DELMIRO GOUVEIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO – UFPE

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS – CFCH

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROFESSOR Dr. SEVERINO VICENTE DA SILVA

DELMIRO GOUVEIA NO SERTÃO ALAGOANO: O DESENVOLVIMENTO NO POVOADO DA PEDRA.

JÚLIA MARIA DE ARAÚJO LISBOA

Trabalho de conclusão da cadeira para a disciplina de Tópicos Especiais da História do Nordeste, apresentado ao curso de História – Licenciatura do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco.    

DELMIRO GOUVEIA NO SERTÃO ALAGOANO: O DESENVOLVIMENTO NO POVOADO DA PEDRA.

RECIFE/PE

2019

SUMÁRIO:

1. Introdução…………………………………………………………………………………………04

2. A trajetória de vida do industrial nordestino……………………………………………05

3. O desenvolvimento no sertão alagoano………………………………………………..09

       3.1. A indústria de Delmiro no Povoado da Pedra………………………………..13

       3.2. A educação no Povoado da Pedra………………………………………………17

5. Considerações finais…………………………………………………………………………..19

6. Referências bibliográficas……………………………………………………………………21

Introdução

            O presente trabalho objetiva analisar a figura do cearense Delmiro Gouveia e, principalmente, seu papel no sertão alagoano, numa localidade abandonada pelo Estado e dominada por oligarquias extremamente autoritárias, que impediam o desenvolvimento social local, onde eram perpetuadas heranças de autoritarismo, ignorância e brutalidade. Para tal análise, percorri sua trajetória e delimitei dois momentos de sua vida que foram essenciais na compreensão de seu papel na formação da indústria em Alagoas; o primeiro deles foi sua derrocada em solo pernambucano e o segundo, o seu estabelecimento no sertão alagoano, com a construção do complexo industrial e, posteriormente, a cidade que crescera em torno de sua fábrica.

            Assim, é preciso apontar que as pesquisas de reconstrução dos passos e da vida de Delmiro Gouveia começaram apenas por volta das décadas de 1950 e 1960 — período de construção e inauguração das usinas hidrelétricas do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, responsável pela distribuição de energia elétrica da região nordeste —, haja vista seu pioneirismo na produção de energia através do Rio São Francisco, além de eventos em sua homenagem que ocorreram por volta de 1960, celebrando o centenário de seu nascimento, tais que resultaram num resgate de sua memória por jornalistas, estudantes, políticos, empresários e outros intelectuais, como Gilberto Freyre, uma comoção produtiva que envolveu tanto Pernambuco como Alagoas, estados que primeiro sentiram as intensas transformações proporcionadas pelo visionário industrial.

A trajetória de vida do industrial nordestino

            De antemão, é necessário pontuar a importância de se compreender a trajetória de vida dessa figura emblemática para o sertão alagoano, visto que muitos dos episódios intrínsecos na construção dessa narrativa têm origem em momentos anteriores ao seu envolvimento com o meio industrial. Ademais, para entender o seu investimento na região que hoje compreende as cidades de Paulo Afonso e Delmiro Gouveia, é preciso que se entenda o rumo que tomou sua vida particular e pública, e, por fim, o que ocasionou o seu assassinato.

Isso posto, faz-se preciso expor que o nascimento dessa figura é algo que, por muito tempo, levantou dúvida entre os biógrafos, contudo, após amplas discussões e buscas por evidências concretas da data de seu nascimento, é sabido (pela análise de documentos de seu batismo) que Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em cinco de junho de 1863, na fazenda Boa Vista, situada no município de Ipu, no estado do Ceará. Filho de uma relação extraconjugal, seu pai era Delmiro Porfírio de Farias, um militar que preferiu se alistar para servir (e, por ventura, morrer) na Guerra do Paraguai do que enfrentar as pressões da família de sua esposa legítima e da família de sua amante, deixando com dois filhos pequenos — sendo Delmiro o mais novo — Leonila Flora da Cruz Gouveia, essa que compunha uma família abastada e conhecida na Paraíba, além de possuir uma excelente educação formal e musical, chegando a exercer o ofício de professora. 

O falecimento de Delmiro Farias levou Leonila a migrar para Pernambuco, no entanto, com a morte de seu pai — senhor de engenho em Itabaiana, na Paraíba, e deputado em Pernambuco —, ela acabou por descobrir que não entrou no testamento (por ser filha bastarda). Expropriada de seus poucos bens, Leonila trabalhou como empregada doméstica na casa do advogado e promotor socialista José Vicente Meira de Vasconcelos, com quem estabeleceria um relacionamento até o dia de sua morte precoce. Com a morte da mãe, aos quinze anos de idade, Delmiro Gouveia sai da casa do padrasto, e abre mão dos inúmeros privilégios da vida que levava, deixando de lado a escola e se inserindo no mundo do trabalho, tudo em nome da independência que tanto almejava.

