ações, como não poder aumentar os impostos sem prévia autorização dos nobres e só podia criar impostos depois de ouvir o Grande Conselho, formado por bispos, condes e barões. A partir deste documento, a autoridade do rei da Inglaterra ficava bastante limitada. O parlamento evoluiu de uma assembleia de vassalos a uma instituição coletiva e unificada da classe dirigente feudal da Ilha. A existência de um parlamento em pleno século XIII não é um diferencial entre as nações existentes na Europa, no entanto, na Inglaterra o parlamento era uma assembleia única e unificada. Nela, não existia a divisão tripartida bastante conhecida: cleros, nobres e burgueses. Em 1350, ela se configura sendo dividida em um sistema de 2 câmaras: A Câmara dos Lordes e dos Comuns. A Câmara dos Lordes era composta pelo Alto clero e a nobreza, enquanto a Câmara dos Comuns detinha burgueses e a gentry do campo – os quais ocupavam tanto a administração local quanto o parlamento. No mandato de Eduardo I ocorre a limitação do poder legislativo dos monarcas (1239-1307), onde nenhum poderia decretar novas leis sem o consentimento do parlamento. Durante a Dinastia Tudor, o Parlamento preservou tanto o direito de votar as leis quanto de aprovar impostos.

O reinado de Henrique VIII esteve bastante ligado ao parlamento, possível de visualizar no que se refere aos conflitos religiosos e políticos que causaram a Reforma Anglicana: Em 1529 ocorreu a convocação do parlamento, uma mobilização da classe fundiária a favor de Henrique no conflito com o papado. Isso resulta no Ato de Supremacia, em 1534,  um ato do Parlamento da Inglaterra ao rei Henrique VIII que declara que ele é “o único chefe supremo na Terra da Igreja na Inglaterra”. É neste contexto que ocorreu a morte de Thomas Morus, por exemplo, acusado de traição ao rei por desaprovar o Ato de supremacia. Nas palavras de Perry Anderson, “o uso que Henrique VIII fez do parlamento […] foi de abordagem confiantemente legalista: era um meio necessário aos fins do rei”, era a construção de um absolutismo nacional tal como o presente nas outras monarquias continentais. A Igreja Anglicana foi um aspecto essencial no cenário inglês pós século XVI: nascida no reinado de Henrique VIII, o período dos Tudor foi caracterizado pela presença de uma divergência na maneira de tratar as doutrinas. No momento de surgimento e consolidação dos Estados Nacionais, era de essencial importância submeter a força da religião e o poder da Igreja aos interesses do Estado, a Igreja funcionaria como uma espécie de aparelho ideológico do Estado, onde este teria controle sobre suas ações e a usaria como uma forma de propagar suas intenções e objetivos a sociedade. Porém, nem o reinado de Henrique nem o de Elizabeth conseguiram efetivar o plano de lidar com uma Igreja nacional consciente de si mesma e que unificasse o país em torno do monarca: não se podia controlar os movimentos religiosos. A Igreja Anglicana teve de enfrentar duas frentes: O catolicismo, pois ainda existiam muitas permanências da religião católica (a ruptura ocorreu com o papado e não com o catolicismo em si, tanto que Henrique VIII era um homem católico) e com o Protestantismo, pois, não podendo satisfazer as necessidades de uma população faminta por alimentos espirituais na época, não conseguia impedir o crescimento do puritanismo. Os puritanos compunham um grupo que esperavam reformas ainda maiores da igreja inglesa na direção de um protestantismo radical, desejavam a abolição ou restrição do poder dos bispos. Contudo, este era o cenário inglês no momento que os Stuarts chegavam ao poder, onde os fatores e acontecimentos influenciaram e tiveram impactos no governo e situação, tanto interna quanto externa, do Estado Inglês.

  1. A POLÍTICA ABSOLUTISTA DOS REIS STUART (1603-1640):

A dinastia Stuart, que funcionou de 1603 a 1640, transplantada para Inglaterra, perseguiu os ideais de realeza absolutista que eram então regra geral de todas as cortes na Europa ocidental. Jaime I, o então Rei da Escócia (Jaime VI), assumiu a Coroa – e uniu, assim, ambos os tronos em uma só monarquia pela primeira vez. Habituado a um país onde os magnatas territoriais faziam a sua própria lei e o Parlamento pouco valia, Jaime I defrontava-se agora com um reino onde o militarismo da alta nobreza havia sido reduzido, mas não conseguiu enxergar que, por outro lado, o Parlamento representava o lugar central do poder da nobreza. Assim, o caráter muito mais avançado da sociedade inglesa fez com que, por certo tempo, esta lhe parecesse ilusoriamente fácil de ser governada (ANDERSON, 1938, p.137).

 Assim, o regime jacobiano[1], com seu desprezo e incompreensão perante o parlamento, não realizou qualquer tentativa para aplacar o temperamento crescentemente oposicionista da pequena nobreza inglesa. Enquanto no século XVI a coroa parecia proteger a burguesia, isso era feito para conseguir reforço contra as casas feudais ainda existentes, o que explicava o acordo inicial entre a Coroa e o Parlamento (que representava principalmente os comerciantes e grandes proprietários de terra). Havia ainda inimigos externos, principalmente a Espanha, que pouco a pouco serão neutralizados interna e externamente, e a lua-de-mel entre a burguesia e o Parlamento que, sob os Tudor raramente se reunia, aprovando sempre a política real, termina. Os interesses opostos das duas partes vieram à tona e, quando teve início o reinado da dinastia Stuart, Jaime I e Carlos I tiveram de enfrentar a forte oposição do Parlamento.

Tal oposição crescia à medida que o governo inventava mecanismos para aumentar seus rendimentos. De acordo com Paulo Miceli, em seu livro “As Revoluções Burguesas”, a primeira tentativa consistiu em elevar os impostos. Isso atingiu principalmente a burguesia e deu origem a violentas disputas no Parlamento. A outra iniciativaconsistia na constituição dos já citados monopólios, o que voltou contra a monarquia os setores burgueses não favorecidos por eles, além de ter efeitos extremamente antipopulares, pois provocava grande aumento de preços. Por fim, a terceira política constituiu-se pela intenção de restaurar e elevar os impostos feudais (talha, corveia, banalidades). Mais uma vez, o resultado foi negativo, pois voltou-se contra a coroa o pouco que lhe restava do apoio da aristocracia e da pequena nobreza (elas próprias envolvidas com a tentativa de elevar os rendimentos extraídos dos camponeses).

A respeito da Igreja, se durante um longo tempo, seus interesses e o da Coroa pareciam comuns em sua essência, o avanço do capitalismo, acompanhado pelo movimento da Reforma, acabou pondo em conflito também essas duas forças. Na visão de Paulo Miceli, mesmo sabendo que não se pode atribuir ao rei, pessoalmente, a responsabilidade exclusiva por esse estado das coisas, seria contra ele (imagem coroada do poder) que todos se voltariam. “Como em um jogo de xadrez, o cerco ao rei foi se tornando apertado, e não tardaria o momento em que, posto em xeque, não teria saída”. (MICELI, 1950, pág. 30)

Num momento de desespero, Jaime I aproximou-se da inimiga Espanha, por temer o poder revolucionário da Igreja protestante. Essa medida pôs contra ele não só a poderosa força social representada pelos protestantes, como também todas as correntes de alguma forma identificadas com o nacionalismo inglês, que sempre se exaltavam ante a ameaça espanhola. Vale ressaltar que, devido a ruptura com a Igreja Católica (que não era apenas uma instituição com poder espiritual, mas detentora de um poder político continental, ao qual boa parte das Coroas europeias estava ligada) dispensou a Inglaterra de pagar tributos para Roma, durante a Dinastia Tudor, bem como colocou a marinha inglesa em flagrante rivalidade com os navios dos países católicos, sobretudo com os espanhóis. Muitos piratas ingleses, conhecidos como “lobos do mar”, atacavam navios espanhóis e levavam sua mercadoria (na maior parte das vezes, metais preciosos) para Inglaterra, o que contribuía para o aquecimento do mercado interno do país, e a acentuação da rivalidade entre as duas potências, além das tentativas de invasão durante o reinado de Elizabeth. Assim, o parlamento que em tempos passados pouco fazia além de referendar a política real, passou a ser palco de disputas acirradas onde misturavam-se questões religiosas, econômicas e constitucionais. (MICELI, 1950, pág.30).

Um questionamento paira no ar: mas e o rei? ele procurava se defender? De acordo com Paulo Miceli, de fato, ele tentava, mas faltavam alguns aparatos essenciais que o governo Jacobiano carecia para realizar tal feito.  Em primeiro lugar, faltava-lhe um recurso extremamente importante, do qual lançam mão todos os tiranos, coroados ou não, independente da época ou país: o rei não possuía um exército permanente. Além disso, faltava ao rei uma burocracia de funcionários organizada e dependente do poder central, o que também o expunha diretamente aos adversários. Finalmente, uma das maiores carências do rei: longe de ser pobre, o rei também não era tão rico, e faltavam-lhe meios para organizar e manter um exército e a tão necessária legião de funcionários do governo.