Delmiro transitou por diversos empregos em Recife, desde bilheteiro em estações de trem a despachante no cais de Ramos. Foi devido a essa última profissão que a figura passou a comercializar, comissionado por outrem, peles e algodão, o que lhe renderia empreendimentos de sucesso e uma consequente ascensão social. Investindo nesse ramo lucrativo, Delmiro passa a viajar pelo sertão pernambucano para fazer negócios direto com os produtores de algodão e peles, indo de empregado a dono do próprio estabelecimento, cuja sede se situava, inicialmente, na cidade de Pesqueira, local estratégico para o fornecimento dos produtos. E foi nesse trânsito pelo interior, que Delmiro conheceu a mulher com quem viria a casar, Anunciada Cândida de Melo Falcão, filha de um tabelião muito respeitado no município de Pesqueira. O casal se mudou para Recife, onde morava num casarão luxuoso; tais modos de vida resultaram na edificação de uma imagem de refinamento para Delmiro, especialmente quando ele começara a patrocinar atividades culturais na cidade, como peças de teatro e concertos musicais. Esse envolvimento com o mundo das artes traria, no entanto, uma lista de episódios de infidelidade, porquanto, Delmiro ficou conhecido por seus casos extraconjugais com atrizes dos espetáculos que promovia no Teatro Santa Isabel, fato que resultou no término de seu casamento.

Ainda assim, o crescimento econômico da figura, devido ao comércio de peles, seria tamanho que ele passaria a ser conhecido como o “Rei das Peles”. Delmiro articulou-se muito bem nos seus empreendimentos, tendo contato com grandes figuras da produção pernambucana, como o industrial sueco Herman Lundgren. As amizades que fez na alta classe recifense lhe renderam contatos que resultaram na expansão das vendas para o mercado exterior — Europa, Ásia, África e América do Norte —, tendo ele sido “um dos principais exportadores de peles de animais do Brasil para a América do Norte no período das duas últimas décadas do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX”, nas palavras de Nascimento (2014, p. 49). A fortuna que construiu permitiu que participasse até de construções em parceria com a prefeitura do Recife, quando adquiriu as áreas do que fora outrora o Derby Clube, onde construiu o Mercado Coelho Cintra (cujo nome homenagearia o prefeito de então, José Cupertino Coelho Cintra), conhecido popularmente como Mercado do Derby. Esse que recebeu uma estrutura moderna, que integrava até iluminação por energia elétrica, uma novidade num Recife em que quase não havia locais com esse tipo de tecnologia. Delmiro Gouveia foi, dessa maneira, o primeiro “supermercadista” do Brasil, vide que mercados de tal magnitude só viriam a aparecer novamente no país na segunda metade do século XX, enquanto que o Mercado do Derby teria sua gênese em 1899.

A modernidade que Delmiro entrara em contato no exterior e que tentava inserir no território brasileiro foi causa de alguns embates com figuras influentes, que chegariam até a ameaçá-lo de morte. Esses conflitos se estabeleceram principalmente pelo seu modo de comercializar, pois, apoiado pela lei da livre concorrência, os produtos vendidos no mercado atraiam uma massa consumidora gigantesca em comparação aos concorrentes, devido aos preços ofertados, os quais eram bem mais baixos, garantindo o lucro pela maior quantidade de vendas e não pela alta do preço. O empreendimento, consoante Mota (1967, p. 12), “inspiraria o ódio a grosso e a granel de alguns donos de armazéns e eles içam na praça a bandeira negra de guerra e morte”. Delmiro tentara resolver o impasse pelo diálogo com as autoridades locais e até por meio da violência física, mas os concorrentes agiram de forma ainda mais intensa e agressiva, ateando fogo no mercado, acontecimento que repercutiu em diversos jornais e que resultou na prisão de Delmiro, junto a um processo judicial tenebroso, que deixou um resquício de medo na cidade. O episódio foi narrado por Gilberto Freyre, em que esse declara:

Amanheceu o dia 2 de janeiro de 1900, no Recife, sob a mais dolorosa impressão, causada pelo incêndio do Dérbi, tendo sido lançado o fogo ainda a horas mortas da noite de 1º de janeiro. Ao incêndio seguiu-se a prisão do proprietário daquele estabelecimento, o coronel Delmiro Gouveia. Esta prisão foi executada com todo o aparato, por um verdadeiro exército […]. Trancaram o preso em um quartel, deixando-o incomunicável. Segundo a voz pública, iam matá-lo envenenado. A notícia da prisão espalhou-se pelo Recife, criando indignação entre muita gente. O comércio fechou em sinal de protesto (FREYRE, 1959, p. 121 apud NASCIMENTO, 2014, p. 58)