E foi para tentar conseguir recursos que o rei organizou uma última jogada: através do chamado “projeto de Cockayne” tentou controlar a exportação de tecidos, a principal indústria inglesa. A tentativa fracassou, e a monarquia sentiu em cheio o peso da força da burguesia: o Parlamento denunciou toda a política econômica de Jaime I, que, preferindo conservar a cabeça e perder a coroa, abdicou em favor de seu filho, Carlos, que com  o nome de Carlos I, subiu ao trono em 1625. (MICELI, 1950, pág.31)

Segundo L. Stone:

na década de 1620, a Inglaterra estava se encaminhando para uma situação de disfunção múltipla. Tanto o governo como a Igreja mostravam sua incapacidade para se adaptar às novas circunstâncias, às exigências das novas forças sociais e às novas correntes intelectuais. Nem um nem outro conseguiam satisfazer as aspirações políticas, religiosas e sociais de importantes setores entre a gentry, os mercadores, os juristas, o baixo clero, os yeomen e os artesãos. (FLORENZANO, 1981, pág.86)

Portanto, quando Carlos I assume, a Inglaterra vivia uma situação geral, um clima ideológico e uma correlação de forças nitidamente desfavorável a toda tentativa de implantar no país um programa político de caráter absolutista. Mas foi exatamente o que ele procurou fazer. Já em 1628, sua política de imposição de empréstimos forçados, encarcerando arbitrariamente os que se recusaram a pagar, levou o Parlamento a aprovar a famosa Petição de direitos que declarava a fixação de taxas sem o seu consentimento (ou seja, do Parlamento) e a prisão arbitrária, atos ilegais. Frente a este rompimento declarado do Parlamento, o rei passou à ofensiva, respondendo a sua dissolução em 1629 e com uma política de poder pessoal baseada apenas nas prerrogativas da monarquia.

Durante 11 anos consecutivos (1629-1640), com base na política de Thorough System (política global), Carlos I com a ajuda de dois enérgicos ministros, o arcebispo Laud e de Thomas Wentworth, conde de Strafford, procurou criar instrumentos de que o poder monárquico carecia para controlar as forças econômicas, sociais e religiosas cujo desenvolvimento e direção caminhavam em sentido contrário aos interesses do Absolutismo. O resultado terminou em um completo desastre e permitiu que todas as forças de oposição se unissem contra o rei.

Para controlar a vida econômica e obter recursos financeiros necessários a seu programa, isto é, capazes de sustentar uma máquina de Estado ampliada e sem passar pelo Parlamento, o rei recorreu a todos os expedientes possíveis, de caráter feudal e neofeudal, restaurando taxas e tributos, multiplicando monopólios, impondo multas, regulamentações de toda ordem e vendendo ofícios[2]. De acordo com Miceli, é interessante ressaltar que os efeitos de tais monopólios não se restringiam ao setor em que fossem aplicados: enquanto o do carvão atingia a totalidade da indústria, o do sabão atingia a produção de lã, o do sal tinha efeito sobre a salga do peixe e assim por diante. (MICELI, 1950, pág.33).

Um desses impostos, o ship money (imposto tradicional pago pelas cidades portuárias para defesa e equipamento da marinha real), foi transformado num tributo tradicional anual, com o intuito de ressarcir os prejuízos provocados por piratas que saqueavam navios e atacavam cidades portuárias. Sua aplicação causou uma verdadeira onda de descontentamento nacional entre todas as classes proprietárias. E a recusa, em 1637, de um dos líderes do Parlamento, John Hampden, de pagar o ship money, sendo por isso julgado e condenado, acabou se transformando no início de uma revolta geral em 1639-40 contra o pagamento desta taxa.  Para pôr um freio à mobilidade social existente, que expulsava os camponeses das terras e diluía os quadros tradicionais de nobreza, Carlos I proibiu os cercamentos de terras (enclosures) e restringiu a venda de títulos. Além disso, expulsou a gentry da Corte, fortaleceu os privilégios dos pares e reforçou a hierarquia de classes, fixando suas funções, acesso à Corte e outros órgãos de poder. Estas medidas, insuficientes para trazer os camponeses para o lado da monarquia, foram suficientes para o descontentamento da gentry.

Para recuperar poder e prestígio da Igreja Anglicana, dotando-a de condições econômicas, de disciplina e vigor moral, o arcebispo de Laud procedeu, de um lado, à revisão do valor dos dízimos e a recuperação dos bens territoriais da igreja, e, de outro, a uma reorganização da hierarquia e do clero e à fixação de um ritual solene para as cerimônias e outros cultos religiosos. Isso escandalizou os puritanos. E por outro lado, com uma política externa de aliança com a Espanha, de não envolvimento na guerra dos Trinta Anos ao lado dos protestantes, de aproximação com o papado (sua esposa francesa Henriqueta Maria era católica) escandalizou a nação que passou a considerá-lo como papista. Além disso, sua política de colonização da Irlanda, realizada com eficiência e brutalidade pelo conde Strafford, contrariava os interesses da burguesia londrinense, já que sua finalidade era implantar naquela ilha um regime autoritário e feudal e constituir um exército poderoso.

Finalmente, Carlos I utilizou-se dos tribunais de privilégio (Câmara Estrelada, Conselho do Norte e de Gales, Corte de Alta Comissão) e do Conselho Privado, ou seja, das prerrogativas monárquicas, para reprimir, processar e encarcerar todos aqueles que lhe faziam oposição, ou resistiam a seus atos. Alguns destes processos, movidos contra figuras ilustres, de prestígio entre a oposição, seguidos de penas com a aplicação de torturas criaram muitos mártires para a causa oposicionista. (Prynne teve as orelhas cortadas por causa de um panfleto, Liliburne – futuro líder dos Niveladores – foi espancado por ter distribuído literatura ilegal e Eliot, um dos chefes parlamentares em 1629, morre encarcerado na torre de Londres). (FLORENZANO, 1981, pág.93)

Nos últimos anos de 1630, a política absolutista de Carlos I tinha conduzido a nação a um beco sem saída. À revolta política crescente, somava-se, para agravá-la, uma crise econômica (geral na Europa) responsável, a partir de 1620, pela retração no comércio de exportação e na manufatura de tecidos. Estas dificuldades prosseguiram por toda a década seguinte e agravaram a situação financeira da Monarquia.

O desenlace sobreveio em 1638, quando Carlos I e o arcebispo Laud, ao procurarem estender à Escócia presbiteriana o Anglicanismo (ameaçando a nobreza escocesa com a tentativa de recuperar as terras secularizadas pela igreja) provocaram entre o clero presbiteriano e a nobreza uma revolta em grande escala contra a Inglaterra. (FLORENZANO, 1981, pág.93).

Logo após, em 1639, há a invasão escocesa da Inglaterra em 1639. Ora, a Inglaterra carecia de forças militares suficientes para enfrentar o poderoso e disciplinado exército escocês (a nobreza escocesa, ao contrário da inglesa, não havia sido desmilitarizada). Mas a Inglaterra carecia também de vontade política para enfrentar os escoceses. Ninguém saiu a socorro do rei. (FLORENZANO, 1981, pág. 94). Falido economicamente, isso leva Carlos I a se apossar do ouro depositado na torre de Londres. A máquina estatal deixou de funcionar e o exército presbiteriano escocês estacionado no país, exigindo o resgate para se retirar, e com a burguesia em greve, recusando-se a pagar o ship money, Carlos I estava completamente batido e isolado. E para completar o quadro de dificuldades, o exército inglês que foi enviado para combater os escoceses, amotinou-se e exigia pagamento.

Sem outra alternativa, convocou o parlamento, mas quando viu que não podia negociar um acordo com os Comuns sem fazer pesadas concessões em suas prerrogativas, dissolveu-o (daí o nome, curto parlamento). A seguir, promoveu uma reunião com um Grande Conselho da nobreza para assessorá-lo frente a crise existente. E os nobres aconselharam-no a convocar novamente o Parlamento, convocando, assim, o Longo Parlamento, que o rei, desta vez, teve de aceitar. Reconstituía-se assim, o cenário para que as lutas políticas fossem travadas mais abertamente.

Em 1941, foi a vez de a Irlanda rebelar-se contra a Inglaterra, tentando libertar-se do seu jugo. Embora unanimemente favorável à manutenção daquela colônia, o Parlamento não conseguiu convencer a representação burguesa a fornecer um exército ao rei, o que impôs uma divisão no Parlamento, agravada pelo conflito de interesses nele representados.  Dessa forma, o pano de fundo que iria colorir muitas dessas decisões, provinha da ameaça do campo. Apesar de alguns setores da pequena e média nobreza e também da própria burguesia, se considerarem capazes para conter a rebelião, o temor de que os sentimentos populares não pudessem ser refreados, instalou-se no Parlamento. O rei, por considerar-se indispensável frente a tal ameaça que o povo representava, recusou-se a fazer qualquer concessão. Dessa forma, em 1642, a Guerra Civil teve início.

  1. GRANDE REBELIÃO E GUERRA CIVIL

            Antes de adentrar na Guerra Civil em si, faz-se necessário compreender a denominada “Grande Rebelião” que Florenzano aponta ocorrer entre 1640-1642. Trata-se do período de dois anos que identifica, a priori, a convocação do Longo Parlamento em 1640, por Carlos I que se encontrava isolado e com problemas com escoceses que se recusavam a sair do território inglês. O Parlamento apresentava em sua maioria uma forte discordância das práticas do rei e decide buscar o estabelecimento de uma soberania parlamentar no campo constitucional.