            A repercussão desse acontecimento ocorreu devido ao impacto gerado pelo mercado, o qual representava não só um marco de inovações urbanísticas, mas também socioeconômicas, tendo transformado a região de subúrbio do Derby em um ponto comercial que fez crescer de maneira positiva o bairro, de tal maneira que Freyre o chamou de um verdadeiro monumento, afirmando que as intempéries ocorridas por lá eram fruto de um despreparo brasileiro, visto que o país ainda não teria “condições de possuir obra daquele porte”. O mercado, contudo, dizia muito sobre Delmiro Gouveia e seu jeito de operar os negócios: transformando e urbanizando os arredores, e operando de maneira a incapacitar a concorrência. O crescimento financeiro, mesmo com as derrocadas, o fez investir astutamente em outras áreas. Não medindo esforços e artimanhas quando a questão era aumentar sua fortuna, fazendo crescer seus negócios. Nesse aspecto, pode-se dizer que o nosso biografado era um capitalista modelar (NASCIMENTO, 2014, p. 52).

            Ainda em Pernambuco, ele se aventurou na indústria açucareira, comprando a Usina Beltrão, que funcionava como uma refinaria de açúcar, cujo porte a colocava entre as maiores usinas da América do Sul, mas que foi incapacitada de produzir devido a um boicote organizado pelas oligarquias que controlavam a região e temiam a astúcia comercial de Delmiro, o qual planejava refinar para o mercado exterior e representaria uma estupenda concorrência para os senhores que dominavam a produção local. Delmiro vai, então, morar na Europa e vivencia o auge da Belle Époque. Entretanto, seus inimigos não o esqueceram, continuando a insistir pela liquidação de suas empresas, como meio de destruí-lo (MARTINS, 1979).  Quando volta a Pernambuco, Delmiro se envolve com uma jovem aparentada com o então governador do estado, Sigismundo Gonçalves, um de seus inimigos mais enfurecidos. Sigismundo logo anuncia uma ameaça de prisão para Delmiro, que não vê outra saída senão fugir para Alagoas.

            A análise dos empreendimentos bem e mal sucedidos de Delmiro Gouveia é necessária para a compreensão de como esses acontecimentos estavam estritamente relacionados à conjuntura política e econômica da época, em que o Brasil vivia os primeiros anos de uma república oligárquica (estando sob o governo de Campos Sales quando ocorrida a fuga) ferrenha que se apresentou para ele como um obstáculo no desenvolvimento de seus negócios nos dois estados, Alagoas e Pernambuco.

 O desenvolvimento no sertão alagoano

Em 1902, já num solo alagoano dominado pela oligarquia dos Malta (o que certamente influenciou no andamento das empresas), Delmiro agiu rapidamente para recuperar suas empresas e reconstruir a fortuna que lhe foi tirada. Fundou, então, a Iona & Cia, um negócio que montara em parceria com dois velhos amigos, Lionelo Iona e Guido Ferrario; com sede no bairro do Jaraguá em Maceió, um ponto estratégico devido à proximidade com o porto da cidade, que lá se situa até a atualidade. As relações de confiança que manteve com alguns de seus fiéis colegas foram indispensáveis no decorrer de seu percurso em Alagoas, especialmente os laços que tinha com uma firma estadunidense compradora de couros e peles, a J. H. Rossbach & Brothers. Grandes capitalistas, jamais negaram a seus clientes o crédito bancário indispensável para movimentarem os negócios e restaurarem a fortuna perdida. Essa confiança e amizade salvaram Delmiro (MENEZES, 1966, p. 51).

Com o reestabelecimento de seu comércio lucrativo nos sertões de Pernambuco, Bahia e Alagoas, ele parte para uma viagem no interior desse último para procurar um local em que pudesse se estabelecer e expandir seus negócios. Eis que alcança a cidade de Água Branca, numa região serrana, próxima às divisas com a Bahia e Pernambuco, o que facilitaria o contato com seus clientes nos três estados. O que se percebe ao analisar a história desse homem é sua empatia para com o sertanejo. Delmiro enxergava o sertão e seus atores com olhos de equidade e até admiração, procurando lá se estabelecer para levar a modernidade e a dignidade a um povo que sempre fora deixado de lado pelo Estado. Vale lembrar que Delmiro acompanhou tal negligência de perto e estava nas redondezas quando essa atingira o ápice, pouco tempo antes de sua migração, com o massacre e os horrores sentidos na pele pela população de Canudos. Delmiro tinha noção dos problemas que apareceriam nessa tentativa de enfrentar as mazelas sociais do sertão, cujos habitantes sofriam diretamente com o poder das classes dominantes, as quais necessitavam da reprodução das condições de vida miseráveis para a perpetuação de seu sistema exploratório de extração de capital. [1]

Tudo convergia para um enredo cabalístico. Quis o destino que o local escolhido estivesse a cerca de 130 quilômetros de Canudos, que o tempo de intercorrência fosse de cinco anos e que os personagens desse intrigante teatro de existência humana fossem os mesmos, os sertanejos (GONÇALVES, 2010, p. 214).