A partir dessa decisão, o Parlamento toma uma postura combativa. Os casos dos ministros Strafford e Laud são prova disso, ambos executores do Thorough System, o primeiro é executado e o segundo é preso. Além disso, os parlamentares tomaram algumas medidas que iam de contra ao rei, como a abolição de vários impostos, entre eles o ship money e a aprovação do Trienal Act, esse ato tornava obrigatória e automática a convocação do Parlamento, com um prazo de três anos. É possível observar que os parlamentares apresentaram atitudes concretas assim que foram convocados, e analisando apenas algumas medidas tomadas, como as já mencionadas, pode-se perceber uma forte revolução político-constitucional  ocorrendo; esse pensamento nos leva a refletir se os parlamentares já estavam elaborando há décadas essas mudanças e esperando o momento mais oportuno para pôr em prática.

            Nesse contexto, Carlos I encontra-se em uma posição difícil, pois não vê como reagir a uma oposição tão forte e com unidade. Entretanto, em 1641 o terreno muda com a Revolta Católica da Irlanda, apontada como o estopim para o fim da unidade entre os parlamentares (FLORENZANO). Todo o Parlamento desejava manter a Irlanda como colônia, e para isso fez-se necessário um exército para conter a Revolta, por lei o rei deveria desempenhar o papel de comandante oficial do exército, Carlos I não abre mão da oportunidade de liderar o exército britânico causando o temor de alguns ministros. Outrossim, os puritanos no meio da Grande Rebelião enxergaram uma oportunidade de ocupar seus espaços, assumindo sua religiosidade e simultaneamente seu papel de estímulo no conflito.

            Outro fator que provocou ainda mais a situação de quebra de unidade no Parlamento foi a publicação do Grand Remonstrance, um documento de denúncia contra o governo de Carlos I. Esse documento fortificou a indignação ao rei e, fez com que ministros se dividissem em dois grupos: aqueles que aceitavam e aqueles que repudiavam a participação popular. Carlos I aproveita-se dessa divisão e resolve contra-atacar, invade a Câmara dos Comuns para prender Pym, Hampden e outros, entretanto, esses ministros – que eram favoráveis ao apoio popular – conseguem essa informação e fogem, ficam abrigados na capital. Após essa tentativa falha, Carlos I recolhe-se para o Norte com o objetivo de reunir-se com realistas e formar um exército. Dá-se início a Guerra Civil.

Contudo, vale salientar a importância do Grand Remonstrance para a história. Em um momento composto pela presença de imprensa, documentos dessa amplitude são capazes de causar grande impacto em um meio social. Bruno Antônio Morais de Almeida destaca que a propaganda teve um papel muito efetivo na Revolução Inglesa, pois foi capaz de inserir ânimo – ainda que pelo sentimento de revolta – para manifestar as pessoas em grupos na busca de organizar a Guerra. Para fundamentar esse pensamento, menciona Christopher Hill.

A explicação da revolução do século XVII mais comum, é a que foi apresentada pelos leaders do Parlamento em 1640, nas suas declarações de propaganda e apelos ao povo. E tem sido repetida desde aí, com pormenores e enfeites adicionais, pelos historiadores Whigs e Liberais. (HILL, Christopher, 1955, p.13).

            Na Guerra Civil, existiu a questão religiosa, a qual se entende pela presença de anglicanos, católicos e puritanos em um mesmo contexto. Sendo os anglicanos e católicos partidários da causa realista e os puritanos adeptos da causa parlamentar, estes divididos em puritanos moderados (presbiterianos) e puritanos radicais (seitas). No âmbito social, a divisão se faz mais complicada, afinal, a classe proprietária de terras se entende de ambos os lados.

Segundo Miceli, a grande burguesia proprietária de lã esteve em geral relacionada com a Coroa, pois os Stuart apoiaram o capitalismo exclusivamente para essa alta burguesia durante o século XVI, ligada ao têxtil. Os burgueses e pequenos proprietários que se viram em situação de desvantagem com os tributos cobrados por Carlos I apoiaram o Parlamento, e alguns faziam parte do Parlamento. É interessante ressaltar que, apesar de ser entendida como uma revolta burguesa, houve participação popular apoiando o Parlamento. Em suma, todos buscavam impedir a monarquia absolutista e tentavam produzir um capitalismo cada vez mais forte na Inglaterra. Porém, os burgueses foram os mais afetados com os decretos reais e possuíam maior interesse na posição de prestígio do Parlamento.

Aqueles que estavam a serviço do rei, foram chamados de Cavaleiros, pois tratava-se da cavalaria real. Enquanto os que estavam contra o rei, foram denominados Roundheads ou Cabeças Redondas, pois se recusavam a usar perucas ou ter o cabelo longo, contrariando a tradição. No início da Guerra Civil, havia a ideia de que o rei venceria, pois apesar de dispor de menores atributos, apresentava um exército bem organizado militarmente.

O Parlamento montou o New Model Army, financiado por impostos pagos pela burguesia, esse exército era composto por pessoas que o compunham por mérito e foi liderado por Oliver Cromwell, um exacerbado puritano, mas sua religião não o impediu de estar lutando ao lado de homens de diferentes crenças e posições financeiras diversas, Cromwell preocupava-se somente com a existência de uma disciplina comum no exército, para garantir a vitória. Nesse meio de homens escolhidos por mérito, houve a participação do povo que ocasionou opiniões diversas, a linha tênue entre a necessidade e o medo de um avanço popular.

Segundo Hill, ainda que houvesse um início difícil para os Cabeças Redondas, conseguiram reorganizar-se e vencer os embates através de disciplina, unidade e consciência política. Nesse meio, houve também a presença dos Levelers (os Niveladores) que compunham um partido que se aliou aos parlamentares pelo idêntico desprezo ao comportamento de Carlos I, todavia desejavam mudanças consideradas polêmicas pelo Parlamento, como por exemplo a separação entre a Igreja e o Estado, a proclamação da república e a garantia para pequenos proprietários. Neste seguimento, houve a Batalha de Naseby em 1645, onde os realistas perderam e o rei tentou fugir para a Escócia, porém acaba se rendendo pela ausência de alternativas. Dessa forma, Carlos I é preso.

Nesse viés, ocorreu seis meses de democracia no exército e em seguida, a ruptura do Conselho do Exército, dando continuidade à antiga hierarquia existente. Todavia, esse clima é interrompido pela fuga de Carlos I da prisão e a retomada de seus planos para vencer a Guerra, reúne-se com os realistas da mesma forma que o Parlamento se liga novamente com os Levelers e com seus apoiadores. Na Segunda Guerra Civil, a vitória é mais fácil. Oliver Cromwell permanece como um nome de prestígio pela boa liderança, e os que estavam ao lado do Parlamento como um todo sabem como utilizar suas vantagens financeiras e políticas, desse modo, vencem os realistas. Carlos I é preso novamente, intitulado como “Carlos I, o inimigo do bom povo”, e julgado; seu julgamento dura dez dias e acarreta a pena de execução, na qual é decapitado no dia 30 de janeiro de 1649.

Após a Guerra Civil, Cromwell se estabelece no Parlamento e declara, ainda em 1649, a proclamação da república. Logo, os Levelers possuem um de seus anseios atendidos, contudo, percebe-se que as outras exigências do partido são ignoradas e são tomados por um sentimento de traição, essa circunstância é notada ao negar exércitos para o combate contra a Irlanda. Essa atitude faz com que Cromwell responda com o assassinato dos líderes do partido. Há também os Diggers que desejavam implantar uma espécie de comunismo agrário, pois eram contra o feudalismo monarquista e contra o capitalismo, porém são derrotados algumas vezes. Em suma, Oliver Cromwell passa a apresentar uma atitude tirânica ao assassinar e matar os seus opositores.

  1. República de Cromwell

Antes de abordar os feitos e o papel político desempenhado por Oliver Cromwell na Inglaterra, é interessante (e necessário) introduzir um pouco sobre quem era este homem. Cromwell nasceu em 1599 em uma família nobre rural, a qual teria recebido terras que foram confiscadas da Igreja Católica pelo Estado durante a Reforma Protestante na Inglaterra. Era educado e pertencia a doutrina puritana. Cromwell integrava o exército inglês e sua atuação enquanto comandante militar e político na Guerra Civil Inglesa influenciou o panorama político das ilhas britânicas.