Frente a isso, Delmiro comprou uma propriedade quase deserta no povoado da Pedra, onde hoje compreende o município de Delmiro Gouveia, em sua homenagem, pelos feitos lá realizados. A compra se deu, pois o visionário entendia a grandeza que aquela terra árida poderia atingir, devido à Estrada de Ferro Paulo Afonso, um longo canal de trânsito de mercadoria imprescindível, que viria a ligar direta e indiretamente municípios desde Salvador a Recife.

A Estrada de Ferro Paulo Afonso, quase em abandono, por falta de movimento, ligava o baixo ao médio São Francisco, fazendo o transporte de mercadorias em duas direções. Partindo da cidade de Piranhas, em Alagoas, marginal ao São Francisco, atingia a cidade de Jatobá, hoje Petrolândia, em Pernambuco. Transportava assim a produção dos municípios que beiravam o vale sanfranciscano de Penedo a Piranhas e de Jatobá a Piranhas, atravessando um dos trechos mais ingratos do sertão alagoano e pernambucano, como único meio de transporte das localidades atingidas (MENEZES, 1966, p.54).

            Assim, a cidade de Paulo Afonso, a 24 quilômetros, era uma chance de mudança para o lugar quase improdutivo que escolhera; o contato com a linha férrea que ligava a cidade de Palmeira dos Índios a Maceió e aquela que ia de Garanhuns a Recife eram as estradas perfeitas para o envio de mercadorias e compra de produtos vindos das capitais. A proximidade com o rio São Francisco era outro fator que corroborava com o transporte das matérias-primas necessárias para o empreendimento planejado, que objetivava um maior desenvolvimento que o Derby, esse que viria junto a melhorias urbanas e sociais, além da maior obtenção de lucros.  

            Havia, contudo, grandes problemas na Pedra, sendo o maior deles a escassez de água e a má qualidade da pouca água que havia, devido à localidade que dificultava o acesso à água do rio, porquanto, o trecho mais próximo da Pedra é cercado por paredões de granito (cânions do São Francisco). Delmiro buscou logo solucionar a intempérie com um acordo feito com o administrador de Paulo Afonso, em que o trem transportaria tanques de água do São Francisco para o povoado, que nesse momento já sentia as transformações trazidas pelo empreendimento das peles de Delmiro, o qual fez da Pedra o núcleo de recepção e distribuição das peles fornecidas por seus parceiros comerciais do sertão. O povoado da Pedra começou a crescer em demografia e produtividade, visto que o local passou a atrair trabalhadores, que eram empregados na estação (essa também crescera devido ao fluxo de peles e telegramas) e em seus negócios. As vendas começaram em pequena escala, com compradores regionais, mas na medida em que crescia localmente, começou a exportar para a América do Norte pelo porto de Maceió, até alcançar a marca de um dos negócios mais lucrativos e amplos de Alagoas.

            O crescimento populacional da Pedra foi tanto que Delmiro mandou que construísse um açude para suprir a necessidade de água, a qual o transporte semanal via trem não mais supria. No povoado, agora se plantava e pastavam animais de corte e um gado leiteiro junto a cavalos muito bem tratados em grandes cocheiras, haja vista a falta de automóveis que obrigava a realização de viagens em equinos. Delmiro instalou na região a primeira fazenda modelo de Alagoas e uma das primeiras do Nordeste, onde se produzia leite, queijo, manteiga, hortaliças, carne, peles e melhoramento animal, com currais que abrigavam mais de cinco espécies bovinas, além de uma ampla criação de ovinos e caprinos. O sucesso foi tamanho que mesmo com a queda dos preços das peles, em decorrência da explosão da Primeira Grande Guerra, de 1914 a 1918, o lucro e a quantidade de vendas foram mantidos.

            Com a fortuna reconstituída, novos planos de empreendimentos foram sendo feitos por Delmiro, que visava investir no crescimento daquela região árida e que outrora quase não existia movimento. O seu grande objetivo era a criação de uma cidade moderna com abastecimento de água em abundância e energia elétrica. Para isso, ele dá início ao financiamento de estudos de realização de duas obras longínquas: a transposição da corredeira de São Pedro Dias de Pernambuco até a Pedra (para o abastecimento proveniente da gravidade) e o uso da cachoeira de Paulo Afonso na produção de energia.[2] Empreendimentos extremamente caros e demorados, que necessitavam do apoio financeiro das capitais que também seriam beneficiadas (Recife, Salvador, Maceió e Aracaju), mas que não dispunham de tamanha verba, devido à crise instalada no momento. A única delas que talvez tivesse capacidade de investir o dinheiro pedido e que seria o maior núcleo consumidor das benesses era Recife, que era, de mesmo modo, a única que possuía uma classe detentora de poder a qual perseguia Delmiro pelos acontecimentos de seu passado em Recife. O apoio vindo de lá era, portanto, um sonho distante. Conforme expressões do Sr. Adolfo Santos, “o Estado de Alagoas não tinha objeções a fazer às pretensões da empresa em formação; a Bahia vacilava, mas não se opunha; porém em Pernambuco a negativa foi total, peremptória, absoluta” (MENEZES, 1966, p. 64).  

            Frente aos empecilhos de tal empresa, Delmiro arquitetou novos planos a serem executados, mas jamais abandonou por completo seu sonho de levar eletricidade à Pedra.

A indústria de Delmiro no Povoado da Pedra

“Absolutamente pelado, foi plantar-se no sertão, pelado também, no lugar mais triste do mundo, ermo que só dava cascalho e espinho, e plantou aí uma indústria audaz, quase impossível por lhe faltar capital e ter o nome estragado na liquidação horrível. […] E numa cachoeira notável, mencionada sempre com respeito, admiração e inércia, turbinas foram acordar alguns cavalos da manada que lá dormia o sono dos séculos.”

Graciliano Ramos, 1972, em “Viventes das Alagoas”.

            Com a frustração momentânea do empreendimento abortado, Delmiro Gouveia dá seu próximo passo na busca pelo desenvolvimento do sertão alagoano: a fundação de uma fábrica de linha de coser. Sua ambição, no entanto, mudara um pouco em comparação aos negócios anteriores; pois ele chegaria a deixar de lado a busca por um lucro exorbitante em decorrência da satisfação de sua “revanche” para com Pernambuco, estado onde ele levou o melhor do progresso e deu o melhor de seu eu empresarial, mas que o premiou com a expulsão e com a falta de apoio. O seu grande empreendimento seria a construção de um centro industrial capaz de mudar completamente a hostilidade de um ambiente renegado por tudo e todos.

Ele organizou, então, junto a seus sócios da Iona & Cia, a Companhia Agro-Fabril Mercantil e partiu para Londres a fim de adquirir o maquinário e os produtos para a montagem da indústria, além de fazer visita em algumas indústrias têxteis inglesas, para aprender mais sobre o ofício. Na viagem, aproveitou também para comprar peças de composição das turbinas hidráulicas e das estruturas mecânicas para a realização de seu projeto na cachoeira de Paulo Afonso, além de obter um bom material para o abastecimento de água. Era o despertar de uma nova civilização para a zona sertaneja alagoana, com reflexos notáveis em zonas idênticas dos estados vizinhos (MENEZES, 1966, p. 67).

Para a construção das três obras, vieram engenheiros italianos, alemães e ingleses, que não apenas realizaram as obras em si, como também realizaram aquelas anexas — pontes, estradas, ferrovias etc. — indispensáveis no trânsito de materiais e na superação de obstáculos físicos. A hidrelétrica de nome Angiquinho enfim foi construída, em janeiro de 1913, após muitas teimosias de Delmiro, que insistia em contrariar os conselhos dados pelos profissionais, mandando que posicionassem as turbinas em locais que prejudicariam o funcionamento delas em períodos de cheia do rio. Todos os engenheiros se negaram a realizar a instalação no local, salvo o italiano Luigi Borela, que o fez, mas deixou claro que não assumiria as reponsabilidades quando viessem as cheias. De mesma maneira foram construídas a fábrica e a vila operária, com casinhas brancas de mesma arquitetura, que mudavam apenas o tamanho (sendo as maiores para os técnicos e chefes da indústria).