         Seu governo ditatorial teve início após a morte do rei Carlos I – o qual Cromwell recebeu a responsabilidade por tê-lo condenado à morte. Seu governo compreende um período curto, que vai de 1649 a 1658 e empreendeu diversas ações importantes tanto no plano interno quanto externo da Inglaterra. Suas realizações no cenário interno inglês estão relacionadas a supressão das estruturas feudais ainda vigentes, onde se livrar desses entraves possibilitou o livre desenvolvimento das forças capitalistas e o poder executivo foi exercido por um Conselho do Estado, onde Cromwell se encontrava como presidente. No que se refere ao plano exterior, ocorreu consolidação de potência marítima e imperialista. Uma das ações consideradas mais importantes do seu governo diz respeito a promulgação dos Atos de navegação, a qual garantiu proteção aos comerciantes ingleses no comércio ultramarino e colocando um importante obstáculo à concorrência holandesa e espanhola nos mares. Em 1653, Cromwell dissolveu o parlamento, decorrente da forte presença de seus opositores, e foi considerado o Lorde Protetor da Inglaterra, título que tem sido utilizado pela Grã-Bretanha para os chefes de Estado como uma espécie de título particular em respeito de  conduzirem a Igreja Anglicana e serem responsáveis da proteção. Cromwell ainda foi responsável por derrotar as Províncias Unidas, em 1654, e conquistar o território da Jamaica dos espanhóis, em 1655, transformando-o no principal espaço colonial inglês no Caribe. Oliver Cromwell terminou falecendo em 1658, onde não se sabe se a morte teria sido por enfermidades ou envenenamento. Dois anos depois de sua morte, a monarquia é restaurada, onde o rei Carlos II, da dinastia Stuart, assumiu o trono inglês.

  1. RESTAURAÇÃO E REVOLUÇÃO GLORIOSA DE 1689:

Com a restauração, o conservadorismo social e político, em aumento no país desde os 1650, chegavam ao seu termo lógico. Porém, o retorno da monarquia, apesar de todo conservadorismo que ela representava, não significou a volta ao Antigo Regime.

Em 1658, com a morte de Cromwell, e após os dois anos do governo de Richard, filho de Cromwell, o Parlamento aceita o retorno da Dinastia Stuart, mas desta vez exigindo completa obediência dos Reis aos princípios da Magna Carta e da Petição de Direitos.

Carlos II (1660-1685) assume a coroa, estando privado de todos os instrumentos do poder absoluto. Embora autodenomine-se rei pela graça de Deus (como era comum das Monarquias Absolutistas), por direito hereditário, sabia que era rei pela graça dos mercadores e dos novos proprietários de terra, pois, embora a restauração pudesse ser considerada uma volta ao passado, ela serviu para demonstrar, que antes de tudo, a força da burguesia nunca necessitou, ela própria, ostentar a coroa que simboliza o poder político: bastava que ela enfeitasse a cabeça de alguém disposto a agir principalmente em seu benefício (MICELI, 1950, pág.41).  Assim, apesar de ter prometido a anistia geral, a tolerância religiosa e o pagamento do exército, o rei já não exercia grandes poderes, pois, quem realmente comandava era o parlamento. Nesse período, Carlos II se une secretamente a Luís XVI da França, rei absolutista, e a partir daí perde toda sua credibilidade perante o Parlamento.

A política pró-catolicista e as hostilidades ao Parlamento levada a cabo pelos dois monarcas ascendentes ao poder (Carlos II e Jaime II) provocou, no seio da oposição, reações contraditórias que conduziram ao surgimento de duas facções parlamentares: os whigs-liberais (liberais, partidários de um governo parlamentar)e os tories-conservadores (conservadores, partidários da presença forte dos Stuart como garantia contra tendências radicais surgidas no contexto da revolução). As duas correntes do Parlamento uniram-se e convidaram, secretamente, Guilherme de Orange, Chefe do governo holandês, casado com Maria de Stuart, filha mais velha de Jaime II,  a intervir militarmente na Inglaterra sob as condições seguintes: a manutenção do protestantismo e do Parlamento, isto é, aceitar e respeitar a Declaração dos Direitos de 1689, o “Bill of Rights”.

A Declaração de Direitos de 1689 apresenta-se como um documento elaborado pelo Parlamento de Inglaterra e imposto aos soberanos, Guilherme III de Orange e Maria Stuart, num ato que declara os direitos e a liberdade dos súditos e define a sucessão da coroa. Tal documento é tido como um dos pilares do sistema constitucional do Reino Unido que estabelece limites aos poderes do monarca e declara os direitos do Parlamento, incluindo regular deliberação parlamentar, eleições livres e liberdade de expressão no Parlamento. O Bill of Rights é o primeiro documento oficial que garante a participação popular, por meio de representantes parlamentares, na criação e cobrança de tributos, sob pena de ilegalidade, e veda, ainda, a instituição de impostos excessivos, nem tampouco punições cruéis e incomuns.

Diante desta situação, Jaime II acaba abandonando o poder e refugiando-se na França, permanecendo lá até sua morte, acarretando, assim, a Revolução Gloriosa. Gloriosa, pois a substituição de Jaime II por Maria Stuart e Guilherme III de Orange se deu sem derramamento de sangue e outras desordens sociais. Infere-se, dessa forma, o triunfo do Parlamentarismo e da Monarquia Constitucional[3]. Desde então a vida política da Inglaterra é marcada por eleições periódicas que conferem ao partido vencedor o direito de governar. A revolução política estimulou a acumulação de capital e o desenvolvimento do sistema capitalista que se consolidaria com a Revolução Industrial iniciada por volta de 1760.