 As construções, no entanto, lhe foram muito dispendiosas, quase chegando a afundar em dívidas o seu negócio de peles. O seu empenho em transformar a Pedra num grande núcleo industrial o fez percorrer os caminhos da corrupção para que não faltasse o capital. A firma Rossbach que sempre esteve ao seu lado e que lhe emprestou dinheiro para as construções foi uma das vítimas de suas enganações, quando a produção de peles não conseguiu suprir a demanda da Rossbach, Delmiro declarava o envio de milhares de peças, sem enviá-las. Ele fez um acordo com o inspetor de cargas, de modo que esse arquivava o número da quantia verdadeira e substituía por números falsos. Com o dinheiro obtido, Delmiro mandou que construíssem estradas que ligavam a Pedra aos municípios vizinhos e a Garanhuns e Palmeira dos Índios, tais que, em conjunto com as linhas férreas, forneciam um amplo canal de comunicação e comercialização.

Antes de fazer funcionar a fábrica, com etiqueta de nome “Estrêla” (escolhido em reunião com os sócios), Delmiro enfrentou novos desafios, dessa vez quanto à aquisição do algodão de fibra longa, cujo fornecedor mais próximo era paraibano, e dos carretéis, que teriam que vir da Escócia. Finalmente, no dia 5 de junho de 1914 a fábrica foi inaugurada com festividades e com o disparar de uma sirene, som característico que pôde ser ouvido em toda a cidade até 2016, com o fechamento de suas portas e o encerramento das atividades que marcaram a história da região.  O estrondo da sirene, em 1914, foi um marco do início de uma nova era para o sertão alagoano.

            Em 1915, o nordeste viveu uma de suas secas mais intensas, protagonista de obras icônicas que relataram as experiências sofridas pelo povo naquele período, como a obra de Rachel de Queiroz, O Quinze. Delmiro, com sua experiência, no decorrer do ano de 1914, conseguiu prever a seca calamitosa que viria no ano seguinte, tendo feito uma enorme estocagem de alimentos capaz de manter com fartura os seus operários. Por conseguinte, a notícia de seu “oásis” se espalhou no nordeste, o que acarretou na chegada de retirantes vindos dos mais diversos estados. Delmiro os recebeu, deu morada e alimentação para todos, esses que, quando recuperados da fragilidade causada pela fome, eram colocados para trabalhar na fábrica[3]. As primeiras linhas fabricadas eram notoriamente mal elaboradas, visto que a indústria estava ainda em fase de teste, com operários que nunca antes tiveram contato com o maquinário. As primeiras remessas causaram má impressão no mercado, que demorou a ser conquistado.

            As providências tomadas por Delmiro eram brutais e amedrontavam os funcionários, que estavam acostumados ao trabalho intenso no campo, porém livre das imposições da indústria. Numa sociedade cindida entre proprietários e não proprietários, os primeiros encaixaram-se facilmente em seu papel privilegiado. Os segundos, reduzidos à necessidade de trabalhar para aqueles, tiveram que ser encaixados à força — a força das coisas, a força da lei ou a simples força bruta — no seu papel (adaptado de ENGUITA, 1989, p. 34), situação corriqueira do sistema capitalista, a qual não pode ser deixada de lado ou ser eufemizada, ainda que tenhamos consciência do lugar social de Delmiro e saibamos que ele é fruto de seu tempo e das “normalidades” nele imbricadas. A relação de Delmiro com seus funcionário é muito bem descrita por Menezes (1966, p. 79), em que ele narra:

A fábrica movimentava-se sob regime de severa fiscalização para a seleção do pessoal mais capaz e trabalhador. Às cinco e meia da manhã, Delmiro sentava-se à porta, aguardando a entrada do operariado. Feição severa, olhar perscrutador, recebia o “bom dia” de todos quantos chegavam e reclamava, às vezes até com dureza, daqueles que não o davam. Os retardatários não eram admitidos. Não falava com nenhum, a não ser para dar ordem; para nenhum tinha um sorriso ou uma palavra de estímulo. E não admitia, sequer, que um operário entrasse na fábrica trajando roupa suja.

O regime de trabalho que instituiu era cumprido sem exceção. Conhecedor da índole do sertanejo, criado em regime de liberdade para a sua manutenção em regime de frugalidade impressionante, ele pretendia formar para seus serviços operários imbuídos de plena responsabilidade em face das tarefas de que fossem incumbidos e capazes de executá-las com a perfeição possível.

                 A produção da fábrica melhorou e os negócios voltaram a dar os lucros de outrora. Delmiro conseguiu, ainda, transformar a Pedra num local de turismo (o maior centro turístico do sertão), em que o visitante conhecia a fábrica, a hidrelétrica, um cassino que veio a ser erguido e fazia passeios no rio São Francisco. Foram estabelecidas regras de convivência na vila, devido ao fluxo de turistas e ao crescimento demográfico constante; foram proibidos, por exemplo, a venda de bebidas alcoólicas e o uso do fumo publicamente, além da obrigatoriedade de processos de higiene pessoal. A vila cresceu e passou a admitir moradores que não unicamente trabalhadores da fábrica, chegando a atingir um total de mil moradores nos finais de 1915. Delmiro sabia que, para melhorar ainda mais a convivência e a produção, o divertimento e a cultura se faziam necessários, assim, ele comprou um projetor que exibia filmes mudos gratuitamente nos finais de semanas — o qual colocava a população em contato com novos mundos, hábitos e povos cuja existência lhes era alheia — e mandou que construíssem um salão de festas, onde eram organizadas celebrações, bancadas por ele, em datas comemorativas, especialmente Natal e Ano Novo.

            O complexo da fábrica da Pedra significou não só a transformação sociocultural e econômica da região, como também intelectual para um sertão onde mal haviam escolas e profissionais formados. Na vila, foram contratados professores, construídas escolas e tornou-se obrigatório o ingresso das crianças nessas. A Pedra ficara conhecida pelas reuniões de pessoas mais esclarecidas, que se juntavam nos momentos de folga para discutir os mais diversos assuntos, entre os quais engenheiros, bacharéis, técnicos, contadores e outros funcionários de maior estamento entravam em calorosos debates, que contavam, vez ou outra, com a participação ativa dos operários.

A educação no Povoado da Pedra

“Delmiro costumava falar que brasileiro sem sova não ia, e por sinal que sovou e mandou sovar gente sem conta, bem feito. Era um gênio da disciplina. Pedra chegou a uma perfeição de mecanismo urbano como nunca houve igual em nossa terra. Si um menino falhava a aula, Delmiro mandava chamar os pais que roubavam um dia de estudo aos filhos, por causa de algum servicinho. Às vezes, com os meninos mandriões, reunia cinco, seis, e mandava um negrão chegar africanamente a palmatória na bunda dos tais.”

Mário de Andrade apud Gonçalves (2010, p. 262)

            Relatos como esse de Andrade aparecem com frequência quando se fala sobre os métodos de educação empregados na Pedra, que uniam a violência à educação escolar básica, numa fórmula de treinamento para o mundo fabril que não fugia aos moldes da época e que pode ser visto, em partes, até a atualidade. Era necessário erradicar os irregulares hábitos de trabalho das populações sertanejas e substituí-los por outros mais adequados às necessidades da indústria em rápido crescimento. Aqui, como em nenhuma outra parte, a escola iria exercer o papel de socializar as gerações jovens para o trabalho industrial (adaptado de ENGUITA, 1989, p. 122).

            Contudo, não se pode deixar de lado a importância da introdução dessas escolas num local que nunca, em sua existência como povoado, teve acesso à educação básica, o que marcou uma revolução naquele meio composto por analfabetos, que agora teriam a oportunidade — não só as crianças, mas também os adultos — de aprender a ler, escrever e fazer cálculos matemáticos numa estrutura gratuita, com material didático completo oferecido sem cobranças de taxas, por Delmiro Gouveia. Em seu auge, a escola da Pedra contava com oito turmas e dois horários possíveis de estudo, das nove da manhã às três da tarde e das sete da noite às nove da noite.

            Podemos facilmente relacionar a não existência de prisões ou a falta de crimes graves, com o rígido código de regimento e a presença de escolas na vila. Acontece que, consoante alguns autores, Delmiro acreditava fielmente na ideia de que o sertanejo precisava apenas da oportunidade para que fosse arrancado da ignorância e fosse transformado em um indivíduo tão produtivo quanto qualquer outro, mesmo que isso significasse o uso de métodos rudes, que ultrapassassem o limite do que hoje entendemos como educação escolar pela pedagogia vigente. No entanto, para autores como Correia (1998), esses modos utilizados por Delmiro iam além da herança cultural autoritária que carregava,

as restrições de liberdade e as violências extremas a que eram submetidos os trabalhadores em Pedra […], longe de ser uma contingência do meio sertanejo, como querem alguns autores, ou de meros resquícios de um passado escravagista, eram amplamente solidários com a ordem burguesa e com o ideário liberal (CORREIA, 1998, p. 261)

Concordando com Correia (1998), mas não deixando de notar a preocupação com o bom andamento da educação — Delmiro chegava a fiscalizar pessoalmente a frequência dos alunos, seu desempenho e a qualidade dos materiais didáticos — na Pedra, ao qual Delmiro prezava ao máximo; é preciso deixar claro que as motivações de tal empresa não necessariamente deviam estar presas a um único ideal, visto que chegou-se até a oferecer cursos de trabalhos manuais (que não os relacionados ao ambiente fabril) às moças da vila, além de disciplinas extracurriculares para alunos interessados em estudos mais avançados que o ensino básico. Não se pode negar que ele acreditava no poder de transformação da educação e na influência que a escola tinha no melhoramento das condições humanas. A ampliação do acesso à instrução escolar no núcleo da Pedra fazia parte da estratégia dos proprietários em dar ênfase à educação como forma de reformar o povo pobre do sertão, enquanto essa ação de escolarizar assumia uma “função profilática” do ponto de vista social (NASCIMENTO, 2014, p. 178). Em determinado momento, a contratação do operário só ocorria se seus filhos estivesse devidamente matriculados na escola, as crianças deviam ainda ter roupas em bom estado, se não as tivessem, a Companhia as fornecia gratuitamente.