  1. CONCLUSÃO

Em suma, a Revolução Inglesa do século XVII, trouxe diversas transformações de cunho político, social e econômico na Inglaterra. Desse modo, ela tornou possível pela primeira vez à sociedade (particularmente aos homens de propriedade), a conquista da liberdade civil e política. Nesse sentido, a garantia desta liberdade, dos direitos civis e políticos era agora assegurada, pelos próprios indivíduos e não mais por uma autoridade monárquica. Essa, por sua vez, fora submetida ao poder do Parlamento. Além disso, o filósofo inglês John Locke, desenvolveu a teoria da liberdade civil e política (direito natural do ser humano: à vida, à liberdade, à propriedade), tendo como base os resultados da Revolução Inglesa. Essa revolução, trouxe consigo uma mudança de poder político-econômico do rei e da antiga aristocracia à gentry. “No plano ideológico, a Revolução Inglesa abriu espaço para um novo comportamento político dos puritanos, a emergência do liberalismo, a afirmação do individualismo e da teoria do contrato” (ARRUDA, 1984, p. 90). Na economia, a grande transformação se deu na estrutura agrária, o qual o antigo protecionismo da monarquia inglesa aos camponeses, impedindo a ampliação dos cercamentos acabou caindo por terra. Além disso, percebeu-se o fim dos privilégios corporativos e da concessão de monopólios por parte da Coroa. Assim, tornou-se possível a expansão das atividades industriais (em desenvolvimento), nos centros urbanos.

Sinteticamente, é importante elucidar que, “a Revolução Inglesa é o resultado da ação política de uma nova classe social, uma classe burguesa, pela sua identificação com a produção para o mercado” (ARRUDA, 1984, p. 93). Além disso, deve-se pontuar que ela

não foi, simplesmente, a decorrência imediata da falência da aristocracia; nem a crise do Estado absolutista frente à pequena nobreza, a gentry, empobrecida; nem mesmo o corte verticalizado que cindiu a sociedade de alto a baixo, separando a Corte e o País. Seu caráter de revolução burguesa, contudo, não se evidencia tão-somente no fato de que uma classe agrária capitalista, associada a setores mercantis urbanos, passasse a exercer, em última instância, o poder, após a destruição do aparelho de Estado legado pelos Stuarts; mas, e sobretudo, pelo que ela criou, isto é, condições plenas para o avanço das forças produtivas capitalistas na Inglaterra (ARRUDA, 1984, p. 93-94).

E por último, é de supra importância evidenciar que tal revolução não seria possível sem a luta da gentry, dos yeomen (classe que efetivamente fez a Revolução e que foi por ela destruída) e dos artesãos urbanos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Bruno Antônio Morais de. Revolução Inglesa de 1640-1649: estratégias dos exércitos. Castelo Branco Científica. Colatina – ES, ºN5, JAN/JUN de 2014.

ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 112-142.

ARRUDA, José Jobson de Andrade. A Revolução Inglesa. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 90-94.

FERNANDES, Florestan. O que é revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2000.

LIMA, Carolina. As Revoluções Burguesas: contribuições para a conquista da cidadania e dos direitos fundamentais. Revista Jurídica da Universidade do Sul de Santa Catarina. Santa Catarina, Nª 12, p. 98-101, JAN/JUN de 2016.

MICELI, Paulo. As revoluções burguesas. São Paulo: Atual, 1987, p. 06-38.

MODESTO, Florenzano. As Revoluções Burguesas. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 67-118.


[1] Termo cunhado por Perry Anderson, em Linhagens do Estado Absolutista, para se referir ao governo de Jaime I da Inglaterra.

[2] De acordo com Perry Anderson, em sua obra “Linhagens do Estado Absolutista”, foi exatamente nesse contexto que que a venda de cargos se tornou, pela primeira vez, uma importante fonte de rendimentos para monarquia (entre 30 a 40 por centro).

[3] A Monarquia constitucional é uma forma de monarquia na qual o soberano exerce a autoridade de acordo com uma constituição escrita ou não escrita, enquanto o Poder Legislativo é exercido por um Parlamento, geralmente eleito pelos cidadãos. A monarquia constitucional difere da monarquia absoluta (na qual o monarca detém o poder absoluto) já que, nesse sistema, o monarca é obrigado a exercer seu poder e autoridade nos limites prescritos dentro de uma estrutura legal estabelecida.