Considerações Finais

No período de seu assassinato[4], em 1917, a Pedra contava com aproximadamente 5000 moradores, com todas as crianças estudando gratuitamente num povoado onde analfabetos eram peças raras de se encontrar. Não há, portanto, como negar o papel fundamental de Delmiro Gouveia em Alagoas, figura cujo legado sobrevive até hoje no município que recebe seu nome e que compõe uma das maiores e mais produtivas cidades do estado, não só financeiramente, mas intelectualmente; possuindo campus universitário federal com pesquisas premiadas e profissionais que certamente fazem jus à herança educacional do visionário industrial apelidado de “Rei do Sertão”.

As empresas de Delmiro Gouveia no sertão alagoano tiveram uma importância que não é exagero o elogio de sua grandeza e relevância no estado de Alagoas, que teve, graças a ele, o contato precoce com uma modernidade que lhe era negada desde sua emancipação. Ele deu aos nordestinos os recursos indispensáveis para o desenvolvimento num meio paupérrimo que não tinha perspectiva alguma de prosperidade. É, sem sombra de dúvidas, uma figura que a ser compreendida e inserida na escrita da história brasileira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORREIA, Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no sertão. Papirus, Campinas: 1998.

 ENGUITA, Mariano Fernández. A Face Oculta da Escola. Editora Artes Médica Sul, Porto Alegre: 1989.

GONÇALVES, Alberto. Delmiro Gouveia: era uma vez no sertão… Editora Fábrica de Sonhos, Ribeirão Preto: 2010.

MARTINS, F. Magalhães. Delmiro Gouveia: pioneiro e nacionalista. 2. ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro: 1979.

MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Apresentação de Paulo Cavalcanti. Governo do Estado de Pernambuco. Recife: 1966.

MOTA, Mauro. Quem foi Delmiro Gouveia? Arquimedes, São Paulo: 1967.

NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. Delmiro Gouveia e a educação na Pedra. 2. ed. Viva Editora. Maceió: 2014.

RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. 4. ed. São Paulo: Martins 1972.


[1] Para maior aprofundamento nas questões relativas à dominação oligárquica no Brasil República, me utilizei da obra “O Brasil Republicano: O tempo do liberalismo oligárquico – Da Proclamação da República à Revolução de 1930 (Vol. 1)” organizada por Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado. Deixo aqui como indicação de uma leitura esclarecedora para a melhor apreensão do presente trabalho.

[2] Para o andamento de tais estudos, Delmiro recebeu em sua morada na Pedra um grupo de estadunidenses dentre os quais se sobressaíam Mr. Moore, homem de negócios, e Stewart, engenheiro e cientista renomado, cujo objetivo em solo brasileiro era a visita à cachoeira de Paulo Afonso a fim de constatar se havia possibilidade da realização do empreendimento energético.  Em algumas bibliografias, cheguei a encontrar relatos de personalidades próximas a Delmiro que afirmavam que, dentre os planejamentos sigilosos, foi alimentada a ideia de uma empresa com capital estadunidense e brasileiro, para o aproveitamento da água e do vale do São Francisco não só na produção de energia elétrica, mas para a execução de um plano agroindustrial.

[3] Busquei ao máximo encontrar alguma fonte ou bibliografia que falasse mais sobre esse trabalho dos retirantes na fábrica, para saber se era do tipo assalariado ou uma exploração de mão-de-obra aos moldes dos senhores da região (análogo ao escravo, em que o trabalhador vivia em dívida com o patrão, que cobrava do salário o aluguel, a alimentação e outras taxas absurdas), mas não consegui encontrar nada que especificasse esse ponto. Decidi, então, apresentar aqui a minha dúvida para que em ocasiões vindouras ela venha a ser solucionada por mim ou por outrem. 

[4] Delmiro foi morto a tiros, em 1917. Não se sabe quem mandou matá-lo, por ter uma longa lista de inimigos, mas acredita-se que a morte se deu por questões políticas e de terras que se envolvera, criando inimizades com coronéis de grande poder na região.